Home

[icon] um voo cego a nada
View:Recent Entries.
View:Archive.
View:Friends.
View:User Info.
You're looking at the latest 30 entries.
Missed some entries? Then simply jump back 30 entries

Tags:
Subject:boletim meteorológico.
Time:12:45 pm


Estou aqui, mas estou lá. À espera do fim de semana. Ainda por cima, agora (re)começou a chover.

Fotografias de livros a serem lidos.
Já agora esta, que recuperei para ícone, com a tag 'ghost'. É já uma foto antiga, tirada naquees dias medonhos de Setembro.


comments: 6 comments or Leave a comment Add to Memories Tell a Friend

Tags:,
Subject:xadrez
Time:11:57 pm
Devia ter uns nove ou dez anos quando aprendi a jogar xadrez. Ou, pelo menos, a movimentar as peças. Quem me ensinou os movimentos foi, tanto quanto me lembro, um daqueles jovens militares que passavam por casa dos meus pais, em Nampula, a caminho ou de regresso das missões de combate durante a guerra colonial. E num tabuleiro miniatural, de viagem, que eu tinha recebido de oferta, e que ainda deve existir na casa dos meus pais, com a caixa de plástico partida e, muito provavelmente, incompleto.

Com dez anos entrei para o primeiro ano do ciclo. Foi ainda antes do 25 de Abril, e o ciclo preparatório estava dividido: o dos rapazes era na escola comercial e industrial (Neutel de Abreu, já agora) e o das meninas no liceu. A escola (a escola técnica, como a chamávamos) tinha um núcleo bastante activo da Mocidade Portuguesa, com karting, acampamentos, aeromodelismo, entre muitas outras coisas, mas eu, a única actividade que fui autorizado a praticar, foi o grupo de xadrez, que funcionava aos sábados, na sala de trabalhos manuais. Esses dois anos do ciclo preparatório, pelo menos até o 25 de Abril me ter apanhado no último período do segundo ano, foram o meu apogeu enquanto xadrezista.

Guardo, desse tempo, uma meia dúzia, se tanto, de livros de xadrez, nomeadamente um acho que da autoria de João Cordovil sobre o célebre match que opôs o Bobby Fischer ao Boris Spassky. Já agora, a minha carreira de jogador de xadrez coincidiu com a de ladrão, uma vez que alguns desses livros foram roubados na Livraria Villares. Mas apenas pelo prazer de roubar a meias com um amigo, já que a minha mãe me comprava os livros todos que eu quisesse.

Lembro-me de que participei num torneio, onde fui acompanhado pelo Tó Esteves, outro dos tropas que paravam lá por casa, e cuja primeira jornada serviu para inaugurar as novas instalações de um stand de automóveis. Contra todas as expectativas, e contra um adversário mais velho, com fama de bom jogador, e que momentos antes da partida me tentava desmoralizar debitando nomes de jogadas famosas, ganhei a eliminatória. Na segunda ronda, disputada nas instalações do Clube Niassa, e perante um adversário que achei fácil, perdi. Acho que foram as minhas primeiras lições em concentração através da ansiedade, por um lado, e em excesso de confiança, por outro.

Depois disto só voltei a jogar xadrez, en passant, nas três ou quatro semanas em que frequentei o liceu da Amadora, tinha 15 anos, ainda jogava razoavelmente, e depois quando já andava na faculdade, no segundo ano. Durante uns anos viveu em casa dos meus pais um rapaz de fora que veio para Coimbra estudar engenharia, e que em certa ocasião me pediu para lhe ensinar a jogar. Chamava-se Bravo. Ensinei-lhe os movimentos das peças e começámos a disputar umas partidas. Em muito pouco tempo não só deixei de lhe conseguir vencer, como era sistematicamente derrotado e sempre de forma cada vez mais implacável e eficaz. Fiquei tão chocado com a forma como ele me cilindrou, e pelo que isso significava quanto à sua capacidade de jogar e quanto à minha total inabilidade, que acho que nunca mais disputei uma partida na minha vida. Excepto com um jogo de computador, ainda no tempo dos pc’s 286 e 386 da IBM, que tinha um nível que era tão fácil tão fácil que até eu era capaz de vencer.

Lembrei-me disto a propósito do livro do Arturo Pérez-Reverte que estou a ler, A Tábua de Flandres. De repente dei por mim a olhar para as quadrículas que representam graficamente o tabuleiro, a estudar a posição das peças e a analisar os movimentos possíveis, passados e futuros. E a ter vontade de ver novamente um tabuleiro verdadeiro, físico, e de tocar as peças e de as dispor e de as movimentar. Só mesmo a literatura seria capaz de me fazer voltar a ter vontade de jogar, a experimentar o frémito de tensão e concentração que se sente durante uma partida de xadrez.
comments: 20 comments or Leave a comment Add to Memories Tell a Friend

Tags:,
Subject:the lion sleeps tonight
Time:10:38 pm
A propósito do blog do David Byrne, de que falei aqui ontem, e seguindo os links do seu website, fui parar, como acontece muitas vezes, ao Brian Eno. Já não sei bem porquê, mas lembrei-me de procurar no YouTube uma gravação que o Brian Eno fez, na fase imediata pós-Roxy Music, de uma canção que tem vários títulos, Mbube, o título original sul-africano, Wimoweh, o título da versão norte-americana, e, na versão mais pop, The Lion Sleeps Tonight. Dizem as más línguas que o Brian Eno gravou a canção porque precisava desesperadamente de um hit, para equilibrar as finanças lá de casa. Vá savoir. As versões do título canção não são exactamente coincidentes, uma vez que Mbube é mais fiel ao original sul-africano, Wimoweh se refere à versão tal como foi acolhida inicialmente pela folk norte-americana, nomeadamente pelo Pete Seeger.

O ponto é que encontrei um canal do YouTube (segue o link: youtube.com/user/FLORENCOM ), e um correspondente site na net (segue o link: http://florencom.es/), só com versões desta canção, desde o original que Solomon Linda gravou, nos anos 30, com os seus Evening Birds, um grupo de harmonias vocais, um estilo que os Ladysmith Black Mambazo viriam a popularizar sobretudo depois de terem participado, com muito sucesso, no álbum Graceland, do Paul Simon. O site identifica perto de 200 versões, e apresenta-as todas em clips produzidos pelo seu autor. Não as contei, mas suponho que os Ladysmith BM e a Miriam Makeba são os vencedores do número de versões que interpretaram, mas também não admira, estão entre os maiores divulgadores da música africana. Seria fastidioso enumerar aqui os músicos presentes, mas há versões que vão de músicos incontornáveis da África do Sul, como o Hugh Masakela, até nomes inesperados como os Young Marble Giants e, vamos lá, o próprio Brian Eno. Como é uma canção muito fácil e catchy, há resmas de versões pop, aproveitando as modas musicais. E, claro, a canção foi também muito popularizada pelo filme Rei Leão que, de resto, esteve, ainda que involuntariamente, na origem do reconhecimento de Solomon Linda como o criador de um dos maiores êxitos da música popular em todo o mundo, sem nunca ter recebido nem o crédito correspondente nem os respectivos royalties.

