jardim zoológico de vidro
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Graças à iniciativa da Margarida, fomos ver ao Teatro da Politécnica (e à borla, ainda por cima) The Glass Menagerie, do Tennessee Williams. Com tradução de José Miguel Silva, e encenação de Jorge Silva Melo, que preferiu dar à peça o título de Jardim Zoológico de Vidro, em vez do tradicional ‘Cristal’, para acentuar a condição pobre dos personagens. Interpretações do electrizante João Pedro Mamede (é daqueles actores que é impossível tirar os olhos deles quando estão em cena), da magnífica Isabel Muñoz Cardoso, de José Mata e de Vânia Rodrigues.

Esta peça é das primeiras que Williams escreveu e que o tornou um dos maiores dramaturgos norte-americanos. Talvez por ser muito inicial, tem um dispositivo dramatúrgico relativamente simples, e um forte carácter autobiográfico, não sendo em vão que o personagem principal tem o mesmo nome próprio do autor. É, de certa forma, uma peça escrita contra o remorso e o sentimento de culpa, ao encenar as razões de uma fuga e de um abandono.

Para além de várias versões cinematográficas, a última das quais realizada por Paul Newman com a inevitável Joanne Woodward e o John Malkovitch, vi de certeza pelo menos uma outra produção desta peça de Williams. Foi há quase 20 anos, levada à cena por um grupo de teatro universitário numa pequena cidade do estado do Wisconsin, nos Estados Unidos. Já me lembro pouco desse espectáculo, até pelas circunstâncias em que o vi, por isso foi excelente revê-la agora, num espectáculo com a força e a eficácia habituais nas encenações de Jorge Silva Melo.

Ter ido ao teatro em tão excelente companhia, da Margarida e do Eduardo, e depois de uma tarde tão bem passada, foi um plus muito significativo. Para mais numa zona da cidade que me diz muito, e onde há muito tempo não passava.

oh happy days
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Quando estou assim muitos dias sem vir aqui escrever, normalmente é porque ando lá fora, a viver a vida. Nos últimos tempos, infelizmente, tem sido pelas mais tristes razões. Mas na semana que passou, foi pelas melhores. O Eduardo veio de lá de São Paulo para me visitar e trouxe-me prendas: alegria, descontracção, tranquilidade, e sobretudo uma sensação de partilha e comunhão que eu já me tinha habituado a esquecer. Por breves dias, pus de parte esta solidão que nos últimos anos tenho tomado por adquirida, adormeci os medos e as angústias (não fiz de conta que elas não existem, adormeci-as mesmo). Foi bom perceber que ainda sou capaz de aceitar o que a vida me oferece de extraordinário.

Podia ensaiar um itinerário. Passeámos por Coimbra, mas sem a urgência distraída dos turistas, antes com a languidez de quem colhe da cidade o que precisa. Subimos à serra da Estrela e à Cruz Alta do Buçaco, e demos à expressão ‘ponto alto’ a ambiguidade dos seus vários sentidos. Visitámos castelos de infantas felizes e jardins de improváveis budas, mosteiros onde um rei e uma rainha aguardam o seu tempo, e conventos onde mulheres se transformaram em santas. Viajámos no tempo e regressámos com tempo. Partilhámos encontros extraordinários, escritos contra a aleatória improbabilidade das histórias, e vivemos momentos intensos de amizade, à volta de uma mesa ou na plateia de um teatro.

Tudo isto, repito, na estreita suspensão de uma semana. Entre as vidas de antes, as que recomeçam, e as que agora se iniciam, ao som do rumor brando dos milagres longínquos.

prince rogers nelson
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Ontem o Bono pôs uma mensagem na página dos U2 do facebook, a dizer que não conheceu o Mozart, não conheceu o Duke Ellington ou o Charlie Parker, não conheceu o Elvis, mas conheceu o Prince. E pronto, essencialmente é isto que há a dizer da dimensão genial de Prince Rogers Nelson.

Tive duas grandes sortes na vida. A primeira foi ter vivido, nos anos 80, o momento em que o Prince explodiu como estrela da música pop, com o álbum Purple Rain, a banda sonora de um filme com o próprio músico e que eu só veria muito mais tarde, e a consequente descoberta da sua música, quer a que tinha feito antes, nomeadamente o disco 1999, quer sobretudo a série de discos fabulosos que ele fez até final dessa década.

A outra sorte grande foi ter visto o Prince ao vivo, quando ele veio fazer o primeiro concerto em Portugal, no estádio de Alvalade, em agosto de 1993. Uma tardaça de música (General D, Vaya con Dios, os New Power Generation) e uma longa espera. Finalmente Prince apareceu, tocou uns cinquenta minutos, que nos deixaram ao mesmo tempo saciados e com vontade de mais. Depois disso voltou mais algumas vezes a Portugal, mas, como se sabe, não se tem a sorte grande muitas vezes na vida.

Este ano está mesmo a ser devastador para a música pop. Já parecia um bocado estranho estarmos num mundo sem David Bowie; agora que morreu o Prince, vamos ter de viver num mundo sem génios.

história do novo nome
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Lido o segundo volume das crónicas napolitanas de Elena Ferrante, História do Novo Nome. Parece-me que gostei ainda mais deste volume, do que já tinha gostado do primeiro. A delicadeza e a violência do embate emocional entre as duas amigas, é um assombro de complexidade, riqueza e intensidade. E estas caracteristícas estendem-se à própria narrativa. Tudo servido por uma linguagem muito simples, inteiramente ao serviço do enredo e sobretudo da força e da verosimelhança das personagens.

Sobretudo das duas protagonistas e, de um modo geral, das personagens femininas. Claro que o facto de não se saber se o pseudónimo Elena Ferrante corresponde a uma mulher ou a um homem, torna ainda mais complexa a relação destes livros com o leitor, pois é inevitável aceitar a perspectiva do livro como acentuadamente feminina (ou feminista, se quisermos ser politicamente correctos).

Tal como a escolha do nome Elena para a personagem da narradora contribui para criar no leitor a disponibilidade para aceitar a veracidade da história, recebendo-a quase como se se tratasse de um relato autobiográfico.

cabo verde 8/8
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25 março

Voo Praia Lisboa a bordo de um Boeing 757 da TACV.

