Previous Entry Share Next Entry
ainda mário soares
rosas
innersmile
1.
Ainda a propósito da morte de Mário Soares, não sei o que é pior: se os comentários ditos odiosos dirigidos ao antigo presidente, se os comentários ofendidos dirigidos aos autores dos comentários odiosos, aos chamados energúmenos para utilizar a expressão do sempre delicado Miguel Sousa Tavares.

Eu convivi com estes “energúmenos” toda a minha vida, cansei-me de discutir com eles. Acho, para falar com franqueza, que são ódios velhos, enquistados, cavalgados de sentimentos de injustiça e vingança acerca dos quais se perdeu a causa e o contorno.

É verdade que, por um lado, culpar Mário Soares pela descolonização é não fazer ideia do que aconteceu há 40 anos, e, pior, não querer ver que os ventos da história sopram de forma inexorável. Só quem não sabe ou não quer ver, é que não percebe que não havia soluções para a descolonização, nem boas nem más.

Mas também os comentários ofendidos pecam por falta de memória, é a típica indignação de facebook, a indignação do dia. Esquecem-se de que a descolonização teve um preço, e quem o pagou (para além dos naturais, que morreram aos milhares nas guerras civis que despoletaram nas ex-colónias, mal os portugueses de lá saíram) foram os milhares de famílias de portugueses que perderam tudo, cuja vida ficou reduzida a um contentor de madeira, que foram despachados em pontes aéreas, que foram expulsos e saíram com uma mão à frente outra atrás. Que, aos cinquenta ou sessenta anos de idade tiveram de começar novas vidas a partir do zero, em lugares que desconheciam de todo. Famílias que se separaram, muitas vezes dispersas por diferentes continentes. A descolonização foi feita sobre incontáveis tragédias pessoais, e quando hoje nos revoltamos com o flagelo dos refugiados, podemos lembrar que Portugal e os portugueses viveram esse drama, nem mais nem menos, há pouco menos de meio século!

Claro que culpar Soares por tudo isso, não faz sentido. Mas é assim, foi assim que aconteceu. E muito provavelmente aconteceu porque Mário Soares sempre foi um homem de acção e um político controverso. E branquear o seu percurso político, santificá-lo isentando-o de qualquer polémica, não será a melhor forma de o homenagear e até será um pouco injusto.

2.
Mas muito mais importante do que isso, parece-me ser de realçar que até na sua morte Mário Soares prestou um serviço à pátria. Raramente temos visto nas últimas décadas o regime ser tão enaltecido, ainda que pela via de um dos seus fundadores, como nestes últimos dias, tanto pelos políticos como pelo povo. Democracia e liberdade têm sido as palavras mais ouvidas por estes dias. Para além de todas as controvérsias e divergências, é importante sabermos aquilo que é mais importante, que é essencial. A democracia não é uma meta, um objectivo. É um caminho, um processo, que se faz diariamente, com progressos mas também com recuos, constantes. Nos últimos anos, quando todos aceitámos que a economia é mais importante do que o direito, que as finanças mandam mais do que a política, recuámos de forma significativa nesse processo para a democracia. É bom ver que, até na morte, a figura de Mário Soares nos ajuda a recuperar um pouco nesse caminho.

Nas inúmeras entrevistas que as televisões fizeram aos populares que acompanharam as exéquias, houve uma senhora, já com uma certa idade, que disse que estava ali para homenagear Mário Soares, agradecendo-lhe a democracia e a liberdade. Um pouco hesitante, a senhora explicou que “antes do 25 de Abril nós éramos… pobres”. Acho que não se consegue dizer melhor.
Tags:

?

Log in

No account? Create an account