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factura detalhada
rosas
innersmile
Estou semanas e semanas sem entrar em casa dos meus pais. Aliás, este ano ainda só lá entrei duas vezes, sempre muito à pressa, e uma delas, no passado domingo, acompanhado. Mas passo regularmente pelo prédio para ir buscar o correio.

Na sexta-feira passada estavam na caixa de correio as facturas do telemóvel (já pedi a alteração da morada, mas pelos vistos demora), referentes ao mês de dezembro. Normalmente pago entre os dez e os quinze euros, e nos meses maus sobe acima dos vinte. Nesse mês foi de quase oitenta euros, mais do que eu estava à espera, pois já calculava que ia ser uma conta mais elevada do que o habitual, claro.

Como recebo factura detalhada, quando cheguei a casa ( e depois de restaurar um pouco a ordem reinante, que o gato quando está sozinho põe tudo de pantanas) pus-me a correr o registo das chamadas. É fácil adivinhar as convulsões que aconteceram nesse mês de dezembro, os dias impossíveis, em que os telefonemas são às dezenas, muitos deles para números internacionais, nomeadamente para o meu irmão. São páginas e páginas de números de telefone, com o registo do dia, da hora e da sua duração.

Há ali uma série de três dias infernais: numa quarta-feira, recebi a convocatória para baixar ao hospital para ser operado na semana imediata; no dia seguinte, a tratar de arranjar uma solução para a minha mãe enquanto eu estivesse internado; e na sexta-feira, o dia em que fui à urgência de ortopedia com ela. Depois, na altura do natal outro pico de chamadas, quando a minha mãe foi internada no serviço de cuidados paliativos, onde ainda permanece.

Aos poucos a irritação de ter uma conta tão alta para pagar foi dando lugar à angústia daqueles dias, e que, ao mínimo pretexto, volta à superfície, não apenas porque foi muito intensa e provocou feridas difíceis de reparar, mas também porque as situações se mantêm, mas estão adormecidas pela rotina e pela lufa-lufa do dia-a-dia. E é incrível como os nossos sentimentos e as nossas emoções podem transbordar assim a propósito de um assunto tão prosaico como uma estúpida conta de telefone.

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e de repente a factura detalhada detalha a vida vivida

Edited at 2015-02-04 02:12 pm (UTC)

foi isso que aconteceu, sim

As situações que se mantêm. Uma hora transbordam, sem dúvida. Vai mais um meu forte abraço e cálido beijo.

(Meu lado nerd ruge, contudo: bota esse skype pra funcionar, meu amor!)

Carlos Azevedo | The Cat Scats

(Anonymous)
Muita força, é só o que lhe posso desejar. Estive para o ter escrito mais do que uma vez, mas, além de achar que as palavras são de pouca valia nestas situações, tenho algum pudor em comentar coisas tão íntimas.
Um abraço.

Re: Carlos Azevedo | The Cat Scats

eu às vezes acho que também devia ter pudor em as pôr aqui. mas depois penso que são válidas todas as formas de lutarmos contra a loucura. obrigado pelo comentário

Re: Carlos Azevedo | The Cat Scats

(Anonymous)
Lamento se me expliquei mal, não foi isso que eu quis dizer. Evidentemente, dispõe da sua intimidade como muito bem entender, e sei muito bem que partilhar é, não poucas vezes, uma forma de alívio ou do que se lhe queira chamar. O pudor a que me referi é o de quem assiste, neste caso, eu, e não o de quem partilha.

Re: Carlos Azevedo | The Cat Scats

não Carlos, percebi bem o que disse e não senti qualquer remoque. apenas "estendi" o seu comentário, em particular a questão do pudor e da exposição íntima, à minha própria decisão de partilhar aqui coisas tão pessoais.
mais uma vez obrigado pela atenção

É curioso, é verdade... Socorremos-nos de coisas incríveis para recordar factos importantes da nossa vida.

como percebo o que dizes...

Meu querido Miguel..... Infelizmente as dores não dormem tão profundamente por muito que queiramos que isso aconteça.
Não tens Meo nem zon? Há tarifários muito bons. Bota o skype como te aconselha alguém.
Beijinhos para ti e para os teus pai ps de quem tanto gosto.....


obrigado, Madalena. beijinhos

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