O que mais gostei de conhecer nestes oito dias de Cabo Verde foi o próprio país e o seu povo. Surpreendeu-me o carácter industrioso destas pessoas, e ao mesmo tempo a sua tranquilidade e bonomia. Há muitas coisas fantásticas em Cabo Verde, e possivelmente a maior delas todas é o elevado nível de alfabetização e literacia. Toda a gente é bilingue, e alterna entre o português que aprende na escola e o crioulo, que é a verdadeira língua materna, usada por toda a gente no dia-a-dia.

Gostei muito do Sal, da Praia de Santa Maria, que é fantástica, uma das melhores que conheço, um mar irresistível. O facto de estar a meras quatro horas de Lisboa, torna-a um destino de Verão, obrigatório. Também gostei de conhecer o norte da ilha, a pequena cidade de Espargos, a D. Isaura e a escola primária de Palmeira; e as surpreendentes miragens.

Em Santiago, adorei a cidade da Praia e o seu Planalto, o bairro central da cidade carregando a memória do passado colonial. Não ter vergonha nem complexos do passado, e usá-lo na construção de uma identidade. Ter orgulho na cultura, e saber que ela é o contributo mais precioso para essa identidade.

Ontem, por volta da hora do almoço, chegou notícia importante: nasceu um bebé na família, o primeiro dos dois prometidos para este ano. E foi bom receber essa notícia aqui, num lugar de que gostei muito e onde me senti bem. Perfeito!
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cabo verde 7/8
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24 de março

A manhã do último dia em Cabo Verde foi passada numa visita à Cidade Velha, como é conhecida a Ribeira Grande de Santiago, a primeira povoação que os portugueses estabeleceram na ilha e no arquipélago (e a primeira, ou das primeiras, cidades europeias em África). Começámos pelo alto, pelo Forte de São Filipe, sobranceiro à cidade, com uma vista esplêndida, um verdadeiro bird’s view sobre a cidade e todo o mar em frente.

Depois passámos pela ruína da antiga Sé Catedral, e fomos visitar a igreja de Nossa Senhora do Rosário, onde esteve o Vasco da Gama, e onde o Padre António Vieira pregou, a caminho do Brasil. Junto à igreja, a Rua Banana, conservando a traça das antigas casas de pedra. Numa destas casas, no interior sombrio entrevisto pela porta aberta, uma senhora idosa sentada numa cadeira baixa a conversar com oum homem ainda jovem que, de fita métrica pendurada ao pescoço, trabalhava numa velha máquina de costura.

Na Praça do Pelourinho, dezenas de jovens em uniforme escolar enchiam os degraus do monumento, em perfeito estado de conservação, alternando junto à coluna para fazer fotos. E de alguma maneira resgatando o pelourinho da infâme memória de lugar de tráfego e castigo de escravos. Ao redor da praça, os vendedores de artesanato tentam tudo para seduzir o cliente. O Júlio tem um irmão a fazer mestrado de Relações Internacionais em Coimbra.

De regresso ao Plateau, o almoço foi no Bistrô 90, no topo da rua pedonal, ao melhor estilo dos restaurantes da moda, e com ar de ser muito ‘trendy’. Nós destoávamos, claro, com os nossos calções e sapatilhas sujas, e o ar estafado de quem precisa de tomar duche.
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cabo verde 6/8
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23 março

Todo o dia em passeio, até ao norte da ilha, no Tarrafal, guiados pelo Félix. Começámos por correr os bairros todos da Praia, sem esquecer o monumento ao Papa João Paulo II, num miradouro com vista para a praia de Quebra Canela, onde o Papa rezou missa em 1990.

Depois de um pneu furado, o segundo em três dias, na Achada de São Filipe, seguimos para norte até São Domingos, onde visitámos uma pousada de montanha, em Rui Vaz. Continuámos em direcção à costa leste da ilha, Porto Badejo e Calheta, atravessando zonas agricolas, com barragens pluviais para rega.

Já no Tarrafal, almoçámos junto à praia, um arroz malandrinho de polvo, búzios e lapas, a ver os jovens a jogar futebol na praia e os barcos a sairem para a pesca. Fomos depois visitar o presídio, um impressionante campo de concentração, a fazer-nos lembrar que o salazarismo não foi essa espécie de ditadura de brandos costumes em que alguns acreditam ou querem fazer acreditar. Há um esforço museológico que visa preservar a memória do campo, e que dá testemunho do que representou o Tarrafal na execução da política repressiva de Salazar, quer na primeira fase, em que se destinava aos prisioneiros políticos do continente, em particular os implicados na revolta dos marinheiros, o que justifica tantos dos prisioneiros mortos no campo serem jovens na casa dos vinte anos; quer na fase posterior, em que os prisioneiros do campo eram os militantes dos movimentos nacionalistas africanos que lutavam pela independência das ex-colónias, e em que predominavam os angolanos e os guineenses.

No regresso, atravessámos a serra da Malagueta, reserva natural, com bancos de nevoeiro cerrado nos pontos mais altos, e, na Assomada, descemos até ao fundo de um vale, uma garganta estreita e fértil, para ver os embondeiros, um deles com um imponente tronco com 45 metros de diâmetro.

De regresso à Praia, fomos jantar ao Quintal da Música, com música ao vivo: Kátia Borges, voz, Ulisses Português, teclas, e Medina Ivan, na guitarra. Boa música, bom clima, e uma rapariga simpática que equilibrava caipirinhas na cabeça.
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cabo verde 5/8
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22 março

Na cidade da Praia, capital de Cabo Verde. Pequeno almoço às 7, às 8 estava no aeroporto Amílcar Cabral. O voo do Sal para Santiago dura pouco menos de uma hora, a bordo de um ATR72, um avião com motores a hélice, com duas cadeiras de cada lado do corredor; como os Friendship da minha infância. Neste voo doméstico praticamente não havia turistas, e nós como que nos diluimos na normalidade (se não fosse pelos calções e pela pele rosada do escaldão!)