É muito difícil escolher apenas uma versão para pôr aqui. Decidi, apesar de tudo, pôr a do Brian Eno, porque foi quem despoletou esta entrada. Mas estas são absolutamente incontornáveis: a dos Solomon Linda And The Original Evening Birds, uma dos Ladysmith e outra da Miriam Makeba, e a dos Weavers, o grupo do Pete Seeger, e finalmente a dos Tokens, que transformaram uma canção do repertório folk num clássico da pop (optei por pôr apenas os clips do canal do FlorenCom, mas há no YouTube muitas alternativas destes mesmos artistas, nomeadamente com imagens gravadas)

comments: 6 comments or Leave a comment Add to Memories Tell a Friend

Tags:,
Subject:byrne em portugal
Time:04:00 pm
O David Byrne e a sua namorada, a fotógrafa Cindy Sherman, estiveram em Portugal, para integrarem o júri do festival de cinema do Estoril. Esta passagem do DB por Portugal já rendeu três entradas no seu blog (seguir o link: journal.davidbyrne.com): a última sobre o próprio festival e os filmes premiados, a anterior sobre Sintra e os templários, e a primeira, e a meu ver a mais interessante, sobre a arte e a cultura nos tempos que correm.

O DB é muito palavroso, as entradas do diário são muito extensas, mas as suas ideias são muito interessantes, porque reflectem uma pessoa que tem muita experiência na área da cultura popular, que acompanha as vanguardas artísticas, e que é um tipo muito atento, curioso, interessado e reflectido.

Esse texto do blog datado de 9 de Novembro tem ainda o interesse suplementar de poder ler as reflexões do DB motivadas ou sugeridas pelos seus companheiros de estadia e de festival, nomeadamente o coreógrafo Rui Horta, a Inês de Medeiros ou o Francis Coppola, que também esteve no Estoril a apresentar o seu filme mais recente.

É, como disse, um texto longo, e com vários pontos de interesse. Chamaram-me a atenção dois em particular. O primeiro surge como reacção à opinião de que a partilha de ficheiros e os downloads ilegais estão a matar a música, ao que o DB contrapõe que a ameaça séria existe apenas em relação à indústria discográfica e a alguns músicos, e que os consumidores que fazem mais partilha de ficheiros são também aqueles que gastam mais dinheiro em produtos relacionados com a música, nomeadamente com concertos. Contrapõe ainda que a tecnologia digital dá aos artistas maior controlo sobre as suas obras, e que isso vale igualmente para a distribuição.

O outro aspecto que retive, surgiu a propósito de um comentário ouvido a Coppola à mesa do pequeno-almoço, e tem a ver com a ideia de que há uma diferença muito grande no modo como europeus e norte-americanos se posicionam em relação à inovação e, modo geral, ao tempo. Concedendo embora que haja muito de cliché nesta ideia, DB ensaia a explicação de que os europeus se projectam sobretudo para o passado porque se vêem como parte de um continuum civilizacional, enquanto os norte-americanos se posicionam numa estreita camada de história e por isso têm uma enorme apetência (que pode atingir a raia a insanidade, diz Byrne) para tudo o que seja novo, para aquilo que ainda não foi experimentado. E é por isso que, sendo uma nação mais selvagem, no sentido de menos civilizada, do que a Europa, os Estados Unidos são uma terra de criatividade e de oportunidades, e um chamariz da imigração.

Para além destes textos a propósito da sua passagem por Portugal, os diários do David Byrne são sempre riquíssima fonte de interesse e estímulo de reflexão. De resto vale a pena dar uma olhadela mais demorada a todo o site e às suas imensas ligações. Dificilmente a Internet consegue ser mais plena de conteúdos relevantes e ao mesmo tempo um exemplo e uma reflexão acerca do seu próprio papel no contexto cultural, artístico e das mentalidades, no mundo e no tempo que são os nossos.
comments: 7 comments or Leave a comment Add to Memories Tell a Friend

Tags:
Subject:planeta reverte
Time:04:56 pm
Tenho a impressão de que o Arturo Pérez-Reverte de vez em quando faz uns envios de uns romances para os outros. São quase como os cameos no cinema, personagens de um livro a aparecerem numa outra história. O primeiro caso que percebi foi no A Rainha do Sul. Há uma passagem, em que Teresa Mendoza está em Gibraltar, e vê passar um carro a subir em direcção ao Rochedo com um casal lá dentro. Quando li esse trecho lembrei-me logo da viagem que Tanger e Coy fizeram ao alto do Rochedo para se encontrarem com o salteador de tesouros afundados.

No livro A Pele do Tambor há um velho padre, Don Príamo, que defende com unhas e dentes a igreja barroca de ser destruída, sobre quem impende a acusação de, no passado, quando era um pároco rural, ter vendido arte sacra para conseguir dinheiro para as suas paróquias. Agora em A Tábua de Flandres, há um leiloeiro que, segundo uma das personagens, é suspeito de comprar arte sacra roubada das igrejas.

Claro que podem ser acasos, mas na literatura, como na vida dos romances da famosa best-seller nacional, não há coincidências. Além disso um leitor sabe, percebe logo quando aparece uma personagem que já conhece, ainda que seja de raspão. Acho deliciosa esta ideia de pôr as personagens a aparecerem, sem qualquer valor narrativo, noutras histórias que não aquelas em que protagonizam. Dá assim uma ideia de planeta revertiano, um universo em que habitam as personagens e as histórias criadas por um escritor.
comments: 6 comments or Leave a comment Add to Memories Tell a Friend

Tags:
Subject:a rainha do sul
Time:05:54 pm

Terminei hoje de manhã (a única coisa boa que sou capaz de me lembrar a propósito do tempo invernoso, são as manhãs passadas na cama a ler) a leitura de mais um livro de Arturo Pérez-Reverte, A Rainha do Sul. Mais um romance muito bem urdido, com os ingredientes habituais do autor: narrativa bem balanceada entre momentos de acção, cheios de peripécias, e outros mais contemplativos e, dígamos assim, psicológicos, personagens fortes e sedutoras, com um toque de mistério, uma atenção quase luxuriante aos detalhes, forte envolvência geográfica (os romances de AP-R são sempre histórias de um lugar, mais do histórias num lugar), referências culturais (o papel da música nestes romances é quase uma aventura em si para o leitor melómano).

O grande leit-motif de A Rainha do Sul, como o título anúncia, é a personagem de Teresa Mendoza, uma mexicana que foge a um assassinato certo no meio do narco-tráfico do seu país natal, e que se torna na patroa do tráfico no estreito de Gibraltar. É uma história do nosso tempo, que de certa forma nos vem mostrar as vidas que se escondem por detrás das notícias breves nos telejornais sobre o tráfico e os traficantes. Apesar de a personagem principal ser irresistivelmente sedutora e fascinante, não me parece que de forma alguma o livro dê charme, e desse modo branqueie, ao crime ligado ao tráfico de droga.

