Previous Entry Share Next Entry
conto
rosas
innersmile
DOMINGO À TARDE

Íamos no carro e a Conceição, tentando suster as lágrimas, disse-me que nunca se podia esquecer de que tinha sido ela quem lhe tinha ensinado a gostar de si própria. Que toda a vida se tinha sentido culpada pelas coisas que correram mal na sua vida e que tinha sido ela, nas longas conversas que tinham tido noite fora, que a tinha levado a mudar a sua maneira de pensar e de sentir, a deixar de sentir que ela era a culpada das coisas que tinham corrido mal, da sua própria infelicidade, e aprendido a sentir-se bem consigo mesma, a valorizar as suas qualidades, até a gostar fisicamente de si e a arranjar-se melhor.

Pouco depois estava a estacionar o carro no parque de estacionamento da casa de saúde. Passámos a portaria e fomos até ao primeiro piso. Eu fui falar com os enfermeiros enquanto a Conceição foi ter com ele à sala onde estava um grande número de pacientes, em frente à televisão. Trouxemo-lo até à cafetaria, deixei-os sentados a uma mesa e fui ao balcão pedir: um garoto para ele, um descafeinado para a Conceição e um café para mim. A Conceição tinha-lhe trazido duas queijadinhas, que ele comeu com sofreguidão, a acompanhar o garoto. Tivemos a conversa do costume: relembrar os nomes, os laços familiares, o ano do nascimento, e pedir-lhe para ler as palavras inscritas nas tabuletas de sinalização: cozinha, capela, unidade 01, lavandaria, visitas.

Deixámo-lo já perto das cinco, de novo entregue aos enfermeiros, e no caminho de regresso voltámos a conversar acerca dela. Contei à Conceição a minha dificuldade em ir a casa deles, sobretudo sozinho, principalmente a partir do final da tarde e à noite. Contei-lhe que da última vez que tinha lá ido sozinho à noite, voltei para minha casa e fartei-me de chorar. A casa está bastante desarrumada, há móveis e outras coisas que já saíram, mas ainda falta a maior parte, ou mesmo quase tudo. Não será tão cedo que vou ter a casa pronta para a entregar ao senhorio.

Parei à porta da casa de Conceição para ir buscar uma bola de chouriço que ela me tinha feito. Quase todas as semanas me faz qualquer coisa, uma bola, empadas, bolos. A semana passada fez-me um pão-de-ló, que eu comi barrando as fatias grossas com manteiga. Despedi-me da Conceição, arranquei com o carro mas encostei logo a seguir para fazer um telefonema. Fui visitar o Rogério e a Tó, que eram os seus maiores amigos. Passavam juntos quase todos os finais de tarde de domingo. Demorei-me pouco tempo. Encontro um certo consolo em fazer coisas que eu sei que ela aprovaria. Apetece-me sempre contar-lhe o que faço e quase que consigo ouvir o que ela me diria, as suas respostas aprovadoras. Muitas vezes ao longo do dia sinto essa necessidade de conversar com ela, de lhe contar coisas, trocar ideias. Muitas vezes até, acerca de coisas relacionadas com a própria circunstância da sua morte. Pode parecer um pouco absurdo, mas não há ninguém mais indicado para discutir coisas relacionadas com a morte de alguém do que essa própria pessoa.

Antes de me vir embora, o Rogério, apesar dos seus quase oitenta anos, trepou a um muro para me apanhar meia dúzia de limões. Eram uns frutos enormes e bonitos, de uma cor amarela esplendorosa. Vim para casa e decidi logo ir fazer limonada. Cortei dois limões em pedaços, deitei o açucar e cubos de gelo, mas a liquidificadora não funcionou, deve ter-se avariado durante os meses que esteve lá em casa, sem trabalhar, a ganhar pó em cima do frigorífico vazio.
Tags:

  • 1
"Ela", desculpa este tratamento, que não é desrespeitador, apenas para seguir o teu texto, vai estar presente um longo tempo na tua vida e na vida de muita gente que tu conheces e que que a conheceram...e tens que te habituar à ideia de que isso não significa necessariamente algo mau ou doloroso, porque essas memórias, tuas e dos outros, também te trazem à lembrança os muitos bons momentos.

doloroso sim, mas mau não. as memórias são sempre boas.

do que mais tenho saudades é de dizer a palavra "mãe" nas conversas com ela.
estes contos são catárticos.

ontem passei o dia a lembrar-me de que ela ainda não sabia o resultado do meu exame. ao ponto de me lembrar de que tinha de comentar com ela o facto de não poder falar com ela sobre o assunto.

Apetecia-me dar-te um abraço porque às vezes mais vale nem dizer nada...
És um bom filho.
Bjs

  • 1
?

Log in

No account? Create an account