Almoçámos na esplanada do restaurante Avis, na Avenida 1 de Junho, a rua pedonal que marca o centro do Plateau, e que tem um movimento constante de peões e vendedores (o mercado está fechado para obras, e por isso as zonas adjacentes transbordam de comércio de rua), lojas, cafés, museus. Apesar de pequena, pouco mais de 130 mil habitantes, a cidade respira o ambiente de uma capital, e temos finalmente a sensação de estar em África.

O Plateau, ou Planalto, é a zona central da cidade, onde se concentram os serviços públicos, e é uma cápsula no tempo, remetendo-nos constantemente para o estilo e a arquitectura das cidades coloniais portuguesas. Em especial a praça Alexandre Albuquerque, com o Palácio da Presidência (antiga residência do governador), o Quartel Jaime Mota, o miradouro e a estátua do ‘descobridor’ Diogo Gomes (com vista para o Ilhéu de Santa Maria e a zona da Prainha, onde fica o hotel), o belíssimo edifício da Câmara Municipal, e a Igreja de Nossa Senhora da Graça.

Foi bom visitar a igreja, principalmente por ser a hora a seguir ao almoço, em que está quase vazia. Poucos crentes (uma rapariga a tocar com as mãos nos pés da imagem de Nossa Senhora de Fátima), algumas pessoas a limpar e a preparar o igreja para a Semana Santa.

Corremos detalhadamente três das ruas do Plateau. Gostei muito da Avenida Andrade Corvo, com uma exuberante arquitectura dos anos 50 e 60, os prédios baixos, construídos para o comércio, e com os andares superiores para escritórios ou moradias. Lourenço Marques ou mesmo Nampula estavam cheias deste tipo de prédios. Ao fim da avenida, na Praça Luís de Camões, fica um edifício, que creio ser a reitoria da Universidade de Cabo Verde, fantástico, com laminas verticais de cimento pintadas de branco.

Percorremos igualmente a Avenida Amílcar Cabral, que parece ser assim uma espécie de rua de trás deste bairro do Plateau, por onde circula o trânsito, onde param os transportes que servem os bairros afastados do centro, uma avenida larga, com um movimento constante, a vibrar de comércio e escritórios. Abordagens frequentes a perguntarem se queríamos trocar dinheiro; talvez por estar todo rosado, as pessoas dirigiam-se a mim em inglês, e ao Bruno em português.

Gostava muito de falar desta cidade, de a descrever, de falar deste bairro elevado e central por cujos edifícios escorre a história de um país ou mesmo de dois ou mais países, com a pessoa que melhor compreenderia o meu fascínio e a sua natureza: a minha mãe. E de alguma maneira foi isso que fiz, nos tranquilos momentos em que estive na Igreja de Nossa Senhora da Graça.

Fomos jantar na Churrascaria Dragoeiro, que fica na Achada de Santo António, um dos maiores bairros da cidade (onde fica também o Parlamento nacional). Comi uma garoupa grelhada.
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cabo verde 4/8
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21 março

A beber um chá no bar do hotel, enquanto o Bruno foi ao correio, que fica ao fundo da Rua Um de Junho.

De manhã, inscrevemo-nos num passeio e fomos dar a volta à Ilha do Sal. Ou meia-volta, para ser mais preciso, pois só visitámos a parte norte da ilha, para cima do aeroporto.

Duas paragens em Espargos, uma à ida e outra à volta, a capital da ilha, que já era nossa conhecida. Desde ontem... É engraçado passear com o guia pelos lugares que visitámos ontem. A grande diferença é que ontem, por ser domingo, estava tudo deserto, e hoje a cidade fervilhava de vida. Muitas crianças, com as suas fardas escolares, e muitas carrinhas Hiace, que fazem o transporte dos trabalhadores para a zona turística do sul da ilha. Num intervalinho, eu e o Bruno fomos beber um café à Caldera Preta, um dos bares mais conhecidos da vila, sobretudo por causa da música ao vivo; hélas!, eram 10 da manhã, ficámo-nos pelo café.

Depois fomos à aldeia piscatória de Palmeira. Visitámos a D. Isaura, uma senhora com 90 anos que é amiga do Ulisses, o nosso guia, e a seguir espreitámos a escola primária Zeca Ramos. O Ulisses espreitou para dentro de uma das salas, e anunciou-se com o nome igual ao do primeiro-ministro eleito ontem. De lá de dentro veio uma voz de criança: “Não queremos políticos na nossa escola”!

A visita à aldeia terminou no porto de pesca, muito tranquilo àquela hora, só o ocasional calafate a trabalhar nos barcos em terra. A seguir fomos visitar a gruta do Olho Azul e a Buracona, mas eu fiquei cá em cima, a apanhar vento, não me meto em aventuras em rochas.

A parte mais espectacular do passeio foi mesmo a paragem, já na zona norte da ilha, para ver as miragens. No horizonte, a paisagem desértica transforma-se em água. O efeito é não só real, mas poderoso. Parece um mar que avança à medida que nos baixamos, para o olhar ficar mais horizontal. Ou um lago, com reflexo de montes e vegetação. E, tremeluzindo no calor, figuras humanas?

No regresso ainda parámos nas salinas de Pedra Lume, mas eu fiquei no carro e não quis ir visitar.Porque estava cansado, mas também por causa dos comentários que o Ulisses fez em relação ao dono do vulcão onde estão as salinas. Uma das coisas boas deste passeio foi precisamente o Ulisses, um excelente guia, com consciência social, e que tentou fazer com que os visitantes vissem para além da visita turística. Ficámos a conhecer melhor como é a vida das populações que aqui vivem, e trabalham para o turismo.

Jantámos num café, em Santa Maria, o Cabo Verde. Comi lulas na chapa. Ontem e hoje a refeição terminou com uma visita à Giramondo, uma gelataria italiana excelente. Seguiu-se uma pequena discussão luso-brasileira sobre o tema gelado vs. sorvete.
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cabo verde 3/8
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20 março

Mais uma manhã de praia. Ou melhor, manhã de piscina com incursão à praia para um banho. O mar é fabuloso, a temperatura perfeita: nem fria nem quente; custa um bocadinho a entrar, mas depois é um convite. Com ondulação, sem correntes, uma água cristalina azul turquesa. Acho que é das praias mais bonitas que conheci.

