Previous Entry Share Next Entry
victor matos e sá
rosas
innersmile
Leio no jornal que passaram ontem 40 anos sobre a data de falecimento de Victor Matos, professor de letras em Coimbra, e poeta com o pseudónimo de Victor Matos e Sá. Natural de Lourenço Marques, cruzei-me com o poeta por esta referência moçambicana, há cerca de 10 anos, quando apareceu antologiado em colectâneas de poemas e poetas de Moçambique, e até cheguei a pôr um poema seu, dedicado a Rui de Noronha, no meu antigo blog de literatura moçambicana (link: À Sombra dos Palmares).

Mas o meu conhecimento do poeta e da sua poesia vem de muito lá atrás, quando o “conheci” no meu primeiro ano da faculdade, em 1980, porque, no meu grupo de amigos e colegas, havia quem tivesse tido relações pessoais e creio que familiares com Victor Matos. Ao contrário do que é referido na nota publicada no jornal, o seu livro póstumo Companhia Violenta não foi publicado em 2000, mas 20 anos anos, precisamente nesse ano de 1980 em que o livro me explodiu, é a expressão certa, não há outra, nas mãos e na sensibilidade.

Tenho pena de não ter aqui à mão o meu exemplar do livro, já com muitas folhas soltas, para poder fotografar a sua belíssima capa, o formato pequeno da edição (da Centelha, se não estou em erro), e sobretudo as páginas e páginas de sublinhados e anotações que fiz aos poemas, eu e, a certa altura da vida, uma outra pessoa a quem amei profundamente, tendo o livro de Victor Matos sido um dos roteiros desse nosso amor.

Apesar de ser um poeta tão grande e tão lindo, infelizmente o seu nome está quase esquecido pelos cânones da literatura e da poesia portuguesa. E é uma pena terrível. Companhia Violenta ainda se vai encontrando à venda, nomeadamente nos alfarrabistas e nas feiras do livro, e a editora Campo das Letras, que creio já ter desaparecido, publicou aqui há uns anos um volume com toda a sua poesia, nomeadamente a esparsa e a inédita. São estes os dois livros que possuo do autor, e que guardo como um tesouro precioso.

Já pus aqui, há muitos anos, e dedicado à minha querida Sónia por ocasião do seu aniversário, aquele que será porventura o meu poema preferido de Victor Matos e desse ‘Companhia Violenta'. Pode ser lido numa entrada de 3 de junho de 2003 (link:É preciso que saibam: este rosto/ não está à venda). Mas hoje, para ilustrar este texto, e já que não tenho os livros aqui comigo, escolhi um poema que encontrei na net e que é exemplar da força e da intensidade da poesia de Victor Matos e Sá.

"AUTOBIOGRAFIA

Estive convosco em muitas palavras.
Algumas levaram-me ainda mais perto.
Com outras fiquei apenas mais só.

De muitas não vi que rosto as guardava.
Por outras me dei a quem não pedia.
Onde foram mentira alguém me faltava.
Mas todas cumpri por quem me cumpria.

E passaram ardendo em novos combates,
cobriram silêncios, provaram mistérios,
fizeram amigos que nunca terei.

Por serem verdade me trazem aqui.
E quando as sonhais na vossa esperança,
Um irmão me procura por entre as cidades
com todos os rostos que perdi."

  • 1
Desconhecia por completo e fizeste-me ficar curioso.

é um segredo muito bem guardado. o Companhia Violenta é dos melhores livros de poemas do século XX literário português :)

publicaste meu comentário sem o ler?

não. o que acontece é que não tenho nenhum screen nos comentários, nenhuma moderação, de modo que o livejourbal publica-os automaticamente.
amanhã envio-te um email

  • 1
?

Log in

No account? Create an account