o túnel de pombos + a doença, o sofrimento e a morte entram num bar
rosas
innersmile


As memórias de John Le Carré em formato de histórias que inspiraram, ou de alguma forma "explicam", os romances e os seus enredos, as personagens ou tão só uma passagem ou um pequeno pormenor que ficou inscrito nos livros.

É um jogo arriscado, porque de algum modo desvenda o mistério dos romances, mas que resulta num fascínio ainda maior pelo método do escritor e seus recursos. Sempre com o humor refinado de Le Carré, o seu sentido para adensar o mistério à medida que o desvela, e um fundo moral de claro pendor humanista e de esquerda.



Um pequeno ensaio em que o humorista elabora sobre o humor e os seus mecanismos, recorrendo a exemplos quase todos extraídos da literatura. Hamlet em leitura cómica? Sim, e a Bíblia também.

cucurrucucú paloma
rosas
innersmile
No comentário que fez ao texto que escrevi sobre Moonlight, a Margarida lembra o momento em que se ouve Cucurrucucú Paloma, na especialíssima versão que Caetano Veloso fez, no disco Fina Estampa Ao Vivo, desta famosa canção ranchera. Num filme cheio de cenas muito bonitas, a canção de Caetano dá um intenso tom de lirismo à sequência em que aparece. E, além disso, é sempre uma surpresa muito boa, escutarmos uma canção de que gostamos particularmente num filme que nos está a emocionar.

A primeira vez que me lembro de ter ouvido essa versão do Caetano de Cucurrucucú Paloma no cinema foi no filme Happy Together, do Wong Kar-Wai, ainda nos anos 90, logo a seguir à edição do disco. Já foi há muitos anos, nunca revi o filme, mas lembrava-me de que se ouvia a canção enquanto o ecrã se enchia das imagens tumultuosas de uma cascata. Fui confirmar ao youtube e curiosamente, a cena em que a canção aparece em Moonlight é evocativa dessa sequência de Happy Together, que também se inicia com imagens da estrada vista pelo pára-brisas de um carro.

Mas, claro, a minha cena cinematográfica preferida com essa canção cantada pelo Caetano está no filme Hable Con Ella, de Pedro Almodóvar. Já aqui escrevi sobre essa a sequência, que começa com as imagens de um homem a atravessar uma piscina debaixo da água enquanto se ouvem os acordes iniciais da música. Quando emerge da água e sorri para a câmara, a imagem passa para um grupo de pessoas reunidas numa enorme varanda aberta para a noite, no centro do qual o próprio Caetano canta,acompanhado por alguns músicos, em especial por Jacques Morelembaum no seu violoncelo. A imagem de Caetano a cantar vai alternando com travellings ao longo do grupo de pessoas que o ouve, reconhecendo-se, entre elas, Cecilia Roth e Marisa Paredes, que tinham sido as protagonistas do filme anterior de Almodóvar, Todo Sobre Mi Madre. Depois apanha os olhares dos dois protagonistas, a tensão muda que se estabelece entre esses olhares, e quando um deles se vira a abandona a cena, o filme vai com ele, e a voz de Caetano já só se ouve em fundo, ao longe.


na ressaca do são valentim
rosas
innersmile



NÃO INVENTES

Não venhas cá com merdas. Não inventes.
Não olhes nos meus olhos. Sai apenas.
E poupa-me aos discursos eloquentes
e às farsas do adeus. Não faças cenas.

Não digas que lamentas ou que a vida
às vezes é assim: que tudo esquece;
que o mundo e o tempo curam qualquer ferida.
Repito, meu amor: desaparece.

E leva o que quiseres de tudo quanto
um dia suspeitámos partilhar:
os livros, as esculturas em pau-santo,
os discos, os retratos, o bilhar.

Não deixes endereços. Por favor:
eu quero é que te fodas, meu amor.


- José Carlos Barros, O USO DOS VENENOS (Língua Morta)

Lido (e ouvido) no blog http://ler.blogs.sapo.pt/
(http://ler.blogs.sapo.pt/um-poema-de-jose-carlos-barros-1065434)

moonlight
rosas
innersmile
Moonlight, realizado por Barry Jenkins, é um filme em modo de balada que, em três tempos, nos conduz através de uma jornada de coming-of-age, em que parece que todas as dificuldades e obstáculos parecem acrescentar à já por si complexa viagem. Mais do que uma simples história de bullying, é muito mais do que isso, uma história da perturbadora perplexidade com que olhamos o mundo quando tudo nele parece correr contra nós.

Não posso, evidentemente, dar testemunho do que é crescer sendo um rapaz negro num ambiente demasiado hostil. Mas sei bem o que é crescer, passar anos, sem nunca encontrar o ombro certo onde possamos pousar, íntegra, a nossa cabeça. E poucos filmes como este nos dão testemunho dessa radical solidão, uma solidão tão intensa que aos poucos começa a ser ela a própria lente com que espreitamos o mundo e os outros.

