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120 battements par minute
rosas
innersmile
Pode não ser muito correcto o que vou dizer, mas sinto alguma falta de um certo cinema que foi feito em finais da década de 80 e na década de 90 a propósito da crise da SIDA. E digo que não é correcto porque hoje em dia, felizmente, a SIDA tem outros contornos, tornou-se uma doença crónica e não mortal, e ainda bem por isso. Mas havia uma consciência social e política nesses filmes, ou se calhar faz mais sentido em falar de uma certa consistência, que resultava, por um lado, do choque que a devastação catastrófica provocou entre os homossexuais, e, por outro, de uma intensa revolta face à desatenção e depois ao atraso dos governos em encararem a crise da SIDA como um problema de saúde pública, e de raiva pelo facto de a indústria farmacêutica submeter a lógicas puras de mercado a investigação sobre as terapêuticas que pudessem suster a tempo as mortes em série. Revolta essa resultante da certeza aguda de que quer a distracção dos governos quer a negligência da indústria remetiam para o profundo desprezo discriminatório com que era olhada a homossexualidade e os homossexuais.

E creio que a falta dessa intensidade radical que esses filmes transportavam, faz-se sentir quer no aspecto do cinema enquanto intervenção cultural, quer em termos de visibilidade homossexual. Por um lado, ela resultava em filmes criativos, que procuravam novas maneiras de expressar um horror e uma revolta que eram também elas novas. Além disso, esse cinema era portador de um sentido de urgência, de quem não tempo a perder com distracções, e por isso tem de ser eficaz a assegurar que a mensagem passe e seja efectivamente entregue. Por outro lado, a presença de homossexuais no ecrã não se diluía em variações de género, repetindo melodramas e comédias românticas, a que a questão da orientação sexual pouco mais faz do que acrescentar umas gotas de cointreau para dar um toque de sabor ao cocktail. A SIDA, e os filmes que sobre ela reflectiam, trouxeram os homossexuais e os seus problemas específicos para o primeiro plano das narrativas cinematográficas (basta pensar em Philadelphia, de Jonathan Demme, que em 1993 trouxe a SIDA e a homossexualidade para a passadeira vermelha dos Oscars e outros prémios de grande visibilidade).

Lembrei-me destas questões a propósito de 120 Battements Par Minute, o filme de Robin Campillo que recupera para o cinema a história do movimento activista Act Up em França, emprestando à história um sentido de urgência e uma energia que não é muito frequente ver, hoje em dia, no cinema. Ao contrário da maior parte das organizações congéneres, o Act Up não tinha por missão prestar apoio aos doentes com SIDA, mas antes, de forma agressiva mas não violenta, fazer pressão sobre os governos e a indústria farmacêutica para se avançar na eficácia das políticas legislativas e sociais para combater a pandemia e na investigação de terapêuticas capazes de suster a mortandade galopante.

O filme de Campillo, ele próprio um antigo militante do Act Up francês, leva-nos, de forma intensa mas com o humor necessário para dar algum recuo, às assembleias do grupo e ao palco das acções de agitação política, e através de um grupo de protagonistas, conta-nos como os planos colectivo e individual se relacionavam, ora se sobrepondo ora se afastando. Ao concentrar a atenção da narrativa neste relacionamento, o filme, ao mesmo tempo que galvaniza a atenção do espectador, dá ainda mais sentido à urgência e à radicalidade do discurso político.
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