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still alice
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Ainda antes dos Oscars tinha ido ver o Still Alice, para poder confirmar que o prémio de melhor interpretação feminina ficaria bem entregue. A Julianne Moore é, para além de uma actriz fabulosa, e como todos já sabemos desde os idos anos 90, quando ela fez pérolas como o Boogie Nights, o Safe ou o Short Cuts (do Robert Altman, e baseado nas histórias de Ray Carver, de quem falei aqui há dias), alguém que escolhe bem os filmes que faz e que aposta numa carreira no cinema, não se limitando apenas a coleccionar presenças no écrã e cheques chorudos.

E essa exigência da actriz está mais uma vez patente neste filme realizado pela dupla Richard Glatzer e Wash Westmoreland. Centrando-se quase exclusivamente na personagem que dá nome ao filme, este está longe de ser aquilo a que vulgarmente se chama um filme veículo, feito apenas para fazer brilhar a actriz. Há de facto uma história que o filme quer contar, e que é a de Alice e da sua viagem angustiante em direcção ao Alzheimer, mas é igualmente a de uma família cuja vida é fortemente abalada pela doença, mas que continua apesar de tudo. E é, afinal de contas, a história de uma vida, das nossas vidas, que muitas vezes é irónica e até mesmo cruel mas que, mesmo para lá do limite da nossa compreensão, continua a fazer sentido.

E este aspecto de Still Alice, o de que há uma “normalidade” mesmo no olho do furacão da maior crise pessoal e familiar (uma crise, ou mesmo uma tragédia), que o torna tão “realista” e tão comovedora a experiência de visionar o filme. Claro que não está alheio a tudo isto o facto de eu ter vivido, e viver ainda, muitos dos acontecimentos passados no filme com o meu pai; tudo ali me é familiar, quer os sinais da própria doença, reconheci-os todos, quer as ondas de choque provocadas por ela. Todas as semanas, quando vou visitar o meu pai, sinto que as suas capacidades cognitivas estão cada vez mais frágeis, mas, curiosamente, não o sinto mais longe ou afastado de mim, mesmo apesar de ele já não saber o meu nome nem sequer ser capaz de identificar o nosso parentesco: umas vezes somos irmãos, outras primos, mas o ponto é que ainda ontem, quando uma das suas companheiras de internamento lhe perguntou quem eu era, respondeu logo que sou seu filho.

Vale a pena dedicar um parágrafo à dupla de realizadores. Companheiros na vida real, têm partilhado uma carreira no cinema independente, mas também na indústria do cinema porno dedicado aos gays. Wash Westmoreland colaborou com Bruce LaBruce no filme Hustler White e participou como actor em Velvet Goldmine, do realizador Todd Haynes, o mesmo que realizou o já referido Safe, e também Far From Heaven, novamente com a Julianne Moore (e um dos meus filmes preferidos). A dupla tinha feito, no início dos anos 2000, o filme The Fluffer, uma dos maiores êxitos do cinema independente gay, e que se passava precisamente no meio da indústria do cinema porno gay. É curioso, e a mim fascina-me particularmente, este cross over entre mundos aparentemente tão distantes, e é uma ironia muito divertida e malandra ver participar na cerimónia dos Oscars actores e realizadores que também participaram nas cerimónias de entrega de prémios para a melhor cena de sexo anal ou oral!

Em tempo: para mencionar que Richard Glatzer sofre ele próprio de uma doença neuro-degenerativa, de carácter progressivo e eventualmente letal, do tipo da que vitimou o cantor José Afonso e de que sofre o físico inglês Richard Hawking, facto que dá toda uma outra ressonância ao filme.
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Interessante saber mais sobre a tua videoteca... :-)

é muito variada. quando quiseres posso emprestar alguns clássicos :)

1) Prefiro assistir junto, assim você já me brinda* com seus comentários e conhecimentos.

2) Finalmente assisti. Magnífico! Delicado! Lindo!

*Posto que não bebo álcool, e também, de maneira mais geral, para não incentivar seu consumo, não seria mais "politicamente correto" trocar o verbo para algo do tipo... você me "come" com seus comentários?

:D

a Julianne Moore está magnífica, não está?

Ainda não vi o filme e ainda não tenho sequer.
Nem sabia quem eram os realizadores, e agradeço a referência.
Sobre JM não te perdoaria se não houvesse uma referência a "Far From Heaven", uma maravilha de filme a lembrar os filmes lindos do Douglas Sirk...

acho que é por isso que eu gosto tanto do filme, João, porque é feito à maneira dos filmes do DS :)

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?

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