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era uma vez em goa
rosas
innersmile


Era Uma Vez em Goa é o segundo livro que leio em poucas semanas de Paulo Varela Gomes, depois da colecção de crónicas Ouro e Cinza. Pode-se dizer que é um livro muito sui generis: trata-se de um relato de viagem (está publicado na colecção de literatura de viagens da editora), mas de uma viagem inventada, feita por um narrador que é uma personagem de ficção. Acho que com estes pressupostos as hipóteses da coisa correr mal seriam grandes, mas graças à engenhosidade e ao talento do autor, o resultado é notável.

O narrador é um jovem inglês a fazer um périplo pela Índia no espírito beatnick que viria a transformar Goa num local de peregrinação de várias gerações de hippies. O tempo da viagem é o início dos anos 60, mais propriamente em 1963, dois anos depois da anexação do território à União Indiana e da saída, pouco digna, dos portugueses do território. Paulo Varela Gomes utiliza este dispositivo para tratar o tema da presença portuguesa e do seu confronto com a força imensa da cultura e da religião e da organização social, política e económica da não indiana. Não é um livro de tese, até pelo modo bem-humorado como o autor assume as suas liberdades narrativas, mas é principalmente uma obra que interroga um fascínio, que procura os seus sinais, trata-se quase de um jogo, em que o tempo é um desafio mas é igualmente um factor lúdico, ao procurar naquilo que permaneceu até hoje da presença portuguesa de quatro séculos nos territórios da Índia portuguesa, as raízes ou as razões dessa permanência.

Para além do humor, marcam esta narrativa a vivacidade das descrições, o apuro e o rigor da arte e da cultura, nomeadamente da arquitectura e da fotografia, e, correndo o risco de me repetir, um profundo fascínio por uma terra e também por uma cultura que, nas suas forças como nas suas fragilidades, é capaz de ir resistindo quer à erosão do tempo quer à precariedade dos homens.

O protagonista do livro, o narrador, é um jovem inglês chamado Graham. Na primeira parte da história, uma das personagens principais é o escritor inglês Graham Greene, que Paulo Varela Gomes introduz na história por Greene ter efectivamente estado em Goa no tempo da acção e por ter escrito um artigo sobre o território, que é publicado em anexo ao livro. Curiosamente no livro que li a seguir a este, o escritor Gabriel Garcia Marquez tambémse refere a Graham Greene, de quem era amigo e cúmplice, no movediço terreno da política da América Latina.

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no segundo parágrafo acertei no nome do protagonista :-P e não li nada deste autor, nem do GG.

a sério?

dois livros do PVG, duas excelentes leituras.

li muito do GG, foi um dos meus autores da juventude.

Deve ser extraordinariamente interessante. A nossa saída de Goa, bem como de todo o território indiano, foi inglória. Quase escorraçados, depois de quatrocentos e muitos anos por aqueles lados. Mais um erro absurdo de Salazar, ao julgar poder manter aquelas praças quando a própria Índia já havia sido descolonizada pelo Reino Unido em '47.

sim, é um livro bastante interessante. como de resto tudo o que se relaciona com as marcas da nossa expansão colonial

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