Previous Entry Share Next Entry
uma casa portuguesa
rosas
innersmile
Acho que conheço desde que me lembro a Casa Portuguesa, o grande êxito popularizado (nacional e internacionalmente) pela Amália Rodrigues. No entanto, para a minha família, antes de ser um êxito da Amália, foi uma canção escrita, nos anos 40, em Lourenço Marques, por pessoas que eram conhecidas dos meus pais, sobretudo da minha mãe e das minhas tias, por serem todos companheiros nas teatradas e revistas que então se levavam à cena na cidade: o poeta Reinaldo Ferreira (que é um dos meus poetas favoritos e o autor do verso que dá nome a este meu diário: “um voo cego a nada”), o compositor Artur Fonseca e ainda Vasco Matos Sequeira.

É uma canção que, com o tempo, ganhou alguma polémica. Ainda não há muito tempo andou aí pelas redes sociais e por alguns jornais, a notícia de que uma certa cantora de fados se recusara a cantá-la, tal como há histórias da própria Amália, em concerto, recusar cantá-la quando era pedida pelo público. A polémica tem a ver com a letra que, apontam alguns, faz o elogio do lema salazarista de “pobrezinhos, mas honrados”. Compreendo a interpretação mas, conhecendo bem a poesia de Reinaldo Ferreira, custa-me perceber que se trate de um panegírico com teor político, um elogio ao Estado Novo de Salazar.

Também não concordo muito com que diz que a canção tem um tom irónico, eu pelo menos não o leio. Com toda a franqueza, acho que a letra remete sobretudo para um certo Portugal que era o retrato da época, para aquilo que, para o melhor e para o pior, era o Portugal que havia, para aquilo que eram as suas imagens de marca. Seja como for, trata-se de um grande poema, mesmo na sua imensa simplicidade, capaz de agarrar de imediato o ouvinte / leitor e trazê-lo para dentro do cenário e da narrativa que contém (tinha de ser um grande poeta a escrever o verso: "a cortina da janela é o luar / mais o sol que bate nela...")

Um destes dias lembrei-me desta canção porque a minha amiga A. invocou um outro fado-canção da Amália, Cantiga da Boa Gente, que, de certa maneira, faz apelo a um universo e a valores idênticos, escrita por Jorge Brum do Canto, para um filme que realizou, em inícios dos anos 60, e onde Amália contracenava. Fui ouvi-la ao YouTube, e a seguir pus-me a ouvir Uma Casa Portuguesa, saltando de versão em versão.

Apercebi-me então de uma coisa que sempre esteve latente no meu espírito e da qual nunca tinha, até então, tomado verdadeira consciência: a de que quando me lembro de Uma Casa Portuguesa, associo-a ao meu pai. Fiquei a reflectir nisto para tentar perceber a razão porque acontece, o que é que há nesta canção, ou que memória ela induz, para eu sempre me recordar do meu pai, a propósito. Cheguei a uma conclusão, que não sei se será inteiramente precisa, porque isto do funcionamento do nosso cérebro tem mecanismos demasiado subtis e que escapam à nossa razão. Mas fiquei convencido que é o São José de azulejo, o gatilho para esta associação: quando eu era miúdo, aprendi, e interiorizei, que o dia do pai era o dia de São José. Ora, se há um São José de azulejo, é porque o pai, o meu pai, está presente, é ele o protagonista desta narrativa, a casa portuguesa é a dele. Não sei se isto será mesmo assim, mas pelo menos a explicação satisfez-me.

Como comecei por dizer, antes da Casa Portuguesa ser da Amália, era nossa, moçambicana. Por isso a minha versão definitiva desta canção é a que o João Maria Tudella fez num disco em que canta temas compostos por Artur Fonseca, um LP intitulado precisamente Uma Casa Portuguesa, acompanhado pelo quinteto do pianista sul-africano Dan Hill, e editado pela Gallotone, um dos maiores selos discográficos da África do Sul. Infelizmente, fui estúpido ao ponto de me ter desfeito deste disco quando vendi, por tuta e meia, a colecção de discos dos meus pais, quando desfiz a casa a casa onde moravam. Estou tão arrependido disto que quase nem consigo conter a fúria que ainda sinto comigo mesmo por o ter feito.



"Numa casa portuguesa fica bem
pão e vinho sobre a mesa.
Quando à porta humildemente bate alguém,
senta-se à mesa co'a gente.
Fica bem esta franqueza, fica bem,
que o povo nunca a desmente.
A alegria da pobreza
está nesta grande riqueza
de dar, e ficar contente.

Quatro paredes caiadas,
um cheirinho á alecrim,
um cacho de uvas doiradas,
duas rosas num jardim,
um São José de azulejo
mais um sol de primavera,
uma promessa de beijos
dois braços à minha espera...
É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!

No conforto pobrezinho do meu lar,
há fartura de carinho.
A cortina da janela é o luar,
mais o sol que bate nela...
Basta pouco, poucochinho p'ra alegrar
uma existéncia singela...
É só amor, pão e vinho
e um caldo verde, verdinho
a fumegar na tigela.

Quatro paredes caiadas,
um cheirinho á alecrim,
um cacho de uvas doiradas,
duas rosas num jardim,
um São José de azulejo
mais um sol de primavera,
uma promessa de beijos
dois braços à minha espera...
É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!"

  • 1
eu gosto muito desta canção, uma daquelas que eu aprendi nas poucas aulas de piano na Casa do Povo de Viseu.

a única música que eu associo à minha mãe, que me lembro sempre, sempre, é a do Carlos Mendes, 'siripipi de benguela'. são uns versos muitos simples, mas a minha mãe estava sempre a cantarolá-la quando eu era criança. e pronto, fui, mais uma vez, ouvi-la no youtube :)

https://www.youtube.com/watch?v=oyjrdZcBUL0

É das canções mais bonitas dele, sem dúvida. Vou ouvir :)

  • 1
?

Log in

No account? Create an account