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dezembro
rosas
innersmile

Amanhã começa o mês de dezembro. Passa um ano sobre o que foi, seguramente, o pior mês da minha vida. Cada dia muito mau, sempre pior que o anterior. Não foi um nem três ou cinco. Foram muitos, dias terríveis, de uma tensão enorme, e de uma dor ainda maior, de uma angústia insuportável.

O dia em que o meu pai baixou à casa de saúde (logo o primeiro do mês). O dia em que soube que tinha tido uma recidiva e tinha de ser novamente operado. Que foi o mesmo dia em que a minha mãe caiu, e nunca mais andou. O dia em que me telefonaram a convocar para a cirúrgia e eu sem saber o que fazer à minha mãe. As notícias do agravamento do estado de saúde da minha mãe, e de que o fim estaria iminente, apesar de ela exteriormente ainda parecer bem, graças à sua enorme força e vontade de viver. O dia em que tive de a levar às urgências por causa da perna e ouvi o ortopedista comentar que se a minha mãe tinha uma esperança de vida inferior a três meses não valia a pena operar. O dia em que a deixei em casa e fui para o hospital para ser operado no dia seguinte (depois disso já tive outra recidiva e fui novamente operado). O último sábado em que a minha mãe foi verdadeiramente feliz, passado com o meu irmão e comigo, operado há quatro dias. Depois, dois dias de uma pneumonia sempre a agravar, e a decisão de a internar nos cuidados paliativos, com a certeza de que já não sairia de lá. A véspera de natal, passada nos cuidados paliativos e depois em casa, sozinho com o meu gato, e a sofrer as consequências incómodas do meu pós-operatório. As visitas ao meu pai, nessa altura ainda muito saudoso de casa e da minha mãe, e confuso e angustiado com a situação do seu internamento. E ainda antes do fim do ano, ao mesmo tempo que parecia melhor da pneumonia, a saúde da minha mãe sempre a piorar, a entrar em estados de inconsciência e outros de grande agitação e revolta.

Foram dias infernais. Mas eu passei-os com uma força e uma resiliência que eu próprio não sabia que era capaz; e se a vida já tinha testado a minha capacidade de resistência, desde muito novo. Algumas vezes, num certo dia até mais do que uma vez, senti-me desesperado, a pensar que já tinha atingido o limite e que não era capaz de dar nem mais um passo, mas as pessoas e as circunstâncias à minha volta exigiam tanto de mim, que eu era forçado a acalmar e seguir em frente.

Queria deixar tudo isso, todo esse sofrimento, para trás, mas é muito difícil. Foi uma coisa, ou uma série de coisas, que me perturbaram imenso, e das quais verdadeiramente nunca recuperei. Esses dias continuam a vibrar na minha vida de maneira aguda e intensa. E agora que passa um ano sobre esses acontecimentos, sinto uma vontade de chorar como acho que nunca senti nessa altura. Já não o choro do desespero, mas aquele choro que nos consola, que é quase retemperador, do qual saímos com determinação para encerrar a porta do passado e seguir em frente.

Ou escrever. Escrever sempre me ajudou a superar-me a mim e às coisas que me acontecem. Pensei escrever um diário desses dias, uma especie de palimpsesto desse mês, cada dia escrever sobre o dia correspondente do ano anterior. Mas falta-me determinação para o fazer e provavelmente isso ir-me-ia causar uma angústia desnecessária. Gostaria de ser capaz de pegar nesse sofrimento todo e transformá-lo em ficções, mas ele está demasiado colado a mim. Pode ser que seja este texto, aquilo que eu estava à espera de conseguir escrever para afastar o medo que sinto em relação a este calendário que me preparo para atravessar.

Esses dias aconteceram, de facto; eu vivi-os e atravessei-os um a um. E apesar de ainda olhar para eles sem nenhuma distância (ou não estaria aqui a escrever isto), e de a vida que eu tenho hoje ser de certo modo a sua consequência, a verdade é que não é mais consequência deles do que de todos os outros dias, os que vieram antes desses e os que já passaram depois deles. E consequência até dos que ainda vêem aí, alguns deles tão cheios de promessas.


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Um ano, em especial este, que passou tão rápido que tudo parece "que foi ontem". De se entender que "ainda vai levar um tempo pra curar o que feriu por dentro. Natural que seja assim..."

Que as promessas joguem cor e sol no amanhã, pois. E que ele venha, faceiro!

