urubu
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O que é que a mãe urubu diz para o filhote urubu? Mama mama, mas não abutres.
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talharim à bolonhesa
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"Não gostava de outubro e não gostava de domingo. Outubro estava começando num domingo. Pior do que isso só se a segunda-feira caísse num domingo. A chuva recomeçara, e o melhor a fazer era esperar a hora do segundo talharim à bolonhesa"

- Luiz Alfredo Garcia-Roza, O SILÊNCIO DA CHUVA (Companhia das Letras)

http://barcosflores.blogspot.pt/
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Depois de uns dias longe da net ou com acesso muito breve, estive a actualizar-me pelos meus lugares virtuais habituais e soube, com choque e desgosto, da morte da Amélia Pais, que o jornal, depois, confirmou.

Nunca conheci pessoalmente a Amélia, e o nosso contacto foi esporádico e intermitente. Algumas vezes a Amélia deixou comentários aos meus textos, e outras tantas seleccionou textos que publicou no seu blog. Ao Longe Os Barcos de Flores (de um poema de Camilo Pessanha, tal como a autógrafo com que construí o meu avatar mais frequente) era, é!, um dos melhores blogs literários portugueses, e onde a Amélia publicava tanto textos dos maiores poetas da língua, como daqueles a quem ela chamava ‘poetas meus amigos’.

Raramente senti tanto orgulho naquilo que escrevo como quando a Amélia publicou textos meus. E foi graças a essas publicações da Amélia que vi alguns desses textos aparecerem em lugares da net que desconhecia por completo, e que os citavam a partir do blog da Amélia.

É imensa a dívida a blogosfera para com a Amélia Pais, sobretudo daquela que mais se interessa por literatura. Além do seu blog, e de pelo menos um outro que manteve na plataforma multiply, a Amélia editou fanzines literários e uma newsletter que depositava nas nossas ciaxas de correio electrónico algumas das suas descobertas literárias. Era de uma generosidade sem limites. Nunca a conheci como professora, mas lembro-me de terem comentado comigo que tinha sido uma professora inesquecível.

A net é efémera e superficial. É essa a sua crueldade, o preço que pagamos por tudo aquilo que ela nos dá, sobretudo a disponibilidade da informação e a rapidez da conectividade. A Amélia Pais contribuiu muito para essas duas características tão boas da net. Primeiro porque pôs on-line muita informação que agora temos disponível com a facilidade de uma pesquisa. Depois porque praticou militantemente as ligações, os elos, os contactos, os comentários, os mails, criando, com a sabedoria que os anos lhe deram, redes sociais quando elas ainda não passavam de projectos de jovens geeks visionários.

Cabe-nos a nós não deixar que a presença da Amélia Pais tenha sido efémera e superficial. Continuando a visitar o seu blog, mas sobretudo cultivando com carinho a sua memória, em nome de tudo aquilo que ela tão generosamente nos deu.
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stop the press
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(ao contrário do que é habitual, escrevo este texto directamente no livejournal, sem o filtro prévio do processador de texto)

Agradeço muito aos amigos que por aqui, ou de outra forma mais directa, me manifestaram solidariedade e apoio. Felizmente soube hoje de manhã que as lesões do carcinoma foram removidas na cirurgia de quinta-feira passada, e eram tão superficiais que, por enquanto, não preciso de fazer mais tratamentos. Terei de fazer exames de controlo, é evidente, e o primeiro será já dentro de três meses, mas, pelo menos neste momento, sinto um alívio imenso, e a sensação de que tenho a minha vida de volta.

Admito que me apetece remover daqui os textos sombrios que aqui escrevi nos últimos dias, para apagar estes momentos tão negros por que acabo de passar. Obviamente não o vou fazer, não faria sentido. Além de que não quero perder a ternura que recebi através deles.