Barry Jenkins escolhe contar a sua história em três partes, e uma das chaves do sucesso do filme é o modo como em cada um desses momentos a personagem, o seu desamparo, a sua densidade, a perplexa intensidade do seu olhar, depende do corpo de cada um dos três actores que lhe dão rosto: Alex Hibbert, Ashton Sanders e Trevante Rhodes.

De resto, a maneira como o olhar da câmara se demora nos rostos e nos corpos dos seus actores, é outra das razões porque chegamos ao fim do filme com a sensação de que acabámos de viver uma experiência muito íntima e pessoal. Um filme raro, raríssimo, no actual tráfego do cinema de indústria, e que por isso merece, e pede, um olhar também ele íntimo e demorado.
Tags:

veio frio
rosas
innersmile
Pouca disposição para escrever e falta de assunto. E um acesso dificultado à net que não ajuda à festa.

Na sexta-feira fiz anos. Pela primeira vez, pelo menos de um modo muito consciente, um certo sentimento de vitória: chegar aqui foi difícil. Claro que é mais fácil dizê-lo do que fazê-lo, mas, à vista do que têm sido os últimos anos, e do que aconteceu há quase trinta e cinco, cada ano é mesmo uma conquista. Quer dizer, não é caso para grandes exultações, a vida é assim, e é assim para todos, mas fintar os obstáculos e ir pondo bandeirolas pelo caminho, compensa-nos por um certo sentimento de que o melhor já passou.

Há pouco, estava sentado no carro, na garagem, a pensar como a minha vida seria outra se tivesse elevador, em vez de ter de subir quatro andares a pé. Um bocadinho como no poema de Álvaro de Campos: “Serviram-me o amor como dobrada fria”. Ou aquele outro: “Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.”

Até agora tive uma única prenda de aniversário: num papel de embrulho de um hipermercado, uma embalagem de after shave, produto que não uso e nunca usei.

“Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?”

adriana calcanhotto
rosas
innersmile
É evidente que não há dois concertos iguais. Já me aconteceu assistir a espectáculos seguidos do mesmo artista, com o mesmo alinhamento, e mesmo assim eram diferentes, havia sempre qualquer coisa que os tornava únicos, nomeadamente o público, é verdade que o público também faz os concertos. Até nós próprios, que não estamos exactamente iguais mesmo assistindo ao mesmo concerto duas vezes.

Mas isso em relação à Adriana Calcanhotto é ainda mais verdade. Já vi vários concertos seus, e cada um deles é diferente. Há sempre um conceito, único, a dominar e a dar estrutura ao show, e que vai desde o alinhamento aos elementos cénicos, e muitas vezes à própria artista, à maneira como se apresenta, o vestido, o corte do cabelo, os gestos.

‘Das rosas’ começou por ser um recital que Adriana e Arthur Nestrovski fizeram na Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra em dezembro de 2015. O conceito foi enriquecido, com novas explorações musicais e novos envios e referências, e é agora apresentado num concerto que anda à volta de temas como as ligações entre o Brasil e Coimbra, ou o papel da canção, especialmente da canção popular, como meio de expressão poética.

Há textos, cantados ou lidos, de autores, entre muitos outros, que vão de Dom Dinis a Vinícius de Moraes, Chico Buarque ou Caetano Veloso, passando por Mário de Sá Carneiro e Fernando Pessoa, e poetas brasileiros (ou poetas do Brasil mais correctamente) que passaram por Coimbra, como Gregório de Matos ou António Gonçalves Dias.

A primeira parte do concerto é assegurada por Adriana a solo, a segunda com Nestrovski na guitarra clássica. Para além da música e da poesia, o concerto tem ainda uma forte componente didáctica, que me pareceu não apenas útil, para contextualizar os temas, mas também desafiante e estimulante. A conversa em torno de Cajuína, do Caetano Veloso, nomeadamente sobre a temática e a origem da canção, e que eu já conhecia parcialmente por ser uma das minhas canções favoritas de Caetano, foi, para mim, um dos momentos mais felizes do concerto.

tenho cinco minutos para contar uma história
rosas
innersmile


Este volume reúne crónicas radiofónicas lidas aos microfones aos domingos de manhã, em 1977 e 1978. Através delas chega-nos o ar do tempo, o rumor dos dias, desses dias já longínquos em que se tinham passado apenas três ou quatro anos desde o 25 de abril.

Mas chega-nos sobretudo o olhar e as palavras de Assis Pacheco, o cronista, a sua bonomia e o seu bom-humor, uma particular atenção ao que é simples e pequeno, ao anónimo e insignificante. Muitas crónicas têm por objecto a infância e juventude do autor, passadas em Coimbra, e nunca a cidade e as suas gentes são tão belas e fascinantes como nestes textos.