Fomos almoçar a Espargos, no táxi do Sr. António. Uma simpatia. Conversámos muito, nomeadamente sobre política, pois hoje foi dia de eleições gerais, para o parlamento, e também para a escolha do novo primeiro-ministro. Ganhou o MpD, Ulisses Correia e Silva vai ser o próximo primeiro-ministro. O PAICV, que candidatava uma mulher ao lugar de primeira-ministra, perdeu, após 15 anos de poder.

Almoçámos no restaurante Benvass, bom e barato. Sai-se de Santa Maria e os preços baixam: hoje pagámos 11 euros ao almoço, 33 ao jantar. Que foi no restaurante Pubim, que nos tinha sido recomendado, mas foi fraquito. Valeu pela música ao vivo, que era muito boa, com viola e cavaquinho.

A tarde, além da sorna, incluiu mais uma banhoca maravilhosa. O Bruno e eu assinalámos hoje, em Cabo Verde: ele, a chegada do Outono, eu, a da Primavera.
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cabo verde 2/8
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19 março

Duas belas banhocas no mar incrível da praia de Santa Maria. Foi o principal acontecimento do dia de hoje: uma de manhã, com a praia cheia de gente, e outra agora ao fim da tarde, com a praia vazia e a maré cheia.

O Bruno chegou logo de manhã, mais cedo do que eu estava a contar. Tomámos o pequeno-almoço, resolvemos a questão do check-in a dobrar (ontem fiz check-in só para uma noite), e fomos para a praia.

Depois fomos à vila, almoçar. Escolhemos um dos restaurantes recomendados por uma guia com quem falámos de manhã, o Américo’s. Comi uma garoupa grelhada, óptima. Depois andámos a passear pela vila. O mar, à tarde, visto do pontão, é fabuloso, de um azul inacreditável.

Depois do banho da tarde, o jantar foi no Barraco Da Ângela, uma barraca na praia: grelhada de marisco, e um belo de um cheesecake de morango. Com música ao vivo, mornas, com voz, piano e guitarra.
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cabo verde 1/8
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18 março

Estar aqui na Ilha do Sal, à noite, sozinho, num resort, pode não parecer mas já é uma conquista.

Pela primeira vez em muito tempo, saí de casa sozinho (com algumas ajudas, sobretudo por causa da falta de auto-confiança), com tudo o que isso implica quando se trata de uma viagem aérea: carregar mala, esperar de pé em filas, percorrer corredores quilométricos.

A viagem correu bem. Conheci uma nova companhia aérea, a TACV: serviço competente, sem luxos asiáticos, ou melhor, africanos.

À chegada uma surpresa desagradável: não tinha o transfer à espera para me trazer para o hotel. Fiz uma chamada e veio a solução: apanhei um táxi - 20 euros do aeroporto até ao hotel. O Cassiano, o motorista, propôs-me fazer um tour pela ilha por 50 euros.

O hotel, o Oasis salinas, é grande, mas não é gigantesco. Apesar de estar em regime APA, dado o adiantado da hora (o voo chegou uma hora atrasado), jantei aqui no hotel.

O wi-fi é óptimo, já enviei uns mails, vi o meu gato no instagram. Que saudades do gato, como é que eu vou conseguir dormir sem o ter deitado na almofada, junta à minha cabeça?

Estou sempre a lembrar-me de telefonar à minha mãe. Não me habituo à ideia de que estou sozinho de facto, de que não tenho ninguém a quem telefonar a dizer que cheguei bem.
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gratidão
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Este volume muito breve (uma, duas horas de leitura) colige quatro ensaios que o autor publicou no jornal New York Times, três deles escritos e publicados quando o autor já sabia que sofria de uma doença terminal que lhe garantia muitos poucos meses de vida.

Estes textos são testemunhos brilhantes e comoventes de como morrer faz parte da vida, e de como o autor encarou com coragem e determinação o tempo de vida que lhe restava. Dos livros que li de Oliver Sacks já sabia que neles aprendemos sempre muito. Talvez nunca tenha aprendido tanto como nas breves páginas deste seu derradeiro livro.

bossarenova trio: paula morelenbaum, joo kraus e ralf schmid
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Pelo meio do turbilhão emocional que foram as últimas semanas, fui assistir a um belíssimo concerto do Bossarenova Trio, um projecto ‘europeu’ de Paula Morenbaum para assinalar os 50 anos da Bossa Nova, e que já rendeu uma gravação em formato big band, e agora um novo cd, Samba Prelúdio, com um extraordinário trio, formado naturalmente pela cantora e por dois músicos verdadeiramente excepcionais: Joo Kraus, no trompete e percussão vocal, e Ralf Schmid, piano, teclados electronicamente aditivados, e arranjos.

Para além dos clássicos da bossa nova, o concerto convoca ainda outros géneros musicais, nomeadamente o lied, de Schumann, ou as composições de Villa-Lobos. O resultado é brilhante, porque os musicos são enormemente talentosos, e porque não têm medo de arriscar soluções arrojadas, mas sempre muito bem conseguidas, para os seus números. É um daqueles concertos que seguimos com a consciência e a excitação de que estamos a assistir a qualquer coisa de muito especial, mas também com uma certa pena por sabermos que cada novo tema nos empurra inevitavelmente para o fim.
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passos perdidos
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Duas personagens, uma mulher e um homem, perseguem-se e fogem um do outro pelos lugares do mundo. Pouco enredo, poucas peripécias, mas duas personagens densas que dão a este livro o pretexto narrativo. A maior parte do resto são ensaios, sobre lugares, sobre arquitectura, sobre história de arte, sobre história, que se vão desenrolando e cruzando com os destinos das personagens ao longo da larga deambulação que encetam por cidades, ilhas ou continentes. Muito do melhor são reflexões, são dúvidas, são descrições, de lugares imaginados ou imaginários, são debates, internos ou não, são intervenções do autor no passado e no destino das personagens.