Entretanto, e aproveitando este final de tarde escuro e chuvoso, já comecei a ler mais um livro do espanhol. E vão cinco.
comments: 2 comments or Leave a comment Add to Memories Tell a Friend

Tags:,
Subject:jacinta & nina
Time:07:03 pm
Acho que tenho um caso de amor com a Jacinta. A sua voz e o seu canto encantam-me. Encontro neles um aconchego, uma tranquilidade que é exaltante, e não há nada nisto que seja contraditório. O canto da Jacinta acalma-nos, para nos levar à descoberta das nossas emoções mais íntimas e intensas. A sua voz não é divina, pelo contrário é humana ao ponto da comoção. Dito isto, parece-me que a Jacinta ainda não fez um grande disco, sendo o primeiro, o tributo a Bessy Smith, aquele que mais se aproxima dessa grandeza.

Tenho passado os últimos dias a ouvir Songs of Freedom, o último disco da Jacinta, uma colecção de canções, dígamos, inspiradoras, que vêem do universo da pop e do jazz (hits from the 60's, 70's and the 80's, é o subtítulo). Confesso que numa primeira audição achei o disco um bocadinho banal, mas aos poucos tem-se insinuado e já estou completamente agarrado a algumas das faixas. Mesmo àquelas que tinham originais ou versões praticamente definitivas, como as da Nina Simone (My Baby Just Cares e I Wish I Knew How), ou o Surfin'Usa, dos Beach Boys, em relação à qual parecia impossível fazer uma versão que trouxesse alguma coisa de novo à canção. Na verdade, agora que estou a pensar no disco, acho estou agarrado a todas as faixas e não apenas a algumas delas. Por exemplo, as duas versões que o disco traz de Redemption Song de Bob Marley (em gravação, com a formação que participa no disco, e em solo ao vivo) são absolutamente definitivas. Há versões inesperadas e mesmo surpreendentes, mas é melhor não as referir todas para não estragar o efeito surpresa (são onze temas em doze faixas, contando com as duas versões da canção de Marley).

Participam no disco dois músicos, Pedro Costa, no piano, a fazer a base ritmíca, e Paulo Gravato, em, saxofone, a servir de contraponto. Para adoçar a boca, aí fica um clip com uma gravação ao vivo da Redemption Song, a canção que marca em definitivo este disco e a cuja letra, de resto, foi buscar o título.



E já que estamos com a mão na massa, fica também um clip com uma participação assombrosa da Nina Simone numa edição do Festival de Montreux, a cantar, e a tocar, uma das canções que a Jacinta interpreta no seu cd, precisamente a I Wish I Knew How It Would Feel to Be Free. Não faz sentido nenhum comparar as duas versões, mas esta interpretação da Nina Simone está muito para lá do arrepio. De facto a única coisa que parece possível e apetece fazer perante isto, é mesmo cair de joelhos em terra e chorar compulsivamente. Chorar sem saber porquê, sem saber se é de tristeza ou de alegria. Chorar apenas porque no sabor salgado das lágrimas parece residir a essência da nossa alma e da nossa condição.

comments: 4 comments or Leave a comment Add to Memories Tell a Friend

Tags:
Subject:the brothres bloom + the informant
Time:11:50 pm
Vi dois filmes este fim de semana e ambos tinham como ponto de partida a mentira e a ilusão, como matéria da vida, da ficção, e, o que era mais curioso, como matéria da própria narrativa.

The Brothers Bloom conta a história de dois irmãos, um que escreve argumentos para elaboradíssimos contos do vigário, e outro que os vive. Os irmãos tentam dar um derradeiro golpe do baú numa herdeira jovem, rica e ingénua, mas, talvez porque ela própria viva num mundo mais de faz de conta do que de realidade, as coisas não vão correr propriamente como planeado.

O outro filme foi The Informant, do Steven Soderbergh, em que Matt Damon dá corpo (e esta é uma daquelas vezes em que esta expressão tem pleno cabimento) a um executivo de uma empresa que pretende avançar na vida através de mentiras, enredando-se em imbróglios cada vez mais labirínticos por causa da sua compulsão para inventar histórias.

Os filmes são muito diversos entre si. O filme dos irmãos Bloom é quase uma fábula, cheio de referências literárias, com recursos narrativos extra-cinematográficos, um humor irónico mas terno, que vive muito dos ambientes que vai recriando e que são essenciais ao próprio universo dos protagonistas. Soderbergh, por seu lado, constrói um filme de argumento, em que toda a narrativa assenta no discurso, com um humor muito seco e que pretende ser um olhar frio, até um pouco cínico, para o mundo das instituições norte-americanas.

O que é então curioso é que ambos os filmes recorrem ao tema, o das mentiras e da ilusão, para criarem constantes cortinas de fumo em que nós os espectadores nunca conseguimos destrinçar o que é a realidade (enfim, a realidade da própria história) e o que são as fantasias que os seus personagens vão criando.
comments: Leave a comment Add to Memories Tell a Friend

Tags:, , ,
Subject:tu recuerdo y yo
Time:07:04 pm
No livro de Arturo Pérez-Reverte que estou a ler, A Rainha do Sul, a personagem principal é uma jovem mexicana viúva do narcotráfico, que se refugia no sul de Espanha e acaba por se tornar a dona do tráfico de haxixe e cocaína que, vindo da América do Sul através de Marrocos, atravessa o estrito de Gibraltar para entrar na Europa.

De vez em quando batem à Mexicana, como é conhecida Teresa Mendoza, umas saudades do México, de Culiacán, no estado de Sinaloa, e do homem cujo assassinato a obrigou a fugir, El Guero D’Ávila, um piloto ao serviço do cartel de Juárez. Num dos capítulos do livro, Teresa está num quarto de hotel da cidade de Jérez a ouvir CDs de José Alfredo Jiménez. Conheci a música de Jiménez através do disco La Cantina, da Lila Downs, que trazia quatro versões de temas daquele que é um dos grandes autores da chamada canção rancheira mexicana.

No trecho do livro de Pérez-Reverte, a Mexicana recorda que o Guero lhe contou que Jiménez morreu bêbado, e que as suas derradeiras canções foram escritas em bares, com as letras anotadas pelos amigos, porque já estava incapaz de as escrever. Às escuras no seu quarto de hotel, Teresa está a ouvir Tu Recuerdo Y Yo, uma das canções de Jiménez que Lila Downs cantou, no CD e num concerto fabuloso dela, a que assisti na Casa da Música, no Porto.

Durante três ou quatro páginas, num momento crucial da narrativa (não são todos?) em que os fantasmas do passado regressam, Teresa vai fazendo um balanço da sua vida, da sua situação actual, e no texto vão aparecendo frases da canção. Termina assim:

«Olhou para cima, para o tecto escuro, e não viu nada. Já me estão servindo o último copo, dizia nesse momento José Alfredo, e ela dizia-o também. Ora… Agora já só lhes peço que toquem outra vez La que se Fue.
Estremeceu novamente. Sobre os lençóis, ao seu lado, estava a fotografia rasgada. Dava muito frio ser livre.»


É fantástico cruzarmo-nos nos livros com coisas, neste caso músicas, que fazem parte da nossa bagagem na vida real. Parece que as narrativas se cruzam, a nossa e a literária, e de algum modo sentimo-nos mais próximos das personagens, quase que nos conseguimos relacionar com elas.

