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cornucópia, último acto?
rosas
innersmile
O mundo está cheio de notícias tristes, algumas delas de uma tristeza que nos envergonha a todos, seres com a mania de que somos superiores e civilizados. Mas a notícia mais triste do dia de hoje deixa-nos ridicula e absurdamente mais pobres: diz que vai fechar o teatro da Cornucópia.

Há anos que não vou ao velhinho teatro do Bairro Alto, mas houve um período ali na passagem dos anos 80 para os 90 em que vi uma série de peças da companhia: Público, de Garcia-Lorca, Muito Barulho Por Nada, de W. Shakespeare, Apanhados no Divã (What The Butler Saw, no título original), de Joe Orton, Primavera Negra, de Raul Brandão, e, no Teatro da Trindade, Noite de Inverno, também de W. Shakespeare.

Todas, é claro, encenadas por Luís Miguel Cintra e com cenografia de Cristina Reis, com excepção de Muito Barulho Por Nada, com cenografia e figurinos, inesquecíveis apesar de já terem passado tantos anos, de Jasmim.
Ver, e sobretudo ouvir Luís Miguel Cintra em cena é uma experiência de espectador como há poucas, um daqueles actores com uma presença electrizante, absolutamente dominadora (no bom sentido do termo). Para além de Luís Miguel, havia toda uma galeria de excelentes actores que, na época, faziam parte do elenco habitual da companhia: o Luís Lucas, o Fernando Heitor, o António Fonseca, o Luís Lima Barreto, o Rogério Vieira, a Luísa Cruz, a Teresa Madruga, a Márcia Breia, entre muitos outros.

E foi graças às peças da Cornucópia que vi em cena a enorme Glicínia Quartin, que apesar de na altura já ter uma idade provecta, era uma actriz formidável, com uma maneira de estar em cena que tinha qualquer coisa de intemporal. Foi na peça de Raul Brandão, onde contracenavam igualmente Laura Soveral, Teresa Roby, Manuela de Freitas ou Diogo Dória. Um luxo!

Se isto foi apenas num período de 4 ou 5 anos, em somente 5 espectáculos, imagine-se o que foi num historial de mais de 40 anos. O teatro, não as peças escritas, mas os espectáculos em cena, são efémeros, irrepetíveis e sobretudo intangíveis. O património riquíssimo de uma companhia de teatro como a Cornucópia vive na experiência de quem por lá passou profissionalmente e principalmente na memória de quem entrou como espectador e aprendeu, divertiu-se ou comoveu-se na sombra silenciosa da bancada do público.

Mas a riqueza desse património está sobretudo na promessa de futuro que uma companhia de teatro como a Cornucópia, e de um artista como Luís Miguel Cintra, constantemente nos reservaram nestes mais de 40 anos. E é isso tudo, tudo isso, que, aparentemente, perderemos a partir de amanhã. É por isso que hoje notícia mais triste não há.
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