Previous Entry Share Next Entry
a padaria do facebook
rosas
innersmile
Não tenho paciência para as indignações do facebook.Na melhor das hipóteses, maçam-me. Na pior, irritam-me, porque mostram o lado mais burro das pessoas, e dos meus concidadãos em particular. E que passam como que por milagre: hoje à tarde todos se sentem ofendidos com uma porcaria qualquer, e amanhã de manhã já passou, e já há uma indignação nova a servir de pretexto para escreverem-se mais umas palermices.

A semana passada foi a cena do dono das padarias da moda, por causa de umas declarações que prestou à televisão. Eu confesso que nunca entrei em nenhuma das padarias dele, mas isso deve-se provavelmente ao facto de não haver nenhuma em Coimbra. Impressionou-me a imensa quantidade de gente que jurou e protestou nunca mais entrar numa, “e nunca mais” significa que até aí entravam, porque, digo eu, estavam num estado de virginal inocência acerca das condições de trabalho em Portugal, sobretudo no sector privado, principalmente nas médias e pequenas empresas, quer quanto à remuneração, quer quanto à sobrecarga de trabalho, quer quanto à precariedade do vínculo laboral. E desconfio bem que muitas dessas pessoas já entraram num dos estabelecimentos em causa, esquecidos de que ainda na véspera rasgaram as vestes de indignação.

Não é que eu concorde com o que o dono das padarias disse, mas não é uma questão de opinião. Aquilo que ele disse corresponde ao que pensa a grande, a enorme maioria, dos nossos empresários. O que pensa e o que pratica. Não é só na padaria do senhor que os trabalhadores, nomeadamente os mais jovens, são obrigados a trabalhar longas horas, não remuneradas, em troco de salários de miséria, e sob a ameaça constante de que, se refilam ou não correspondem, vão directos para o olho da rua. Provavelmente, mas isto sou só eu a pensar, não tenho dados sobre o assunto, apenas as grandes empresas, as multinacionais ou as grandes distribuidoras, têm políticas salariais adequadas e regimes de trabalho que cumprem a lei, julgo eu que por essas políticas serem definidas centralmente, por terem departamentos de recursos humanos que as estabelecem de forma a não criarem problemas legais, ou mais prosaicamente porque o patrão está longe da produção e não se preocupa com essas coisas.

Tirando pois honrosas excepções, creio que não deve haver em Portugal muitos trabalhadores por contra de outrem que nunca tenham experimentado estes problemas, que são transversais à generalidade das nossas empresas, e que se verificam inclusivamente noutro tipo de organizações, por exemplo na forma como a maior parte das nossas universidades trata os seus investigadores. O dono das padarias, coitado, como deve ter a mania é que é rapaz de Chicago, limitou-se a dizer, até com alguma candura, o que lhe vai na alma. Ou seja, e em última análise, que o que lhe dava jeito mesmo era haver condições de trabalho e remuneratórias como no tempo do Charles Dickens.
Tags:

  • 1
(And shame on Google, they should have been able to tell me that!)

well, the name of the store is A Padaria POrtuguesa. You'll find it easily on facebook and at this adress: https://www.apadariaportuguesa.pt/

  • 1
?

Log in