E chega-nos sobretudo a escrita de Assis Pacheco, rica, elegante, viva e criativa, irreverente e livre, e sempre perfeita como um mecanismo de relógio. De cada vez que leio um livro do Fernando Assis Pacheco, e então neste registo da crónica isso para mim é muito evidente, fico com a convicção de que, apesar de eu gostar de muitos escritores, se houvesse um que eu gostaria de escrever como, era ele.
Tags:

dias inesquecíveis
rosas
innersmile
No seu livro de memórias O Túnel de Pombos, que estou a ler, John Le Carré conta, com inigualável mestria narrativa, onde estava no dia em que o presidente Kennedy foi assassinado: a assistir a um inflamado comício político de um candidato eleitoral conservador pelo círculo de St. Marylebone, em Londres. Estava a ser uma ocasião tumultuosa, o candidato, um lord que abdicara do título para poder concorrer à Câmara dos Comuns, era contestadíssimo, e até um pouco embaraçosa para Le Carré, então funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros, e que acompanhava um visitante da Alemanha Ocidental, então ainda em pleno período de reconstrução pós-guerra, para lhe mostrar as maravilhas do sistema democrático britânico em funcionamento.

Há datas e ocasiões que, de facto, uma pessoa nunca esquece. E não estou, naturalmente, a falar das coisas muitos impactantes que acontecem na nossa vida pessoal. Eu nunca me esqueço onde estava e o que estava a fazer no dia 11 de setembro de 2011, quando as torres gémeas do World Trade Center, em Nova Iorque, foram atacadas com aviões civis cheios de passageiros, e ruíram. Acho que ninguém que àquela data tivesse idade suficiente para estar desperto para o mundo, o pode esquecer.

Mas também se podem recordar grandes momentos bons. A minha mãe, por exemplo, nunca se esqueceu do que estava a fazer numa noite de julho de 1969 quando o Homem pela primeira vez pousou na Lua: a assistir a um concerto no pavilhão de desportos do Clube Ferroviário de Nampula. Nem da pessoa que, no palco, anunciou a notícia, a Amália Rodrigues.

a padaria do facebook
rosas
innersmile
Não tenho paciência para as indignações do facebook.Na melhor das hipóteses, maçam-me. Na pior, irritam-me, porque mostram o lado mais burro das pessoas, e dos meus concidadãos em particular. E que passam como que por milagre: hoje à tarde todos se sentem ofendidos com uma porcaria qualquer, e amanhã de manhã já passou, e já há uma indignação nova a servir de pretexto para escreverem-se mais umas palermices.

A semana passada foi a cena do dono das padarias da moda, por causa de umas declarações que prestou à televisão. Eu confesso que nunca entrei em nenhuma das padarias dele, mas isso deve-se provavelmente ao facto de não haver nenhuma em Coimbra. Impressionou-me a imensa quantidade de gente que jurou e protestou nunca mais entrar numa, “e nunca mais” significa que até aí entravam, porque, digo eu, estavam num estado de virginal inocência acerca das condições de trabalho em Portugal, sobretudo no sector privado, principalmente nas médias e pequenas empresas, quer quanto à remuneração, quer quanto à sobrecarga de trabalho, quer quanto à precariedade do vínculo laboral. E desconfio bem que muitas dessas pessoas já entraram num dos estabelecimentos em causa, esquecidos de que ainda na véspera rasgaram as vestes de indignação.

Não é que eu concorde com o que o dono das padarias disse, mas não é uma questão de opinião. Aquilo que ele disse corresponde ao que pensa a grande, a enorme maioria, dos nossos empresários. O que pensa e o que pratica. Não é só na padaria do senhor que os trabalhadores, nomeadamente os mais jovens, são obrigados a trabalhar longas horas, não remuneradas, em troco de salários de miséria, e sob a ameaça constante de que, se refilam ou não correspondem, vão directos para o olho da rua. Provavelmente, mas isto sou só eu a pensar, não tenho dados sobre o assunto, apenas as grandes empresas, as multinacionais ou as grandes distribuidoras, têm políticas salariais adequadas e regimes de trabalho que cumprem a lei, julgo eu que por essas políticas serem definidas centralmente, por terem departamentos de recursos humanos que as estabelecem de forma a não criarem problemas legais, ou mais prosaicamente porque o patrão está longe da produção e não se preocupa com essas coisas.

Tirando pois honrosas excepções, creio que não deve haver em Portugal muitos trabalhadores por contra de outrem que nunca tenham experimentado estes problemas, que são transversais à generalidade das nossas empresas, e que se verificam inclusivamente noutro tipo de organizações, por exemplo na forma como a maior parte das nossas universidades trata os seus investigadores. O dono das padarias, coitado, como deve ter a mania é que é rapaz de Chicago, limitou-se a dizer, até com alguma candura, o que lhe vai na alma. Ou seja, e em última análise, que o que lhe dava jeito mesmo era haver condições de trabalho e remuneratórias como no tempo do Charles Dickens.
Tags:

la la land
rosas
innersmile
Por mim a coisa ficava resolvida, entregava-se o oscar a La La Land e prosseguíamos com as nossas vidas. Quer dizer que La La Land é o melhor filme? Não. Só para não me esforçar à procura, Silence, o filme anterior que vi, é um filme muito mais sério, entre aspas, que formula e sugere questões mais importantes, outra vez aspas.