Para além da colecção de crónicas Ouro e Cinza, é o segundo livro de Paulo Varela Gomes que leio. E enquanto Era Uma Vez Em Goa era um travelogue inventado, um livro de viagens escrito por um personagem ficcional, Passos Perdidos é um falso romance. Mas as personagens são tão fortes, é tão intenso o seu mistério e o seu desejo, que é atrás de Anna W. e de C. Brandon (o acrónimo WC só pode ser mais um sinal do instigante sentido de humor do autor) que seguimos, como, de resto, em certos trechos, é o próprio autor, acompanhado da sua mulher e dos seus amigos, que nos conduz. Dizer que Paulo Varela Gomes testa os limites da ficção (ou ao contrário, de géneros literários bem tipificados) parece pouco e demasiado árido para o fulgor narrativo dos seus livros.

3 e 15
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Poemas, crónicas, impressões, entradas de blogs, apontamentos, ficções. É impossível conter a descrição deste livro nos formatos habituais. É confessional, claro, pessoal e íntimo, mas o olhar distanciado do autor sobre si próprio e a sua circunstância, transformam estes textos numa espécie de 'com a verdade me enganas'. Ou então o contrário disso: acrescentar camadas, ocultar referências, descontextualizar, para de certa maneira tornar estes textos mais verdadeiros e essenciais. A escrita é sempre brilhante, criativa e imaginativa, e correctíssima, mesmo quando nos desafia com o desvio à gramática. O tom é quase sempre um pouco provocatório, mas nunca insolente ou arrogante. Antes pelo contrário, o olhar do autor é benevolente, e quando é mais afiado e acutilante, é a si próprio que se dirige. O humor faz parte do ADN destes textos, mas não é a graça, a piada fácil; é o humor de quem sabe que para serem levadas a sério, as coisas (a vida, o mundo...) não podem ser levadas demasiado a sério.

pai
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Mais de duas semanas sem vir aqui escrever. A última vez que aqui tinha escrito foi para anunciar que ia de férias. E fui, uma semana em Cabo Verde, maravilhosa terra, maravilhoso povo, maravilhosas férias, na companhia do meu amigo Bruno. Encontrámo-nos na ilha do Sal, um procedente do Rio de Janeiro e outro de Coimbra, fizemos três dias de praia, e depois fomos para a ilha de Santiago, para a Cidade da Praia, capital do país. À chegada ainda ficámos o fim de semana da Páscoa em Lisboa. Depois, no domingo, o Bruno iniciou o seu regresso ao Brasil e eu vim para casa. Tenho um caderno com apontamentos e impressões da estadia em Cabo Verde, se um dia destes tiver paciência passo-o para aqui.

Como disse, regressei a Coimbra no Domingo de Páscoa, e decidi tirar o dia de segunda-feira para, entre outras coisas, ir visitar o meu pai à casa de saúde, depois de dois fins de semana ausente. Por volta da uma da tarde, quando me preparava para o ir ver, recebo um telefonema da casa de saúde a dizer que o tinham levado para a urgência do hospital para ser observado, pois tinha passado mal a noite, com vómitos. Meia hora depois recebo nova chamada, desta vez do hospital, a comunicar que o meu pai tinha acabado de falecer.

No mesmo mês em que fez um ano que perdi a minha mãe, perco o meu pai. Da maneira mais inesperada, mas também a mais rápida, e espero que o meu pai, que já estava bastante ausente com uma demência cognitiva, tenha morrido sem sofrimento físico e sem angústia. Costumo dizer que a vida me trata com uma ironia por vezes um pouco cruel; serão coincidências, mas assim como a minha mãe morreu no único dia em que, por motivos profissionais, eu não a pude visitar logo pela manhã (igualmente a uma segunda-feira), o meu pai morreu quando me preparava para o ir ver depois de dois fins de semana sem o visitar, a primeira vez que tal tinha acontecido.

Esta circunstância, agravada pelas características da sua doença, deixam-me um inevitável sentimento de abandono, como se, primeiro a minha mãe, e agora o meu pai, me tivessem deixado na única altura em que não estive presente. Não sinto remorsos, note-se, porque tenho consciência de que, estando eu sozinho a velar e a cuidar deles, fiz por eles tudo o que era possível, e no caso do meu pai, tenho a certeza de que não haveria melhor solução para ele do que a instituição onde esteve internado nos últimos quinze meses.

Apesar da sua doença, ter o meu pai, ir visitá-lo todos os fins de semana, conversar com ele, passear, dar-lhe mimos, ajudou de alguma maneira a mitigar o sentimento de tremendo desamparo que senti com a falta da minha mãe. Agora sim, sinto-me verdadeiramente órfão e sozinho, para mais tendo o meu irmão e os meus sobrinhos a viver tão longe de mim.

E se é verdade que essa solidão acentua a tristeza que sinto pela falta dos meus pais, não deixo nem por um momento de me sentir muito grato por ter tido os meus pais comigo, para mais numa relação muito íntima e intensa, durante tantos anos. A minha mãe faleceu com 84 anos, e o meu pai a escassos meses de fazer 87. Foi uma felicidade imensa ter tido os meus pais durante tanto tempo, com uma vida que apesar de tantas dificuldades e dissabores, foi sempre vivida com alegria e prazer.

Não é o caso de dizer que aprendi muito com eles, que eles fizeram de mim o que sou hoje; provavelmente isso é verdade, mas é tão evidente e inevitável que nem merecerá grande nota. Mas mais importante, aquilo que guardo sempre, e sempre guardarei para que me aqueça sempre os dias, é que os meus pais foram os maiores amigos que eu tive, e foram as pessoas que, em todos os momentos, mais contribuiram para a minha felicidade e para o meu gosto de viver.

Nascemos sozinhos e morremos sozinhos, diz o lugar-comum. E só aqueles que nos amaram intensa e incondicionalmente, conseguem fazer com que esse sentimento de solidão tão primordial e extremo, se atenue ao longo da vida, dos dias. No meu caso, e não desconsiderando algumas pessoas, familiares e amigos, de quem gosto mais do que sou capaz de o dizer, só os meus pais me davam a tranquila certeza de que não estava sozinho no mundo.

all your life
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Blackbird singing in the dead of night
Take these broken wings and learn to fly
All your life
You were only waiting for this moment to arise.

