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Fiquei muito triste com a notícia da morte do George Michael. Era um menino do meu tempo, e eu estava em Londres, em Maio de 1984, quando Wake Me Up Before You Go Go chegou ao top das charts britânicas. Não fiquei, mesmo nas condições difíceis em que me encontrava, indiferente aos dois rapazes dos Wham!, e sobretudo às suas pernocas bem feitas, alongadas pelos calções curtos que usavam no clip. Ainda nesse ano de 84, o George Michael lançou o Careless Whisper, que deixava claro que ele era o homem do duo, o responsável por todos os aspectos da música, e que a banda enquanto tal não poderia resistir muito tempo ao enorme sucesso das canções.

Os Wham! foram, juntamente com outras bandas da altura, responsáveis por eu me deixar de merdas, curar-me da mania de que a música pop não era a sério, e passar a gozar e a dançar à vontade. Devo isso ao George Michael, ao ponto de que, ainda na banda e depois nos discos a solo, ser claro que ele era um génio musical, um compositor de canções pop irresistíveis, um arranjador exímio e criativo e um grande cantor.

Outra coisa que sempre foi muito clara para mim, é que havia ali um apelo muito forte à homossexualidade. Talvez seja aquela coisa de it takes one to know one, mas sempre foi muito claro para mim que o GM tinha de ser gay. Bastava ouvir as canções, perceber.lhes o espírito, ver os clips com atenção. Nunca me deixei enganar pela imagem de heartthrobe que ele cultivou para gáudio das meninas adolescentes. Por isso não senti qualquer surpresa quando ele fez o seu coming-out, no seguimento do episódio do engate na casa de banho. E admirei muito a maneira como ele lidou com o assunto, ao lançar uma canção, e um video-clip, muito explícitos e muito divertidos, quanto à matéria.

Apesar de não ter feito muitos discos, a sua discografia não é nada irrelevante. Para além dos êxitos galáticos dos Wham! E do seu primeiro álbum a solo, George Michael fez dois grandes discos, o Listen Without Prejudice e o Older. Mas tenho de confessar que o meu disco preferido é o Songs From Last Century, um disco todo feito de versões, mas onde o GM demonstra sobejamente as razões pelas quais é um músico genial e o crooner de excepção.

Tive a sorte de ver o George Michael ao vivo, na sua única apresentação em Portugal, em 2007, um concerto que ele veio fazer à porta de minha casa, no estádio de Coimbra. Transcrevo a seguir o que escrevi aqui nessa ocasião.

"Falo, obviamente, do concerto de George Michael. E que concerto! Foi fabuloso, o tipo está numa forma perfeita, e foi dos concertos mais bem pensados que eu já vi. Foi sempre o GM, todo ele, que esteve ali, sem fazer o frete das canções mais antigas, e sempre a fazer a festa com as mais recentes. A própria noção de mise-en-scéne, com os músicos (quase) todos retirados para os lados do palco e o GM sempre em cena, no meio da cena, sozinho, num enorme telão que descia do alto, fazia de passadeira e terminava em rampa, e que era o principal monitor de imagens, isto para além de mais quatro ecrãs, dois com imagens do cantor e outros dois a ajudarem ao cenário.
Esta circunstância de o cantor estar sozinho em cena é, naturalmente, uma estratégia de consagração da sua estatura de estrela pop, mas o que lhe dá espessura, o que a torna mais do que um narcísico exercício de exposição, no caso deste concerto da tour 25Live, é que GM é mais do que uma mera estrela pop, é um verdadeiro músico, é um tipo que sempre teve controlo absoluto sobre o produto musical que ofereceu ao público (como o provou a batalha judicial para se livrar de um contrato discográfico que lhe condicionava a produção musical), é, para além de cantor, compositor da totalidade dos originais que grava, e é um músico com um projecto musical bem definido, o que é ainda mais notável dado que a área musical de GM é a sempre volátil canção pop.

Por tudo isto, foi um concerto memorável, um dos melhores que eu já assisti. Agora uma coisa um pouco desconcertante foi a quantidade de referências que eu ouvi à condição de homossexual do GM! Houve pessoas que eu conheço que se desinteressaram do GM, e desta oportunidade rara de o ver em Coimbra, pelo facto de ele “ser gay”. Disseram-se piadas, houve mulheres que foram sozinhas porque os maridos não queriam ir ao concerto do tipo que é paneleiro. Claro que isto mostra bem a tacanhez e o provincianismo da cidade. Mas mesmo independentemente destas atitudes mais imbecis, houve muitas referências à condição sexual do tipo. Como disse, achei um pouco desconcertante. Por um lado, dá-me gozo que as pessoas tenham de engolir o facto de existirem ‘role models’, pessoas de sucesso, que não escondem a sua orientação sexual e que a incorporam na sua prestação artística, como fez GM, com subtileza mas de modo assumido, em alguns momentos do concerto. Mas por outro, provoca-me algum desconforto a sexualidade de uma pessoa ser tema de discussão a propósito de uma circunstância para a qual a sexualidade é pouco relevante."

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Concordo.

Ainda faltam quatro dias. Quem mais, 2016? Quem mais?

um ano muito mau, sem dúvida :(

um ano dramático.
a ironia do dia da sua morte.


é verdade. a vida (deus?) às vezes parece ter um sentido de humor de uma ironia quase cruel.

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?

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