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No dia 25 de julho de 2005, e a propósito de uma exposição colectiva que teve lugar em Coimbra, sob a égide da figura de Inês de Castro, escrevi aqui um texto que começava assim: “Entra-se e há logo um enorme coração suspenso do tecto, vermelho, um coração de filigrana denso e transparente lírico e demente, pungente e artificial.” E mais à frente, terminei o texto da seguinte maneira: “(...) e voltando à peça fulgurante de Joana Vasconcelos, que nos devolve o mito de Inês de Castro não só enquanto arte plástica, mas mesmo enquanto matéria plástica. Que objecto é esse, que fascínio é esse, que palpita com a intensidade de um coração em sangue, mas que, visto em close up, não tem mais a sustentá-lo do que o mais efémero símbolo do nosso consumismo imediatista.”

A peça em causa era, como se percebe, o Coração Independente (Vermelho), e o que escrevi então resume bem o que ainda penso hoje da generalidade do trabalho de Joana Vasconcelos. Lembrei-me disto, e de ir buscar este texto antigo, a propósito, não tanto da polémica, mas do tipo e conteúdo das bocas que se mandam, sobretudo nas redes sociais, relativamente à sua mais recente escultura pública, o Pop Gallo, que foi instalada na zona da Ribeira das Naus, em Lisboa.

Não sou fanático do trabalho de Joana Vasconcelos, não fiz fila para ver a célebre exposição no Palácio da Ajuda, e, muito menos, fui a Versailles. Mas respeito e admiro o seu trabalho por razões que se condensam e depreendem no que fica escrito acima. Como se passa em relação a qualquer outro criador, gosta-se mais de uns trabalhos do que de outros, há peças mais felizes do que outras. Tudo isso é normal.

Agora o que provoca alguma irritação é esta moda actual de arrasar o trabalho de Joana Vasconcelos, em primeiro lugar retirando-lhe qualquer valor em termos de proposta artistica (estamos a falar de “mamarrachos”, o que tanto serve para o galo da Joana como para o prédio do Sócrates engenheiro) e, depois, trazendo essa discussão para fora do plano da arte (é protecção política, é compadrio, é mau gosto oficial do regime, e por aí fora).

Não é o facto de se discutir o trabalho de Joana Vasconcelos que me irrita, ou de haver quem goste e quem não aprecie. É o facto de, retirando-lhe qualquer caução artística, fazer deslizar a conversa da discussão para o plano pura da má-língua, do dizer mal.
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