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ettore scola, una gionata particolare
rosas
innersmile

Faleceu, no início desta semana, o realizador Ettore Scola, um dos mais distintos cineastas italianos. Apesar de recentemente não ser muito falado, Scola nunca deixou de fazer cinema e ali entre os anos 60 e os anos 80 realizou uma mão cheia de filmes muito populares. Alguns nunca vi, como Tão Amigos Que Nós Éramos ou Terraço. Mas vi três filmes verdadeiramente extraordinários, e inesquecíveis: Feios, Porcos e Maus, O Baile, e sobretudo Um Dia Inesquecível.

Encontrei nos arquivos do livejournal dois pequenos textos que escrevi sobre Una Giornata Particolare, a propósito da sua retransmissão na TV, em outubro de 2002. Apenas acrescentar, para contexto, que o filme passa-se no dia em que Hitler chega a Roma, em maio de 1938, para fazer uma visita a Mussolini. Num prédio de habitação popular, toda a gente sai para assistir ao histórico encontro, menos uma dona de casa mãe de seis filhos, cansada mas voluptuosa, e um radialista duplamente acossado, por ser homossexual e anti-fascista.

No dia 8 de outubro:
“(...) logo à noite, na rtp2, vai passar Una Giornata Particolare, que é o melhor filme do Ettore Scola (porque é que os filmes dele deixaram de passar cá na merdaleja?), o melhor filme do Marcello Mastroianni (e não me estou a esquecer do La Dolce Vita) e, apesar de esta não ser muito difícil, o melhor filme da Sophia Loren. Um filme 'pequeno', intímo e intimista, nada pretencioso, mas verdadeiramente admirável, sobre um acontecimento verdadeiramente "particolare": duas pessoas que não podiam estar mais longe uma da outra, encontram-se (no sentido físico, mas também no sentido espiritual do termo) num dia que a história se faz para lá da janela do apartamento que partilham.
Uma obra-prima, que estará hoje à distância do botão "rec" do telecomando.”

E no dia 9:
“Uma das inúmeras razões que tornam o filme Una Giornata Particolare verdadeiramente admirável, tem a ver com as diversas dualidades que o filme vai estabelecendo. Há sempre dois planos que se estão a desenrolar simultâneamente e que se vão encontrando, cruzando e afastando. Inscrevendo a matriz fundamental do filme, o seu p(l)ano de fundo, está a dualidade entre o que se vai passando lá fora, na parada militar a que assistem Mussolinni e o seu convidado Hitler, e que vamos acompanhando pare passu através da reportagem radiofónico (outra dualidade: Gabriele acaba de ser despedido da estação de rádio), e o que se passa cá dentro, entre os dois protagonistas (outra dualidade: no filme há dois encontros, um lá fora e outro cá dentro). A visita de Hitler a Itália teve início a 6 de Maio de 1938, quando a ascenção do nazi-fascismo era ainda uma dupla promessa: um apregoado horizonte de glória para a Europa (o império nazi era um programa para durar 1000 anos), e um encontro marcado com o terror e a ignomínia absoluta. E o filme (ajudado, é certo, pela história) nunca nos deixa esquecer que estamos à beira do abismo.
[Antonietta e Gabriele, eles próprios, são personagens dúplices ao longo da narrativa, tal como são sempre dúplices as posições de um em relação ao outro (dir-se-ia que o único momento em que se encontram será aquele em que fazem amor, mas esse não nos é mostrado)].”


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Para mim também é o melhor filme dele e é curioso que gostei muito de ver a peça com a Maria do Céu Guerra e o João d'Ávila na Barraca.
Mas "O Baile" é também um filme absolutamente assombroso nos seus silêncios...

eu essa peça não vi, mas vi O Baile, penso que numa produção da Barraca, também com a MdCG.

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