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peregrinação
rosas
innersmile
Gostei bastante do filme Peregrinação, da autoria de João Botelho. Desde logo por causa da música. O filme adapta uma série de canções de Fausto Bordalo Dias, do álbum Por Este Rio Acima que era justamente dedicado ao livro de Fernão Mendes Pinto. A adaptação das canções está lindíssima, mas mais notável é o uso que Botelho faz delas no filme. Uma vezes funcionam como uma espécie de coro que vai comentando a narrativa, mas noutras constituem elas próprias o motor da narrativa, levando, por exemplo, as personagens de um sítio para outro, ou ainda encenando guerras e batalhas. Nem por um momento sentimos estranheza quando vemos os personagens desatarem a cantar, pelo contrário, parece fazer logo muito sentido.

Um outro aspecto de que gostei imenso no filme é o tratamento dado à própria obra e a Fernão Mendes Pinto. Claro, há muitas maneiras de contar a história da Peregrinação, e João Botelho pega na própria ideia de fabulação, de uma história, já passada, real ou fantasiada, que se vai contando. Por isso estamos sempre a ver a personagem de FMP a contar a sua própria história (às filhas, ou na taberna). Mas ao mesmo tempo a Peregrinação é um projecto, é um livro que se quer escrever e divulgar. Ou seja, é uma história que se conta, mas é também uma história que quer permanecer para ela própria se contar no futuro. João Botelho consagra assim a literatura enquanto oralidade, mas também como registo, como memória para o futuro.

Este aspecto de que na Peregrinação interessa mais a narrativa, do que a sua veracidade, resulta ainda do próprio filme assumir essa ambiguidade entre a verdade histórica e a fantasia. Nunca sabemos se aquilo que Fernão Mendes vai contanto aconteceu mesmo assim ou se é fruto da imaginação do autor, se é pura ficção. O próprio Fernão Mendes, umas vezes é herói, soldado e marinheiro, outras não passa de um fanfarrão a contar histórias na taberna. A solução que o filme achou de pôr o mesmo actor a representar Fernão Mendes e António de Faria, o bom e o mau da fita, acentua este aspecto.

Também gostei muito do facto de o filme ser um pequeno achado tecnológico, não no sentido da espectacularidade dos efeitos especiais, mas de que os recursos tecnológicos podem estar ao serviço do filme. O cinema é ilusão, é falsidade, e o filme prova que é possível contornar a escassez de recursos, criando um objecto que é simultaneamente envolvente do ponto de vista narrativo, e excitante enquanto aventura visual.
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