Estou tão feliz, tão infantilmente feliz, tão despudorada e transbordantemente feliz. Sim, eu sei que é só neste momento, que é breve e efémero, e que já a seguir a vida vai continuar absurda e igual a si própria, com luz e sombra, com casas brancas e casas negras como um tabuleiro de de xadrez. Mas é precisamente essa aguda certeza que me faz estar tão feliz neste momento.
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leveza
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Cagar, dormir, tomar duche, comer. Descobrimos nas horas mais precárias que são poucas, e relativamente simples, as coisas decisivas para o nosso bem estar. E juro que isto não é um exercício de cinismo, nem significa que me estou a esquecer de todos os que não podem comer. Mas estou a falar das minhas circunstâncias, e apenas respondo por elas.

Ontem de manhã tiraram-me a sonda, descobri que tinha para aí uns trinta centímetros de tubo plástico enfiados dentro bexiga, e um balão cheio com duas seringas e meia de água. Depois tomei um banho e a coisa começou a melhorar. Antes de almoço vim para casa, comi um bife grelhado com arroz e passei a tarde a correr para a casa de banho com cólicas. A dor de cabeça persistia, antes de ir para a cama tomei um paracetamol e dormi a noite inteira. Hoje acordei, café da manhã semi-tropical, com pãozinho de queijo e mel, e, pronto!, senti-me com vigor e apaziguado com o mundo.

Claro que os jogos apenas começaram. Não consigo sacudir uma enorme sensação de desânimo. Apesar do grau de malignidade ser baixo e do prognóstico ser bom, esperam-me tratamentos, que podem durar meses, consultas, exames, controlos. Sei, porque já passei por ela, como o cancro é um buraco negro que suga toda a nossa vida, todo o nosso quotidiano, e fica a pulsar por toda a eternidade dos dias que vão passando. Como a pedra no poema de Drummond. E é isso, mais do que o puro medo que também sinto, que me desanima.

Apesar de ter tido um cancro quando tinha vinte e um anos de idade, e que me roubou o ouro dos dias fáceis da juventude, acho que tinha conseguido reconquistar uma leveza, feita de uma mistura de inconsequência e invencibilidade, que é, pelo menos da minha perspectiva, essencial para gozar a felicidade a que temos quotidianamente direito. E sinto-o agora, nestes momentos ainda atordoados em que desconheço os contornos do programa que se segue, porque não a quero perder e tenho medo que ela já se esteja a esvair por entre os dedos.
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tinha uma pedra
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NO MEIO DO CAMINHO

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.


- Carlos Drummond de Andrade, ALGUMA POESIA

(no subject)
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And so I'm back. I guess.
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grande otelo
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Gostei bastante de Otelo – O Revolucionário, a biografia que Paulo Moura, grande repórter do jornal Público, escreveu sobre a figura de Otelo Saraiva de Carvalho. A falta assumida das fontes de documentação não elide o facto de a obra revelar uma pesquisa intensa, que permite ao leitor acreditar no relato biográfico ao mesmo tempo que se interessa por ele como se de um romance se tratasse.

Otelo é talvez 'A' figura do 25 de Abril, não apenas por ser o estratego do golpe de estado, mas pelo carisma e pela força aglutinadora da sua personalidade. Otelo é o mais puro dos heróis de Abril, provavelmente porque é o mais transparente e o mais contraditório de todos, deixando à mostra os seus pés de barro.

Paulo Moura consegue a proeza de deixar intacta essa contradição entre a capacidade de liderar (de ser amado, pois é disso que fundamentalmente se trata) e a fragilidade do seu drive. Revela-nos Otelo mesmo naquilo que é irrevelável, ou seja o sombrio mistério de uma personalidade.

Para além de alimentar a nossa curiosidade e o nosso interesse em relação a Otelo e ao papel (ou aos vários papeis) que ele desempenhou na história da revolução portuguesa, o livro, sem ter a pretensão da historiografia, é fundamental para se conhecer e perceber melhor o que foram as últimas décadas do nosso país. Nenhum dos grandes actores está ausente, nenhum drama fica por convocar. Ainda por cima, Paulo Moura escreve bem e fácil, e a leitura deste livro é sobretudo um exercício de prazer.
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no more tears
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A semana passada andei no YouTube à procura de um clip para homenagear a Donna Summer a propósito da notícia triste do seu falecimento. E, já agora, aquele que acho mais à altura dessa homenagem contém uma versão muito extended do que foi um dos primeiros êxitos disco, Love To Love You Baby: 17 gloriosos minutos de violinos, gemidos e orgasmos (suponho que) simulados, ao som da batida hipnótica de Giorgio Moroder (link).

