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leitor ideal
rosas
innersmile
Aprendi há muitos anos (nas aulas de Língua e Literatura Portuguesa, no liceu) que todos os escritores escrevem para um leitor ideal. É uma idealização imaginária que o escritor faz de como gostava que o seu texto fosse lido. Constatei, quando comecei a escrever uma coisas, especialmente aqui nesta espécie de diário público, que isso era rigorosamente verdade e que também eu tinha o meu leitor ideal. Não se trata propriamente de um destinatário, alguém a quem o texto é dirigido, como uma carta, embora muitas vezes o texto tenha mesmo um destinatário. Nestes casos, claro, normalmente o leitor ideal coincide com o destinatário do texto. Mas na maior parte dos casos não é isso que acontece, o texto não se destina a ser lido por ninguém em particular, mas mesmo assim escreve-se com determinado ideal de leitor na cabeça. E isto acontece, comigo, com todo o tipo de textos que aqui escrevo, sejam de que natureza forem, apontamentos de diário, textos sobre livros ou filmes, contos ou poemas.

Durante muitos anos, o meu leitor ideal, aquele leitor que eu tinha em mente quando escrevia um texto, era muito coincidente com o Saint-Clair. Lá está, escrevi alguns textos que tinham como destinatário o Saint, mas não é disso que falo. Trata-se mesmo de escrever para um ideal de leitor que tinha as características, ou as qualidades, que eu sabia ou imaginava que o Saint tinha enquanto leitor.

Quando o Saint morreu, faz dentro de poucos dias quatro anos, estive ali uns tempos literalmente perdido, sem saber exactamente para quem é que escrevia. Isto, é claro, para além do enorme desgosto que senti, da imensa perda emocional que me deixou com uma sensação de vazio, de que já não tinha, em sentido figurado, ninguém para quem escrever.

Fui descobrindo, ou tomando consciência, de que aos poucos fui arranjando um novo leitor ideal e que esse leitor é muito coincidente (repito esta expressão porque me parece a mais adequada), com a Margarida. Volto a frisar, a Margarida não é a destinatária daquilo que escrevo, mas quando escrevo, seja o que for, idealizo sempre que o leitor que vai conseguir entender com precisão e clareza o que eu quis escrever tem as qualidades de leitora que eu sei ou imagino que a Margarida tenha. E como eu acho que nunca disse isto à Margarida, espero que ela não se importe de tomar conhecimento, por esta via, de que tem esta espécie de part-time job, não remunerado, de ser a minha leitora ideal.

Lembrei-me de escrever isto ontem à noite, quando estava a pôr umas baboseiras no facebook e de repente tomei consciência de que o meu leitor ideal no facebook é a minha sobrinha. Tudo o que lá ponho, sejam clips de video, fotos, ou piadinhas, é como se fosse para ela ler, como se ela fosse a minha “amiga” ideal no facebook.

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Faz todo o sentido...

Não sei se faz "todo", mas para mim faz

quem? :)

(ps: o nome da livraria, pf)

Miguel, a escolha da Margarida para leitora ideal é muito acertada. A Margarida é especial.
Mas eu sou a leitora diária do teu blog, e até sinto as tuas dores e as tuas alegrias. Continua a escrever para ti e para todos os que te seguem. Um beijinho. Lídia

Não foi uma escolha, Lídia. É mais aquela coisa de tomarmos consciência de que estamos a escrever com a ideia de alguém em mente.

E haveria um escritor ideal?

Não sei se há um escritor ideal, pelo menos no sentido que eu abordo no texto. Mas há seguramente autores que nos "explicam", em cuja obra as nossas vidas e o nosso mundo aparecem quase como que descodificados.

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?

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