Mas La La Land começa por ter o mérito de ser sobre o próprio cinema, especialmente sobre Hollywood e a sua máquina de fazer estrelas, um tema recorrente no cinema e na comédia americana. É um filme que tenta ultrapassar uma certa temporalidade, fazendo apelo a diferentes épocas e iconografias cinematográficas: nunca sabemos se o filme se passa na actualidade (há lá um Prius), se nos anos oitenta (os vestidos coloridos e as canções da pool party), se nos anos cinquenta (as gravatas e os sapatos do Gosling).

Depois é um musical, e um musical criado especificamente para o cinema, que se alimenta da própria tradição do filme musical, seja ela a de Gene Kelly, como na cena do pas de deux na estrada a seguir à festa, seja a do musical de Jacques Demy: é impossível não pensar em Les Parapluies de Cherbourg a propósito do estilo. E esta espécie de vocação de modernidade é ainda consagrada pela opção de fazer o filme em exteriores, escolhendo lugares iconográficos da memória cinéfila norte-americana.

Finalmente porque assume o tom fantasista do próprio cinema musical, que explicita logo no título: se o La pode fazer referência, óbvia, à cidade de Los Angeles, onde a acção do filme decorre e que é a cidade-pátria da indústria cinematográfica norte-americana, também lala land é uma expressão idiomática que significa viver numa terra de fantasia, ser completamente desajustado da realidade.

E entregue assim o Oscar a La La Land, é hora dos agradecimentos: Damien Chazelle, o realizador que o ano passado nos deu o extraordinário Whiplash (e que deu o Oscar de melhor actor secundário a J.K. Simmons, que aqui faz uma perninha). A Emma Stone e o Ryan Gosling têm o tom perfeito para as suas personagens e para o tom do filme, com a elegância própria dos dançarinos, mas denotando que treinaram muito para conseguirem fazer aquilo. Justin Hurwitz, o compositor responsável pela música do filme, em particular pelas canções.

Só mais uma notinha para dizer que há muito tempo que não me acontecia ver um filme e no final ter vontade de comprar novo ingresso para a sessão seguinte. É que não é só ver outra vez, é ver outra vez no ecrã grande da sala de cinema.
Tags:

o labirinto dos espíritos
rosas
innersmile


Uma aventura extraordinária, que escolhe os livros como o leit-motiv para falar sobre história e fantasia. Uma galeria rica de personagens e uma multiplicidade de histórias que se vão revelando ao leitor como se fossem um origami que, dobrando-se e desdobrando-se, vai assumindo várias formas. Tudo servido com uma escrita bem humorada e com vocação epigramática, e uma homenagem, que é uma declaração de amor, a uma cidade, Barcelona.

transitório
rosas
innersmile
Nestes últimos dias tenho pensado muito no meu pai (e sonhado também, continuo a sonhar muito frequentemente com o meu pai e a minha mãe). Principalmente, devo confessar, a propósito do gato: tenho a impressão de que a relação que o gato tem comigo é cada vez mais parecida com a que o gato Jarbas tinha com o meu pai. E digo que tenho a impressão em vez de ter a certeza, porque a relação entre eles os dois, o meu pai e o Jarbas, era muito secreta, muito exclusivista, era uma coisa muito deles os dois. Claro que a relação entre o meu gato e eu também é assim, mas o ponto é que em minha casa somos só os dois, e por isso é natural que se estabeleça essa relação, enquanto que em casa dos meus pais éramos sempre pelo menos três, e com temporadas em que éramos quatro, e era sempre uma casa cheia de gente, muitas visitas, algumas diárias. E o meu pai era muito reservado, e não partilhava os comportamentos do gato, as coisas que eu ia sabendo era normalmente a minha mãe que me contava.

Quando penso no meu pai tenho uma certa tendência a lembrar-me dele como era nos últimos tempos, já muito afectado pela doença. Talvez porque sempre tenha sido a minha mãe a tomar conta do meu pai e apenas quando ele foi internado, e poucos meses depois a minha mãe morreu, passámos a ser apenas nós dois, ele e eu. Apesar de ele estar internado numa casa de saúde e ser o pessoal de lá a tratar dele, talvez apenas nessa fase da vida eu me tenha sentido totalmente responsável por ele. Era eu que ía regularmente visitá-lo, e a grande maioria das vezes estávamos os dois sozinhos. Era eu que tinha de tomar as decisões importantes, quer as relativas à sua condição de doente internado, quer as da vida dele enquanto cidadão. Tive de lhe tratar do cartão do cidadão e de entregar as declarações de impostos, tive de tomar todas as decisões relativas à casa deles. Enfim, talvez seja por todas essas razões que, apesar de ser uma relação muito unívoca por causa da sua condição, quando penso no meu pai normalmente o que me vem à ideia é ele nesses últimos tempos, mesmo em termos de aparência física.

