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alguma coisa está fora da ordem
rosas
innersmile
Já não tenho paciência para tanto rasgar de vestes e tanto desvario, que vai do deprimido ao partisan, a propósito da vitória de Trump nas eleições norte-americanas. E tudo isto é mais grave quando estas reacções aparecem nos media e fazem as primeiras páginas dos jornais europeus. Irritam-me sobretudo aqueles comentários que assentam no pressuposto de que os americanos são burros. Já o foram quando elegeram o Bush, mas esquecemo-nos disso quando elegeram o Obama. Nada de novo, na maneira arrogante como nós, os decrépitos europeus, olhamos para a grande nação americana, tipo nobreza falida a olhar para os nouveau riche.

Como já aqui há umas semanas escrevi sobre o que penso da candidatura de Trump, estou à vontade para falar. De resto, ao que escrevi então, apetece-me apenas acrescentar que uma das características mais perturbadoras de Trump é a maneira como ele desvaloriza a verdade, como o seu discurso político é sempre feito daquilo que em cada momento ele acha que os seus apoiantes querem ouvir. Não há ideologia, mas nem sequer há um quadro de valores, só soundbytes; ou, em linguagem corporativa, não há missão, só estratégia. E já vamos ver porque é que isto é importante.

Li no site dezanove.pt um comentário muito interessante acerca do resultado das eleições americanas (link: http://dezanove.pt/luis-spencer-freitas-sobre-a-eleicao-de-1014039). Desconhecia o seu autor que, pela referência no próprio texto, será um português que trabalha numa empresa norte-americana. Acho que o texto é curto e claro, duas características muito importantes e nem sempre habituais, e tenta olhar para o que aconteceu com alguma limpeza, sem a poluição das nossas ideias pré-concebidas acerca de Trump.

Apenas discordo do artigo quando afirma que o “pior aspecto sobre a eleição do Trump não é o Trump ser presidente: é o facto de que existem milhões de pessoas por todo o mundo que concordam com ele.” Não me parece que esse seja o pior aspecto, aliás nem me parece ser esse o caso.

Na minha opinião, o que é importante neste resultado eleitoral é pensar nas razões que levam “milhões de pessoas por todo o mundo” a escolherem de forma consciente e deliberada, um candidato em quem não acreditam verdadeiramente, que sabem que apenas diz aquilo que julga que elas querem ouvir, que lhes faz promessas levianas e impossíveis, ao invés de outra candidata que tem um discurso consequente, alinhado, politicamente comprometido.

Hoje em dia as pessoas têm problemas muito concretos. Preocupam-se com o seu trabalho, a sua casa, o seu futuro e o dos seus filhos. A economia, dominada pela finança, trucida os interesses individuais e familiares. Não quer saber dos seus problemas, não se preocupa em resolvê-los. E a política e os políticos, de um modo geral, parecem ter-se sacrificado a esse primado da economia, dos grandes interesses. À necessidade de manter a economia dominada pela finança, porque essa é a única maneira que os políticos conhecem de assegurar a sua própria sobrevivência, alimentando um sistema do qual dependem. Os políticos resignaram-se, certamente por mero instinto de sobrevivência, a ser o rosto visível desse sistema. Por consequência, são eles que estão na primeira linha de fogo.

Por isso é que eu digo que as pessoas optam por escolher quem lhes dá respostas fáceis, ainda que inverosímeis. Por isso preferem quem promete construir muros, ou expulsar imigrantes, ou anexar países vizinhos, para resolver os problemas concretos, do dia a dia. Optam por quem lhes promete uma solução sem estar preocupado e cauteloso com o efeito que as suas palavras vão ter na abertura dos mercados financeiros do dia seguinte.

De facto, parece que a grande diferença de Trump é que ele, ao contrário de Clinton e da maior parte dos dirigentes europeus, não sofre do proverbial “medo dos mercados”. Diz literalmente o que lhe dá na gana, sem medo das consequências, sejam elas de que natureza forem. Mas essa é uma das grandes contradições desta eleição. Ao recusarem escolher um dos políticos que dão rosto ao sistema, as pessoas optaram, pela primeira vez, por um verdadeiro player. Ao contrário do que parece, Trump não é um ‘wildcard’; pode parecer um destrambelhado narcísico e perigoso, mas continua a ser um dos donos do jogo. É por causa dele, e de outros como ele, dos seus interesses financeiros, da forma tão implacável quanto discreta como exercem o seu poder, que as pessoas têm problemas concretos, com o trabalho e a sua estabilidade, com as dívidas que são obrigadas a contrair para sustentar a sua vida familiar, com o futuro dos seus filhos.
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na mouche a frase com que terminas esta sábia reflexão, pegando no adjectivo do Eduardo.

obrigado Margarida. fico sempre com a sensação de que não disse tudo o que tinha a dizer e, pior, de que não disso o que queria dizer :)

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