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modus operandi
rosas
innersmile
Acordei hoje às cinco e meia da manhã a meio de um sonho. Estou de férias num país qualquer, que identifico como um dos antigos países de leste. Não percebo a língua nem o modus operandi da cidade. Há sempre uma certa barafunda, quer nas ruas quer no hotel onde estou instalado. A minha mãe adoece e a situação a princípio não é grave mas piora numa espécie de contagem decrescente. Estou cada vez mais pressionado pelo prazo que está a terminar mas não consigo que ninguém me entenda quando tento saber onde é que há um hospital e como é que posso levar a minha mãe para lá.

Voltei a adormecer e recomeço a sonhar. Saio à rua e decido trazer o gato. Ele vem atravessado nos meus ombros, da maneira como às vezes gosta de andar em casa. Desço uma calçada muito íngreme, e acho que estou em Lisboa. No fim dessa calçada há uma praça cheia de gente e cheia de gatos iguais ao meu. Quando tento segurar o gato, ele salta para o chão e eu deixo de o conseguir distinguir no meio dos outros. Digo a alguém que está comigo que vou regressar a casa, para ver se o gato me acompanha, mas não tenho esperança nenhuma de que isso aconteça. Começo a afastar-me do centro da praça, e, no meio de tantos gatos iguais, há um que se cola a mim, a roçar-se nas minhas pernas.

Tive um fim de semana muito chato. Passei o sábado com a minha tia, que veio buscar algumas coisas dela que estavam em casa dos meus pais. Fala-me com muita frieza, porque há coisas que eram da minha mãe, que a minha mãe deu a quem quis, e agora a minha tia diz que eram dela. Não estamos a falar de objectos valiosos, quando muito têm pouco valor, mas são coisas de família, com valor afectivo, sobretudo coisas que eram da minha avó. Acabámos por nem sequer ir ver o meu pai, porque passámos a maior parte do tempo na casa quase vazia a separar coisas para ela levar. É certo que já não havia muita coisa lá em casa, mas ela levou tudo o que quis.

No domingo fui visitar o meu pai. Fomos beber um café ao bar, demos uma voltinha e depois fui pô-lo na unidade onde está internado. Estava lá uma freira que desatou a falar comigo e com ele. Demos mais uma volta a todo o piso, os três, a freira a dizer o padre nosso com o meu pai (ela começa as frases, ele termina) e depois a cantar o 13 de maio. Acabei por estar lá a tarde quase toda.

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Depois dos dois primeiros parágrafos, os dois últimos soam exatamente como se fossem dois sonhos mais.

all that we see or seem...

Olá Miguel,
só para lhe dizer que gosto muito do que escreve e como o faz. Procurei um endereço de e-mail para lho dizer, mas como não encontrei vai por aqui. como não tenho qualquer tipode conta não sei se receberá. se não receber fica a intenção :-)
abraço
João

recebi sim, João, e agradeço muito o comentário.
o meu endereço de correio é: liesandjest@gmail.com
abraço

O teu cérebro está a digerir muita informação ao mesmo tempo, aliado a tu teres tomado grandes decisões em curto espaço de tempo. A família não consegue compreender. No meu caso, não quiseram saber da nossa dor e uns tios acusaram, dentro da casa da minha mãe, de os médicos do hospital não terem feito tudo, de não terem sido os melhores, tipo negligência, e por aí. Depois disso, nunca mais falei com eles e nem quero saber.
Eu sinto-me em paz e de consciência tranquila e só nós, os que passamos por isso, é que sabemos.
Quanto ao gato, é amor e medo que lhe aconteça algo.
O teu pai está bem, na medida do possível.

acho que é isso, Margarida. foi um carrocel emocional que durou meses, e apesar de alguns problemas se manterem, como a doença do meu pai, ou acabar de desfazer a casa, agora estou a readquirir serenidade e ponderação. e acredito que o cérebro aproveita as noites e eu estar a dormir para processar os excessos :)
o ponto é que sonho tantas vezes com a minha mãe, não fazes ideia. é engraçado, e fascinante, a maneira como o nosso cérebro funciona, nomeadamente para se defender e tratar.

Muita coisa interessante num só post.
Os sonhos que sempre misturam as nossas vivências actuais e passadas, por vezes de forma muito inverosímil e confusa, e que eu, não sei como, consigo interromper os meus sonhos quando eles se tornam realmente "incómodos".
Depois as questões derivadas dos últimos acontecimentos da tua vida familiar - a sempre complexa questão de "heranças" (não é esta a palavra correcta, mas uso-a à falta de melhor), e a situação do teu Pai que embora e naturalmente te afecte, também te conforta por o saberes bem tratado e que é uma pessoa que não sofre...

como digo na resposta ao comentário da Margarida, acredito que os sonhos nos ajudam a processar os excessos emocionais, a integrá-los na nossa vivência.

quanto à situação do meu pai ela é de facto muito dolorosa. custa muito ver uma pessoa que tanto amámos e continuamos a amar tão desprovida da sua capacidade de se relacionar com o mundo e com os outros. mas tens razão, conforta saber que está a ser bem tratado.

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