Blackbird singing in the dead of night
Take these sunken eyes and learn to see
All your life
You were only waiting for this moment to be free.

Blackbird fly Blackbird fly
Into the light of the dark black night.

Blackbird fly Blackbird fly
Into the light of the dark black night.

Blackbird singing in the dead of night
Take these broken wings and learn to fly
All your life
You were only waiting for this moment to arise.



[Blackbird, de Lennon / McCarteney, pelo bossarenova live / SWR Big Band cond. by Ralf Schmid feat. Paula Morelenbaum]

o sol nas coisas
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O PRESTIDIGITADOR ORGANIZA O ESPECTÁCULO

Há um piano carregado de músicas e um banco
há uma voz baixa, agradável, ao telefone
há retalhos de um roxo muito vivo, bocados de fitas de todas as cores
há pedaços de neve de cristas agudas semelhantes às das cristas de água, no mar
há uma cabeça de mulher coroada com o ouro torrencial da sua magnífica beleza
há o céu muito escuro
há os dois lutadores morenos e impacientes
há novos poetas sábios químicos físicos tirando os guardanapos do pão branco do espaço
há a armada que dança para o imperador detido de pés e mãos no seu palácio
há a minha alegria incomensurável
há o tufão que além disso matou treze pessoas em Kiu-Siu
há funcionários de rosto severo e a fazer perguntas em francês
há a morte dos outros ó minha vida

há um sol esplendente nas coisas


- Mário Cesariny, MANUAL DE PRESTIDIGITAÇÃO


Vou ali passar uns dias de férias e já volto. As aventuras do gato podem ser seguidas em instagram.com/pet.lovers.coimbra.

um sol esplendente nas coisas
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Este volume breve de cartas que Mário Cesariny escreveu para o poeta Alberto de Lacerda ao longo dos 40 anos que durou a sua amizade, é a prova de que a epistolografia é um género literário dos mais nobres.

Além disso, constitui uma síntese do que pode ser a correspondência entre dois génios da literatura que, a avaliar pelo tom e pelos temas abordados, partilhavam igualmente alguma intimidade.

Mas estas cartas são essencialmente um insight para a mente de Cesariny: o talento, o humor, a ironia, a criatividade, a relação sôfrega e distante com o mundo, o sexo, as grandes amizades, a pintura, a literatura...

Contendo apenas uma carta, a última, de Alberto de Lacerda para Cesariny, é interessante como este livro é tão de Alberto como de Mário. Como que a dizer que uma carta é tanto daquele que a escreve como daquele a quem se destina.

Excelente edição de Luís Amorim de Sousa, que é também um pouco autor do livro, e que escreve um prefácio entusiasmado e entusiasmante.

a amiga genial
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Primeiro volume de uma tetralogia, que segue a vida de duas amigas. Neste primeiro livro, acompanhamos a infância e a adolescência de Lila e de Elena, a narradora, nos bairros pobres da periferia de Nápoles.

É fascinante o poder de imersão da narrativa e a sensação de verdade que transmite, sobretudo da verdade interior das personagens, da sua honestidade para consigo próprias.

nicolau
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Possivelmente o nome do Nicolau Breyner entra na história da cultura popular em Portugal por estar ligado, de uma forma quase autoral, à ficção televisiva, em particular ao desenvolvimento de uma indústria de telenovelas que é uma das marcas mais distintas da televisão que se faz em Portugal. Como não sou espectador de novelas (nem de televisão, aliás), assinalo o facto, reconheço-lhe importância no âmbito da economia cultural (sobretudo pela criação de uma vasta escola de actores e de técnicos), mas não me comovo.

Então, o “meu” Nicolau vem de trás, dos seus tempos de actor de comédia com presença frequente no humor televisivo, antes deste se ter tornado, também ele, uma espécie de indústria cultural. O Nicolau Breyner era como o Raúl Solnado, entrava-nos pela casa e era da nossa família. Ouvi alguém dizer, não sei se na TV ou na rádio, que não deve haver um português que nunca tenha soltado uma gargalhada à conta do Nicolau, e isso de facto é uma coisa espantosa, torna o Nicolau num verdadeiro ícone da cultura popular do espectáculo português.

Provavelmente as minhas recordações mais antigas do Nicolau são do cinema, das comédias muito naives dos anos 60 e 70, das suas participações nos filmes do Artur Semedo (outro que deixou muitas saudades), todos eles, os filmes, e todas elas, as participações, notáveis e inesquecíveis.

Talvez ainda mais antigas do que as da televisão, que só comecei a ver quando vim para Portugal, em finais de 1976, só apanhando a mítica dupla Sr. Feliz e Sr. Contente, com o Herman José, já no fim da sua presença televisiva. Mas lembro-me do Eu Show Nico, com a sua inolvidável Tia Eva, ou dessa espantosa Gente Fina É Outra Coisa, uma série de humor que Nicolau fez já a testar a maneira de fazer ficção televisiva, e que ficou marcada pelo regresso ao activo de Amélia Rey Colaço. Esta série deve ter sido a oportunidade de muita gente da minha idade de ver essa que foi uma das maiores actrizes de sempre, a trabalhar. De resto, uma das minhas vénias à memória de Nicolau faço-a com frequência quando, com alguns amigos, falamos nos Bentorrado Corvelins Penha Leredo.

Fui procurar no livejournal referências ao Nicolau, e encontrei duas, ambas de 2005. Uma de fevereiro, a propósito da série de televisão João Semana, uma adaptação das Pupilas do Sr. Reitor, de Júlio Dinis. Escrevi o seguinte:
“O Nicolau Breyner é um grande actor, e chega a ser comovente ver a intensidade e o sentido da sua interpretação, sobretudo porque é feito sempre num registo contido, de uma certa escassez, que vai muito bem com a bonomia e a tranquila determinação da personagem.”

