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silence
rosas
innersmile
Muito bom, o Silence, do Martin Scorsese. Eu sou suspeito, claro, porque gosto muito do cinema dele, da maneira dele fazer filmes. O que também não admira, vi filmes do Scorsese praticamente toda a minha vida de adulto, e quando comecei a ver cinema à séria, foi na fase em que ele fez as suas grandes obras.

Em Silence Scorsese regressa ao tema da religião, concretamente da católica, que está presente em muitos dos seus filmes e que foi o tema fulcral de alguns deles, e que trouxeram ao realizador uma polémica que, acho eu, ele nunca procurou. Quando Scorsese filma a dúvida acerca da fé, não o faz de um ponto de vista agnóstico, não lhe interessa questionar a existência de Deus. A sua dúvida é a do cristão, e a crise de fé põe-se, e neste filme é o tema central, permanentemente explorado através de processos de questionamento sucessivos, em termos do que é ser um bom cristão. Quem é o melhor, e nesse sentido o verdadeiro cristão: aquele que não renuncia à fé apesar do sofrimento que isso causa a si e aos outros, ou aquele que renuncia à fé para salvar os outros do sofrimento? E no caso do momento da história do cristianismo no Japão que o filme aborda, essa questão é ainda mais pertinente, pois renunciar à fé podia significar o desaparecimento e o fim do cristianismo no país.

E Scorsese filma este intenso dilema com a sua habitual mestria e força narrativa, mas há, de alguma maneira, uma certa contenção que não é muito habitual nele. A vertigem do plano e da sequência, que em Scorsese é habitualmente imponente, cedem aqui lugar a uma atenção completamente focalizada nas personagens, no seu jogo. Scorsese tenta desse modo filmar aquilo que é mais difícil: o silêncio, o conflito, por vezes tumultuoso, por vezes de uma violência inaudita, que vivemos dentro de nós, quando questionamos, não apenas aquilo que é mais íntimo e importante na nossa vida, mas que nos dá razão de existir.

Claro que é um motivo de interesse adicional, o filme dizer-nos tanto a nós, portugueses, abordando uma parte importante da nossa história. Esta história em concreto do cristianismo no Japão, da presença dos jesuítas, foi também a história do expansionismo português, da cruzada espiritual que foi parte integrante e essencial do movimento de expansão de Portugal no mundo, em particular no oriente. Por isso é também a nossa história que ali está. Tocou-me em particular, logo nas cenas iniciais do filme, Scorsese ter-se dado ao trabalho de reconstruir o colégio de São Paulo, em Macau, cuja fachada e escadaria, que se vê no filme, são marcas indeléveis da imagem identitária que o antigo território português projecta, ainda hoje em dia.
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muito bom enquadramento histórico; ao colocar na boca das personagens 'portuguesas', embora a falar inglês, 'padre' ou 'deus', desejo que tenha sido uma espécie de homenagem a Portugal, enfim, não existindo actores portugueses; todavia, não apreciei particularmente a personagem do inquisidor, quero dizer, aquela pronúncia, aquele tipo de gozo, enfim, foi o que achei, mas concordo, pelo que li de muitas críticas, apesar de tudo, houve contenção, não sendo o melhor filme e sendo, no fundo, uma adaptação de um romance, embora baseado em factos e pessoas reais.
mas longo, muito longo...

embora reconhecendo esses aspectos que mencionas, não me queixo. por mim estava bem assim como estava :)

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