E é curioso, porque me lembro muito bem de que, durante o tempo em que ele esteve internado, eu nunca integrei completamente a situação, não fazia muito parte da minha estrutura mental. Aquela situação, do meu pai internado com uma doença mental que aos poucos o ia isolando do mundo, para mim nunca foi “a realidade”. A realidade era outra coisa. Em relação àquela situação sempre tive um sentimento de precariedade, de que aquilo era transitório, que estávamos a viver uma situação temporária, entre uma realidade anterior e uma outra que haveria de chegar. Nunca tive consciência de que essa realidade outra que haveria de chegar era a sua morte. E por isso, sempre que penso agora no meu pai, e na temporada que passou internado na casa de saúde, é sempre com esse sentimento de que há ainda qualquer coisa que ficou por resolver.

despeço-me com vagar
rosas
innersmile
Despeço-me com vagar do teu
Perfil impreciso, dos indefiníveis
Traços de um olhar.

Aprendo a caminhar na ambígua
Fractura que nos afasta
Nas sílabas incertas de uma mentira.

Ou então conforto-me em não saber
Em respirar a névoa que ficou no teu lugar.
Hesito.

Lá fora ainda a tarde,
O sol que se projecta em
Rigorosa arquitectura.
Lá fora.
Tags:

silence
rosas
innersmile
Muito bom, o Silence, do Martin Scorsese. Eu sou suspeito, claro, porque gosto muito do cinema dele, da maneira dele fazer filmes. O que também não admira, vi filmes do Scorsese praticamente toda a minha vida de adulto, e quando comecei a ver cinema à séria, foi na fase em que ele fez as suas grandes obras.

Em Silence Scorsese regressa ao tema da religião, concretamente da católica, que está presente em muitos dos seus filmes e que foi o tema fulcral de alguns deles, e que trouxeram ao realizador uma polémica que, acho eu, ele nunca procurou. Quando Scorsese filma a dúvida acerca da fé, não o faz de um ponto de vista agnóstico, não lhe interessa questionar a existência de Deus. A sua dúvida é a do cristão, e a crise de fé põe-se, e neste filme é o tema central, permanentemente explorado através de processos de questionamento sucessivos, em termos do que é ser um bom cristão. Quem é o melhor, e nesse sentido o verdadeiro cristão: aquele que não renuncia à fé apesar do sofrimento que isso causa a si e aos outros, ou aquele que renuncia à fé para salvar os outros do sofrimento? E no caso do momento da história do cristianismo no Japão que o filme aborda, essa questão é ainda mais pertinente, pois renunciar à fé podia significar o desaparecimento e o fim do cristianismo no país.

E Scorsese filma este intenso dilema com a sua habitual mestria e força narrativa, mas há, de alguma maneira, uma certa contenção que não é muito habitual nele. A vertigem do plano e da sequência, que em Scorsese é habitualmente imponente, cedem aqui lugar a uma atenção completamente focalizada nas personagens, no seu jogo. Scorsese tenta desse modo filmar aquilo que é mais difícil: o silêncio, o conflito, por vezes tumultuoso, por vezes de uma violência inaudita, que vivemos dentro de nós, quando questionamos, não apenas aquilo que é mais íntimo e importante na nossa vida, mas que nos dá razão de existir.

Claro que é um motivo de interesse adicional, o filme dizer-nos tanto a nós, portugueses, abordando uma parte importante da nossa história. Esta história em concreto do cristianismo no Japão, da presença dos jesuítas, foi também a história do expansionismo português, da cruzada espiritual que foi parte integrante e essencial do movimento de expansão de Portugal no mundo, em particular no oriente. Por isso é também a nossa história que ali está. Tocou-me em particular, logo nas cenas iniciais do filme, Scorsese ter-se dado ao trabalho de reconstruir o colégio de São Paulo, em Macau, cuja fachada e escadaria, que se vê no filme, são marcas indeléveis da imagem identitária que o antigo território português projecta, ainda hoje em dia.
Tags:

tarantino
rosas
innersmile
O gato gosta muito de brincar mas não tem sentido de humor, é sisudo. Agora, como ele tem a temperatura corporal mais elevada que a minha e aquele belo pelo fofo de tanta lambidela, quero que ele venha dormir ao pé de mim. Chamo-lhe o Quentinho Tarantino. Não liga nenhuma.

21 de janeiro
rosas
innersmile
A maior parte dos dias passa por nós sem sobressalto. São dias de rotina, em que, entretidos a viver, nem pensamos na vida. Mas há dias do calendário que têm uma vida própria, são marcas que se vêem na noite escura como a luz incendiada de um farol. Este dia de hoje, 21 de janeiro, dia do aniversário da minha mãe, é um desses dias.

mas liberdade
rosas
innersmile
Adoro esta canção do Edu Lobo, que nunca foi cantada como foi pela Elis, e, imho, nunca como nesta gravação no festival de Montreux, a minha preferida.

E aqui fica hoje à maneira de Bye-bye Obama. Não sei se foi o meu Potus preferido (fui um Clinton boy), mas foi seguramente o mais interessante, inspirador e excitante dos Potus do meu tempo.
E acho (temo será mais o termo) que vai ser recordado com saudade.

