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sílvia pérez cruz
rosas
innersmile
Em primeiro lugar acho que temos de agradecer ao Ricardo. Não sei de quem se trata, mas a Sílvia Pérez Cruz, que fala muito entre canções e vai contando as suas histórias, apresentou a canção dizendo que não a tinham previsto no alinhamento do concerto mas que o Ricardo, um dos promotores, lhe tinha falado na canção e, como é daquelas canções a que ela recorre para fazer improvisação, tinham decidido apresentá-la. E acho que temos mesmo uma dívida de gratidão para com o Ricardo, porque, pelo menos para mim, Cucucurrucucu Paloma foi um dos momentos altos do concerto (num concerto todo ele feito de momentos altos, altíssimos). É que não foi apenas um dos momentos do concerto em que a SPC mais se entregou àquele seu modo de cantar em total liberdade, foi ainda o gozo imenso de ver uma canção ser feita com um tal grau de liberdade, com um acompanhamento de quinteto de cordas, e, mais ainda, perceber como funciona a relação da cantora com os seus músicos, como a canção vai sendo “construída” ao longo da sua interpretação, como a SPC vai dando indicações aos músicos acerca da orientação que vai imprimindo à canção. É muito bom, aliás, é extraordinário.

Quando penso nos melhores concertos a que assisti, há sempre dois ou três que me vêm à ideia (um deles, é o da Lhasa de Sela, no Gil Vicente) e acho que a partir de agora o concerto que a SPC deu no sábado à noite, no auditório do Convento de São Francisco, vai passar a ser um deles. Infelizmente o auditório estava apenas meio cheio, de modo que logo antes de começar a SPC pediu às pessoas para se juntarem mais perto do palco. Infelizmente não pude fazer o mesmo, tive de continuar sentado na distante e “gelada” última fila. Mas mesmo assim fui completamente envolvido pela apresentação da cantora, não apenas pela sua voz, pelas suas potencialidades, pelo som tom cristalino, pela afinação perfeita, mas também pela sua forma de cantar, pelo modo como vai improvisando, como está constantemente a recriar a canção, mesmo durante o período de tempo em que a está a interpretar. Há no canto da SPC um ponto único e surpreendente, no qual descobrimos influências e cruzamentos, que vão desde a raíz da flamenco à liberdade do jazz, a de improvisar mas também a de recriar as notas.

Também me surpreendeu muito a parte musical da prestação, garantida por um quinteto de cordas que incluiu um violoncelo, um contrabaixo, uma viola e dois violinos. Digamos que nos seus momentos mais convencionais, me lembrei de algumas sonoridades do Kronos Quartet, mas o que me encantou foi a criatividade dos arranjos, a maneira como os arranjos serviam as canções e as suas particularidades, e sobretudo a maneira como os músicos iam reagindo aos caminhos que a SPC ia traçando com o seu canto.

O concerto apresentou, essencialmente, o conjunto de temas que constituem o mais recente disco da SPC, Vestida de Nit, mas também recriou outros temas muito ligados ao seu percurso musical. E se a interpretação de Cucucurrucucu Paloma já me tinha dado indicações de que SPC tinha ouvido muito o Caetano Veloso, este concerto reforçou essa impressão. Foi a apresentação de Asa Branca, um tema de Luiz Gonzaga mas que a SPC trabalha a partir da leitura que o Caetano fez desse tema, logo nos dos seus álbuns iniciais, de início dos anos 70. Mas achei mesmo que a sua interpretação de Estranha Forma de Vida devia mais à leitura que o Caetano fez desse tema que à própria Amália. Claro que descobrir o Caetano na Sílvia Pérez Cruz ainda me faz gostar mais dela e deste concerto.
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