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transitório
rosas
innersmile
Nestes últimos dias tenho pensado muito no meu pai (e sonhado também, continuo a sonhar muito frequentemente com o meu pai e a minha mãe). Principalmente, devo confessar, a propósito do gato: tenho a impressão de que a relação que o gato tem comigo é cada vez mais parecida com a que o gato Jarbas tinha com o meu pai. E digo que tenho a impressão em vez de ter a certeza, porque a relação entre eles os dois, o meu pai e o Jarbas, era muito secreta, muito exclusivista, era uma coisa muito deles os dois. Claro que a relação entre o meu gato e eu também é assim, mas o ponto é que em minha casa somos só os dois, e por isso é natural que se estabeleça essa relação, enquanto que em casa dos meus pais éramos sempre pelo menos três, e com temporadas em que éramos quatro, e era sempre uma casa cheia de gente, muitas visitas, algumas diárias. E o meu pai era muito reservado, e não partilhava os comportamentos do gato, as coisas que eu ia sabendo era normalmente a minha mãe que me contava.

Quando penso no meu pai tenho uma certa tendência a lembrar-me dele como era nos últimos tempos, já muito afectado pela doença. Talvez porque sempre tenha sido a minha mãe a tomar conta do meu pai e apenas quando ele foi internado, e poucos meses depois a minha mãe morreu, passámos a ser apenas nós dois, ele e eu. Apesar de ele estar internado numa casa de saúde e ser o pessoal de lá a tratar dele, talvez apenas nessa fase da vida eu me tenha sentido totalmente responsável por ele. Era eu que ía regularmente visitá-lo, e a grande maioria das vezes estávamos os dois sozinhos. Era eu que tinha de tomar as decisões importantes, quer as relativas à sua condição de doente internado, quer as da vida dele enquanto cidadão. Tive de lhe tratar do cartão do cidadão e de entregar as declarações de impostos, tive de tomar todas as decisões relativas à casa deles. Enfim, talvez seja por todas essas razões que, apesar de ser uma relação muito unívoca por causa da sua condição, quando penso no meu pai normalmente o que me vem à ideia é ele nesses últimos tempos, mesmo em termos de aparência física.

E é curioso, porque me lembro muito bem de que, durante o tempo em que ele esteve internado, eu nunca integrei completamente a situação, não fazia muito parte da minha estrutura mental. Aquela situação, do meu pai internado com uma doença mental que aos poucos o ia isolando do mundo, para mim nunca foi “a realidade”. A realidade era outra coisa. Em relação àquela situação sempre tive um sentimento de precariedade, de que aquilo era transitório, que estávamos a viver uma situação temporária, entre uma realidade anterior e uma outra que haveria de chegar. Nunca tive consciência de que essa realidade outra que haveria de chegar era a sua morte. E por isso, sempre que penso agora no meu pai, e na temporada que passou internado na casa de saúde, é sempre com esse sentimento de que há ainda qualquer coisa que ficou por resolver.

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Pelo que fui vendo pelas muitas fotos que publicaste, fizeste tudo o que te era possível. Visitaste-o, estiveste com ele, acarinhaste-o. Infelizmente, todos seremos confrontados com partidas, até que chegará a nossa.

Não irei dizer nada mais porque só tu conhecerás os mistérios da vossa relação, mas parece-me, isto de quem observa de longe, que foste um excelente filho.

um abraço.

isso não sei se fui, mas pelo menos fui um filho presente

Sonhar com nossos amados que partiram é um conforto enorme, para mim. Há alguns dias sonhei que amigos me entregavam uma carta de minha mãe. Palavras muito belas e carinhosas, com sua caligrafia única. Tudo isso é o real.
Concordo com o que o Mark disse: você parece ser um filho muito dedicado.
Um abraço do Edu.

sim, é um grande conforto. e é curioso, porque sempre que sonho com eles, eles estão bem

Em relação a quem nos deixa, penso que sentimos sempre
que ficou algo por dizer ou fazer. As saudades são
sempre dolorosas e talvez por isso muitas recordações
nos vêm à memória. Mas a partilha faz bem e ...não
estamos sozinhos.

falo por mim, claro, mas não é tanto uma necessidade de partilha, mas mais a de concretizar, de dar forma, a coisas que estão cá dentro, a perturbações e perplexidades. escrever sobre elas, já é uma maneira de as arrumar, mesmo quando não estão resolvidas.

eu sonho com a minha mãe e até misturo cenas que não existiram, quando, em certa altura do dia penso nela e nas relações que tinha e acabo, nem sei bem porquê (porque não vivia com ela, nem a via todos os dias, talvez), por ficar ansiosa e isso reflectia-se, então, nos sonhos. mas ela nunca está doente aí, são episódios banais, de há muitos anos e, de manhã, acordo, penso um momento neles e depois desvanecem-se ao longo do dia e quando volto a pensar neles, já muita coisa esqueci; mas fica qualquer coisa no ar durante alguns dias, a sensação de perda, de tristeza, é mais vincada, não sei explicar.
tu foste um filho presente, como se diz, na saúde e na doença. mais do que uma obrigação de cuidares dele e das suas coisas, foi um acto de amor.

sim Margarida, nunca o fiz por obrigação, nunca foi um sacrifício. foi, como dizes, por amor, por ser a única coisa que nessas circunstâncias fui capaz de fazer.

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