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na morte de elvira
rosas
innersmile
Um dia, no verão de 2012, cheguei a casa no fim do trabalho e tinha uma pequena encomenda na minha caixa do correio. Não tinha sido remetida por via postal, não tinha marcas ou selos de correio. Alguém a tinha posto, em mão, na caixa do correio. Eram dois livros, acompanhados de uma longa carta. Quem me tinha mandado os livros era o Saint-Clair, que nessa altura andava a passear pela Europa, cumprindo, e pagando o preço por isso, o seu sonho de conhecer o continente a que ele sentia pertencer, mais do que ao seu próprio país. Não veio a Portugal, esteve, creio eu, em Paris e na Alemanha. Foi, tanto quanto me lembro e pela impressão com que fiquei, uma viagem rodeada de algum mistério, pelo menos em relação a mim, o Saint nunca revelou grandes pormenores. Sei que um dos seus objectivos foi conhecer pessoalmente um alemão por quem ele estava muito apaixonado, daquele modo um pouco excessivo, mas também um pouco caprichoso, que era a sua forma de estar apaixonado. Creio que viajou do Brasil para França com uns amigos e suponho que foram esses amigos que passaram por Coimbra e me depositaram a encomenda com os livros na caixa do correio.

Um desses livros era A Um Passo, de Elvira Vigna, escritora brasileira cuja morte foi noticiada esta semana. O Saint era apaixonadíssimo pela literatura de Elvira Vigna e creio que também pela pessoa da escritora. Eram amigos, mas já não me lembro bem qual era a verdadeira natureza dessa amizade, se era uma amizade virtual, feita das trocas de contactos na rede electrónica, mas penso que não, que se conheciam pessoalmente e se chegaram a encontrar algumas vezes. Creio não estar a mentir ao dizer que o Saint considerava a Elvira Vigna uma das maiores, se não a maior escritora brasileira contemporânea, e uma das maiores de sempre.

Por essa razão, pela admiração imensa que o Saint sentia por ela, é que eu tinha muita vontade de conhecer a sua obra e também porque o Saint me incentivava a isso, razão porque me conseguiu fazer chegar essa encomenda. Não constituiu propriamente uma decepção, mas uma enorme dificuldade. Achei o livro muito difícil de ler, de acompanhar e de entender.

Quando a Quetzal editou Nada a Dizer, creio que a sua única obra publicada em Portugal, ainda o Saint era vivo, corri a comprar o livro, mas nunca tive coragem e entusiasmo para o ler. Faz parte de uma pequena pilha de livros por ler que, mais por inércia do que por outra coisa, está no meu quarto, em cima da mala. Razão porque com muita frequência o vejo, olho para ele, sinto uma picada de remorso por nunca o ter lido, e percorre-me a lembrança do Saint.

Elvira Vigna morreu esta semana, em São Paulo, a poucos meses de fazer 70 anos. Em abril, passaram quatro anos de morte do Saint. Não consigo evitar uma espécie de estremecimento ao pensar que ambos se possam ter encontrado no paraíso dos que amam a escrita e a leitura.

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Saint ❤️
E qual o destino do "Dias Estranhos"? Quando penso nesse livro, que ainda vive em algum canto, sinto maior a tristeza enorme.

um livro tão forte quanto maravilhoso. sim, uma imensa tristeza, felizes aqueles de nós que o leram

Lastimo tua perda e também a perda do livro do teu amigo. Livros, que deveriam permanecer como testemunho da vida (ou da arte) de seus autores, ao menos...

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?

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