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Mais uma passagem do livro de João Paulo Borges Coelho, Ponta Gea, que despertou memórias muito antigas:

“Fala-nos dos combates de boxe a que assistiu, e tantas vezes o faz que os lutadores que menciona são já, para nós, uma espécie de velhos conhecidos, anunciados ao microfone, a meio do ringue, pelo lendário Al Pereira: Ganda, o maior de todos, mas também Danger, Mapepa, Cambeua, Dully (alcunhado pelos adeptos de Number One), Tony Beira, Costumado, Fundice e muitos outros”.

É sempre uma experiência do domínio do maravilhoso quando nos cruzamos num livro com personagens que conhecemos na vida real. Já me tinha cruzado com a personagem do Al Pereira noutro livro do JPBC, e neste Ponta Gea ele ainda torna a aparecer, noutro capítulo. Mas neste trecho o verdadeiro protagonista é o boxeur Mapepa, de quem tenho um autógrafo, e de quem assisti pelo menos a um combate. Claro que nas minhas memórias, aquilo que é o resquício de uma recordação factual mistura-se com as histórias que fui ouvindo acerca desses acontecimentos, e com a minha própria capacidade de efabulação. De resto, essa é uma das razões porque estou a gostar tanto do livro de Borges Coelho, porque também neste caso, e forma bem assumida, as memórias da infância são sobretudo pretextos para a imaginação evocativa do autor.

Quanto ao Al Pereira, ele foi muito amigo do meu pai, durante os primeiros anos da nossa vida em Nampula. Já não me recordo qual era a sua profissão, mas continuava a organizar combates de boxe e de luta livre, que tinham lugar no pavilhão do Clube Ferroviário, e aos quais eu assistia. A impressão que guardo desses eventos é mais impressiva no caso dos combates de luta livre, masculinos e femininos, talvez por ser mais espectacular, com mais luzes e barulho, mais feérico. Mas lembro-me dos combates de boxe sobretudo por causa das imensas audiências que atraíam, sobretudo entre a população negra.

O Sr. Al Pereira era casado com a D. Bertini, uma senhora muito pequenina, que eu adorava. Já não tenho a certeza se ela trabalhava numa loja de pronto a vestir se numa de electrodomésticos, porque as duas lojas era na mesma avenida, uma em frente à outra. Mas recordo-me de que conduzia um carro muito pequeno e baixinho, modelo desportivo, com a parte da frente arredondada, vermelho, de dois lugares.

Eu positivamente adorava quando a D. Bertini me levava a passear, para mais no seu desportivo vermelho. Lembro-me de ela me levar aos festivais do Centro Hípico, que eram sempre uma coisa muito engalanada, mas acerca dos quais, acho eu, não tenho a mais tranquila das recordações. Talvez seja porque aquilo fosse demasiado exigente para a minha inibição e para a minha ansiedade. Mas como sempre fui muito caseiro, também adorava quando a D. Bertini me levava para casa dela, para lanchar. Tenho uma ideia demasiado vaga da casa e da sua localização, mas lembro-me com nitidez da D. Bertini a dar ao criado as instruções para o lanche (eu devia dizer ‘empregado’ em vez de criado, era mais adequado, mas o ponto é que era mesmo criado que nós chamávamos aos empregados de casa. O engomador era o mainato, o cozinheiro, quando havia, era o cozinheiro, mas o empregado de casa era o criado. Quando a minha mãe era novinha, o cozinheiro era o Cook, ou Cuca).

Mas a minha recordação mais intensa da casa da D. Bertini era uma pequena boneca, vestida de sevilhana, que havia na saleta de entrada, em cima de um móvel de madeira muito polida e brilhante. Aquela boneca fascinava-me, e prendia o meu olhar e a minha atenção quando passava por ela. Nunca tive vontade de brincar com ela, nunca brinquei com bonecas, nem com os bonecos de acção que começaram a aparecer na altura, só gostava de brincar com carrinhos e com materiais de escritório. O meu fascínio não passava por aí. Tinha, acho eu, tudo a ver com a roupa da sevilhana, mas sobretudo com a sugestão de movimento que a pose, os gestos e essa roupa, criavam. Acho que aquilo que me prendia o olhar era uma vontade quase irreprimível de a ver começar a dançar.

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