Claro que se impõe pôr aqui um clip com esta rancheira de Jiménez, que é uma das minhas preferidas, e da qual, de resto, já tinha posto aqui a letra (sim, o innersmile é de um tempo pré-YouTube!). Como não consegui decidir qual das versões pôr, se a da Lila Downs se o original de Jiménez, ficam as duas. Escolhi clips só com as músicas. Mas aqui há uma versão ao vivo da Lila e aqui há um clip de um filme com o grande Jose Alfredo.




Estoy en el rincon de una cantina,
oyendo una cancion que yo pedi,
me estan sirviendo ahorita mi tequila,
ya va mi pensamiento rumbo a ti.

Yo se que tu recuerdo es mi desgracia,
y vengo aqui no mas a recordar,
que amargas son las cosas que nos pasan,
cuando hay una mujer que paga mal.

Quien no sabe en esta vida,
la traicion tan conocida,
que nos deja un mal amor,
quien no llega a la cantina,
exigiendo su tequila,
y exigiendo su cancion.

Me estan sirviendo ya la del estribo,
ahorita ya no se si tengo fe,
ahorita solamente ya les pido,
que toque otra vez 'La que se fue'.


comments: 11 comments or Leave a comment Add to Memories Tell a Friend

Tags:
Subject:ao sul
Time:03:16 pm
AO SUL

Enquanto esperavam na sala de espera do hospital pela conclusão da operação da mãe, Thomas disse ao seu irmão mais novo que a razão porque tinha saído de casa quase quarenta anos antes, tinha sido para escapar ao controlo manipulador da mãe. Disse-lhe ainda que quando era pequeno o pai lhe batia com um cinto, quando chegava a casa ao fim da tarde e a mãe o atormentava com as queixas das tropelias que Thomas tinha feito ao longo do dia. E que, apesar de não guardar rancor nenhum aos pais por causa dessas sovas, nunca tinha conseguido ultrapassar a revolta que sentia por o pai lhe bater quando esperava com ansiedade o seu regresso do trabalho, e por não conseguir relacionar os castigos com as tropelias que tinha feito de manhã e das quais já se tinha esquecido.

Roger ficou chocado com as revelações do irmão. Sempre pensara que a saída de casa do irmão, com pouco menos de dezassete anos, tinha sido por causa do espírito rebelde e livre, e que não teria nada a ver com problemas familiares. Implorou ao irmão que nunca dissesse à mãe que tinha sido por sua causa que tinha saído de casa, porque isso a iria deixar devastada de desgosto. A verdade é que a mãe sempre lhe tinha dito que o irmão saíra de casa por causa do pai, e que ela não perdoava ao pai o facto de, quando isso aconteceu, eles não terem ido atrás do filho. Mas isto, por qualquer razão, Roger não contou ao irmão.

Dois meses depois desta conversa, Roger chegou num final de tarde a casa dos pais, onde a mãe ainda convalescia da operação, e passava as tardes sentada numa poltrona a resolver problemas de palavras cruzadas. Apesar da idade avançada, da falta de autonomia da mãe e do princípio de senilidade do pai, viviam sozinhos, com a ajuda de uma empregada na parte da manhã, e sem aceitarem sequer discutir a possibilidade de irem para um lar de assistência. O irmão há muito que tinha regressado à pequena cidade de um estado do sul, onde vivia com a sua própria família. Chovia nesse final de tarde, já praticamente não havia luz lá fora, e a sala estava quase às escuras. A mãe estava sentada na sua poltrona, a falar ao telefone, e o pai resolvia paciências de cartas num velho computador que servia apenas para esse efeito.

Mal Roger entrou em casa a mãe desligou o telefone e começou a fazer queixas do pai, das coisas que ele lhe tinha feito ao longo dia, das que não tinha feito e devia ter feito, das discussões que travaram, do seu mau feitio e dos maus modos. Falava de uma forma não exaltada, tranquila mas entristecida, e quase sem pausas. O pai interrompia os seus jogos para dizer que não percebia porque é que ela passava o dia ao telefone e que não teria dinheiro para pagar a conta da companhia. Repetia isto, quase a mesma frase, com as mesmas palavras, vezes e vezes sem conta. Roger tentava manter-se calmo e até um pouco alheado da discussão, voltando, quase sem as ler, as páginas de um jornal do dia.

Mais tarde, Roger, sozinho na cela, lembrou-se da conversa que tinha tido com o irmão na sala de espera do hospital no dia da operação. Mas nesse final de tarde a única coisa que sentiu, quase como quando ouvimos um comboio a aproximar-se pela linha quando estamos à espera na guarda de uma passagem de nível, foi uma fúria enorme e explosiva a crescer dentro de si.
comments: 8 comments or Leave a comment Add to Memories Tell a Friend

Tags:
Subject:fiz-lhe um poema
Time:01:30 pm
Deram-me ontem a notícia de que está doente. Chovia. Era já de noite, apesar de ser ainda o final da tarde. Talvez porque esteja muito cansado por um ano que tem sido desgastante de sustos, medos e preocupações, talvez por isso, talvez por ser Outono e já estar frio, senti um desânimo tão grande. E uma ponta de remorso, apesar de procurar fundo e não lhe descortinar razão. Talvez seja então uma vontade enorme de lhe dizer que é uma das pessoas mais extraordinárias que conheci, não lhe ter dito quando isso a faria sorrir, e agora ser já o tempo e o tom das elegias.

Meti-me no carro e fui parar à sua porta. Há muitos meses, parei ali mesmo o carro, e saí para lhe abrir a porta. Só pelo prazer e pelo privilégio de a tratar bem, como um cavalheiro deve tratar uma Senhora. Que é como sempre senti que a devia tratar. Uma ocasião, encontrávamo-nos muitas vezes, manhãs de Sábado ou de Domingo na esplanada. Um dia disse-me: “Olha querido, vieram-me perguntar se tu eras meu filho, e eu disse-lhes que sim”. Muito tempo depois encontrou a minha mãe no cabeleireiro, não se conheciam, foi ter com ela e disse-lhe. “Deixe-me dar-lhe um beijo e dizer que tenho muito gosto em conhecer a mãe do meu filho”. Ficaram amigas, e eu sempre soube que a minha mãe sente por ela exactamente o mesmo que eu.

Acho que nunca chegámos a trabalhar juntos, não sei sequer se coincidimos no sítio onde comecei a trabalhar tímido e inexperiente, mas já com o mundo a pesar-me o fundo dos olhos, e de onde ela se aposentou daquela que pode ser a mais nobre das profissões, se exercida com a nobreza e a entrega de que ela conhecia o segredo. Uma vez, um homem já velho que foi meu chefe e trabalhou com ela, disse-me que ela era a mulher feia mais bonita que já tinha conhecido. Percebo perfeitamente o que queria dizer, mas declaro que nunca a achei feia, talvez porque sempre a tenha considerado uma mulher superior.

Vim para casa e fiz-lhe um poema.
comments: 19 comments or Leave a comment Add to Memories Tell a Friend

Tags:
Subject:mec
Time:10:29 pm
O Miguel Esteves Cardoso não é meu Papa nem guru. Mas, para que não haja peneiras, já foi. Há muito tempo, muito muito tempo, algumas das maneiras que aprendi de olhar o mundo, e sobretudo de o ouvir, foi com o MEC. Antes da internet, do Pastilhas, antes até do Independente, e mesmo antes da K, e dos livros. No tempo em que aprendíamos a ler os jornais e a ouvir a rádio. O tempo do Se7e, do Expresso, da Rádio Comercial.

