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tarde de sábado
rosas
innersmile
Entrei na livraria perto da hora do almoço de sábado, e fui sentar-me na cafetaria, na mesa do canto, junto à montra envidraçada. Na mesa ao lado, dois casais, ali a rondar os setenta anos, gente com aspecto de quem vive a vida sem grandes preocupações materiais, mas simples, nada exibicionista. Tenho a vaga ideia de que reconheço um dos cavalheiros, que usa um bigode farto e grisalho, talvez das lides profissionais.

Na altura em que me sentei, e inadvertidamente ouvi a conversa, os dois casais trocavam impressões da experiência que foi terem estado no fim de semana em Fátima, por ocasião da visita do Papa, onde se deslocaram separadamente: como tinham viajado até Fátima, onde cada um deles ficou instalado, como se deram enquanto estavam no recinto, o grau de proximidade em relação ao Papa, por aí fora.

Entretanto veio o café e a água fresca que eu pedira, pus-me a ler, e desliguei da conversa. Lembro-me de que a certa altura terão, os cavalheiros naturalmente, falado das respectivas experiências nas ex-colónias, na guerra colonial, mas não prestei grande atenção pois estava embrenhado no conto que estava a ler.

Reparei que, entretanto, entrara no café um outro casal, da mesma idade, e que eu conheço bastante bem: a ele do meio profissional, trabalhámos na mesma instituição durante anos, ambos em lugares de responsabilidade, apesar de sermos de diferentes profissões. E, à Senhora, por um lado por ser esposa desse meu conhecido, mas também porque durante muito tempo foram vizinhos dos meus pais, e eu conheço-a, de vista e de cumprimentar cordial mas educadamente, quando nos encontramos por acaso. O Dr. R, chamemos-lhe assim, foi ao balcão comprar o jornal, e depois sentaram-se os dois a beber um café, do outro lado da cafetaria, junto à porta de entrada. Eu continuei de olhos enfiados nas páginas do meu livro, a desejar que o mundo estivesse mais desatento de mim do que eu dele.

Às tantas, os dois casais que estavam na mesa ao a meu lado, levantaram-se e, sempre em animada conversa, dirigiram-se à saída. Um dos cavalheiros, o do bigode, ao passar junto à mesa onde estava sentado o Dr. R, sem grandes prolegómenos, abeirou-se da mesa e deu um beijo na face ao Dr. R, que levantou os olhos do jornal ao mesmo tempo que lhe dizia qualquer coisa. Logo a seguir, aproximou-se da esposa do Dr. R e também lhe deu um único beijo na face.

Mais ninguém do grupo, nem a esposa do cavalheiro do bigode nem o outro casal, deram sequer mostras de que conheciam o Dr. R e a esposa, quanto mais trocarem cumprimentos. Saíram os quatro, ficaram ainda um pouco no passeio em frente à livraria, junto à esplanada, com ar de quem terminava a conversa em curso, despediram-se com apertos de mão, e separaram-se. Passado pouco tempo, também o Dr. R. e a esposa, depois de pagar a despesa dos cafés, se levantaram e saíram.

Eu continuei sentado à mesa, o café já terminado, um resto de água fresca na garrafa de plástico. Para ser franco, nem me lembrei do poema do Reinaldo Ferreira:
”Oh! tarde de sábado britânica,
Poema da rotina,
Prodígio do bem-estar...
Eu, que donde vou, latino e desgrenhado,
Intenso, irregular,
Apenas sei a vibração e o desânimo
(O sol excessivo e a sombra opaca),
Olho-te no deslumbramento
De quem se banha
E se deslumbra
Em penumbra.”
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eu vou enviar um email ao CVM para te pôr a escrever na Granta. :p

Não me parece que tenha o perfil adequado, Margarida :-)

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?

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