Mas não foi esta canção que fui procurar na net. Devo dizer que eu, nessa altura dos meus dezasseis, dezoito anos, odiava o disco sound. Era um ódio mais militante do que visceral, mas ainda assim. Abominava os Village People, a Donna Summer, os Bee Gees versão SNF, e todos os outros artistas disco que infectavam as airwaves das rádios pop (na verdade, acho que só não odiava a Gloria Gaynor, porque nunca resisti ao apelo do I Will Survive).

Até que um dia ouvi uma canção que transformou isso tudo: era a Enough Is Enough (No More Tears), cantada pela Barbra Streisand (um adquired taste que só adquiri muitos anos depois) e pela Donna Summer, e que conjugava, digamos assim, os universos musicais de cada uma delas, com um começo lento e romântico, a la Streisand, que dá lugar a uma batida explosivamente dançável. Caiu-me no goto, uma espécie de guilty pleasure antes de o conceito ter sido inventado, e que teve ao menos a vantagem de me pôr a ouvir música de dança. Não muito tempo depois, uma canção do brasileiro Oswaldo Montenegro, acabou-me definitivamente com o preconceito contra a música de dança: “Se você dançar a noite inteira Não significa dar bobeira de manhã se alienar ou esquecer”.

Pois bem, andava eu no YouTube á procura de um clip decente com a canção Enough is Enough, e eis que descubro uma versão maravilhosa, cantada pela KD Lang e pelo Andy Bell, que, para os mais novos, fez parceria nos Erasure com o Vince Clark, um dos fundadores dos Depeche Mode (ya ya, foi ele que escreveu Just Can´t Get Enough). Confirma-se a minha teoria de que tudo aquilo em que a KD põe a garganta se transforma em ouro, não só por causa da voz dela, mas porque é a cantora que tem a maneira de cantar mais cool do mundo desde a sua formação.

Ou seja, e too cut a long story short, cá estamos a homenagear uma grande diva do disco (ah, os clichés) ouvindo um dos seus grandes êxitos cantado pela maior diva do mundo (ok duas, se considerarmos o Andy Bell).


debris
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O DEUS ABANDONA MARCO ANTÓNIO

Quando subitamente se ouve à meia-noite
um cortejo que invisível passa
com sublimes músicas e cânticos -
a tua fortuna que desiste, as tuas obras
que falharam, os planos de uma vida inteira
tornados nada -, não vale chorar.
Como aquele de há muito preparado, corajosamente
diz-lhe adeus, à Alexandria que de ti se afasta.
Acima de tudo não te iludas, nunca digas que foi
apenas sonho, um engano, quanto ouviste:
não te agarres a tão vãs esperanças.
Como aquele de há muito preparado, corajosamente,
e como é próprio de quem, como tu, era digno de uma tal cidade,
aproxima-te firme da janela,
e escuta emocionado, mas não
com lamentos e súplicas cobardes,
escuta, derradeira alegria tua, os sons que passam,
os sublimes instrumentos do cortejo místico,
e diz adeus, adeus à Alexandria que perdeste.



Já aqui tinha posto este poema de Kavafys, e agora reincido, mas com uma tradução diferente, esta de Jorge de Sena. Tenho-me lembrado muito do poema, e reli-o com atenção, à procura de sinais, ou do seu sentido mais claro. Ou simplesmente à procura de esconjuro.

Em momentos em que a nossa vida parece suspensa de qualquer coisa muito decisivo, é difícil resistir à tentação de ver em tudo um certo tom de definitivo. Acho cruel eu ter-me lembrado deste poema a propósito do momento que vivo, e apetece-me sacudi-lo da minha mente, para não azarar. Por isso a foto lá em cima serve para o contrapôr.