Talvez aquela máxima de que não devemos regressar aos lugares onde fomos felizes também se aplique aqui. Não me cansei de ler o MEC, nem de o ouvir, mas como que me desabituei. Durante muitos anos não soube nada dele, não lia o que escrevia, nem sabia onde, e desabituei-me. Há tempos ele foi voltando aos meus hábitos quotidianos, através da crónica que assina diariamente no Público. Curiosamente, embora já não o lendo com a atenção de antes, muito menos com a devoção de antes, fui ocupando com as suas crónicas aquele lugar que estava vazio desde que Eduardo Prado Coelho morreu, e com ele as crónicas diárias O Fio do Horizonte. Não leio todos os dias, mas dou-lhe quase sempre uma chance de me arrebatar, de me surpreender, de me ensinar. Muitas vezes nem é a crónica inteira, basta um parágrafo, uma frase.

Mas hoje o Miguel Esteves Cardoso voltou a extasiar-me, como nesses tempos de antigamente, em que era meu mestre e guru. Bastou isto:

«O sonho de escrever é tornar em letras aquilo que só se sente quando se tenta tornar em letras aquilo que se sente ou imagina. Não porque se sente ou imagina, mas por querermos achar em nós próprios algumas coisas que dêem para tornar em palavras.»
comments: 8 comments or Leave a comment Add to Memories Tell a Friend

Tags:
Subject:ler
Time:09:03 pm
Estou a ler a edição de Novembro da revista Ler. Logo nas primeiras páginas há dois artigos de que gostei muito. Uma lista, elaborada pela Joana Amaral Dias, das 10 personagens literárias feministas mais inspitadoras, pela ordem, como ela diz, por que se sentaram no sofá. A lista é deliciosa porque é simples, natural, mas pouco óbvia, inteligente, e porque as justificações fazem muito sentido. É a lista que eu gostaria de fazer. A habitual crónica de José Eduardo Agualusa, O Lugar do Morto, desta vez é sobre Saint-Exupéry e as Misses. É um pedaço de humor do mais sarcástico que se possa imaginar, e faz tremer qualquer devoção ao Principezinho.

Para além destes artigos, já li a entrevista ao Richard Zimler e um conjunto de artigos muito interessantes sobre Jorge de Sena. Assim que me lembre, ainda tenho para ler um outro sobre Vinicius de Moraes. É isso, o número da Ler deste mês é imperdível.
comments: 4 comments or Leave a comment Add to Memories Tell a Friend

Tags:
Subject:no comboio
Time:04:50 pm
Hoje vinha a viajar de comboio e tive, acho que pela primeira vez, uma ideia para um romance. Claro que já me aconteceu muitas vezes ter ideias para histórias, mas foi a primeira vez, tanto quanto me lembro, que tive uma ideia tão completa, tão desenvolvida, com uma voz narrativa tão autonomizada e distinta. E audível: mal a ideia me surgiu, percebi logo com clareza que era uma coisa na qual eu estava interessado e que tinha pernas para andar. Claro que não a vou escrever, não tenho tempo nem, principalmente, disponibilidade mental, para me organizar e começar a escrevê-la. Mas mesmo assim fiquei contente. Sempre achei que nunca iria ser capaz de escrever um romance basicamente porque nunca tinha tido uma ideia para um, assim uma história que eu achasse que fazia sentido, e fazia falta, contá-la.

Claro que não vou aqui dizer do que se tratava, mas, até para fixar alguns detalhes importantes, registo que o tempo da narrativa seria um arco de dez anos, entre 1989 e 1999, e o romance teria três momentos. Começaria com uma espécie de epílogo feliz, depois teria uma enorme travessia no deserto, e terminava com uma redenção. Pronto, fica aqui anotado, pode ser que um dia ainda a venha a usar.
comments: 13 comments or Leave a comment Add to Memories Tell a Friend

Tags:
Subject:twitfiction #16: anel
Time:05:28 pm
Joana tirou com delicadeza o anel do dedo, mirou-o, colocou-o no fundo da língua, e engoliu rapidamente, com a ajuda de um copo de água.
comments: 4 comments or Leave a comment Add to Memories Tell a Friend

Tags:
Subject:não engagé
Time:01:18 pm
Caraças, hoje veio tudo para o trabalho de fato e gravata, menos eu que vim de camisa aos quadrados e blusão. Sinto-me totalmente o odd one out! Como se houvesse qualquer coisa importante e eu tenha ficado de fora. Ou pior, uma coisa importante e eu sou o único a destoar na fotografia. Tipo aquele gajo do Porto, o da verruga, que se vai sempre meter lá atrás nas fotografias.

Mas o pior (e o pior é o pior) é que me esqueci de que hoje à tarde vai haver entrevistas de selecção e eu, que a bem dizer sou o tipo dos recrutamentos, não estou nada trajado para a ocasião. Que mau aspecto, os outros tipos do júri todos bem postos e eu ali especado com ar de trolha.

Ou seja, é uma emergência, e por isso é a hora de chamar o super-atitude, pôr um ar charmoso, de intelectual não engagé, e fazer perguntas inteligentes. Isto, claro, com o risco inerente (tipo doença profissional) de que é muito ténue a fronteira entre o ar de intelectual inconformista e o puro e duro ar de parvo. É o preço a pagar: quem tem preguiça de se vestir de manhã, tem de dar ao litro para compensar durante o resto do dia.
comments: 14 comments or Leave a comment Add to Memories Tell a Friend

Tags:
Subject:três cantos (coliseu do porto)
Time:10:17 am
A porta estava quase a fechar-se, mas mesmo assim consegui um bilhete para o último dos quatro concertos com que José Mário Branco, Sérgio Godinho e Fausto decidiram celebrar, celebrando-se, as respectivas carreiras. E se um certo revival revolucionário (que em alguns momentos teve tons de êxtase bloquista) não foi propriamente o mais interessante da sessão, teve, apesar disso, o condão de criar um clima especial que elevou à potência as emoções que ajudaram a fazer este que será, sem dúvida, um concerto memorável em todos os que tiveram a sorte de assistir e participar.

O melhor, então, foi mesmo a música, e os músicos. Fausto, Sérgio e Zé Mário estão velhos, isso nota-se, e ainda bem. Primeiro porque têm um reportório imenso, feito não só de belíssimas canções, mas mesmo de algumas obras-primas. Depois porque têm muita experiência de criar projectos musicais interessantes e desafiadores, rodeando-se de bons músicos, e aprofundando e explorando os caminhos da música popular. Finalmente porque sabem do público, sabem estar no palco a servir e a governar, têm a confiança, mas também o respeito pelo público que os obriga a serem sempre exigentes.

Se o Sérgio Godinho é o escritor de algumas das mais extraordinárias canções da música popular, e muitas delas integram a nossa história e a nossa memória pessoal, se o Fausto é um talento a compor e a escrever, e ainda por cima toca muito bem viola, e ainda por cima tem um timbre de voz que é sempre espantosamente bonito, cabe, apesar de tudo isso, e apesar de este projecto ser rigorosamente a três, um destaque para o José Mário Branco. Pelo entusiasmo, que se notava e transbordava, pela maneira talentosa como personaliza as interpretações das canções alheias, mas sobretudo pelo seu génio musical, pelo arranjador e produtor que é sempre e acima de tudo, pelo rigor da exigência, por vezes mesmo um pouco estóico, mas que nunca rouba o prazer e a alegria de cantar.

