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acta est fabula - memórias V - regresso a portugal (1995-2015)
rosas
innersmile


Faltam-me poucas dezenas de páginas para terminar a leitura do V volume das memórias de Eugénio Lisboa: Acta Est Fabula. Nos últimos quatro anos, desde 2012, o final do ano tem sido marcado por um novo volume, faltando apenas o II, ainda por escrever, que cobrirá o período em que o autor veio de Moçambique para Lisboa estudar engenharia.

Ao contrário dos dois primeiros volumes publicados, que percorriam os períodos moçambicanos da vida de Lisboa (a infância e a idade adulta, até à saída do país na sequência da sua independência), e que eram verdadeiras memórias, ou seja um relato escrito a partir da memória, o anterior e sobretudo este repousam essencialmente nos diários que o autor foi mantendo, de forma mais ou menos regular, mais ou menos intermitente.

Os diários que cobrem os anos de vida de Eugénio Lisboa desde o regresso a Portugal, em meados dos anos 90, até à actualidade, são marcados por um particular pessimismo. Muito o da consciência de estar a viver a última etapa da vida, ainda que felizmente longa (Lisboa fez este ano 85 anos de vida, e vinte desde esse regresso de Londres). Mas muito, igualmente, proveniente de muito desencanto com o Portugal contemporâneo, que veio acrescentar um certo nivelamento por baixo, em termos culturais mas até “civilizacionais”, a um país já de si pequenino, para não dizer medíocre.

Mas este pessimismo não contamina o texto, que é sempre muito expressivo e mesmo caloroso, no que acompanha a vida sempre cheia de Eugénio Lisboa, quer por causa da sua actividade de intervenção cultural, em particular no que à literatura diz respeito, quer em função das inúmeras viagens que faz, umas por dever de profissão, muitas outras por razões da vida pessoal e familiar. Para além de tudo, Eugénio Lisboa não tem papas na língua, proclamando com veemência quer os seus amores (Régio e a presença ou o escritor francês Henry de Montherland) quer os seus ódios (Saramago e Virgílio Ferreira estão sempre na berlinda).

As últimas páginas destas Memórias refletem naturalmente as perdas que Eugénio Lisboa vem sofrendo: a mãe, outros familiares, os amigos, os gatos. As considerações que, nos diários, faz à morte da mãe são tão comoventes e verdadeiras, perpassadas por sentimentos de perplexidade e abandono. Tocaram-me muito. Mas verdadeiramente pungentes são as notícias que Lisboa nos vai dando da morte dos seus gatos, da dor mansa e inominavel que sentimos quando perdemos um desses mais raros, afectuosos e indecifráveis companheiros que uma pessoa pode ter na vida.

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Um dos meus muitos defeitos, é não conseguir ler livros passados em Portugal, já li alguns mas são de longe os que me puxam ler, bem sei que temos excelentes escritores mas embirro com eles e não há muito mais a fazer.

eu gosto. afinal, são aqueles que alam de uma realidade que está mais próxima de mim.

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