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dez da noite
rosas
innersmile
São dez da noite, e eu regresso a casa pela auto-estrada do norte. Acabo de passar pelo troço de onde se avista a torre do santuário de Fátima e inevitavelmente me lembro de ti. Fizemos, nos últimos anos, muitas vezes esta viagem de carro e eu chamava-te sempre a atenção para poderes ver a torre do santuário. Entretanto mudo ao acaso a sintonia do rádio e começo a cantarolar a canção que está a ser transmitida. Mas fico contigo, a pensar nessas vezes que vínhamos juntos ao passar neste local, quase sempre a ouvirmos cd’s de fados, muitas vezes a cantarmos nós. A tua presença dentro do carro, ao meu lado, começa a sentir-se com muita força. Tiro a mão do volante e estendo o braço para o assento do passageiro. Estou a repetir um gesto que fazia muitas vezes nessas viagens, sentir-te, fazer uma carícia leve na tua perna ou no teu braço. Só toco o vazio, claro, mas sinto a tua presença com tanta intensidade, que não resisto a voltar o rosto para a direita, à espera de te ver sentada ao meu lado. Então, falo contigo.

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Honestamente espero que minhas dez da noite demorem muitos anos ainda a chegar. Nunca estamos preparados...

também espero, Edu, e é o te que desejo. é uma felicidade suprema, podermos ter a sua companhia.

É muito mais do que o "vazio" aquilo que se toca. Talvez se toque o silêncio e, agora, o silêncio é bem capaz de ter a própria textura do infinito.

O vazio, esse - o autêntico - instalou-se cá dentro, algures entre a memória e a saudade. Mesmo assim, muito para além do sonho!...

tens razão.
e a saudade parece que a cada dia é sempre mais intensa. o sentimento de que há qualquer coisa muito densa mas que permanece intocável.

É a eternidade a construir-se dentro de nós!!!
Fala com ela, Miguel!
Beijinho.
Madalena

anda sempre comigo, Madalena.

e quando a pessoa era a nossa âncora, sem ela, afundamo-nos. com o tempo, e com momentos como estes, aprendemos a flutuar. e depois, lá vamos e voltamos com a maré, cheia de altos e baixos (já estou como o limite, cheia de metáforas. é da quadra).

as metáforas servem-nos para dizer o inominável.

:)

tanto amor neste post.

fico feliz por notares :)

A saudade deixa em nós sempre um vazio, e por mais que não se queira senti-la ela aparece, e no meu caso por vezes vem com pexinhos de lã e quando já é tarde de mais, fico rendido a ela.

anda sempre connosco, umas vezes de modo mais suave, outras de maneira mais intensa, quase dolorosa.

A Margarida, tu, o Francisco, o André, todos enfrentaram a terrível perda que é o desaparecimento físico de uma mãe. Tenho um profundo respeito por essa dor, que presumo a maior de todas, ainda que muitos a atribuam a outras perdas igualmente dolorosas.

Algum fundamento de "lei natural", de previsibilidade, de independência face aos progenitores poderá atenuar a dor, preencher o sentimento de vazio.

Nunca se ultrapassa. Aprende-se a viver com a realidade.

Um grande abraço.

um abraço, Mark. obrigado

De todos os lugares, por que ficou Fátima tão marcada, por razões e diferentes formas em nossas vidas? Seria a torre, a água que sempre sacia a sede?

para mim, Fátima está e estará sempre associada aos nossos encontros. a sensação de bem estar que a cidade me transmite tem tudo a ver com o facto de ela ser o nosso ponto de encontros breves mas intensos.

Engraçado que na minha cabeça o pátio está sempre vazio e tranquilo, bem diferente das imagens usuais.

é isso mesmo, Bruno: também para mim aquele recinto imenso está vazio e tranquilo (e umbroso, próprio do final da tarde), nada a ver com as enchentes habituais. é por isso, e pela companhia, e pelas memórias dos encontros, que eu gosto tanto dele.

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