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Ao longo das últimas semanas, a lenta agonia de Mário Soares, transmitida de forma despudorada praticamente em directo pelos media, tem sido acompanhada por um coro de opiniões contraditórias, em que os sentimentos de gratidão pelo seu contributo para o regime democrático actual, têm sido tão veementes como as ofensas e os insultos que lhe são dedicados. E nem a sua morte, ontem, aplacou a ferocidade dos comentários.

De certo modo ainda bem que assim é, e por várias razões. Desde logo porque mostra como Soares está vivo e presente no nosso colectivo social. Não é nem nunca foi uma estátua de si próprio, e sempre recusou, provavelmente mais por razões de carácter do que por modéstia, qualquer espécie de canonização em vida que lhe atribuísse um consenso adocicado.

Significa, além disso, que Soares sempre foi polémico, confrontacional, tomou partido. Sem dúvida o mais influente estadista do último meio século português, em toda a sua vida política Soares tomou posição, optou a favor de uns contra outros, escolheu e assumiu as escolhas, Deu assim azo a criar muitos ódios: dos retornados, por causa do processo de descolonização, dos direitistas, porque foi o epítome do regime democrático saído da revolução de Abril, dos comunistas, porque se lhes opôs durante o PREC. Por isso, e ao contrário do que aconteceu com Cunhal, nem na morte Soares foi consensual.

Pessoalmente, reconheço a Mário Soares o seu papel na criação do destino histórico em que hoje todos vivemos. Para o melhor e para o pior, o Portugal que Soares sonhou para si, é aquele que temos hoje em dia. E o melhor desse destino é a convicção de que mesmo o seu pior depende apenas de nós, dos que nós formos capazes de fazer. Essa ideia de um regime democrático feito por cidadãos que vivem em liberdade e são responsáveis por si e pelo seu país, é o maior legado de Soares.

Mas mais do que isso, reconheço a Mário Soares as suas enormes capacidades de político e homem de Estado, qualidades infelizmente raras hoje em dia. Admirei--lhe sempre, ou quase sempre, a conduta política, as suas opções, porque mesmo quando discordava delas, eram claras as suas razões e os seus fundamentos. Admirei-lhe sempre a coragem, que é, na minha opinião, a mais nobre das qualidades que um político deve reunir. E Soares tinha-as todas, a coragem moral, a coragem verbal, a coragem física. Admirei-lhe, ainda, a dignidade. Todos sabemos que a política tem um lado sórdido, baixo, feito de jogadas e infuências, de compadrios e traições. Não tenho dúvidas de que Mário Soares tenha muitas vezes jogado esse jogo, mas, pelo menos que me lembre, nunca perdeu a face, nunca se vendeu a troco de prebendas, nunca comprometeu o superior interesse público aos medíocres interesses de sobrevivência pessoal (se calhar porque não precisava, mas mesmo assim). E era esse desprendimento, ajudado por uma natural bonomia, que lhe dava dignidade, o saber que em democracia sempre se ganha e sempre se perde, e, como lhe ouvi mais do que uma vez, por vezes perder até é mais importante do que ganhar.

Mas admirava~lhe acima de tudo a sabedoria. A visão de Estado, conseguir olhar, como diz uma canção de Caetano Veloso, “pra fora e acima da manada”. Essa sabedoria, feita de muito bom senso, de inteligência, de argúcia, mas também de muita cultura, muitos livros, muito mundo, foi o que me fez votar nele inúmeras vezes (nomeadamente de todas as vezes que se candidatou a presidente da república, tanto quando ganhou como quando perdeu). Mas também foi o que sempre me faz ler os seus artigos de opinião, fossem sobre que tema fossem, porque sempre neles vi clarividência e perspicácia, e porque sempre com eles aprendi alguma coisa.

Viva a Liberdade.

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