A outra é uma coroa de glória, a única vez que vi o Nicolau ao vivo, em palco. Foi em maio desse ano, a propósito da passagem por Coimbra de uma peça feita em monólogo, pelo actor:
“Nicolau Breyner decidiu regressar aos palcos e fê-lo com 'Esta Noite Choveu Prata', uma peça em dois actos do brasileiro Pedro Bloch. Na verdade são três curtos monólogos de três personagens: um português e um italiano, que no primeiro acto falam sobre a vida e a amizade com um velho actor brasileiro, cuja fala ocupa todo o segundo acto.
Interessante foi Nicolau ter decidido correr literalmente o país todo apresentando a peça antes de a mostrar em Lisboa. Gostei muito de o ver em palco, é um daqueles actores que ocupam o espaço, que conseguem transformar o ar do palco numa coisa palpável, com densidade. “

O Nicolau faz parte da nossa memória colectiva, e sabemos como a memória é tão importante na construção da identidade. Por isso não podemos deixar de estar, nesta hora da sua morte, mais tristes e mais pobres.
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esta casa
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Esta casa não é minha
Mas é meu todo o seu céu
Tão azul como nuvens austrais
Que parecem deixar-se tocar
Com a polpa dos dedos.

É uma ausência que dói devagar
Tristeza que me abandona
Ao sorriso manso dos lagartos no capim.

Procuro-te em vão
Na noite fechada das páginas
Dos livros que leio, enquanto os escrevo
Ateando seus fogos ancestrais.
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é uma rotunda
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as magnólias, ao fundo da rua
podia ser uma praceta, em vez de uma rotunda
os passeios de pedra, muros baixos
os jardins
e as magnólias

já restam poucas flores nos ramos das
árvores hesitantes
pequenas brasas, brancas e rosas
de um fogo majestoso
que lavrava em meus olhos

as folhas cerradas e tenras
cobrem as árvores de uma coroa verde
aguardando já a primavera

antigamente era teu o dia em que
as magnólias explodiam em flor
agora o teu tempo é o das
pétalas, que se desprendem
lentamente
e caem no passeio esquecido pelo trânsito
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joão afonso no conservatório
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Concerto de João Afonso, ontem, no auditório do Conservatório de Coimbra. A apresentar sobretudo temas do seu último disco, Sangue Bom, e acompanhado por quatro excelentes músicos: João Ferreira, percussão e bateria, Vitor Milhanas, baixo, Miguel Fevereiro, guitarra eléctrica, e António Pinto, guitarras.

Pelo meio dos temas de Sangue Bom, com textos de Mia Couto e José Eduardo Agualusa, lugar ainda para outros temas do próprio João Afonso, como o popular Carteiro em Bicicleta ou um inédito, e três canções de José Afonso. Infelizmente não tocou Lagarto, um dos meus temas preferidos do disco, mas tocou outras, igualmente lindíssimas como Verde Para Crer ou Na Grande Casa Branca.

A carreira discreta que o João Afonso vem mantendo há décadas (Maio Maduro Maio, o primeiro projecto discográfico em que participou, é de 1994, e Missangas, o primeiro disco a solo, é de 1997) tem sido sempre muito interessante, nomeadamente pela feliz fusão que o artista tem conseguido explorar entre as músicas africana e popular portuguesa, e há nas suas canções, e na sua voz, uma beleza tão subtil como extasiante e tranqulizadora.

Só uma nota para acrescentar que em alguns temas, o concerto teve como convidado o músico Manuel Rocha com o seu violino; apesar de ser uma espécie de património musical da cidade (por variadíssimas razões), é incrível como ouvi-lo tocar parece sempre ser uma coisa nova e surpreendente.
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josino eduardo, naná vasconcelos
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Penso que terá sido no verão de 2002, num concerto no Coliseu de Lisboa por ocasião do lançamento do cd Noites do Norte. Um concerto, tal como o disco, muito marcado pela percussão, em sintonia com o tema dominante do álbum, a escravatura e o seu papel decisivo na formação de uma identidade brasileira; a justificar a presença de uma bateria de quatro percussionistas em palco. Às tantas, Caetano chama para a frente de palco dois deles, para dançarem o samba: Josino Eduardo e Eduardo Josino. Foi um arraso, um daqueles momentos de um concerto que nunca se esquecem.

No fim de semana passado, vi no instagram de Caetano a notícia triste: num acto de violência, num bar da noite de Salvador, os irmãos gémeos foram baleados, e um deles, Josino Eduardo, foi morto. Eu sei que é um pouco assim por todo o lado, mas não há como, por vezes, evitar uma tristeza profunda e revoltada por esta violência desesperada que marca a dimensão do crime ligado ao tráfico de droga no Brasil. E lastimar o enorme desperdício que estas mortes significam: se não for outro, o da beleza intensa e incendiada dos dois irmãos a dançar num palco de Lisboa.

Já no final da semana, a notícia de outra morte, também no Brasil, também de um grande músico, outro percussionista. Naná Vasconcelos, um musico genial que, através de uma longa e profícua carreira, tocou com todos os grandes nomes da música, sobretudo do jazz. Não tenho nenhum disco de Naná Vasconcelos como bandleader, mas de Caetano Veloso a Paul Simon, Ryuichi Sakamoto ou Brian Eno, são inúmeros os álbuns em que participou, fazendo ainda parte integrante da discografia de músicos tão decisivos e importantes como Milton Nascimento, Egberto Gismonti, Pat Metheny ou Jan Garbarek.

retrato oficial
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O burburinho que vai para aí com o retrato oficial de Cavaco Silva, da autoria do pintor Carlos Barahona Possollo. É que Possollo é igualmente autor, num estilo realista que não se afasta muito do retrato, de obra vasta marcada por acentuado erotismo, quase sempre de natureza homossexual.

Eu percebo que o Cavaco estava mesmo a pedi-las: há uma ironia fantástica no facto de um tipo muito conservador, que sempre que pode se opôs às alterações legislativas que visavam consagrar a igualdade cívica entre cidadãos independentemente da orientação sexual de cada um, ter o seu retrato oficial feito por um artista que tem dedicado parte do seu esforço, eu diria até aquela parte da obra menos institucional e por isso que mais corresponderá à sua “voz interior”, a fazer quadros de um homo-erotismo explícito e assumido. Por outro lado, não deixa de revelar uma certa elevação por parte de Cavaco, que certamente não ignora essa outra obra do pintor escolhido. Por isso merece uma vénia, ainda que discreta, no dia em que, finalmente, nos vimos livres dele.

