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paris, e os baader-meinhof
rosas
innersmile
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Foi um péssimo sentido de oportunidade ter-me posto a ver um filme no canal de cabo NPlay, este fim de semana, sobre o grupo terrorista alemão Facção do Exército Vermelho (O Complexo Baader-Meinhof, realizado por Udi Edel), logo no momento em que mais uma vez fomos confrontados com o horror do terrorismo radical numa série de atentados simultâneos ocorridos em locais de lazer, em Paris.

E o sentimento de incomodidade justifica-se. Aparentemente haveria poucos traços comuns ou ligações, entre o terrorismo da esquerda radical de natureza anti-burguesa que sacudiu a Alemanha nos longínquos anos 70, e o terrorismo anti-ocidental dos fundamentalistas islâmicos, que tem marcado o início deste século. Mas o ponto é que no essencial estamos a falar exactamente da mesma coisa; a única coisa que muda são as justificações que estáo por detrás dos actos de terror, ou as motivações que conduzem os terroristas, mas todos sabemos como justificar o terrorismo é sempre uma falácia e uma armadilha.

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O ponto é que a história dos Baader-Meinhof é fascinante. De certa forma, porque é uma deriva (uma espécie de spin-off, para usar a expressão das séries televisivas) dos mesmos movimentos de inspiração mais ou menos política e mais ou menos pacifista que fazem parte da cultura jovem dos anos 60. O grupo em concreto nasce no cadinho das manifestações de protesto contra a guerra do Vietnam e contra o apoio do Ocidente, em particular dos EUA, às ditaduras mais sangrentas, em nome da luta contra o comunismo, no cenário da Guerra Fria.

E nasce na Alemanha por duas razões em particular. Primeiro, porque em nenhum outro ponto da Europa se jogava com tanto dramatismo a divisão do mundo em blocos de influência politica: na realidade, os B-M nascem na metade ocidental da Alemanha dividida, naquilo que se chamava então a República Federal Alemã (por oposição à Republica Democrática Alemã, que fazia parte do bloco soviético). A outra razão tem a ver com o facto de a juventude alemã ser a primeira geração do país a viver sempre no pós-guerra, e de certo modo não conseguir resolver o paradoxo da geração dos seus pais, divididos entre o complexo de culpa nazi e a falta de expiação dessa complexo de culpa: os jovens alemães de 60 não suportavam a ideia de os seus pais terem sido coniventes com o nazismo e com Hitler.

Eu tenho memória pessoal desses tempos em que, até porque em Portugal vivíamos uma época de grande politização, a causa dos Baader-Meinhof era popular, e em que o radicalismo das suas acções violentas chegava a ser empolgante. Recordo-me bem do ano de 1977, do chamado Outono Alemão, e da polémica sobre o suicídio dos militantes presos, e de como discutíamos politicamente a questão, opondo ao terrorismo de grupos como os RAF, ou as Brigadas Vermelhas em Itália, aquilo a que denominávamos, com enfase, de terrorismo de Estado, levado a cabo pelos governos dos países ocidentais e as suas polícias.

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O filme de Udi Edel provocou alguma polémica quando estreou (é de 2008, e foi candidato ao Oscar de melhor filme estrangeiro) sobretudo porque se foca exclusivamente nos terroristas, o que foi visto por algumas pessoas como uma tentativa de justificação e branqueamento das suas acções. Eu acho precisamente o contrário. Ao concentrar-se apenas nos terroristas, nas suas acções e nos seus fundamentos políticos, e usando para o efeito um tom narrativo quase documental, o filme recusa-se a discuti-los, não os submete a debate, não lhes dá, digamos, a honra de poderem ser confrontados ou opostos a outras perspectivas políticas. E, nessa medida, torna-os absurdos, retira-os do tráfego das ideias e do debate político e situa-os no campo onde devem estar: simples argumentos de natureza mais psicológica ou sociológica do que política, que pretendem justificar o injustificável, meras desculpas para a barbárie.

Nesta medida, foi muito proveitoso, e estou a falar de um ponto de vista unicamente pessoal, ter visto o filme sob o efeito de choque dos atentados de Paris. Ajudou-me como que a limpar uma certa ideia romântica que a minha memória guardava desses tempos já longínquos em que a discussão política predominava, e em que o radicalismo, no caso de natureza política, e de esquerda, corria o risco de ser visto ainda como uma maneira legítima de fazer acção política.

Os jovens do Baader Meinhof eram indivíduos em queda, pessoas que tinham ultrapassado a barreira da razão, e que viam na barbárie, na violência e no medo, modos de se auto-afirmarem, de ultrapassarem ou de se confrontarem com os seus próprios fantasmas. Tal como estes outros indivíduos que, na última sexta-feira, se limitaram a espalhar o terror entre os transeuntes que se divertiam na noite de uma cidade europeia. E tal como, aliás, qualquer psicopata assassino.

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Nem sei como me expresar (úia!) mas acho que nunca li (ou não me lembro de ter lido) nada tão ... "bacana"? "correto"? "impactante"?... a respeito deste assunto. Achei simplesmente perfeito!

you're a darling, darling! :)

Tiraste-me as palavras da boca, Edu!
Fui "a correr" ver o filme ontem à noite e com efeito ao quase não dar voz à outra parte, o filme sublina o enorme vazio de ideias, de organização, de objetivos, de resultados do bando de rapazes e raparigas (porque eram muito poucos mesmo...) que eram as RAF.
Obrigado pela dica, Miguel.
Eu tinha 16-17 anos nesta altura e ainda não tinha chegado à agitação política das universidades de Lisboa no pós-25 de abril, mas lembro-me bem da saga do avião desviado que andou uma semana de aeroporto em aeroporto com os passageiros como reféns e da execução do piloto, que depois foi atirado para a pista.
Depois fui dar uma vista de olhos à Internet e reparei que ainda restam muitas "teorias da conspiração" em relação ao suicídio/assassínio dos principais líderes na prisão. Ainda hoje os Baader-Meinhof despertam paixões...
Será que o estado islâmico é também assim tão vazio de ideias ou será que é um projeto de poder mais consistente?

pois, esta pergunta que fazes é que é inquietante. eu diria que sim; ainda que vazio de ideias, é mais consistente no sentido de que o nível de profissionalismo ligado às actividades terroristas, os apoios, os financiamentos, os recursos tecnológicos, elevam logo a questão para outro patamar.

durante este jantar falou-se disso, dos atendados, das pessoas que o fazem, da religião e da falta dela e cada vez mais sinto que as pessoas querem fazer parte de algo mas acabam por fazer parte da peça errado dum puzzle que desconhecem.

acho que essa é uma boa análise: realmente as pessoas querem fazer parte de algo que lhes dê sentido às existências mas só sabem fazer escolhas erradas, que destroem os outros e a si próprias.

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