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o conto do miguel
rosas
innersmile

Todos os anos por esta altura, a Margarida desenvolve no seu blog "mas tu és tudo e tivesse eu casa tu passarias à minha porta" ( link) um desafio a que dá o nome de Betty Davis: nós, os leitores, damos-lhe expressões com o máximo de cinco palavras, e ela escreve para cada um desses títulos, contos com 250 palavras. É um desafio muito desequilibrado, pois a Margarida é que tem todo o trabalho, e nós os leitores, limitamo-nos a inventar expressões cada vez mais complicadas em termos de potencial narrativo; e só se explica por causa da extrema generosidade da Margarida.

Lembro-me de todos os contos que ela escreveu para os títulos que eu propus, e a todos me referi aqui ou transcrevi-os. Também em todas as edições anteriores da desafio (esta é a quarta), me desafiei a escrever o meu próprio conto, com o mesmo título e a mesma extensão. Como disse, lembro-me muito bem de todos eles, e todos, sem excepção, foram belíssimos. Mas desta vez, talvez percebendo até melhor do que eu a razão porque lhe dei um título tão "perigoso", a Margarida escreveu para ele a mais bela de todas as narrativas. Por isso, ou por um conjunto de razões daquelas que a razão desconhece, desta vez acho que não consigo, pelo menos por enquanto, escrever o meu próprio conto.

Por isso, aqui fica, a cintilar no escuro e na neblina como a luz de um farol, 'o conto do Miguel'.

"São Pedro de Moel. Julho

O livro fechado sobre a mesa, o lápis marcando a página com as frases que tinha sublinhado. Com o lenço bordado que guardava no bolso do vestido, limpava os olhos lacrimejantes que recebiam a humidade do oceano.
Pedia-lhe, constantemente, que não estivesse tanto tempo na varanda, mas ao regressar, reparava sempre na sua figura, vagamente obscurecida pelo guarda-sol, a cabeça inclinada para baixo, com o livro no regaço. Ao lado, na mesa redonda de ferro, os companheiros daquelas tardes soalheiras: a chávena de chá, o bule e o solitário com a rosa vermelha que lhe trazia todas as manhãs.
Suspirava, abanando a cabeça, derrotado. Por fim, entrava, largava displicentemente no sofá da sala a toalha e o jornal meio lido e aproximava-se. Inclinava-se, depositava um beijo na face levemente oleosa do creme protector e perguntava-lhe como tinha passado a tarde. Por instantes, a resposta acalmava-o. Então, arrastava a cadeira para o seu lado, o que lhe valia a única reprimenda do dia, quando levava uma branda palmada no braço. Mas fazia-o todos os anos, naquela quinzena de férias junto ao mar, como se precisasse daquela punição, uma brincadeira entre os dois que mascarasse a angústia que se agarrava a ele como as lapas nos rochedos das falésias.
Naquele Verão, à medida que se aproximava, foram aquelas as imagens que lhe vieram à memória. Estacionou junto ao hotel. Saiu e caminhou pelo passadiço de madeira, em direcção ao farol, enquanto escutava, triste, o marulhar do Atlântico."

- Margarida Leitão


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A Margarida é genial. Toca nos pontos todos, e assim este conto é um hino de amor e boas recordações. Bj. Lídia

é sim Lídia. e escreve tão bem, é um prazer ler a sua prosa.

ora essa, Margarida. eu é que agradeço

Um excelente conto!
Aguardo o que a Margarida irá fazer com o que lhe "dei".

sem dúvida.
também estou muito curioso (mais do que isso: muito interessado) em ler os restantes contos.

oh, vocês depositam grandes expectativas. e se falhar, sentir-me-ei muito mal...
(vou voltar à Katherine Anne Porter. que contos geniais. vou criar a prateleira top dos tops :) )

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