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mia madre
rosas
innersmile
Consegui finalmente ver Mia Madre, o mais recente filme de Nanni Moretti. É inevitável pensar em La Stanza Del Figlio e até em Caos Calmo, um filme de que Moretti foi argumentista e actor. Todos estes filmes lidam com o tema do luto, com a devastação emocional, quer individual quer familiar, que representa a morte de alguém que faz parte do nosso círculo mais íntimo.

Moretti tem uma maneira muito particular, e muito eficaz, de se aproximar do melodrama. Tal como acontecia com O Quarto do Filho, há uma enorme subtileza no modo como aborda os sentimentos, nunca os mostrando ou nomeando, mas criando momentos ou espaços de silêncio nos quais as personagens, e nós com elas, se confrontam na sua própria solidão e desamparo.

Como Mia Madre também é um filme de comédia, um dos gags recorrentes tem a protagonista, Margherita, uma realizadora de cinema a rodar um filme de intervenção social e política, a dar aos seus actores a seguinte orientação: ela quer que eles sejam o personagem mas que ao mesmo tempo estejam, enquanto pessoas, ao lado da personagem, fora dela. Trata-se de uma instrução que os actores têm dificuldade em compreender, quanto mais executar, mas que é o que acontece no filme com espantosa eficácia: o filme é o que a câmara mostra, é o que está ali, mas é sobretudo o que está ao lado, o que está fora, a vida, o tumulto interior das personagens que apenas assoma nos pequenos gestos, nos olhares, no desânimo que de súbito tira ritmo aos passos quando caminhamos, nos breves momentos em que a tensão não pode mais ser contida e explode em breves mas devastadoras erupções.

Se O Quarto do Filho abordava o luto propriamente dito, o efeito irreparável de uma morte brutal e inesperada, Mia Madre centra-se nessa espécie de luto antecipado com que se vive uma morte anunciada: sabemos que vai acontecer, inevitavelmente, mas também em vão, tentamos preparar-nos para o pior que nos espera, tentamos lidar com a insuportável iminência da falta que nos vai fazer não apenas a pessoa de quem nos despedimos, mas também o amor que nos liga a ela. Aos poucos, a nossa vida passa a ser vivida quase inteiramente sob o plúmbeo céu da compaixão, do desânimo, da tristeza, da preocupação. As coisas do dia a dia, os pequenos incidentes e contrariedades, os caprichos dos outros, tudo isso se torna abrasivo. A dor imensa começa a esconder-se debaixo de uma espécie de conformismo bovino, animal; uma coisa sem nome e sem tacto. Uma mancha.

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«...ela quer que eles sejam o personagem mas que ao mesmo tempo estejam, enquanto pessoas, ao lado da personagem, fora dela.»

...

Talvez seja essa a realidade que sobra daquela outra que conferia equilíbrio à vertigem dos calendários. De súbito, é preciso "estar" em dois lugares talvez paralelos mas que não têm como "encaixar-se".

Há nisto uma quase subversão que, como referes, torna tudo terrivelmente abrasivo. Uma dor que teima em vir à superfície, quando os sentidos - ou a razão - procuram proteger nos flancos da memória.

Um dilema que, afinal, acaba por ser a trajectória de um desafio cujas regras desconhecemos.

e, de certa maneira, ou possivelmente, para vencer o desafio basta aceitá-lo; aceitar o desafio, ter consciência dele, recebê-lo, vivê-lo quotidianamente, é já vencê-lo.

mas quando tudo é demais e não aguentas, como a cena da inundação; não consegues controlar nada, uma metáfora, mas acabas por encontrar conforto na casa da mãe, porque ainda havia, ainda, a casa da mãe.
tinha de haver um bocadinho de comédia, senão, como seria...?
mas é interessante constatar que à medida que o actor americano lá acerta com as cenas, mais o fim previsível se aproxima, e uma casa vazia, à qual não poderás voltar.

essa cena da inundação bateu-me forte. tive alguns dias assim o ano passado (está a fazer 1 ano!), um deles o dos meus anos. em que sentia que a vida (ou seja lá quem ou o que for) parecia que se divertia a carregar mais um bocadinho, a ver até onde o gajo aguenta, qual é o ponto onde ele parte.

outra foi esse plano que referes, o da casa vazia. está tudo ainda muito recente.

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