As palavras gastam-se e muitas vezes diluem-se na banalidade do lugar-comum. Mas este concerto dos Três Cantos, para além de único e raro, foi verdadeiramente uma daquelas ocasiões especiais em que, ao assistir, temos a plena consciência, e a emoção intensa, de estar a construir a memória do futuro.
comments: 7 comments or Leave a comment Add to Memories Tell a Friend

Tags:, ,
Subject:so what
Time:01:31 am
Volto a ouvir Kind of Blues, pelo Miles Davis, e penso num rosto para Coy. Vou à net procurar o rosto que Imanol Uribe escolheu para o filme que fez com a história de Pérez-Reverte. É o de Carmelo Gómez, e ainda que me pareça uma escolha muito acertada, não é a minha. E então numa tarde, num final de tarde, encontro-o. Encontro aquele que desde esse momento tem sido o rosto, o corpo, a figura, a sombra, a silhueta, de Coy. Na piscina, nado sem parar durante quarenta e cinco minutos, e todo esse tempo penso no livro, em Coy, tento imaginá-lo como pessoa real, e não como mera personagem literária, como seria conhecê-lo, como é que um tipo totalmente gauche, como eu, seria capaz de se relacionar com um tipo como Coy, para quem a vida é o que é.

Vou lendo as derradeiras páginas do livro. Não é como se estivesse obcecado e não conseguisse parar de ler. Não é uma coisa compulsiva. É sobretudo estar sob influência. Pego no livro, começo a lê-lo e parece que tudo à minha volta desaparece e eu entro num estado de espírito muito particular. Uma atmosfera. Estou aqui sentado à mesa, a escrever no computador, e olho para o sofá, em cujo braço está o livro, de capa voltada para cima, à minha espera. E sinto uma urgência (a que não falta uma ponta de mau-estar) em lhe pegar e entrar nessa atmosfera. Não que o livro seja mais verosímil do que outros, não é como naqueles casos em que dizemos que um livro parece real. Mas é como que uma esperança de que o livro se torne realidade, que de tanto o ler, e com tanta intensidade, eu consiga entrar no livro. Uma vontade muito grande de que Coy seja verdadeiro, e ler o livro, estar a lê-lo, aumenta as hipóteses de isso acontecer.

comments: 2 comments or Leave a comment Add to Memories Tell a Friend

Tags:, , ,
Subject:tango
Time:12:12 pm
Eu sei que é de manhã e a luz conserva ainda a clara brancura do verão. Sei que o sol entra, tímido mas alegre, pela janela. E lá fora há a algazarra dos miúdos a jogar futebol, e a mercearia em frente transborda de promessas frescas. Sei que tenho de sair de casa, e que me espera o que o procuro.

Mas ainda assim o tango declina-se, sombrio e magoado, derramando-se em cada hora. É por ele, afinal, que vou.




Quiero emborrachar mi corazón
para apagar un loco amor
que más que amor es un sufrir...
Y aquí vengo para eso,
a borrar antiguos besos
en los besos de otras bocas...
Si su amor fue "flor de un día"
¿porqué causa es siempre mía
esa cruel preocupación?
Quiero por los dos mi copa alzar
para olvidar mi obstinación
y más la vuelvo a recordar.

Nostalgias
de escuchar su risa loca
y sentir junto a mi boca
como un fuego su respiración.
Angustia
de sentirme abandonado
y pensar que otro a su lado
pronto... pronto le hablará de amor...
¡Hermano!
Yo no quiero rebajarme,
ni pedirle, ni llorarle,
ni decirle que no puedo más vivir...
Desde mi triste soledad veré caer
las rosas muertas de mi juventud.

Gime, bandoneón, tu tango gris,
quizá a ti te hiera igual
algún amor sentimental...
Llora mi alma de fantoche
sola y triste en esta noche,
noche negra y sin estrellas...
Si las copas traen consuelo
aquí estoy con mi desvelo
para ahogarlos de una vez...
Quiero emborrachar mi corazón
para después poder brindar
"por los fracasos del amor"...


(NOSTALGIAS, de Juan Carlos Cobián e Enrique Cadícamo, 1936)
comments: 2 comments or Leave a comment Add to Memories Tell a Friend

Time:12:01 am
vanitas vanitatum et omnia vanitas


Site<br />Meter
Add to Memories Tell a Friend

Tags:
Subject:pérez-reverte
Time:09:02 am


É o terceiro livro de Arturo Pérez-Reverte que leio, de seguida. O Mestre de Esgrima cativou-me pela elegância da escrita, para o que ajudou, sem dúvida, a brilhante tradução de Pedro Tamen. A Pele do Tambor conquistou-me devagar, sobretudo pelas personagens muito marcadas, desenhadas quase como se estivéssemos a falar de banda desenhada, e nas quais se inclui a cidade onde o romance tem lugar, Sevilha.

Mas em O Cemitério de Barcos Sem Nome (o título é terrível, tão longe do fascínio do título original, La Carta Esférica) aconteceu-me uma coisa que não sucedia há muito tempo: apaixonar-me por uma personagem literária, e logo à primeira página. Amor à primeira leitura, digamos assim. A verdade é que já vou avançando no livro e contínuo apaixonadíssimo por Coy, o protagonista. É um amor quase físico, erótico, e chego a ter ciúmes de Tânger.

Há qualquer coisa nas histórias de mar e marinheiros que me toca num ponto fraco, e me deixa sempre num estado de melancolia, com saudades de uma vida que não vivi.
comments: 8 comments or Leave a comment Add to Memories Tell a Friend

Tags:, ,
Subject:un di' felice
Time:09:05 am
Caramba, já não ia a um espectáculo há tantos meses. Soube-me mesmo bem ir no Sábado à noite ver La Traviata pela companhia nacional de ópera da Moldávia. Já não é a primeira vez que vejo esta ópera de Verdi, nomeadamente por companhias dos países da antiga URSS. Não foi propriamente, acho eu, que do assunto percebo muito pouco, a melhor prestação operática que eu vi, mas o barítono Vladimir Dragos, no papel de pai de Alfredo, era fantástico, e a soprano Maria Tonina, na protagonista, ía crescendo e impondo-se à medida que a história se desenvolve.

Para além de já a ter visto ao vivo, La Traviata deve ser das óperas que melhor conheço e de que mais gosto. O que não admira, pois é das mais populares e conhecidas. Tenho-a em dvd e em cd, e ouço-a muitas vezes, nomeadamente o primeiro acto, que tem uma série de temas e árias lindíssimas. ‘Un di felice, eterea’ é das minhas favoritas (em competição com a Sempre Libera), e esta gravação do dueto por um Pavarotti ainda jovem e a Joan Sutherland é divinal (é o primeiro do clip, o segundo é do IV acto, o último da peça). Um aspecto curioso deste clip é que se ouve a voz do ponto a dar indicações, e se é verdade que isso por um lado pode ser um bocado irritante, também não deixa de ser interessante poder acompanhar esse aspecto mais técnico da construção do espectáculo e que, felizmente, passa sempre despercebido.