Mas percebo, acho eu claro, que o que me trouxe ao poema é essa carga de que se vai passar alguma coisa decisiva e de que o que for retomado depois já não vai ser, forçosamente, igual ao que era. É angustiante essa sensação, e, por outro lado, provoca-me uma necessidade de arrumar coisas, de as deixar preparadas, em ordem.

Aqui há umas semanas tive de ir buscar um velho telemóvel para desenrascar uma avaria. Entretanto arranjei um novo, e voltei a guardar o velho, desligado mas com a bateria carregada, numa gaveta do móvel da entrada. Como tinha o alarme programado, todos os dias úteis, às sete, sou despertado (apesar de na maioria dos dias já estar acordar) com o som distante do melodia simples do despertador. Hoje de manhã, mal o comecei a ouvir, pensei logo que na próxima quinta-feira ele vai tocar e não estar ninguém em casa para o ouvir. É esta sensação de ausência da minha própria vida que me angustia. E o receio de que as coisas mudem para sempre. Descubro, e sem muita surpresa devo admitir, que afinal eu gosto da minha vida. Quero-a assim tal e qual ela era até há umas semanas atrás, quando de maneira absolutamente inopinada (é sempre, não é?), descobri que se estava a passar qualquer coisa de errado.

Acho que, apesar de tudo, me tenho estado a safar sem muitos lamentos e súplicas cobardes. Mas fode-me verdadeiramente este sentimento de que eu era digno da cidade e ela não tinha o direito de desabar assim sobre a minha cabeça, deixando-me soterrado em toneladas de entulho.

fuga
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Fui ontem ao Cae na Figueira da Foz ver Fuga, uma peça de teatro (de extracção espanhola, mais uma) encenada por Fernando Gomes, com o José Pedro Gomes, a Maria Rueff e o Jorge Mourato, entre outros. Espectáculo mediano, mas com alguns bons momentos de comédia, e que proporciona duas horas e picos de divertimento escorreito. O JPG é um belíssimo actor de comédia, e ontem tinha um registo que me fez lembrar muito o Raul Solnado. A Rueff tem um talento extraordinário a criar bonecos, mas numa peça como esta perde um bocadinho da força histriónica que a distingue.
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haywire 4*
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A lista de actores é impressionante: Michael Douglas, Antonio Banderas, Michael Fassbender, Ewan McGregor, Bill Paxton, Channing Tatum. E uma única mulher, Gina Carano, que, as a matter of fact, nem é bem uma actriz, mas uma lutadora de MMA.

Penso que está dado o tom de Haywire, um filme de Steven Soderbergh (que também montou), e que é uma pequena jóia de acção concentrada e em estado puro. Soderbergh é, como se sabe, um realizador prolixo e que gosta de experimentar, não apenas géneros, mas inclusivamente universos cinematográficos diversos. E em todas essas abordagens, é sempre rigoroso, económico, e compulsivo.

O mesmo acontece neste Haywire, uma história de traição com ressonâncias políticas, mas que se esgota, num bom sentido, no exercício da acção. O enredo vai sendo revelado a conta-gotas, num feedback que é, ele próprio, uma sequência de acção. A encenação é meticulosa, a narrativa isenta de gangas ou gorduras, a tensão a de um elástico permanentemente esticado. O filme teria a ganhar se Gina Cancaro fosse mais actriz, mas percebe-se o fascínio do realizador para com aquele corpo que é uma arma de combate em constante estado de explosão.

Haywire não é um grande filme. Mas é mais uma obra consequente e eficaz de um dos melhores realizadores da actualidade, um homem sempre fascinado pelo cinema, pela sua linguagem, e que não tem receio de correr riscos.
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patrões
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Naquela empresa familiar, os trabalhadores apresentavam as suas reivindicações junto da entidade paternal.
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flor
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Referi aqui, em Janeiro, que a minha orquídea desatou a dar botões em pleno Inverno. Os botões não vingaram e acabaram por secar sem chegarem a desabrochar. Fiquei na dúvida se seria por estar claramente fora da época, ou se quereria dizer que a planta tinha atingido uma espécie de menopausa e perdido a capacidade (ou paciência, vá-se lá saber) para ter mais flores.

