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“Em frente às varandas corria um imenso descampado de terra cor de sangue com fundas cicatrizes de erosão provocada pela chuva, terra em carne viva.”

Leio este brevíssimo trecho, no novo livro de João Paulo Borges Coelho, e de repente estou em Iapala, uma vila ferroviária no interior norte de Moçambique, a oeste de Nampula, junto à linha de caminhos de ferro para Vila Cabral.

Fui passar uns dias de férias a Iapala com a família Peniche, que eram amigos dos meus pais, de Nampula, e nossos vizinhos de casa na praia das Chocas. Além do casal, havia duas filhas, mas apenas estava a mais nova delas, da idade do meu irmão, que é mais velho do que eu sete anos. Eu teria uns nove ou dez anos. Suponho que possa ter sido numas férias grandes, e ponho a hipótese de ter sido em 1972, quando terminei a escola primária e ia entrar para o ciclo preparatório.

A minha memória dessas férias é vaga, apenas por flashes, mas muito intensos, foram umas férias que me marcaram imenso. Talvez por estar tantos dias longe dos meus pais, mas sobretudo, acho eu, porque foram muito felizes, cheias de liberdade e de aventuras.
A casa do Sr. Peniche seria uma das dos Caminhos de Ferro, junto à linha, próxima da estação. Recordo muito pouco da casa. A ideia que tenho é que usávamos pouco a entrada da frente e o jardim que lhe ficava fronteiro. Lembro-me de que, voltada para a frente, havia uma saleta com alguns livros e onde eu lia, nos intervalos das brincadeiras, o Olhai Os Lírios do Campo, de Érico Veríssimo. Lembro-me de estarmos na sala de jantar, a fazer as refeições, e lembro-me de que saíamos de casa quase sempre pela cozinha, nas traseiras, porque era o lado da casa voltado para a vila.

Lembro-me do clube, que foi o pólo desses dias em Iapala. À noite, ia ao cinema com a família, mas durante o dia ia sozinho, para me encontrar e brincar com os amigos que fiz nessas férias. Lembro-me de que havia uns blocos de cimento ali mesmo ao lado, provavelmente para alguma construção, que nós íamos dispondo de modo a fazer um forte, para nos defendermos dos índios.

Lembro-me de andar na bicicleta. Era da filha do Sr. Peniche, a Milai, e tinha o quadro redondo, próprio das bicicletas de menina. Mais tarde, quando o Sr. Peniche regressou a Nampula, a Milai deu-me a bicicleta, que era a coisa que eu mais queria na vida. Adorava a bicicleta, com ela percorria as ruelas de terra batida labirínticas do bairro da Namutequeliua, ao lado da minha casa, e que era onde os soldados portugueses iam procurar as prostitutas negras. Tive-a até me vir embora, e o Felismino, o mainato, usava-a para ir a casa, a fim de semana, e ficou com ela, quando me vim embora (também ficou com todos os meus brinquedos, para os filhos, inclusivamente a minha magnífica colecção de carros em miniatura).

As lembranças mais imprecisas e mais estranhas das férias em Iapala, são de uma festa. Essas nem são flashes, são meros clarões. Era de noite, havia muitas luzes, cores, talvez em bandeirinhas de papel (seria uma festa dos santos populares?) Havia música e baile. Apesar de muito rarefeitas, são recordações muito intensas, uma memória mais emocional do que visual.

Fiz esta imagem a partir das fotos de satélite do Google. Não consigo identificar com precisão os lugares dessas férias em Iapala, mas seguramente foi neste rectângulo que tudo se passou.


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Miguel, é tão bonito este texto, porque está cheio de memórias boas, as da infância, aquele tempo que não volta, cheio de liberdade e sem preocupações. Porque eras uma criança e era tudo tão simples e os dias de verão tão longos.

Obrigado Margarida. São memorias muito vagas e imprecisas mas muito intensas. Realmente a infância é um país distante, como alguém disse. Sobretudo quando começamos a ficar velhos :-)

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