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ponta gea
rosas
innersmile


Um livro extraordinário, a começar pela dificuldade em o catalogar. Não é definitivamente ensaio, também não é inteiramente ficção. Li uma referência que o definia como um livro-documentário, o que é uma boa aproximação.

A infância, as memórias e as geografias da infância, constituem uma espécie de ponto de partida para a efabulação. Não se trata de ficcionar memórias, de contar anedotas ou pequenas histórias, estamos muito longe disso. Trata-se mais de deixar a palavra, o texto, a narrativa, tomar conta do que resta em nós desse país distante que foi a infância (Saint-Exupéry dixit). E neste caso concreto, esse país tem a forma e o nome de uma cidade, a Beira, em Moçambique.

A fábula, como uma deriva ou uma divagação, serve-se de qualquer pretexto. Memórias da infância, em grande parte dos casos, mas também recortes de jornais, percursos pedestres pelas ruas da cidade (um mero tropeção nalguma pedra solta da calçada), hipóteses de aventuras, viagens de iniciação ao medo. Ou mesmo uma geografia, as promessas e os mistérios de um lugar, como o Mangal.

Há pormenores de altíssimo recorte na maneira como o livro está construído. Um deles é, por exemplo, a forma como JPBC despe o texto de referências e contextos, nomeadamente o contexto colonial, social e político, onde a maior parte da acção do livro se passa. Não é branqueamento, é, de certo modo, contar com a informação que o leitor possui e deixar a seu cargo o trabalho de contextualização.

Outro pormenor delicioso: na última narrativa do livro (são 15 ao todo), as informações históricas, ou factuais, chamemos-lhes assim, são transmitidas em breves verbetes em latim, que constituem o sumo das lições de latim que reúnem o narrador e o seu co-protagonista.

É deveras um livro extraordinário, onde o poder de evocação, já habitual e conhecido no autor, atinge um ponto quase sublime de maravilhamento e suspensão da descrença.

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