Entretanto o mês em que ela costumava dar flor, Abril, chegou, passou, e nada. Nasceram umas hastes, com uns botões muito raquíticos, uma coisa pouco prometedora. Mas desde há umas duas semanas, quando o sol apareceu e o calor começou a apertar, deu-lhe a genica: as hastes novas, quatro, começaram a crescer, e os botões a inchar. Ontem à noite, começou a abrir a primeira flor. E, é claro, tive de tirar umas fotos.

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the history boys
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The History Boys é uma peça de teatro da autoria de Alain Bennett, escritor e dramaturgo inglês que eu já conhecia de nome há muito tempo, e cuja obra tenho tentado conhecer nos últimos tempos. Já li dois livros seus, e agora tive oportunidade de ver a adaptação dessa peça que Nicholas Hytner fez para o cinema. Hytner foi o director da produção teatral da peça no Royal National Theatre, e o elenco do filme é precisamente o mesmo que estreou a produção no palco londrino.

Os rapazes da história (trocadilho intencional com o título do filme) são um grupo de alunos de uma escola inglesa privada, uma public school, exclusivamente masculina, que se preparam para os seus exames de acesso às grande universidades inglesas, nomeadamente ao Oxbridge. A orientação para os exames cabe a uma dupla de professores, de história e de conhecimento geral, que são apoiados por um outro professor mais jovem especialmente contratado para o efeito. O tom da narrativa repousa sobretudo na caracterização das personagens, quer dos alunos quer dos professores, mas também no relacionamento que se estabelece entre uns e outros, e, de forma particularmente acutilante, na análise do tipo de educação que as escolas devem providenciar aos estudantes: uma que alargue os horizontes e traga aos alunos o sabor da vida; ou uma educação que os prepare eficazmente para o sucesso nos estudos e nas futuras carreiras profissionais.

No entanto, o que dá um sabor especial ao filme é que tudo isto se passa num clima de uma certa subversão de costumes. Porque há professores que não se inibem de assumir perante os alunos as suas fraquezas e fragilidades, porque os alunos não se inibem de subir a parada dos jogos que estabelecem entre si e com os professores, e porque isto significa, não só mas também, que o sexo tem um papel a desempenhar.

O Alan Bennett é um escritor maravilhoso, que alia uma escrita elegante e rica, com uma visão muito particular que consegue ser, na mesma passada, muito formal e muito subversiva, insinuando o excesso e a transgressão de forma muito subtil. E se o enredo do filme, a sua realização e o trabalho dos actores seriam suficientes para o transformar numa obra muito recomendável, o que o torna excepcional é a linguagem, que é, ao fim e ao cabo, a verdadeira protagonista do filme. Um argumento cheio de referências literárias, com constantes envios para a cultura popular, nomeadamente para o teatro musicado, mas sobretudo um inglês belíssimo, muito poético e exaltante. De certo modo, a lição do filme é que não importa o que tu tens para dizer, desde que o digas bem!
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ensaio sobre a angústia
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Houve uma fase, aqui há uns anos, em que parecia que as editoras portuguesas tinham descoberto o filão da literatura de temática, ou, vá lá, de interesse homossexual. Depois lá devem ter olhado para os números das vendas e o facto é que nos anos recentes muito pouco tem sido editado, e o pouco é sobretudo na área do ensaio ou na da investigação jornalística. Esta sobretudo ligada à aprovação da lei dos casamentos para pessoas do mesmo sexo, e do debate que a precedeu, e que de vez em quando ainda recrudesce nalguns espíritos menos conformados com a danação eterna. E não acredito que não haja gente a escrever romances e outras histórias e ficções gay. Mais não seja, os autores que já publicaram obras anteriormente lá devem continuar a escrever.

É por isso que é sempre de saudar o aparecimento de um livro que coloque no centro da sua narrativa questões que tenham a ver com a condição homossexual. Que, e para despachar já a discussão, sendo condição humana, diz naturalmente respeito a todas as pessoas, da mesma forma que um romance com uma perspectiva feminina, ou judaica, ou dos habitantes do bairro de Palermo, Buenos Aires, também não pode deixar de me interessar.