"faceiro" foi uma das palavras que se perdeu no português de PT. e é pena, pois é bem bonita, em especial vinda de ti :)

Meu caro, nossa vida se resume à palavra inicial e final da tua entrada: amanhã, promessas. Eis nosso farol. Grande carinho por ti!
Eduardo

muito obrigado, meu querido Eduardo. tiraste do texto o mais importante, sem dúvida

Neste texto sente-se cada palavra tua. Não sei bem o que escrever, sei que há momentos na nossa vida que nos marcam de tal forma que parece que não nos largam, como se fizessem parte dos poros da nossa pele.

Se chorar ajuda e alivia, chora, mas se escrever ajudar ainda mais, já sabes o que tens a fazer. Estaremos por cá para te ler.

Abraço e o que não escrevi, é porque de certa forma há coisas difíceis de serem transportas para as letras.

é, há coisas difíceis de por em palavras, e normalmente são as mais importantes. mas é bom quando, como neste teu comentário, mesmo as palavras não ditas se percebem.


Então chora Miguel. Foi um ano duro, em que carregaste o mundo nos ombros e, provavelmente, apenas agora estás a sentir o peso de todos esses dias.

Abraço apertado.

lembro-me de cada dia, quase como se fosse um mapa, Carla.
abraço grande

Meu querido amigo Miguel, as feridas da alma demoram muito a sarar, mas é preciso ser forte. Nós nunca conseguiremos avaliar o sofrimento dos outros, mas tu aguentaste muito. Miguel estamos aqui, se te apetecer sair da rotina, não hesites, vem almoçar connosco. Um beijinho. Lídia

agora depois da azáfama das festas, vamos combinar um almoço, Lídia. já tenho saudades.

grande abraço, querido amigo

resiliência é a palavra certa.
vamos buscar forças que não sabíamos que tínhamos, mas, olha, um dia passa a seguir ao outro e um ano já se passou e agora estás a fazer este ponto de situação. foi um mês terrível, mas no meio de tanta cor negra, existiram pequenos momentos brilhantes. é nesses que te deves concentrar.

existiram sim, e um deles, que partilhámos, foi tão bom que até parece deslocado num mês tão doloroso.
acredita, Margarida, que penso muito em ti, como um modelo de força e resiliência.

apesar das circunstâncias serem diferentes, consigo sentir muito do que dizes. amanhã faz um ano que a minha mãe morreu e desde domingo que ando numa montanha russa de emoções. muito do que vivemos tornou-se traumático e há alturas em que é muito complicado encaixar o sofrimento.

escrever também foi sempre um escape para mim e ainda ontem o fiz e as lágrimas são inevitáveis...

há momentos que tento afastar, não me demorar muito neles em pensamento mas é impossível. ontem sonhei que ia ao cemitério, coisa que não faço desde o funeral...

queria apenas deixar-te um abraço e dar-te toda a força do mundo.

Um abraço enorme em ti também Rita. *

Obrigada Carla :) beijinho grande

tenho a certeza de que sim, de que partilhamos esta vivência de emoções difíceis, e o desamparo que sentimos ao aprender a viver com elas.
um beijo grande, em especial no dia de hoje.

escreve se tiveres de escrever e chora se tiveres de chorar, que isto de ser Homem não é fácil.
um grande beijo, Miguel.

vou fazendo as duas coisas, acredita.
beijo

Sem saber da tua mãe e sem saber de ti, tanto tampo! Ninguém acredita. Nem eu! E de repente encontro-te num dos que foi um dos piores da minha "carreira" de doença. e atiro a dor toda para o lixo e eis-me pronta a viver um reencontro. Falar com a minha Arlete dos meus dezoito anos! Nesse dia, no dia dos meus anos, ela deu-me a maior prenda: ofereceu-se para ser minha mãe e eu vivi um dia tão marcante como se realmente fôssemos mãe e filha. E ainda falámos tanto. Ela contou-me que tu gostavas muito de mim e eu fiquei tão vaidosa.
Obrigada Miguel pelas lições de vida que me tens dado, mesmo quando eu não sabia que tu eras tu.
Como diz o Duarte, "basinhos"!

o nosso reencontro foi das coisas boas, muito boas, que lhe aconteceram. veio trazer muita alegria à minha mãe. e é como dizes, por vezes parece inacreditável que uma coisa tão extraordinária nos tenha acontecido a nós, uma amizade que parece um arco íris (um arcobaleno, como se diz em italiano, e é tão lindo de dizer) a brilhar sobre o tempo de uma vida, de duas vidas, de três vidas.

Costuma-se dizer que o que não nos mata, fortalece-nos. E é bem verdade.

A morte de uma mãe não se ultrapassa. Apenas os amigos podem atenuar a dor que está lá, sempre.

um abraço.

é sim, meu caro Mark
grande abraço

Gostaria de poder dar-lhe um longo e apertado abraço, ao vivo e à cores.

há abraços à nossa espera Bruno :)

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