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(antígua)
rosas
innersmile
ANTÍGUA

Pouco depois de chegar à cidade, houve um terramoto. De fraca intensidade, é certo, mas o primeiro que viveu. Estava num restaurante a almoçar, e de repente sentiu um leve tremor, como se um camião pesado tivesse passado na rua, e reparou que os candeeiros do teto ficaram a balouçar. Olhou em volta: na maior parte das mesas, os grupos animados continuavam a conversar aparentemente sem terem dado por nada. Uma ou outra pessoa olhava fixamente os candeeiros. O seu olhar cruzou-se com o de uma mulher, numa mesa próxima da sua. O olhar era aflito, os lábios moviam-se rápidos e silenciosos deixando adivinhar uma prece. Ele levantou as sobrancelhas, numa expressão de interrogação, e a mulher, sem parar de mover os lábios, aquiesceu com um aceno da cabeça.

Mais tarde, tornou a ver essa mulher. Foi nas ruínas da antiga catedral, e ela integrava um grupo de peregrinos. A catedral restaurada, mesmo ao lado, estava cheia de gente, os tapetes de flores e os altares decorados para a semana santa, e a mulher entrou por uma das portas laterais da igreja, cobrindo a cabeça com um lenço escuro. Ele atravessou o interior da nave e saiu pela escadaria que desce para a praça central. Cruzou o parque em direção ao edifício do ayuntamiento, mas deixou-se ficar, sentado num banco à sombra de uma das frondosas árvores da praça, a ouvir a algazarra colorida e musical dos grupos de jovens gozando as férias da Páscoa.

Nessa noite comeu peixe do lago e bebeu copas nos bares junto ao arco de Santa Catarina e dormiu numa pensão um pouco decrépita, instalada numa antiga casa senhorial. Na manhã seguinte, bem cedo, dirigiu-se à igreja de la Merced, para assistir à primeira procissão do dia e tomar o pequeno-almoço na feira junto à igreja. O recinto do parque estava cheio, uma multidão de peregrinos e de turistas formava uma massa quase intransponível. Quando finalmente conseguiu entrar no interior da igreja, sentiu-se atordoado com a atmosfera pesada, com o fumo denso das velas, com o muro compacto do som das vozes, em cantos e orações. Estava parado junto a um dos andores, do Senhor dos Passos, quando sentiu uma mão apertar a sua. Voltou a cabeça, e viu a mulher da véspera, de lenço negro na cabeça, olhando-o com uma expressão dorida mas tranquila e apaziguadora. A mulher aproximou os lábios do seu ouvido e disse-lhe, num castelhano claríssimo mas com um sotaque cerrado que ele não soube identificar: “Não temas, meu filho. Tanto que sonhei reencontrar-te e ontem reconheci-te de imediato. Salvaste-me, meu filho, e embora não possa fazer o mesmo por ti, rezo muito, muito muito. O meu amor estará sempre contigo, meu filho”.

Ao fim da manhã dirigiu-se à estação rodoviária, para apanhar o autocarro de regresso à capital. Nessa mesma tarde voaria para Flores, no coração da selva, uma viagem que lhe tinha custado a derradeira reserva de quetzales. Sentou-se num banco da estação, à espera da hora da partida, e escreveu um postal para casa, que deixou, endereçado e franquiado, ao cuidado de um rapaz que prometeu pô-lo no correio de seguida. Era importante que o postal chegasse ao destinatário, pois tinha o pressentimento de que poderiam ser as suas últimas notícias para casa. Pelo menos durante muito tempo.



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O blog good friends are hard to find lançou aqui há uns meses uma espécie de cadavre-exquis, pondo a circular, por via postal, um caderno intitulado The Book of Distance, com duas regras essenciais: cada participante deveria acrescentar uma história cujo título comece com uma das letras, por sequência, da palavra D-I-S-T-Â-N-C-I-A; e teria de escolher o participante seguinte e fazer-lhe chegar o caderno.

Eu recebi o caderno do João Máximo, do blog Index Books, e passo-o ao João Carlos, o Pinguim, do blog whynotnow.

Todas as entradas referentes a este passatempo, bem como os links para todas as histórias, estão assinaladas no blog com um marcador próprio (link)

A mim calhou-me o primeiro A da ‘distância’, e a história é esta que está aqui em cima.
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Pesada responsabilidade a de dar continuidade a textos tão bons como aqueles que já fazem parte do Book of Distance, mormente este, que eu já sabia, de antemão, seria excelente.
Foi difícil dizer-te que não, perante o "choradinho" que me fizeste; já tinha dito que não quando o K, me honrou com o seu convite, o qual recusei, como então lhe disse porque estava e continuei a estar em plena pausa do blog.
Agora, seja como Deus queira (no meu estilo) e assegurei desde já continuidade, que revelarei em momento oportuno.
Obrigado Miguel por este excelente texto, que me levou àqueles livros que tu bem conheces, de viagens compartilhadas com o leitor, e também, claro, à confiança que em mim depositaste.
O Sad continua de parabéns, é óbvio.

ainda bem que aceitaste, João, até porque me custa estar neste tipo de iniciativas sem ti, contigo sinto-me sempre mais acompanhado.
e a continuidade está assegurada e recomenda-se :)

sim, o João está coberto de razão.
excelente história. terminaste-a da melhor forma.
e aceitaste muito bem o 'N', João, como teremos oportunidade de ler.
bjs.

fico contente por teres gostado, Margarida, bem-hajas.
e posso garantir que o Book of Distance está muito bem entregue eheh

Muuuuito bem escrito!
Quero mais...

Adorei a forma como tocaste 'essa' distância e como desenvolveste a narrativa. A leitura é tão rica e entusiasmante que parece que estás no cinema. Mais uma grande contribuição para o 'Book' que agora segue para o João :)

muito obrigado pelo teu comentário, Arrakis. nem sempre fico satisfeito com o resultado do que escrevo, mas neste caso gostei, acho que está bem conseguido.

posso garantir que a história do João é muito boa ;)

Este anónimo era eu, o Arrakis =)

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