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é só não ser visto
rosas
innersmile
Já perdi muitas pessoas na vida, já vivi muitas mortes. Algumas chocantes, que nos deixam revoltados ou cheios de angústia; outras mais tranquilas, que chegam como se estivéssemos à sua espera, por muito injusto que isto possa ser para quem parte, e por muita saudade que nos deixe. De certa maneira, podemos dizer que a vida, a nossa vida, a vida de qualquer um de nós, é feita de perdas, das pessoas com quem nos cruzámos, ou que amámos muito, e que vão partindo. Sobretudo a partir de uma certa idade, em que começa a ser mais ou menos frequente a morte de pessoas que conhecemos ou, mais do que isso, que fizeram parte das nossas vidas. Ou, mais ainda, que dela faziam parte de maneira essencial, estruturante.

Isto porque hoje era o dia de aniversário do Saint-Clair. A minha vida nos últimos anos foi marcada por duas mortes, a da minha mãe e a do Saint. E apesar de terem já passado quase três anos desde que o Saint morreu, e de a sua ausência me continuar a pesar, ele continua muito presente na minha vida, na minha vida de todos os dias. É verdade que aqueles que amamos muito não morrem dentro de nós. O que é bom, porque a sua recordação nos embala e aconchega os dias, mas não nos oferece grande consolo, porque parece que torna absurda a ideia de estarmos vivos sem eles.

No outro dia fui a uma missa, e gostei muito da homilia do padre. Não sei se cheguei a falar nisso aqui, mas foi há pouco mais de um mês. Foi pouco depois do dia de todos os santos, e a missa era por intenção dos fieis defuntos. Primeiro, o padre tinha uma voz e uma dicção muito bonitas, fazia-me lembrar a voz do Vinicius de Moraes envelhecido. Mas eram as suas palavras que faziam um sentido extraordinário. No fim da missa, nas suas palavras finais, o padre exortava-nos a não fazermos da lembrança dos nossos queridos mortos um motivo de tristeza, e garantia-nos de que o nossos entes queridos estão sempre connosco e que se eles pudessem falar aquilo que nos diriam era: Vive! Vive!


[O título deste texto foi roubado a um poema de Eugénio Lisboa, intitulado 'Transparência']

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Vivamos então, e o melhor que pudermos, pois há outros para quem nossa presença é tão importante quanto.

e cujas presença, carinho e amizade, são tão importantes para nós.

Edited at 2015-12-28 07:40 pm (UTC)

Apesar de sentir uma "pureza" quando entro numa igreja, não é um local que me puxe para lá ir, posso-me sentir bem mas não deixo de sentir o resto, e esse resto deixa-me bastante angustiado.

apesar de não ter fé religiosa, nem sequer ser crente, ir a uma igreja, ou mesmo assistir a uma missa, dá-me o sossego e a possibilidade de concentrar os meus pensamentos nas minhas emoções e nas saudades que sinto de quem já partiu.

Como eu te compreendo. Nas vésperas de Natal morreu mais um vizinho, familiar de familiares. Foi triste, principalmente para as pessoas que estavam em sua volta, que com ele interagiam.

Aprendi com alguém a não ir a funerais, prefiro lembrar-me das pessoas em vida, ao invés de um corpo dentro de uma caixa de madeira e tecido. É a forma simples que arranjei de fugir aos momentos melancólicos que tal normalidade da vida acarreta.

A missa às vezes conforta... noutras a distracção abraça-nos e só queremos sair dali o mais rápido possível, sem dar nas vistas.

Abraço

Adorei o texto


Um ribatejano qualquer perdido num Oeste

obrigado pelo teu comentário, Ribatejano. já tinha saudades tuas :)

não gosto de ir a funerais, claro, acho que ninguém gosta. mas vou sempre que a minha consciência ou a minha vontade a isso me indicam.

e sim, há missas insuportáveis, outras que nos confortam. acho que é como tudo: depende do oficiante e da sua habilidade :)

Meu caro, o Saint era louco por ti. E teu padre está corretíssimo, na minha opinião, nossos entes queridos estão sempre entre nós, sim. Nossa lembrança ativa o fluido universal que a tudo envolve e toca e, à maneira de vasos comunicantes, alcança-os com nossa mensagem de carinho e amizade.
Ontem, aqui em Bauru, foi um dia chuvoso e triste, aliás como hoje e como praticamente em todo final de ano. Também foi aniversário de outro amigo, este mais recentemente conquistado, e pensei nos vivos, nos mortos, nos próximos, nos distantes, e pensei que, afinal, todos estão no presente e aqui dentro, onde nos é mais caro e cálido.
Um abraço e um excelente ano-novo, meu querido! Edu.

obrigado meu querido Edu. bom ano para ti.

vai ver 'coração de cão'. e só sai quando terminar a canção.

não me castigues, Margarida. o 'coração de cão' só está em Lisboa! ainda não vi o Moretti, nem sei se ainda estará em exibição. tem alturas em que odeio isto de viver na provincia e de portugal ser só lisboa :/

não sabia. tenho 3 cinemas nos favs, o de casa, a medeia e o UCI. nem no Porto está? minha mãe fez-me recordar tudo, mas o mais pungente foram as mãos. não conto mais, se puderes não percas.

é, acho que só está em duas salas de lisboa. estou cheio de vontade de ver o filme, pelo tema, mas também porque adoro a Laurie Anderson, é uma das deusas do meu altar.

Abraço apertado, Miguel!
A perda da minha mãe lançou-me para a linha da frente! Embora aparentemente pudesse ser sentida e vivida como o desaparecimento do meu pai, a verdade é que não é. O meu pai viveu muito intensamente, pintou, escreveu, dançou, aou.... Tudo até ao limite! faz sentido! A minha mãe esperou até ao último dia por um amor que não veio e essa falta sente-se quando se faz o balanço.
Esse padre também me convence!
Vive! Vive!
Beijinhos
madalena

É curioso, porque agora ao ler este teu comentário, apercebi-me que foi por causa dessa característica do teu pai de viver intensamente, que nós os dois nos conhecemos. tudo devemos a quem nos ensinou a amar, é bem verdade.
um beijo enorme

É interessante como os mortos continuam a viver conosco, por tempos à fio. É uma dinâmica um tanto quanto estranha.

não é assim tão estranho Bruno. eles continuam vivos dentro de nós, a parte que eles ocupavam em nós, continuam sendo ocupada por eles.

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