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os bárbaros
rosas
innersmile
Confesso que me chocam um bocado aquelas opiniões que põem no mesmo nível Hillary Clinton e Donald Trump, como se ambos fossem equivalentes e votar num fosse o mesmo que votar noutro, ou melhor, que não votar num valesse tanto como não votar no outro.

Não tenho especial simpatia por Hillary. Fui fã da presidência de Bill Clinton, mas nunca simpatizei com a primeira dama, apesar de reconhecer que passou por um mau bocado, e que foi inteligente na gestão da crise matrimonial, até à luz do futuro, do futuro tal como como ele é hoje. Não me entusiasmou quando foi secretária de estado de Obama, no primeiro mandato. Parece-me que está demasiado comprometida com certos lobbys, com os interesses instituídos, e com as grandes companhias comerciais ou industriais que a apoiaram e financiaram. Finalmente, não acho piada à ideia de marido e mulher ocuparem um cargo do nível da presidência dos EUA (ou pai e filho, como no caso dos Bush): para mim a política e o desempenho de cargos públicos devem sempre resultar de um apelo ao serviço do bem público, e esse apelo deve ter na base uma vontade individual e uma decisão livre, o que me parece estar de alguma maneira prejudicado por esta espécie de oligarquia nepotista.

Mas dito isto, parece-me um tanto perigoso pôr no mesmo saco Hillary e Donald Trump, mesmo que seja com a intenção de recusar o voto a qualquer um deles. A candidatura de Trump é um embuste, tal como o candidato. Trump não tem o perfil de estadista que o cargo exige, nem a visão ou o lastro ideológico que separa os grandes líderes políticos dos vendedores de banha da cobra. Trump não tem qualquer ideia para a América ou para o mundo, e a sua campanha foi feita de soundbytes, a dizer aquilo que ele sabe ou julga que o eleitorado mais conservador e ignorante quer ouvir, mesmo que para isso tenha de ser muitas vezes contraditório, insultuoso, ofensivo. A sua campanha surgiu de um impulso puramente comercial: era preciso um golpe espectacular que fizesse subir as audiências dos seus programas televisivos; e o sucesso da candidatura só se explica pela profunda crise que gera no seio do partido republicano, motivada por várias tentativas de arrastar o partido para posições ultra-conservadoras e de forte influência religiosa.

Por isso nestas eleições não se está a escolher entre um bom candidato e um mau candidato, ou mesmo entre dois maus candidatos. A escolha decisiva é entre uma candidatura apesar de tudo “normal”, ainda que fraca ou polémica ou demasiado comprometida com o sistema ou seja o que for, e uma outra que não passa de um absurdo, de uma bizarria perigosa que nos pode arrastar a todos, aos cidadãos de todo o mundo, para o mais profundo dos abismos.

A candidatura de Trump é de facto um embaraço, uma vergonha. Para os republicanos, para os norte-americanos, mas também para todos nós os habitantes desta civilização ocidental e capitalista. É nisto que está a degenerar a profunda crise, de princípios, de valores, de propostas, em que está mergulhado o Ocidente. E se é inquietante saber que os bárbaros estão às portas da cidade, parece ser ainda mais perturbador perceber não só que os bárbaros estão afinal cá dentro, mas que são eles que nos lideram e governam.
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