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Lady Macbeth, a estreia cinematográfica do encenador britânico William Oldroyd, é, no mínimo, um filme curioso, e a vários títulos interessante. Começa por ser curiosa a escassez de recursos com que filme é feito, evocando, eventualmente, um certo despojamento cénico que terá a ver com a experiência teatral do realizador. A contrastar essa aridez, os figurinos de Katherine ajudam a centrar toda a narrativa no tumulto interior da personagem.

Tratando-se de um filme de ambiente gótico, como esperaríamos de uma tragédia passada no século XIX numa zona rural britânica, outros aspecto muito interessante é o recurso a actores de raça negra ou mestiça para desempenhar as personagens ligadas à transformação de Katherine, por oposição às personagens que simbolizam a sua opressão. Esta opção tem um efeito duplo: por um lado traz a questão do racismo para o debate sobre o poder e a luta de classes, e por outro como que acentua o desconforto moral que o filme encena.

Há qualquer coisa no filme, na sua narrativa, que me fez lembrar o 12 Years a Slave, do Steve McQueen. Não consigo precisar bem o quê, talvez esse desconforto moral para onde somos conduzidos quando refletimos nos efeitos a vários níveis perturbadores do facto de a questão do poder, seja ele político, económico ou social, estar fortemente ligada às diferenças raciais, e que o nosso ponto ponto de observação, o meu pelo menos, ser o da raça que tem a supremacia nesse conflito.

Finalmente, o filme fez-me ainda evocar uma outra personagem de que gosto imenso, o Tom Ripley, dos romances da Patricia Highsmith. Katherine, como Ripley, parte dessa posição inicial que merece a nossa simpatia, para nos conduzir a um lugar onde a justificação moral dá lugar à maldade pura, à completa falta de escrúpulos em fazer seja o que for, seja a que custo, para garantir a nossa sobrevivência e a nossa supremacia. Quando ultrapassamos os limites, os limites que todos deveríamos ser capazes de impor a nós próprios, mais tarde ou mais cedo acabamos por destruir aquilo que em primeiro lugar nos salvou.
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