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esferográfica
rosas
innersmile


Quando teve de ser internada nos cuidados paliativos, nas vésperas do natal de há dois anos, a minha mãe tinha uma esferográfica Bic presa pela tampa num dos seus livrinhos de palavras cruzadas. Como nos dias seguintes ao seu internamento ainda melhorou um pouco, eu levei-lhe os livrinhos e a esferográfica, que ficaram na gaveta da mesa de cabeceira até ela morrer. Quando arrumei as suas coisas, tirei a esferográfica e levei-a para o meu gabinete. Como escrevo quase exclusivamente no computador, a esferográfica serve para tomar notas em reuniões e, principalmente, para despachar as pilhas do expediente diário. Ontem, a tinta acabou. E agora eu olho para ela, sem saber muito bem o que fazer a um objecto vazio, inútil, mas tão carregado afetiva e emocionalmente. É que a memória, a nossa, e a dos outros, também habita estes objetos do dia a dia, banais, quase irrelevantes. Pelo menos por enquanto, guardo-a na gaveta.

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Guarda-a. Agora até pode ser doloroso, mas no futuro vai-te saber bem olhar para ela.

http://anfitriaodelisboa.blogspot.pt/

guardei-a, claro
lidar com a dor faz parte da vida. ao contrário, seríamos um pouco patetas.

Olha, compra uma igual e troca a carga, pelo menos ficas com uma recordação funcional.

Às vezes também sou assim, dou significado especial a objectos tão vulgares. É claro que para ti não é vulgar.

Um abraço

Um certo ribatejano oestino

agora uso uma daquelas bics douradas, muito barrocas e até um pouco gay. credo!

tal e qual como o conto da LD sobre a irmã.
guarda na gaveta, sabes que lá está e de cada vez que a abres, é um pedaço da tua mãe que ali está.

tenho o projecto de ler a LD há tanto tempo. há um sampler de um livro dela no meu kindle que já deve estar cheio de bolor. but so many books...

Os objectos que trazem a recordação também trazem, por vezes, a dor. Se é isso que te acontece então guarda-a na gaveta. É que a dor que podemos evitar deve ser evitada. Não há dor que faça bem, toda a dor faz mal.
Oh, o que sofro com as memórias dolorosas sem que eu possa fazer nada.
Um leitor que te acompanha nesta e noutras dores semelhantes.
Abraço.

Obrigado pelo comentário. mas não sei se concordo inteiramente. a dor faz parte. não a sentir quando ela é natural é que me parece estranho. retribuo a solidariedade do abraço.

Eu também tenho alguns (senão muitos) objectos que associado a várias pessoas e sei o quanto custa ter aqueles para os quais as pessoas já não estão presentes entre nós.

São as memórias que alimentam a saudade, e essa por vezes nos faz sentir vivos.

Abraço,

sem dúvida. há objectos, mesmo irrelevantes, de que me custa muito separar, por serem o elo de ligação a memórias muito intensas

Edited at 2016-05-16 07:29 am (UTC)

Querido Miguel.... Eu guardaria.... Beijinhos grandes. Madalena

claro que sim Madalena. beijo grande

sempre complicado, pelo menos para mim. durante um ano mal toquei nas coisas da minha mãe por não saber exactamente o que fazer com elas e porque emocionalmente não conseguia. há pouco tempo comecei, aos poucos, a organizar o que ficou para trás.

ainda hoje, essa lembrança, a de me desfazer das coisas da minha mãe, das pequenas coisas do dia a dia, dos pequenos objectos que faziam parte da sua vida quotidiana, é das mais dolorosas.

por motivos que não vêem ao caso este texto tocou-me e a lagriminha caiu.

são quase sempre estas coisas do quotidiano, pequenas e irrelevantes, que nos dão a medida da grandeza do afecto e do amor que já recebemos.

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