ALFREDO
Un di', felice, eterea,
Mi balenaste innante,
E da quel di' tremante
Vissi d'ignoto amor.
Di quell'amor ch'e' palpito
Dell'universo intero,
Misterioso, altero,
Croce e delizia al cor.

VIOLETTA
Ah, se cio' e' ver, fuggitemi
Solo amistade io v'offro:
Amar non so, ne' soffro
Un cosi' eroico amor.
Io sono franca, ingenua;
Altra cercar dovete;
Non arduo troverete
Dimenticarmi allor.
comments: 11 comments or Leave a comment Add to Memories Tell a Friend

Tags:
Subject:power
Time:05:36 pm
Há aí uns tipos, ateístas ao que suponho, que, para marcar posição, e quando se despedem, dizem 'até amanhã se EU quiser', em vez do católico e tradicional 'se deus quiser'.

Ora abóbora, se EU quisesse, parava tudo neste momento e começavam-se a ouvir os acordes iniciais da banda sonora que o Ennio Morricone compôs para o filme Once Upon a Time in America, do Sergio Leone.

Isso sim, é que era um milagre do caraças e uma demonstração de power à maneira... (toma lá reticências)
comments: 12 comments or Leave a comment Add to Memories Tell a Friend

Tags:
Subject:fnuck you
Time:08:49 am
A Fnac prestou-me um mau serviço, que me prejudicou de forma objectiva, sobretudo porque se eu não tivesse confiado no serviço não tinha tido problema nenhum e tinha resolvido a minha necessidade de consumo. Fui à loja reclamar. A pessoa que me atendeu concordou que tinha havido prejuízo mas que os termos do negócio isentavam a Fnac de responsabilidade. Chamou o responsável da loja que reconheceu que o serviço em causa não era perfeito, e que desse facto tinha resultado um prejuízo para mim. Pediu-me muita desculpa, mas que não havia nada a fazer, nem forma nenhuma de me compensar, porque, como já disse, os próprios termos da transacção, e até ao ponto em que ela se concretiza, isentam a loja de responsabilidade. Apesar de, como reconheceu igualmente, se não houvesse uma ideia de compromisso, na qual confiei, eu poderia ter resolvido o problema a meu contento. Assim sendo, comuniquei-lhe que pretendia anular o meu cartão de aderente, porque não fazia sentido ser aderente de uma loja que presta maus serviços, o que fiz de imediato. Eu sei que à Fnac não faz diferença nenhuma, e que eu perdi não só os pontos acumulados, como também as vantagens, ainda que estas não sejam propriamente mirabolantes. Mas às vezes uma pessoa tem de fazer o que tem de fazer. Nem que seja um gesto insignificante, mas que tem a vantagem de nos repor o valor mínimo de dignidade e sentido. Ou seja, a Fnac pode não ouvir, mas sabe bem à mesma mandá-la pró caralho.
comments: 33 comments or Leave a comment Add to Memories Tell a Friend

Tags:
Subject:so what
Time:05:25 pm
Domingo de manhã.

Estou sentado no café de uma livraria a ler as primeiras páginas de um livro. Coy, o protagonista, está deitado no seu quarto da pensão La Marítima, no Bairro Chino em Barcelona, a observar as manchas de humidade no tecto e a ouvir, nos auscultadores do walkman, So What, do disco Kind of Blues, de Miles Davis.

Parece de todo natural que no sistema de som do café comece a passar So What, do disco Kind of Blues, de Miles Davis.
comments: 13 comments or Leave a comment Add to Memories Tell a Friend

Tags:
Subject:o fio
Time:08:11 pm
Uma vez, ofereceram-me, dentro de uma caixinha de plástico e embrulhado em algodão, um finíssimo fio de ouro. Pu-lo de imediato à volta do pescoço e, com raríssimas excepções, nunca o tirei. Há uns meses, um dos elos partiu-se e mandei-o compor. Contei os dias em que não tive o fio posto. Parecia que me faltava qualquer coisa, mas o pior é que parecia que era eu que estava em falta. Há cerca de duas semanas o fio tornou a quebrar-se. Guardei-o dentro de uma caixa de louça, com motivos de Gaudí, que está numa prateleira de uma estante à entrada do meu quarto. Entre essa ocasião em que mo ofereceram e o pus de imediato e este dia em que guardei o fio de ouro, finíssimo, na caixinha de louça, passaram quase vinte e cinco anos. Mais de metade da minha vida.
comments: 10 comments or Leave a comment Add to Memories Tell a Friend

Tags:
Subject:a comedy tonight
Time:08:08 pm
Aproveitei este fim de semana para rever dois filmes antigos, que já tinha visto há muitos anos (mesmo muitos), mas dos quais a minha memória era mais mítica do que factual. Ou seja, lembrava-me de que tinha gostado muito de ambos, mas já não me lembrava porquê. Têm em comum o facto de serem comédias, e de serem produtos dos anos 60, uma época em que os estúdios claramente tentavam a estratégia de the bigger the better para manter o público nas salas. Ah, e também têm em comum os títulos compridos: um, It's a Mad Mad Mad Mad World, o outro, A Funny Thing Happened On The Way The The Forum.

Lembro-me de que que vi It's a Mad Mad Mad Mad World no cinema, em ecrã de 70 mm., numas sessões memoráveis que o Gil Vicente fazia sempre no mês de Setembro, para assinalar o reinício da actividade (numa altura em que em raros os espectáculos, e o Gil funcionava quase exclusivamente como sala de cinema). É um típico filme de produtor, Stanley Kramer, que neste caso também realizou, e é uma daquelas comédias slapstick, em que vale tudo, que parecem estar sempre a caminhar para o caos e para a destruição. Mas sendo um filme típico de produtor, não é um filme muito típico de Stanley Kramer, que é mais conhecido por fazer filmes, não digo politicos, mas com algum tipo de preocupação social. Isto apesar de a história do filme poder ser lida como uma parábola sobre a ambição cega e desmedida pelo dinheiro fácil. De resto, um dos filmes que fez a seguir a este foi Guess Who's Coming To Dinner, de que já falei aqui, e que é um filme que põe o dedo na ferida do racismo entre as classes mais liberais da sociedade americana. Um dos sinais do respeito que Hollywood tinha por Kramer vê-se, de resto, no facto de estes dois serem os dois últimos filmes feitos por esse monstro sagradíssimo que era o Spencer Tracy, e que em It's Mad Mad... dá mostras do gozo que lhe estava a dar este papel de um chefe da polícia, sério e honrado, bom pai de família, que não resiste a tentar deitar a mão à, literalmente, mala do dinheiro. Apesar de ser um bocado comprido demais, e de algumas cenas de destruição do cenário serem mais do mesmo, o clima de loucura, as perseguições de automóveis e o trabalho dos duplos, e mesmo uma certa concepção de cinema que estava subjacente a este tipo de filmes, nomeadamente no que se refere à comédia como género nobre do cinema clássico norte-americano, tudo são razões para ver e rever It's a Mad Mad Mad Mad World com prazer.

