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la ronde
rosas
innersmile
Fui ontem ver, em sessão organizada pelo cineclube Fila K, o filme La Ronde, de Max Ophuls, integrado num ciclo dedicado o Simone Signoret. O filme é fabuloso, e é mesmo caso para dizer que já não se fazem filmes assim, em que o próprio objecto filme é tão ou mais fascinante do que a história que pretende contar, ou mesmo do que a mensagem que pretende passar para o espectador.

Em resumo, trata-se da história, adaptada de uma peça de teatro da autoria de Arthur Schnitzler, ou melhor de 10 histórias de sedução e desejo. De desejo sexual, note-se, que o filme não o faz por menos, apesar de, como se calcula num filme feito em 1950, não haver propriamente figuração da concretização desse desejo. Mas, para compensar, há muita representação e muito innuendo.

Há, em primeiro lugar, um compere, um mestre de cerimónias, que vai introduzindo as histórias, narrando e comentando, e ao mesmo tempo participando nelas. Depois vão sendo introduzidas sequencialmente outras personagens: uma prostituta, um soldado, uma criada, um jovem, uma mulher casada, o marido da mulher casada, uma aspirante a actriz, um poeta, uma actriz, um conde, e regressamos à prostituta inicial; estas personagens vão tendo sucessivos encontros a dois, de forma que, à vez, cada uma delas vai protagonizando o encontro seguinte. É como na Quadrilha, o poema de Carlos Drummond: a prostituta seduz o soldado, que por seu lado seduz a criada, que por seu lado seduz o rapaz, e por aí adiante.

Esta estrutura circular da história é acentuada pela própria estrutura do filme, em que o elemento circular está sempre presente, quer através dos elementos cénicos, como o carrocel, quer através do argumento, por exemplo na canção recorrente, quer na própria narrativa, nos travellings circulares, nos planos sequência, no modo como os cenários das histórias se vão transformando.

O resultado é admirável, e reforça o sentido lúdico de um filme todo marcado pelo humor. Como referi anteriormente, toda a parte do desejo sexual e da sua concretização é relatada mais de modo figurado e insinuado do propriamente explicito. Um dos exemplos mais divertidos disto, é quando o próprio carrocel avaria e começa a fumegar e a perder força, ao mesmo tempo que um dos encontros sexuais não é concretizado porque o seu protagonista masculino falha na hora decisiva por excesso de nervosismo e ansiedade. Outro absolutamente genial é quando o mestre de cerimónias aparece de tesoura em punho a cortar um pedaço de filme precisamente no momento em que começa mais uma cena de sexo.

Para além de Signoret, participam no filme outros actores maiores do cinema francês, como Anton Walbrook, que cria um compere que só pode ter inspirado Wes Anderson e Ralph Fiennes para a criação do Monsieur Gustave H do Grande Hotel Budapeste, Serge Reggiani, que foi também um cantor de imensa popularidade, Daniel Gélin ou Gérard Philipe, um homem tão belo quanto meteórica foi a sua carreira e a sua vida.

A sessão foi programada e apresentada por Fernando Fausto de Almeida, que eu não conhecia mas de quem fiquei fã incondicional. Ouvi-lo falar sobre cinema e o filme, é não apenas uma lição (FFA foi professor, e deve ter sido dos bons, a avaliar pela forma cativante como fala dos assuntos), como sobretudo acrescenta muito ao prazer de perceber e fruir do filme que se vai ver.

A única nota negativa da noite vai para a imensa dificuldade que eu tenho em manter-me acordado numa noite de semana, sobretudo depois das onze horas. É um sacrifício enorme, agravado pelo desconforto das cadeiras do auditório. O início da sessão estava marcado para as 21.40, e com a apresentação do filme, a projecção só começou em cima das 10 horas. Muito tarde, sobretudo para quem no dia seguinte tem de se levantar cedo e passar o dia a trabalhar. Se fosse eu a mandar, a sessão começava mais tardar às 9, e mesmo assim. Em Londres, a sessão principal dos cinemas, tal como o horário dos teatros, é ali entre as 7 e as 8, e a sessão das 10 nos cinemas já é para noctívagos. Mas isso, claro, é num país em que se trabalha, e em que se considera que o trabalho é importante.
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Gostava de ver o filme....

o dvd não deve ter sido lançado cá, pelo menos a avaliar por esta sessão em que foi apresentada uma cópia com legendas em... inglês.

Muitas coisas:

1° - deve ter sido realmente supimpa essa sessão, com o "professor" junto! Invejinha!

2° - por falar em Max, o Mad está realmente tudo que dizem dele. Vá!

3° - te entendo! O Masterchef Brasil é pra começar às 22h30 mas só vai ao ar às 22h50 e termina quase 00h30! Mas SOU OBRIGADO a assistir porque o UOL (portal) conta tudo que aconteceu logo na homepage, no dia seguinte. Spoilers do caceta!

4° - melhor lugar pra se dormir...

5º - o "quarto" foi um trocadilho com o cômodo, coisa que você não pescaria estando assim com tanto soninho hoje... :-)

aprecio o teu cuidado, de dizeres uma piada e depois explicar-ma, não vá eu não a ter percebido.

quero ir ver o mad max, mas quando.

Quanto a spoiler, aqui um jornal publicou como termina mad men! :-(
Miguel, arranja uma cunha no ípsilon ;-) excelente texto.
Por alguma razão escolho sessões ao fim da tarde. Deixo escapar muitos, mas prefiro, que já durmo tão pouco.

eu também prefiro as sessões de final da tarde, à sexta (lá fica o Juquinha mais umas horas sozinho, a fazer disparates), mas nestas do cineclube não há alternativa.

não sei Margarida, ainda assim preferia que um texto meu sobre cinema saísse no correio da manhã. a secção de cinema do Ípsilon mete-me medo ;) aliás, o suplemento todo está muito fraquinho, acho que nunca andou tõ mal, não tem interesse nenhum.

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