Mas intriga-me sobretudo o facto de, subitamente, a net, e em particular os blogues e as redes sociais, estarem cheias de fotos dos quadros “picantes” de Possollo, juntamente com o retrato oficial do Cavaco. Claro que há aquela coisa um pouco ‘à Bocage’ do fascínio pelo interdito, e que tem um lado subversivo que me agrada.

Mas pergunto-me se será apenas isso, se não haverá aqui uma certa manifestação do nosso moralismo provinciano e hipócrita, aquela coisa homofóbica da “maricagem”: olha, afinal o Cavaco tem um retrato pintado por um gajo que faz quadros de paneleiros! E além disso, como as matrafonas do carnaval de Torres Vedras, de repente todos temos licença para publicar nas nossas páginas fotos de gajos nus de falo em riste.

Seja como for, mesmo que levemente embaraçado com essa espécie de curiosidade malandra e parola, acho isto uma coisa positiva, porque o que dá visibilidade à homossexualidade acaba por ter um certo efeito favorável, sobretudo quando estamos a falar de arte e cultura. E suponho que seja também positivo para o artista, que de repente anda na boca de toda a gente (salvo seja, claro!); a não ser que quem lhe encomenda os retratos ou os selos de correio, agora se sinta incomodado ou envergonhado com a revelação.

Só uma nota mais pessoal para dizer que descobri Carlos Possollo, não pela pintura mas, inevitavelmente, através da literatura: publicou aqui há uns anos valentes, um volume de contos muito interessante, As Lágrimas de Bibi Zanussi, que tinha uma capa que ficava muito bem nas mesas das livrarias: um par de nádegas muito bem feitas segurando um pé de antúrio. Publicado com o pseudónimo de Pedro Gorski, não foi difícil chegar a um outro pseudónimo do artista, Bebé Mascarenhas de Meneses, e sobretudo ficar a conhecer a belíssima obra, quer a mais institucional quer sobretudo a outra, de Carlos Barahona Possollo.
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resumo
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o filho de saul
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Fui no sábado ver O Filho de Saúl, um filme fortíssimo, realizado pelo húngaro Lázló Nemes, que se passa no interior do campo de concentração de Auschwitz, no verão de 1944. Saul é um sonderkommando, ou seja um dos prisioneiros do campo que integrava os grupos de trabalho responsáveis pela remoção dos corpos das câmaras de gás para os fornos crematórios, e o filme segue, durante um dia, as suas tentativas de fazer um funeral religioso para um rapaz gaseado que Saul acredita ser o seu filho.

O modo como o realizador consegue contornar o imperativo de não mostrar o interior do inferno, é colar a camara ao rosto fechado do actor Réza Gorhig, mostrando em segundo plano, quase sempre em imagens desfocadas, as operações de extermínio. O som tem uma importâmncia vital na narrativa do filme, pois é através da trilha sonora que são dadas ao espectador as informações necessárias para a reconstituição dos acontecimentos. Além disso a camara é sempre contida e seca, recusando banalizar as imagens do horror, ou, ainda mais, transformá-las em espectáculo.

O Filho de Saul é um filme marcante, um contributo importante para o papel que o cinema pode desempenhar na preservação da memória do holocausto, que sempre servirá de espelho moral para o pior que o espírito humano é capaz de inflingir ao seu semelhante. Na passada semana, o filme ganhou o Oscar da Academia para o melhor filme estrangeiro.
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hail caesar
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Há uma história num dos livros antigos do Woody Allen sobre a prostituta de Mensa: uma rapariga que se aluga à hora para ir discutir filosofia e literatura com os seus clientes. De certo modo a carreira dos irmãos Coen tem sido construída nessa mesma base, criando ficções que lhes permitam discutir géneros cinematográficos com os seus espectadores.

Na sua génese Hail Caesar tem uma ideia tão boa como os melhores filmes dos Coen: em plenos anos 50, ainda na época dourada de Hollywood, um produtor, especialista em resolver problemas para o estúdio onde trabalha, tem de dar assistência a todas as produções em curso: um filme histórico de ressonâncias bíblicas, um western à melhor maneira de Lone Ranger, um melodrama com figurinos de época, um musical com marinheiros, and so on. Este dispositivo permitiria aos Coen levar um pouco mais longe aquilo que eles sempre fazem nos seus filmes: falar de cinema e de filmes.

Hail Caesar está construído com o rigor a que estamos habituados nos filmes dos Coen, caracteristica que lhes dá sempre um tom cerebral, de uma certa frieza um pouco distante. E sendo um filme de argumentistas, está cheio de ideias muito divertidas, a começar pelo facto de os maus da fita serem um grupo de argumentistas de inspiração marxista. O problema é que para o filme resultar em pleno tinha de ter um humor destravado e excessivo, tinha de ser sempre muito cómico, o que está longe de acontecer. De certo modo, Hail Caesar sofre do pior dos males: quer ser uma comédia, tem ideias surpreendentes, mas não tem muita graça. Não obstante, o filme consegue, por vezes, fazer lembrar alguma da boa tradição da comédia norte-americana: eu lembrei-me das comédias de Mel Brooks, e de um filme velhinho de Steven Spielberg muito ignorado, o 1941.

Para além da reconstrução do ambiente dos estúdios dos anos 50, e das marcas das produções da época, aspectos em que é evidente o virtuosismo dos Coen, a parada de estrelas de Hail Caesar é uma das mais valias do filme: se, para falar com franqueza, o George Clooney já esteve melhor no registo de comédia (basta lembrar O Brother Where Are Thou?, só para não sairmos dos filmes dos Coen), o cast inclui as presenças de Josh Brolin, Frances McDormand, Ralph Fiennes, Scarlett Johansson, Tilda Swinton, Jonah Hill, Channing Tatum, entre muitos outros.

Estive ali a contá-los, e dos 17 filmes que os Coen realizaram (Joel ou Joel & Ethan), só não me lembro de ver 3, e em relação a 1 tenho dúvidas, acho que o vi mas não me lembro. Dos 5 filmes que escreveram, mas não realizaram, só vi 1.
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