"Valentia, posso emprestar, mas Liberdade só posso esperar"


obrigado por perguntar
rosas
innersmile
Só quem já teve uma doença má, daquelas que comprometem a nossa mais elementar condição de seres viventes, é capaz de compreender, por um lado, a dimensão do medo e da ansiedade que sentimos antes de nos submetermos a exames de follow up, e, por outro, a enorme sensação de alívio quando o resultado desses exames é bom.

A ansiedade anterior ao exame é uma coisa poderosa, um vórtice, uma vertigem negra que nos suga todas as energias nessa tarefa simples de tentar continuar a respirar como se tudo estivesse normal, um lugar de uma solidão absoluta, em que tudo é relativizado, onde não se conseguem fazer planos nem para o fim de semana seguinte, pois não há perspectiva temporal que seja capaz de resistir ao dia em que o exame está marcado.

Quando saímos do exame e tudo correu bem, quando temos acesso ao resultado e ele é favorável, sentimos um alívio que mais do que psicológico, é mesmo físico, como se de súbito nos libertássemos de um peso que nos atrofiava e subjugava. Uma sensação de grande alegria, que nos leva a querer partilhá-la com toda a gente com que nos cruzamos, com os técnicos que nos fizeram o exame, com a secretária clínica, com as pessoas com quem partilhamos a viagem de elevador até à saída.

É impressionante como a nossa perspectiva da vida e do mundo muda num período de quinze ou vinte minutos, entre o momento em que entrámos e aquele em que saímos de um gabinete médico num longo corredor de hospital. Não há cá merdas nem grandes teorias: entras lá para dentro borradinho de medo, sais a sentires-te “king of the world”.

E eu sei, porque ontem foi mais um desses dias.

little men
rosas
innersmile
Tal como acontecia no seu filme anterior, Love is Strange, também em Little Men (Homenzinhos, é o título em Portugal) Ira Sachs vai à procura dos efeitos emocionais e afectivos dos pequenos terramotos do nosso quotidiano. São as histórias que não saem no jornal, as das vítimas da economia, cujos dramas atingem as famílias e os que lhes são próximos. Em Love is Strange um velho casal de homossexuais era obrigado a separar-se por não suportarem as despesas do condomínio. Em Little Men, uma família muda-se para Brooklyn e, para aguentarem as despesas, põe uma acção de despejo à inquilina da loja do rés-do-chão, comprometendo a crescente e forte amizade entre os respectivos filhos adolescentes.

À complexidade da teia emocional que envolve as personagens, Ira Sachs contrapõe uma leitura narrativa muito simples, sem enunciados ou explicações, que persegue as personagens no seu dia a dia, nas rotinas do trabalho ou nos gestos familiares, colocando nos diálogos todo o esforço dramático. A contenção narrativa resulta numa enorme subtileza da abordagem das relações entre as personagens. Por outro lado, há muita informação que não nos é dada, e essa ambiguidade é responsável pela tensão dramática que aguenta todo o filme. Isto é particularmente evidente na relação entre os dois adolescentes, mais propriamente no lugar emocional que cada um deles ocupa na vida do outro.

Greg Kinnear tem um desempenho perfeito para o perfil da sua personagem, e o jovem Michael Barbieri tem uma daquelas presenças no ecrã completamente electrizantes e acho que é uma enorme promessa.
Tags:

esaú e jacó
rosas
innersmile


Como tem acontecido nos últimos anos, também este foi inaugurado, em termos de leituras, com Machado de Assis. Com Esaú e Jacó ficam lidos os cinco grande romances do autor (os outros são as Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro e Memorial de Aires). Também já li um volume de contos, Contos Avulsos (que inclui a novela O Alienista, uma das mais celebradas obras de Assis). Tenho um ano para decidir se continuo a ler mais obras do autor, nomeadamente outros volumes de contos. Faz-me falta o meu mestre Saint-Clair, para me orientar nestas leituras.

Esaú e Jacó é, como o nome bíblico indica, a história de dois gémeos, absolutamente idênticos e furiosamente rivais em tudo, e da sua mãe. Uma das personagens principais do livro é o Conselheiro Aires, que está sempre a escrever no seu memorial, que constituirá o tema do romance seguinte, e último, de Machado de Assis.

As marcas de génio de Assis estão todas presentes neste romance, a começar pela criatividade narrativa (o narrador de Assis é único!), passando pelo humor e ironia, e a desembocar na ferocidade realista com que o autor analisa a sociedade da época, nomeadamente as relações de e com o poder, e o ritual quase paródico das relações sociais.

ainda mário soares
rosas
innersmile
1.
Ainda a propósito da morte de Mário Soares, não sei o que é pior: se os comentários ditos odiosos dirigidos ao antigo presidente, se os comentários ofendidos dirigidos aos autores dos comentários odiosos, aos chamados energúmenos para utilizar a expressão do sempre delicado Miguel Sousa Tavares.

