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tout le monde est un peu fou
rosas
innersmile


Eu teria uns onze ou doze anos, estudava no ciclo preparatório, na escola Neutel de Abreu, em Nampula. Gostava muito de ler o jornal, o Notícias, de Lourenço Marques. Como o jornal era de grande formato, eu estendia-o na alcatifa da sala de visitas, entre a porta envidraçada da rua e a mesinha de centro, e era assim que o lia, esparramado no chão.

Lembro-me de ler a Coluna em Marcha, o suplemento semanal editado pelo Guilherme de Melo, dedicado aos soldados portugueses que estavam envolvidos na guerra colonial. Lembro-me de ler as notícias sobre o campeonato do mundo de Fórmula 1, um tema que me apaixonava, e que geralmente terminava com provas disputadas por carrinhos em miniatura da Matchbox, em circuitos desenhados no chão da sala de visitas e na de jantar, e cujos pilotos tinham, naturalmente, o nome dos campeões que vinham no jornal, o melhor de todos, que era o Niki Lauda, o Jackie Stewart, o Emerson Fittipaldi, e o meu preferido, o sul-africano Jody Scheckter.

Também me lembro de ler outras notícias, aquelas que me impressionavam, como o campeonato mundial de xadrez, disputado em Reiquiavique entre o Bobby Fischer e o Boris Spassky, ou sobre desastres aéreos, que exerciam sobre mim, e exercem ainda hoje, uma espécie de horror fascinante.

Nos rés do chão do prédio onde a minha mãe trabalhava, num escritório de advogados, havia, mesmo junto à porta de entrada principal, uma casa de electrodomésticos, chamada Electro-Invicta, que tinha uma excelente secção de discos. O meu pai comprava discos em grandes quantidades. Eu passava os dias entre o escritório onde a minha mãe trabalhava, a minha casa, que era perto, e a minha escola: a primária, era mesmo em frente, do outro lado da avenida, e o ciclo era uns dois ou três quarteirões adiante. Por isso também visitava muito a loja de discos, ouvia os discos, e pedia à minha mãe para me comprar, sobretudo os 45 rpm, os chamados ‘singles’.

Naquela época ouvíamos muita música. Por um lado, não havia televisão, e por isso ouvia-se muita rádio e muitos discos. Além disso, sempre me lembro de em casa dos meus pais se ouvir muita música, todos lá em casa gostávamos de música. Era por isso natural que, quando eu me deitava no chão da sala a ler o jornal estava sempre a ouvir música.

E recordo-me com uma nitidez absoluta de estar sozinho na sala, deitado no chão a ler o jornal, fascinado com uma notícia sobre a queda de um avião, e a ouvir um single que a minha mãe tinha acabado de comprar, da Maria de Rossi a cantar o tema Tout Le Monde Est Un Peu Fou. De tal modo isso foi impressivo no meu espírito de criança, que sempre que ouvia a música me assaltava a angústia excitante do acidente de avião. E até hoje, sempre que leio ou ouço ou presto atenção a uma notícia sobre um desastre aéreo, a minha jukebox mental começa a cantarolar “C’est vrai, tout le monde est un peu fou”.

Não me lembro de ter ouvido a canção desde que vim para Portugal, desde que viemos para Coimbra, apesar do 45 rpm ainda existir em casa dos meus pais. Durante muito tempo, procurei-a com regularidade, ainda que não com frequência, na internet e no YouTube, sem resultados. Há dias, finalmente, encontrei um clip com a gravação, cujo carregamento, de resto, já foi este ano, há poucos meses. É uma música simples, uma pop francesa muito fresca e saltitante, levezinha e engraçada apesar de não muito interessante do ponto de vista musical. Mas que continua a despertar em mim uma sensação única que mistura uma alegria muito solar com os abismos mais profundos.


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