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[icon] um voo cego a nada - benazir
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Subject:benazir
Time:07:32 pm
A morte de Benazir Bhutto é particularmente chocante e cruel por ser tão óbvia e esperada. Sou um ignorante em matéria de política internacional, mas sempre entendi o regresso de Benazir ao Paquistão em Outubro passado como a radical e desesperada e derradeira tentativa de virar a situação no país e fazer regressar a democracia. Uma espécie de ‘mato ou morro’, para o qual não havia terceira via, e que a obrigava a colocar-se a si própria no centro do tumulto, no olho do furacão. Suponho que nunca terá subestimado os seus inimigos, e que a morte era um risco mais do que plausível.
Benazir Bhutto foi uma das grandes figuras do meu tempo. Foi, na dobra do século, uma das mulheres que escreveu, num dos mais improváveis lugares para o efeito, a possibilidade de fazer política no feminino.
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[info]opiario
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Time:2007-12-27 08:28 pm (UTC)
A morte dela foi, sim, chocante - mas lembro que, nestes casos, nunca nada é totalmente "preto" ou totalmente "branco": são variegados os tons de "cinza". Veja o caso de Benazir: ela própria acusada de corrupção, durante o seu governo. Não era uma santa - o que não justifica a sua morte.

Odeio morar no Brasil, mas, às vezes, páro e penso: podia ser pior. Eu poderia, por exemplo, estar morando no Paquistão. Ou em Angola. Ou no Haiti (mas aí teria a vantagem do francês). Ou Timor Leste. Ou... bem, a lista é quase infinita!

(Contraditoriamente, ADORARIA morar no Irã! Engraçado, não? Mas tenho a maior simpatia pelo Irã, com ou sem os aiatolás... Vai entender... Freud explica. E nem acho que o Presidente do Irã seja esse louco que todo mundo fala. Certamente ele é mais são que o Bush! Já sei que vão citar, por exemplo, a sua homofobia - mas o Bush também é homofóbico, só pra ficar na comparação)
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[info]innersmile
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Time:2007-12-27 11:32 pm (UTC)
a diferença, meu caro, é que Ahmadinejad é louco vivendo num país que não tem meios de controlar as suas aspirações ditatoriais, enquanto o Bush, felizmente para todos nós, vive num país onde, apesar de tudo, as instituições limitam a sua inabilidade e os danos do seu conservadorismo básico e fundamentalista. além de que, e em termos mais gerais, nunca um mal se justifica com outro mal.

o que nem freud conseguirá explicar é o teu fascínio pela irracionalidade do extremismo de raíz islâmica, como se houvesse nesse fogo algum poder purificador da decadência ocidental. mas o fogo não cura, só destrói.

quanto a Benazir, ela era filha de uma oligarquia política, e todas as oligarquias (nos Eua, no Paquistão, no Brasil ou em Portugal) recorrem à corrupção como forma de perpetuarem o poder. não deve ter sido suficiente pois, em grande parte, as convulsões do Paquistão são fruto da fraqueza das suas oligarquias políticas.
mas há uma indiscutível face romântica na personagem de Benazir; e eu, apesar de saber onde normalmente terminam os romantismos políticos, não consigo ser imune ao romantismo que sempre representam as mulheres no poder (até Thatcher, apesar de ser um dos meus ódios de estimação).

