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Na sexta-feira passada, ao final da tarde, fui ao Gil Vicente, para um encontro com os escritores Luís Sepúlveda e Richard Zimler, numa iniciativa da Porto Editora. A primeira coisa que me surpreendeu foi a quantidade de gente que compareceu ao encontro, a plateia do teatro estava quase cheia, de um público muito atento e reativo; incrível, um final de uma bela tarde de verão, e um teatro enche-se para ouvir falar de livros e de literatura.

Claro, a identidade dos autores presentes ajudou. Não sendo qualquer deles um daqueles nomes que associamos ao “best-sellerismo”, são ambos escritores muito populares, com imensos e fiéis leitores, e talvez o facto de, pelas caracteristicas muito particulares das respectivas obras, conseguirem criar essa relação de fidelidade por parte dos leitores, ajude a explicar a enorme comparência.

Li muito os livros do chileno Luís Sepúlveda, durante uma determinada fase da minha vida. Depois, houve um dia que me cansou, e nunca mais li nada dele. Talvez um dia destes volte a experimentar. Mas a sua parte da conversa talvez me ajude a perceber melhor as razões desse cansaço. Sepúlveda escreve muito bem, é um exímio e feliz (e sedutor) contador de histórias, como ficou provado no palco do Gil Vicente, mas há, nos livros como no discurso, qualquer coisa que me arrefece, como se o autor soubesse demasiado bem usar as cores da sua paleta para provocar determinada resposta emocional no leitor / ouvinte. Sepúlveda conta uma história, aquela história e daquela maneira, porque sabe com grande grau de confiança que os “seus” leitores vão aderir.

Neste aspecto, Richard Zimler pareceu-me muito mais espontâneo e honesto, na sua apresentação perante o público. Expõe-se mais, corre mais riscos, mostra até uma certa candura. Não li tantos livros de Zimler como de Sepúlveda, e acho que os livros do luso-americano não têm o aprumo, e até a ambição, cultural até mais do que literária, dos do chileno, mas Zimler tem, no palco do teatro como nas suas obras, um compromisso com a vontade de narrar, com as histórias que conta e as suas personagens, que me toca e entusiasma.

Seja como for, foi um belíssimo final de tarde. Tive sorte, porque neste encontro, compareceram dois escritores que conheço bem e de cujos livros gosto, e isso, é claro, potencia o interesse por este tipo de iniciativas. E fiquei com pena de não haver mais iniciativas como esta. Até os lançamentos de livros têm sido menos frequentes nos últimos tempos, e, para falar com franqueza, os que tem havido não me têm motivado, por não conhecer os autores e a sua obra.

Depois da sessão no Gil Vicente, um café na esplanada da Casa das Caldeiras e um jantar no redescoberto restaurante a Toscana, sempre com a melhor das companhias, ajudaram a dar ainda mais sentido, e alegria, ao dia de Camões (sim, não escapou a deliciosa ironia de uma sessão literária a decorrer no dia de Portugal ter como convidados dois escritores estrangeiros ainda que, em ambos os casos, tenham fortes ligações ao nosso país).
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Há muito disso, de autores que, por mais culto/literatos/dominadores da sua língua que sejam, acostumam-se a repetir a mesma fórmula, não é? Também há os que repetem as fórmulas dos outros!

Esclareço que não falo desses autores aí em cima, que desconheço.

Mas teu relato foi muito alegre - reflexo da experiência também feliz. E se bem acompanhado, tanto melhor!

Er... era eu! Esqueci de fazer o login.

sim, a companhia nestas coisas é muito importante.
mas não queria que o meu texto soasse muito castigador em relação ao Luís Sepúlveda. mesmo estando um pouco distante dos seus livros, não me esqueço das muitas horas felizes e entusiásticas que os seus livros já me proporcionaram.

Maravilha. Miguel! A receita é a chave do sucesso. Ou do bestselling! O Zimmler lançou ontem um livro infanto juvenil. Vou ver se o encontro hoje. Fiquei curiosa! Beijinhod

Beijinhos. Erro meu! Madalena

sei sempre quando és tu Madalena. as palavras escritas soam sempre a ti.

muitas vezes passo pelo RZ no areeiro, eu a caminho do trabalho, ele a entrar para a estação (ou já lá dentro), mas nunca ganhei coragem para o cumprimentar e dizer que gosto dos seus livros. também já vi o AQ, claro.
os autores por cá estão mais à vontade - ou o povo não tem aquela loucura (tirando algumas excepções, claro), como lá fora. eu sinto-me constrangida em interromper, quando estão na sua vidinha, mas, se calhar, até estimariam um contacto mais directo (isto fora deste género de eventos como descreves, ou das feiras de livro e das sessões de apresentações dos ditos...).
também é o caso do GMT, que vejo amiúde, porque vive muito perto do meu trabalho, mas nunca lhe dirigi palavra.

também nunca tenho coragem para abordar os meus ídolos literários ou outros (o Camané à saída de um teatro, por exemplo). parece sempre que é uma intromissão, que as pessoas têm o direito a não ser importunadas pelos melgas dos fãs. mas também suponho que grande parte deles, e os escritores em particular, até apreciariam (dependendo da ocasião e das circunstâncias, claro)
mas se me cruzasse com o RZ ou com o AQ, gostava de ter coragem para os abordar, só para lhes dizer que eles fazem parte do grupo de pessoas que traz felicidade aos meus dias :)

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