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denial (negação)
rosas
innersmile
Está longe de ser um grande filme, mas Denial (Negação), realizado por Mick Jackson e escrito por David Hare, é resgatado pela nobreza do seu tema, a disputa judicial entre uma historiadora do nazismo e um historiador negacionista do holocausto, que move à primeira um processo de difamação por ela, numa das suas obras, o ter acusado de mentiroso. Trata-se assim de um ‘court movie’, que não é propriamente subtil, nem numa certa romantização do tema e das personagens, nem no tom caricatural com que trata o mau da fita.

Mas o filme levanta questões muito interessantes e importantes, que se prendem com um dos maiores temas da história recente da humanidade (o nazismo e o holocausto) e que marcam o século XX, o debate europeu e mesmo um certo conceito moral do mundo. Uma dessas questões é a da legitimidade do debate em termos do próprio holocausto, no sentido de ser possível ter visões céticas sobre o assunto, que o filme resolve ao imputar ao negacionista intenções políticas subjacentes, ou seja, para ele negar o holocausto era uma forma mentirosa de branquear Hitler e o nazismo.

O tema central do filme, em termos de debate, é o da possibilidade (ou a necessidade) de provar o mal, ou seja, temos de apresentar provas, de preferência documentais, de que o holocausto de facto existiu, de que de facto os campos eram as máquinas de uma indústria de extermínio, de que de facto morreram seis milhões de judeus. O filme não resolve a questão, uma vez que a estratégia da equipa de advogados da historiadora americana foi a de provar que não havia crime de difamação porque o negacionista era mesmo mentiroso (era essa a acusação que a historiadora lhe fazia no livro), iludindo a armadilha perigosa que o processo montou de terem de apresentar provas concretas de que o campo de Auschwitz era mesmo um campo de extermínio em massa.

Outra questão, derivada desta da necessidade de provar, que o filme levanta mas não aborda directamente, é a do papel da memória na questão do nazismo e do holocausto. Num tempo em que os sobreviventes são cada vez menos, qual é o papel da memória como garante de que o horror inconcebível aconteceu de facto, na nossa era ou na dos nossos pais, e de que não esquecer é uma forma de evitar a sua repetição. Precisamos de mais provas do que a memória que trazemos? Precisamos de mais provas do que as cicatrizes morais que temos marcadas de forma indelével na nossa memória civilizacional? Essa é, a meu ver, a principal mais-valia do filme: contribuir para que essa memória não se dissipe na indiferença do futuro.
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