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[info]lili_one
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Time:2007-12-27 09:34 pm (UTC)
Sim, concordo contigo, creio que, a sua vida política, foi uma espécie de "Crónica de uma morte anunciada".
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[info]innersmile
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Time:2007-12-27 11:34 pm (UTC)
é, e isso é estranhíssimo, não achas?
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[info]lili_one
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Time:2007-12-28 10:56 am (UTC)
Não estou nada informada sobre este assunto, faço os possíveis para me alhear da política nacional ou internacional. Desde sempre achei tudo estranhíssimo. Nunca percebi como num país muçulmano uma mulher conseguiu ser primeira-ministra. Sei que ela sempre negou as acusações de currupção e que eu até acreditava, lol.
O meu marido foi destacado para ir em missão ao Paquistão, mas parece-me que vai passar a batata quente a algum engenheiro sob as suas ordens, lol.
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[info]skyborg
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Time:2007-12-28 11:15 am (UTC)
não vou aqui maçar ninguém. tu sabes, Lili, como consigo ser uma seca (chegaste a ler o meu post apagado sobre a greve dos franceses, pobrezita lol), mas não me parece que a morte de Benazir fosse uma crónica completamente anunciada. em G.G. Marquez o desconhecimento do protagonista da sua prevista morte era ponto assente. Benazir conhecia todos os riscos e no corpo de guarda-costas existiam mulheres.
a “simbiose”, o esmagamento (é impossível encontrar palavra certa) entre religião e atitude política no Paquistão é, creio, incompreensível e irreconhecível para o ocidente e permanecerá assim.
os moderados, “tendenciosamente ocidentais”, que Benazir pretendia representar (e não devemos esquecer que o partido de Benazir era um feudo familiar, de modo nenhum isento de nódoas bem firmes) reconheciam a fragmentação existente no país. os radicais, em grupos vários, sempre se fizeram sentir, através de inúmeras tomadas de posição que incluíram atentados anteriores. Benazir tinha afirmado que não acreditava que a tentassem atingir violentamente, porque todos sabiam que "quem atentasse contra a vida duma mulher arderia no inferno para sempre". podia ser uma afirmação com carácter defensivo, mas não era metáfora.
a atribuição do assassinato de Benazir à al-qaeda é, claro, esperada, mas não me parece certa. os contornos do atentado não são condizentes com o modo de matar da organização. é demasiado fácil esta imediata ligação porque sabemos que, logo ali, está o Afeganistão onde se recolhem, isso é certo, elementos da al-qaeda.
não esqueçamos que o Paquistão é, dizem, para todos os efeitos, uma democracia segura pelos militares e que estes (salvo uma excepção dramática e mesmo com um marcado sabor a genocídio) não estão preparados para tomar posição de força contra a população civil. haverá clivagens e fragmentações nas chefias das forças armadas se tal tiver de acontecer. é muito mais acertado dizer que é a crónica de uma violência anunciada.
a grande merda é que a estabilidade do Paquistão, com poder nuclear, é essencial à região.
não vou largar mais postas. já disse trampa que chegasse. isto fica confuso assim aqui espetado, mas tb não tem muita importância.
gostava de Benazir.
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[info]lili_one
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Time:2007-12-28 11:25 am (UTC)
A minha intuição sempre me indicou que ela ia acabar mal.
Mas ela conseguiu ser ainda mais ingénua do que eu, (que acreditava que ela falava verdade quando negava ser corrupta), em crer que nunca atentariam contra a sua vida porque: "quem atentasse contra a vida duma mulher arderia no inferno para sempre". É que nos atentados do 11 de Setembro e 11 de Março morreram imensas mulheres.

Não me sinto nada pobrezita, nem maçada, de te ler seja em que estilo for, antes pelo contrário:)
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[info]lili_one
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Time:2007-12-28 11:28 am (UTC)
Não achas que afinal, estas mortes são sempre anunciadas? Mesmo o personagem do Gabo pressentia qualquer coisa, conscientemente ou não.
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[info]labrax
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Time:2007-12-28 12:19 am (UTC)
Estou agora a saber. Lamento a morte dela. Também a recordo como essa excepção feminina num mundo que era (e ainda o será) tradicionalmente masculino, a ela e à Indira Ghandi.
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[info]sorte_nula
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Time:2007-12-28 12:24 am (UTC)
Ia tentar fazer um post sobre o atentado de hoje mas a minha consciencia fez-me admitir que nunca conseguiria faze-lo tão bem como tu. Obrigada*
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[info]mini_filipinos
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Time:2007-12-28 09:31 am (UTC)

Eu já nem comento estas coisas... revoltam-me muito mas já nem sequer encontro palavras.
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(Anonymous)
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Time:2007-12-29 10:07 am (UTC)
Ela pode ter sido tudo, uma grande mulher, uma excelente política, uma corrupta, uma mártir, eu sei lá que mais...
Mas acho que se quis ela própria "suicidar", para se juntar ao pai (executado) e aos dois irmãos (assassinados, como ela).
Agora estará em paz, finalmente.
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