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a pior banda do mundo
rosas
innersmile


Vi uma referência à Pior Banda do Mundo na timeline da minha página do Goodreads e, como não conhecia e gostei do título e do desenho da capa, fui pesquisar, e fiquei admirado pois a maior parte dos comentários aos livros no GR, todos eles altamente elogiosos, eram de leitores estrangeiros. Mais umas pesquisas e fiquei convencido de que que queria ler essa novela gráfica da autoria do português José Carlos Fernandes (que, actualmente, pode ser lido, enquanto repórter, no jornal online Observador). Mais uma espreitadela ao site da Fnac para ver se o livro estava disponível na loja de Coimbra e, hélàs, no próprio dia em que os descobri, esta a ler os livrinhos.

E foi um coup-de-foudre. Esta obra é magnífica. Tudo é muito bom, a arte, os textos, mas sobretudo o próprio universo que a BD cria, um mundo no qual mergulhamos e que é de uma coerência admirável. Admito que a princípio se possa estranhar um pouco, é de facto um mundo diferente, parecido com o nosso mas ligeiramente distorcido. Mas aos pouco, e à medida que vamos entrando e tornando-nos familiares com esse universo, a coisa torna-se quase hipnótica, lemos cada nova pequena história, por vezes mesmo cada tira ou cada desenho, com um misto de surpresa e reconhecimento, como se já nada nos surpreendesse mas de facto tudo nos surpreende.

A grande protagonista de A Pior Banda do Mundo é a própria cidade onde se desencadeiam os acontecimentos, e que permanece sempre inominável. Mas se a cidade não tem nome, tudo o resto tem, e os nomes são a primeira coisa fundamental nesta BD. Os nomes das ruas, das lojas, das fábricas, das instituições, dos museus, dos ministérios. E dos seus habitantes, sempre nomes estranhos mas vagamente familiares, que protagonizam aventuras que quase sempre não acontecem, que têm eles próprios universos interiores que perseguem de forma obsessiva e insana mas tão tranquila que chega a ser um bocadinho perturbante.

Cada livro, e são seis, reunidos em dois volumes de capas duras, é composto por mais de duas dezenas de pequenas histórias divididas em duas páginas, com títulos que são verdadeiros programas. O tom é culto, nalguns pontos mesmo erudito, mas ao mesmo tempo de uma simplicidade quotidiana. O tom é de absurdo, por vezes delirante, quase sempre rasgado de melancolia, e que funciona como um comentário, umas vezes mais sarcástico outras mais irónico, aos nossos tiques civilizacionais, às nossas manias sociais e ao nossos hábitos culturais, à nossa maneira de viver e ao modo como vivemos, todos nós de facto, vidas em que o absurdo está presente de maneira tão dominante quanto subtil.

Cada livro tem uma banda sonora (que são os samples dos temas tocados pela Pior Banda do Mundo), e para além dos nomes, há personagens que vão aparecendo de forma recorrente e que se parecem espantosamente com pessoas do nosso mundo. O diretor do museu do irrisório e do irrelevante por vezes parece-se com Jorge Luís Borges. Há um homem, com uma barba freudiana, que de vez em quando aparece a despertar de um estranho sonho no qual o mundo era governado por um idiota. E os exemplos não parariam, de tal modo esta BD tem aspectos irresistíveis.

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