Quanto a A Funny Thing Happened On The Way The The Forum, as coisas são um pouco diferentes. Trata-se de uma comédia, é certo, mas uma comédia musical, um filme que adapta um exito da Broadway, e que tem nas canções de Stephen Sondheim um dos seus argumentos mais imbatíveis. E que são também o melhor do filme, não porque ele seja mau, mas porque são verdadeiros clássicos da escrita de canções para o teatro musical. Sondheim é um génio, e um dia vai ter o reconhecimento que merece. Fora, é claro, dos círculos especializados da Broadway e do West End, onde é sempre um dos maiores entre os maiores. O filme vive então das excelentes canções, e do tom de comédia de enganos, da farsa de costumes. O resultado é uma espécie de cross-over entre a genialidade do S. Sondheim e o tom destravado e malandro das comédias do Mel Brooks. Para o qual contribui a presença do Zero Mostel, actor mais de teatro do que de cinema, e que participaou na versão original de The Producers, do Mel Brooks, no papel de Max Bialystock. Outro aspecto curioso do casting do filme é a presença do grande Buster Keaton, herói da história do cinema e estrela da comédia sem palavras, naquela que seria o seu derradeiro papel. Só mais uma nota: o realizador é Richard Lester, nome importante do cinema, particularmente nos anos 60, em que assinou a realização de dois filmes dos Beatles, o Help e o Hard Day's Night.
comments: 2 comments or Leave a comment Add to Memories Tell a Friend

Tags:
Subject:a pele do tambor
Time:09:57 pm


Primeiro há Lorenzo Quart, o padre enviado de Roma para saber o que se passa em torno da igreja de Nossa Senhora das Lágrimas. E há mais dois padres, Príamo Ferro, o velho cura que se defende a golpes de mau feitio, apaixonado pela astronomia, e o seu jovem acólito, Óscar Lobato, que vai ser transferido por castigo. E Gris Marsala, a freira americana, arquitecta dos andaimes.

E há Macarena Bruner, a duquesa jovem de olhos cor de mel, que guarda o isqueiro na alça do soutien. E Maria Cruz, a velha duquesa, sua mãe, que bebe Coca-Cola de garrafa, a de lata não sabe à mesma coisa, nem os piquinhos são iguais.

Há os banqueiros. Machuco, Don Octávio como é tratado, que passa os dias a despachar na esplanada. Pencho Gavira, jovem e ambicioso, cuja Vice-Presidência está sob prova de fogo. E como cada criado quer o seu criadito, há Celestino Peregil, o seu homem de mão, sempre ajeitando o capachinho.

Há três outros que se passeiam pela cidade como se fossem anjos de pedra. Don Ibrahim, o meu preferido de todos, exilado cubano, advogado não documentado, sempre de fato branco, chapéu de aba larga e a brasa de um Montecristo a incendiar-se nos lábios. O isqueiro foi uma prenda de Garcia Marquez, o relógio ganhou-o numa noite de póquer a Hemingway, e El Che ensinou-o a fazer cocktails molotov. Acompanham-no Piña Puñales, cantora desvalida de boleros e sevilhanas, caracol desenhado na testa e o crochet enfiado na carteira, e o Potro del Mantelete, ex-toureiro e ex-pugilista, homem de acção, duro e impassível.

Há ainda Carlota e Manuel Xaloc, uma duquesa louca e um pirata das Caraíbas, fantasmas que se buscam um ao outro (“Mi carta, que es feliz, pues va a buscaros”).

Há um hacker, Vésperas, que deixa mensagens no computador pessoal do Santo Padre.

É há Sevilha, cheia de luz e de sol, cheia de noite e de tascas, cheia de igrejas, de praças e de pátios, perfumada de laranjas. “Como nenhuma outra, aquela cidade conservava na esquina das ruas, nas cores e na luz, o rumor do tempo que se extingue lentamente, ou melhor, de nós próprios extinguindo-nos com aquelas coisas do tempo a que se apegam a vida e a memória.”

Há, de Arturo Pérez-Reverte, A PELE DO TAMBOR.
comments: 4 comments or Leave a comment Add to Memories Tell a Friend

Tags:,
Subject:mi carta, que es feliz, pues va a buscaros
Time:06:34 pm


LA CARTA

Mi carta, que es feliz, pues va a buscaros,
cuenta os dará de la memoria mía.
Aquel fantasma soy que, por gustaros,
jugó estar viva a vuestro lado un día.

Cuando lleve esta carta a vuestro oído
el eco de mi amor y mis dolores
el cuerpo en que mi espíritu ha vivido
ya durmiendo estará bajo unas flores.

Por no dar fin a la ventura mía,
la escribo larga... casi interminable...
¡Mi agonía es la bárbara agonía
del que quiere evitar lo inevitable!

Hundiéndose al morir sobre mi frente
el palacio ideal de mi quimera,
de todo mi pasado, solamente
esta pena que os doy borrar quisiera.

Me rebelo a morir, pero es preciso...
¡El triste vive y el dichoso muere!...
¡Cuando quise morir, Dios no lo quiso;
hoy que quiero vivir, Dios no lo quiere!

¡Os amo, sí! Dejadme que habladora
me repita esta voz tan repetida;
que las cosas más íntimas ahora
se escapen de mis labios con mi vida.

Hasta furiosa, a mí que ya no existo,
la idea de los celos importuna;
¡Juradme que esos ojos que me han visto
nunca el rostro verán de otra ninguna!

Y si aquella mujer de aquella historia
vuelve a formar de nuevo vuestro encanto,
aunque os ame, gemid en mi memoria;
¡Yo os hubiera también amado tanto!...

Mas tal vez allá arriba nos veremos,
después de esta existencia pasajera,
cuando los dos, como en le tren, lleguemos
de vuestra vida a la estación postrera.

¡Ya me siento morir!... El cielo os guarde.
Cuidad, siempre que nazca o muera el día,
de mirar al lucero de la tarde,
esa estrella que siempre ha sido mía.

Pues yo desde ella os estaré mirando;
y como el bien con la virtud se labra,
para verme mejor, yo haré, rezando,
que Dios de par en par el cielo os abra.

¡Nunca olvidéis a esta infeliz amante
que os cita, cuando os deja, para el cielo!
¡Si es verdad que me amasteis un instante,
llorad, porque eso sirve de consuelo!...

¡Oh Padre de las almas pecadoras,
conceded el perdón al alma mía!
¡Amé mucho, Señor, y muchas horas;
mas sufrí por más tiempo todavía!

¡Adiós, adiós! ¡Como hablo delirando,
no sé decir lo que deciros quiero!
¡Yo sólo sé de mí que estoy llorando,
que sufro, que os amaba... y que me muero!


- Ramón de Campoamor
comments: 2 comments or Leave a comment Add to Memories Tell a Friend

Tags:
Subject:twitfiction #15: rotor
Time:04:24 pm
O barulho do rotor fê-lo levantar a mão trémula à fronte. De súbito, era como se estivesse a ouvir, de novo, um Alouette em voo rasante.
comments: 11 comments or Leave a comment Add to Memories Tell a Friend

[icon] um voo cego a nada
View:Recent Entries.
View:Archive.
View:Friends.
View:User Info.
You're looking at the latest 30 entries.
Missed some entries? Then simply jump back 30 entries