Eu convivi com estes “energúmenos” toda a minha vida, cansei-me de discutir com eles. Acho, para falar com franqueza, que são ódios velhos, enquistados, cavalgados de sentimentos de injustiça e vingança acerca dos quais se perdeu a causa e o contorno.

É verdade que, por um lado, culpar Mário Soares pela descolonização é não fazer ideia do que aconteceu há 40 anos, e, pior, não querer ver que os ventos da história sopram de forma inexorável. Só quem não sabe ou não quer ver, é que não percebe que não havia soluções para a descolonização, nem boas nem más.

Mas também os comentários ofendidos pecam por falta de memória, é a típica indignação de facebook, a indignação do dia. Esquecem-se de que a descolonização teve um preço, e quem o pagou (para além dos naturais, que morreram aos milhares nas guerras civis que despoletaram nas ex-colónias, mal os portugueses de lá saíram) foram os milhares de famílias de portugueses que perderam tudo, cuja vida ficou reduzida a um contentor de madeira, que foram despachados em pontes aéreas, que foram expulsos e saíram com uma mão à frente outra atrás. Que, aos cinquenta ou sessenta anos de idade tiveram de começar novas vidas a partir do zero, em lugares que desconheciam de todo. Famílias que se separaram, muitas vezes dispersas por diferentes continentes. A descolonização foi feita sobre incontáveis tragédias pessoais, e quando hoje nos revoltamos com o flagelo dos refugiados, podemos lembrar que Portugal e os portugueses viveram esse drama, nem mais nem menos, há pouco menos de meio século!

Claro que culpar Soares por tudo isso, não faz sentido. Mas é assim, foi assim que aconteceu. E muito provavelmente aconteceu porque Mário Soares sempre foi um homem de acção e um político controverso. E branquear o seu percurso político, santificá-lo isentando-o de qualquer polémica, não será a melhor forma de o homenagear e até será um pouco injusto.

2.
Mas muito mais importante do que isso, parece-me ser de realçar que até na sua morte Mário Soares prestou um serviço à pátria. Raramente temos visto nas últimas décadas o regime ser tão enaltecido, ainda que pela via de um dos seus fundadores, como nestes últimos dias, tanto pelos políticos como pelo povo. Democracia e liberdade têm sido as palavras mais ouvidas por estes dias. Para além de todas as controvérsias e divergências, é importante sabermos aquilo que é mais importante, que é essencial. A democracia não é uma meta, um objectivo. É um caminho, um processo, que se faz diariamente, com progressos mas também com recuos, constantes. Nos últimos anos, quando todos aceitámos que a economia é mais importante do que o direito, que as finanças mandam mais do que a política, recuámos de forma significativa nesse processo para a democracia. É bom ver que, até na morte, a figura de Mário Soares nos ajuda a recuperar um pouco nesse caminho.

Nas inúmeras entrevistas que as televisões fizeram aos populares que acompanharam as exéquias, houve uma senhora, já com uma certa idade, que disse que estava ali para homenagear Mário Soares, agradecendo-lhe a democracia e a liberdade. Um pouco hesitante, a senhora explicou que “antes do 25 de Abril nós éramos… pobres”. Acho que não se consegue dizer melhor.
Tags:

português de goa
rosas
innersmile
Fiquei comovido com as imagens e as reportagens que a televisão (e, já agora, o Expresso online, excelente) nos tem dado acerca da visita do primeiro-ministro António Costa aos antigos territórios portugueses na Índia. A recepção que os indianos de Goa lhe fizeram, a visita à casa na Rua Abade Faria, em Margão, o reencontro com os familiares. Mas sobretudo o orgulho que os goeses sentiram pela visita à casa da família daquele que eles consideram ser um dos seus mais ilustres filhos, talvez o goês que atingiu um cargo mais importante. Sim, para os goeses Costa é um goês.

Sou patriota, mas não sou patrioteiro, e não sinto particular orgulho em ser português. Quer dizer, creio que não sinto mais orgulho em ser português do que sentiria se fosse moçambicano, indiano, ou, só porque está aqui ao lado, espanhol.Ser português não me acrescenta mais, nem me torna especial. As únicas coisas que me dá, e muitas vezes em pouco, é, por um lado, uma certa vocação cívica em relação aos meus compatriotas, e, por outro, o sentido da responsabilidade pela cultura que os meus antepassados me deixaram.

Mas há ocasiões em que sinto forte orgulho em ser português, e uma delas é quando me confronto com a impressão forte que os portugueses meus antepassados deixaram nas terras longínquas por onde andaram perdidos, ou achados. Senti esse orgulho em Malaca, perante uma comunidade, pequena e pobre, que, contra tudo e contra todos, nomeadamente contra a indiferença dos portugueses de agora, continua obstinadamente agarrada a uma cultura, e até a uma língua, que eles usam para evocar um país e um povo do qual pouco ou nada conhecem mas com quem se julgam identificar.

