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o pai bruno
rosas
innersmile
Fui no domingo passado, na companhia do meu amigo Zé, encontrar-me com o Bruno que estava mais uma vez, por razões profissionais, de passagem por Fátima. Gosto sempre destes encontros que se vão tornando habituais, e gosto que sejam em Fátima, um lugar muito improvável para nos encontrarmos. E gosto também que esses encontros sejam sempre ao final da tarde e à noite; não apenas porque a essa hora o local está com muito pouca gente, mas porque de certo modo aumenta uma certa implausibilidade desses nossos encontros: dois amigos fraternos, um brasileiro e um português, duas ou três vezes por ano, encontram-se ao final da tarde junto ao santuário de Fátima, jantam, pôem a conversa em dia, bebem água da fonte que está a meio do santuário (é tradição dos encontros), e despedem-se com um abraço apertado, até à próxima. Parece o enredo de uma short story muito atmosférica e um tanto mística (dado o número de padres e freiras e crentes em penitência que andam sempre por ali).

Desta vez o encontro teve um aspecto particular que foi ser o primeiro desde que fizemos férias em Cabo Verde, e, por isso, serviu também para devolvermos coisas que tínhamos trocado nas férias, por exemplo livros. Mas o aspecto mais fabuloso deste nosso encontro foi o Bruno ter trazido com ele um pequeno caderno de capas pretas, muito antigo e já com sinais de desgaste, que o pai dele, também chamado Bruno, transformou num guia da viagem que pai e filho fizeram, em dezembro de 1974, tinha o Bruno (filho) 10 anos, em Portugal e Espanha. Pode parecer coisa pouca, trazer assim um caderninho para mostrar ao amigo. Mas não é: o Bruno já saiu de casa há mais de duas semanas, o caderninho já viajou pelo Egípto, Terra Santa, e Roma, e agora finalmente chegou a Portugal. Ou seja, um caderno de viagem em viagem!

O nível de detalhe do caderno que o pai Bruno preparou é impressionante. Informações essenciais sobre ele próprio, a sua identificação e contactos: próprios, das embaixadas, dos escritórios das companhias aéres, de empresas de rent-a-car, dos hotéis onde tinha reserva. Informação sobre os carros que alugou para a viagem, nomeadamente as marcas. Um guia detalhado de todos os percursos a fazer na viagem, com uma pequena descrição das cidades, lugares a visitar e restaurantes. Em Coimbra, por exemplo, o Bruno pai apontou, entre outros, os restaurantes Pinto de Ouro e Jardim da Manga. O caderno é complementado com anotações feitas durante a própria viagem: um pico em ‘V’ nos lugares efectivamente visitados, mudanças ao plano inicial, ou outro tipo de notas.

A tarefa de construir este guia é tanto mais notável se nos lembramos, como o Zé chamou a atenção, de que foi preparado nos anos setenta do século passado, antes de haver internet e de a informação estar disponível com a facilidade actual. Ou seja, como é que o pai do Bruno, lá no Rio de Janeiro, descobriu que havia em Coimbra um restaurante Pinto de Ouro?!

E depois, tudo escrito num cursivo muito bonito e elegante, em caneta de aparo, tinta azul, num caderninho pautado de capas pretas. A sério, parece coisa de filme...

Poucas vezes na vida tenho visto um objecto assim, tão simples, tão bonito, tão fascinante (apeteceu-me logo ficar com ele). Tão pessoal e íntimo, e, ao mesmo tempo, um documento para o futuro, como projecto e também como memória. Fiquei de imediato a sentir uma imensa ternura pelo pai do Bruno. E sendo já tão amigo de Bruno, parece que, através do seu pai, fiquei ainda mais seu amigo.

edit:
O Bruno enviou-me três fotos do caderninho da viagem a Portugal: uma da capa, duas das páginas referentes a Coimbra. Aqui ficam elas, para ajudar a perceber a jóia que é este objecto.




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ao ler isto até eu fiquei fã do pai do Bruno ;)

se tivesses visto o caderninho então... :)

Depois desta viagem, não somente fiquei com um carinho especial por Portugal, como foi profundamente formativa da minha cosmovisão. Talvez por isto esteja, na medida do possível, revisitando alguns dos lugares. Foi uma honra e alegria compartilhar este momento com os dois amigos.

Edited at 2016-06-01 05:36 pm (UTC)

foi muita generosidade tua partilhares este objecto tão precioso. acho que de algum modo fiquei a conhecer o teu pai, como se tivesse ido lá à casa grande almoçar.

ia comentar o post anterior, sobre estares a perder as referências, quero dizer, em termos físicos, apenas, que fizeram parte da tua infância. mas agora conheceste algo da infância do Bruno e que ele partilhou contigo e decidi comentar um 2 em 1, porque fado e cadernos e viagens - mesmo as do bruno e seu pai - e és tu em tudo isso :)

obrigado Margarida, tão bonito isso que me disseste, e tão bonita a maneira de o dizer

É por isso que a vida tem o seu encanto, as pessoas que conhecemos e as que não conhecemos mas também as sentimos.

sem dúvida meu caro, são os outros que dão encanto às nossas vidas

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