Tudo isto a propósito de Ensaio Sobre a Angústia, da autoria de Joaquim Almeida Lima, editado pela Gradiva, que, apesar de não ser uma grande editora de ficção, é uma editora do mainstream, o que também não é um bom sinal. O romance conta a história de João, narrada na primeira pessoa do singular, que tem de lidar com o facto de sofrer de depressão crónica, agravada pelo processo sempre complicado de assumir, perante si e perante os outros, a sua homossexualidade.

O livro está razoavelmente bem escrito, com um bom domínio da narrativa (firme e despachada), e é uma história verdadeira, não no sentido de que tenha na sua origem acontecimentos reais, autobiográficos ou não, mas no de ser uma história que contém uma verdade sobre a vida, e que muitas pessoas se podem reflectir nessa verdade.

Só vejo duas pequenas, pequeníssimas falhas no livro, e até hesitei em as trazer para aqui porque não quero rebaixar nada o livro. Mas refiro-as apenas porque este comentário deve reflectir as impressões da minha leitura. Uma diz respeito à trama do romance, acho-a pouco intrigante, por vezes demasiado esquemática. E previsível, apesar de isto acabar por não ser propriamente uma falha: sabemos como vai acabar, e desatamos a ler depressa para ver se vai dar uma explosão bonita! E o autor tem o mérito de aguentar o suspense praticamente até à última linha.

A outra falha tem a ver com a verosimilhança cronológica. O livro é ambicioso, pretende cobrir um arco temporal demasiado alargado, e nas descrições e no contexto da história não se dá pela passagem do tempo. Ok, parece um pormenor palerma, mas como se sabe o deus das narrativas está nos pormenores (mesmo nos aparentemente palermas), e ficamos sempre com a sensação de que os trinta e poucos anos desta história decorreram em dois ou três meses.
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(no subject)
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"Na parede lateral esquerda da bexiga vemos dois espessamentos polipóides, um com 16,2 mm e outro com 7,5 mm. Sugerimos reavaliação desta alteração por cistoscopia e eventual caracterização histológica."

Ouch?
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dark shadows 4*
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Ok, eu gosto muito dos filmes do Tim Burton, e sobretudo porque os acho muito divertidos e com muita imaginação, e quer esta quer o sentido de humor ao sentido de uma certa perversãozinha, um gostinho pela maldade, que não é o mesmo que ser mau (não há crueldade nos filmes de Burton, pelo menos que me esteja a lembrar).

Isto para dizer que me diverti muito com Dark Shadows, o seu mais recente filme, que recupera uma série de TV dos anos 70. E parte do gozo do filme tem a ver precisamente com o modo como o realizador recupera um certo ambiente dos anos 70, não é bem aquela história da reconstituição da época, é mais, numa atitude muito burtoniana de resto, de recuperar um certo kitsch e usá-lo para dar densidade a um sentimento de ingenuidade que é sempre muito necessário para usufruir bem dos filmes de Burton.

Claro, que Dark Shadows não é um dos grandes filmes de Tim Burton, mas também porque um tipo não pode passar a vida a reinventar-se. Quer dizer, nós deslumbrávamo-nos quando não percebíamos bem o Burton system, e agora que achamos que já o dominamos, achamos que os filmes dele são mais do mesmo. Claro, não se pode negar que o Tim Burton atingiu um bocadinho a sua fase Disney, tipo creeps for all the family, mas o facto é que os filmes dele continuam a ser inventivos, a terem um sentido de humor muito negro, e a serem experiências visuais sempre muito estimulantes.

Ou seja, gostei.
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o índio
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Na quinta-feira à noite, no show a que assisti, Maria Bethânia disse, entre muitos poemas que eu desconhecia, um que achei lindo e poderoso, e que me agarrou de imediato. Não sabia de quem era, é claro, mas memorizei a ideia forte do poema, e na sexta-feira procurei-o na net. Quase à hora que o encontrei, soube da notícia da morte de Bernardo Sassetti, e de alguma maneira o poema ficou marcado por essa notícia tão infeliz.

