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o silêncio e o exemplo do Papa
rosas
innersmile
Sou admirador de António Costa. Gostei dele quando foi ministro e quando foi presidente da câmara de Lisboa, apesar de, neste caso, não ser parte interessada, pois não era seu munícipe. Fiquei contente quando disputou a liderança do PS a A.J. Seguro, e admirei-o muito quando conseguiu estabelecer entendimentos com o Partido Comunista e o Bloco de esquerda para apresentar um governo de esquerda que, baseado na configuração parlamentar saída das eleições de 2015, conseguisse apresentar uma alternativa estável à vitória eleitoral da direita. E admirei-o por duas razões: em primeiro lugar, por provar que era possível estabelecer acordos à esquerda do PS e que o PC apoiasse soluções governativas. Mas principalmente por arredar do governo uma direita de agendas escondidas, que teimou em governar o país desrespeitando e até ofendendo, por vezes de maneira insolente, o povo.

Mas ser admirador não significa ser devoto, e eu, na política como na religião, e até no desporto ou mesmo na cultura (aqui menos, admito), não sou muito dado a devoções. Pelo contrário, gosto da crítica e da análise crítica, e, também por isso, tenho sido crítico de muitas acções de Costa enquanto primeiro-ministro. E fui-o, mais uma vez, neste fim de semana, em relação à vinda do Papa a Fátima, por ocasião do centésimo ano das chamadas “aparições de Fátima” e da canonização dos ditos “pastorinhos”.

Acho muito bem que Costa tenha estado presente nos aspectos, digamos, “civis” da visita do Papa, mas não gostei de o ver participar nas cerimónias religiosas, em particular nas celebrações eucarísticas. Costa, ao contrário do que acontece, por exemplo, com o Presidente Marcelo, não é conhecido pelas suas convicções religiosas, e não gostei de o ver a participar nas celebrações de forma passiva, ou seja, sem seguir o ritual.

Claro que eu já fiz isso muitas vezes, estar na missa sem seguir o ritual, mas isso sou eu, um mero cidadão anónimo, produto das minhas circunstâncias, e das minhas contradições. Não sou exemplo para ninguém, e, principalmente, não represento ninguém, muito menos o povo e o país. Como disse, aceito perfeitamente a participação de Marcelo nas celebrações, não me chocou vê-lo a cantar os hinos, e pronunciar o ritual, a fazer o sinal da cruz ou a genuflexão. Mas não gostei de ver Costa a fazer figura de corpo presente, com aquele ar embaraçado de não-sei-o-que-é-que-estou-aqui-a-fazer. Como referi, teria preferido que Costa tivesse estado presente em todos os momentos não especificamente religiosos da peregrinação do Papa a Fátima, por respeito, atendendo à forte tradição do catolicismo em Portugal, para com o chefe da igreja católica e até, aí sim, por respeito para com o povo, ou a sua maioria, de quem ele é o governante.

A propósito da visita do Papa a Fátima, impressionou-me o seu longo silêncio, na sexta-feira à tardinha, mal chegou ao santuário, em frente à figura de Nossa Senhora de Fátima, na Capela das Aparições. Como já me tinha impressionado muito o seu silêncio veemente quando, aqui há uns meses, visitou o campo de Auschwitz, na Polónia (e até mencionei isso aqui, num texto). Numa época em que o ruído é constante, e, de certo modo, uma forma de nunca os confrontarmos com a nossa própria e imensa solidão, os silêncios do Papa são, na minha sensibilidade, a sua maneira de se afirmar enquanto homem, só e frágil perante tudo o que nos escapa à compreensão e à racionalidade.

O Manuel S. Fonseca escreveu um texto, admirável como a maior parte de tudo o que escreve, precisamente sobre “O silêncio de Francisco”. É obrigatório ler o texto integral, no blog Escrever é Triste, no seguinte link: http://www.escreveretriste.com/2017/05/o-silencio-de-francisco/. Mas tenho de reproduzir aqui este pequeno trecho que me comoveu e me fez vir as lágrimas aos olhos, e aqui fica como a única coisa que se me oferece referir a propósito da visita do Papa a Portugal:

”Foi um silêncio humano, um desses silêncios de que nem Deus, nem a Natureza conhecem o segredo. Só nós, os humanos, em momento de temor ou tremor, de perplexa alegria, ou de incendiada fé, somos capazes de um silêncio deste espantado tamanho.”

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Olá, Miguel.

Eu, entretanto, vejo com piores olhos o papel de Marcelo, que é ele quem representa o Estado português, pelo menos na letra da Constituição.

Importa esclarecer que não houve nenhum ataque ao Estado laico, como se lê por aí. Há, sim, um manifesto favorecimento da Igreja Católica pelo Estado laico. Parece igual mas não é. É isso que me incomoda.

um abraço.

Sim, também me parece um pouco excessivo falar em ataque aos estado laico.
Já quanto ao Marcelo, o que eu acho é que ele está a ser verdadeiro consigo próprio, e por isso não me custa aceitar o seu gesto. Ser católico faz parte da sua persona pública, e política em particular. Quando as pessoas votaram nele sabiam no que estavam a votar.

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