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sully (milagre no rio hudson)
rosas
innersmile
É preciso passar por cima do choque, e mesmo de um certo asco, do apoio político de Clint Eastwood à inenarrável candidatura de Trump à presidência dos Estados Unidos. Mas dos vários filmes em cartaz que eu gostaria de ver (Almodovar novo, Tim Burton novo, a Meryl Streep, entre outros), tinha de escolher Sully (título em PT, Milagre no Rio Hudson).

Eastwood é, acho eu, o realizador que faz os filmes que actualmente mais prazer me dão ver. Gosto de tudo nos seus filmes, sobretudo da narrativa, da maneira, contida e seca, como ele conta as histórias, aliás, e começando pelo princípio, pela própria sensação de que Eastwood faz um filme porque tem uma história para contar, e então decide contá-la da maneira mais simples e eficaz de que é capaz. O narrador, ou seja o próprio realizador, torna-se quase invisível, toda a primazia é dada ao que acontece no ecrã, e só um grande cineasta é capaz disso, de não interferir no assombroso poder das imagens que ele próprio convoca.

Gosto da maneira como ele dirige os actores, e neste filme o trabalho de Tom Hanks é impressionante. Com um mínimo de recursos, ou melhor com um domínio pleno da maneira de usar os recursos que possui, Hanks consegue trazer ao rosto, quando não apenas ao olhar, todo o conflito interior que dilacera a personagem de Sully.

Finalmente gosto dos temas que Eastwood escolhe para tratar nos seus filmes, Neste Sully, partindo de uma notícia da telejornal (um avião que em pleno processo de descolagem choca com um bando de aves e é obrigado a ’aterrar’, de emergência, nas águas geladas do Hudson em Janeiro), o realizador vai à procura da verdade dos protagonistas dessa notícia, e encontra, como de resto tem acontecido nos seus mais recentes filmes, uma reflexão profunda sobre o heroísmo, sobre a sua natureza, sobre aquilo de que é feito; sobre a capacidade de o homem comum se suplantar a si próprio nos momentos extraordinários, e sobre como essa suplantação não é uma coisa fácil de se lidar, nos enche de dúvidas e remorsos, de conflito e dilema.

Sully, o personagem, invoca aquilo que tem de mais vulnerável (o tempo que demora a tomar uma decisão, o factor humano como elo mais frágil de uma cadeia de procedimentos testados e infalíveis) para justificar a sua decisão; o fantasma da dúvida interior, a assombração das possíveis consequências dos seus actos, esses ficarão sempre a conviver com ele.
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