Por uma série de razões, e as piores nem sequer vêm ao caso, a semana que passou foi terrível. Passei-a sempre triste, mas, pior, passei-a em sofrimento, muito angustiado, cheio de medo da vida e do futuro. Ainda hoje de manhã, acordei de madrugada e não consegui reconciliar o sono, sempre a temer o pior que pode estar para acontecer.

O poema de Reynaldo Jardim é lindíssimo, comovente, erótico e inspirador. Descobri-lo, ouvi-lo dito por Bethânia, lê-lo e aprendê-lo (e apreendê-lo), foi uma das coisas boas que me aconteceram numa semana tão triste. Aqui o convoco, ao poema e ao seu índio, para que me acompanhe e me ajude sempre na vida.



O que se odeia no índio
não é apenas o ocupado espaço.
O que se odeia no índio
é o puro animal que nele habita,
é a sua cor em bronze arquitetada.
A precisão com que a flecha voa
e abate a caça; o gesto largo
com que abraça o rio; o gosto de
afagar as penas e tecer o cocar;
O que se odeia no índio
é o andar sem ruído; a presteza
segura de cada movimento; a eugenia
nítida do corpo erguido
contra a luz do sol.
O que se odeia no índio é o sol.
A árvore se odeia no índio.
O rio se odeia no índio.
O corpo a corpo com a vida
se odeia no índio.
O que se odeia no índio
é a permanência da infância.

vidas, lugares e tempos
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Vidas, Lugares e Tempos é uma memória autobiográfica da autoria de Joaquim Chissano, herói do nacionalismo e da independência de Moçambique, primeiro-ministro do governo de transição que levou o território dos acordos de Lusaka à independência, ministro dos negócios estrangeiros do primeiro governo do país, e presidente da república desde a morte de Samora Machel, em 1986, até 2005.

Com este currículo percebe-se que o livro de Chissano teria necessariamente de ter um enfoque político. O que de facto acontece, mas, tanto quanto é possível a um leitor mais ou menos leigo avaliar, o livro não deixa de ser surpreendente, por se tratar de um esforço aparentemente honesto de escrever, e dar testemunho, de um percurso e de uma vida.

Apesar de tal não resultar inteiramente claro, este será o primeiro volume de um conjunto de 3, e como tal abrange a infância do autor, a sua juventude, e o caminho político e geográfico que o levou do bairro da Mafalala, em Maputo, até aos escritórios da Frelimo em Dar-es-Salam, para se juntar á luta armada pela libertação de Moçambique, em 1963, com passagens por Lisboa e por Paris.

Pessoalmente a parte que mais me interessou foi a da infância de Chissano, na sua terra natal Malehice, e em João Belo / Xai Xai, na província de Gaza, e a sua adolescência na cidade de Lourenço Marques, para onde foi frequentar o liceu (Salazar, de seu nome), onde reclama ter sido o primeiro aluno negro. E interessou-me não apenas pelo que transmite acerca da vivência dos negros, quer no mundo rural quer na grande cidade, durante a ocupação colonial portuguesa, mas porque essa vivência representava como que o outro lado, a negativo da fotografia, do que foi a infância e a juventude dos meus pais.

Há um trecho do livro em que Chissano descreve as fronteiras da cidade, referindo as avenidas Craveiro Lopes e Caldas Xavier como a fronteira entre a cidade branca, de cimento, e o caniço, os bairros periféricos habitados pelos negros. Pois bem, as casas onde a minha mãe viveu durante a sua infância e juventude, e aquela que foi a primeira habitação onde eu vivi, ficava precisamente na confluência dessa duas avenidas, numa zona que o próprio Chissano refere ser habitada por brancos pobres.

O que resulta daqui é que muitas dessas vidas e lugares e tempos, e histórias que Chissano conta, têm ressonância em muitos relatos que eu sempre me habitei a ouvir da minha mãe e das minhas tias: são nomes, são referências, são hábitos, são vivências do dia a dia, que eu reconheci no livro de Chissano, apesar de ter bem consciência de que, apesar de tudo, os meus familiares viviam do lado de cá da Caldas Xavier, e que entre os dois lados da avenida havia uma ponte imensa e, na maior parte das vezes, intransponível.

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