E voltei a sentir esse orgulho agora, pela maneira como os goeses acolheram o nosso primeiro-ministro. Ou melhor, naquilo que Portugal deixou aos indianos de Goa, e que faz com eles se sintam orgulhosos por um dos seus descendentes, um dos seus filhos, ser quem é. É aí, nessa herança vaga e imprecisa, impossível de quantificar ou mesmo de concretizar, que reside o meu orgulho em ser português.
Tags:

Andante. Vivace. Largo
rosas
innersmile
1.
No primeiro dia do ano fui à praia. Estava um dia muito bonito, cheio de sol, o céu muito azul. Passeei pelos passadiços de madeira, ao longo das dunas. Comi uma sopa de peixe no restaurante da praia, foi o meu almoço de ano novo. Voltei para o carro e deixei-me estar ali um pouco, ao sol, a ouvir a música do rádio.

2.
Mal terminava o alcatrão do parque de estacionamento, começava o areal da praia. A areia estava húmida e nalgumas zonas havia mesmo algumas poças de água. Eu passeava pela praia e o meu gato seguia-me. Olhei para trás, e lá estava ele, tranquilo, caminhando atrás de mim. O pelo cor de laranja refulgia na areia branca, quase dourada. Saltei por cima de uma das poças de água e fiquei a olhar para trás, a ver como o gato resolvia o problema. Ele aproximou-se e levantou a pata direita.

3.
Todas as noites o gato aninha-se no tapete branco do quarto à espera que eu apague a luz. Muito raramente, acontece ele ir dormir para o ninho, que está na sala, ou aninhar-se junto ao aquecedor do corredor. Mas normalmente, depois de dar as suas voltas e de pedir um pouco de brincadeira com as minhas mãos, aninha-se no tapete à espera que eu apague a luz. Eu arrumo o livro, tiro os óculos, arranjo as almofadas, e apago a luz. Ele salta para cima da mala que serve de mesa de cabeceira e senta-se na esquina, por cima do livro, a tapar o mostrador do rádio-despertador. Eu ajeito-me para dormir, e, depois de umas voltas, deito-me sobre um dos lados, e sinto que estou tranquilo e confortável, para adormecer. O gato, muito suavemente, sem eu quase dar por ele, deita-se na almofada junto á minha cabeça. Deita-se sempre com a cabeça virada para o lado que eu estou voltado.

mário soares
rosas
innersmile
Ao longo das últimas semanas, a lenta agonia de Mário Soares, transmitida de forma despudorada praticamente em directo pelos media, tem sido acompanhada por um coro de opiniões contraditórias, em que os sentimentos de gratidão pelo seu contributo para o regime democrático actual, têm sido tão veementes como as ofensas e os insultos que lhe são dedicados. E nem a sua morte, ontem, aplacou a ferocidade dos comentários.

De certo modo ainda bem que assim é, e por várias razões. Desde logo porque mostra como Soares está vivo e presente no nosso colectivo social. Não é nem nunca foi uma estátua de si próprio, e sempre recusou, provavelmente mais por razões de carácter do que por modéstia, qualquer espécie de canonização em vida que lhe atribuísse um consenso adocicado.

Significa, além disso, que Soares sempre foi polémico, confrontacional, tomou partido. Sem dúvida o mais influente estadista do último meio século português, em toda a sua vida política Soares tomou posição, optou a favor de uns contra outros, escolheu e assumiu as escolhas, Deu assim azo a criar muitos ódios: dos retornados, por causa do processo de descolonização, dos direitistas, porque foi o epítome do regime democrático saído da revolução de Abril, dos comunistas, porque se lhes opôs durante o PREC. Por isso, e ao contrário do que aconteceu com Cunhal, nem na morte Soares foi consensual.

Pessoalmente, reconheço a Mário Soares o seu papel na criação do destino histórico em que hoje todos vivemos. Para o melhor e para o pior, o Portugal que Soares sonhou para si, é aquele que temos hoje em dia. E o melhor desse destino é a convicção de que mesmo o seu pior depende apenas de nós, dos que nós formos capazes de fazer. Essa ideia de um regime democrático feito por cidadãos que vivem em liberdade e são responsáveis por si e pelo seu país, é o maior legado de Soares.

Mas mais do que isso, reconheço a Mário Soares as suas enormes capacidades de político e homem de Estado, qualidades infelizmente raras hoje em dia. Admirei--lhe sempre, ou quase sempre, a conduta política, as suas opções, porque mesmo quando discordava delas, eram claras as suas razões e os seus fundamentos. Admirei-lhe sempre a coragem, que é, na minha opinião, a mais nobre das qualidades que um político deve reunir. E Soares tinha-as todas, a coragem moral, a coragem verbal, a coragem física. Admirei-lhe, ainda, a dignidade. Todos sabemos que a política tem um lado sórdido, baixo, feito de jogadas e infuências, de compadrios e traições. Não tenho dúvidas de que Mário Soares tenha muitas vezes jogado esse jogo, mas, pelo menos que me lembre, nunca perdeu a face, nunca se vendeu a troco de prebendas, nunca comprometeu o superior interesse público aos medíocres interesses de sobrevivência pessoal (se calhar porque não precisava, mas mesmo assim). E era esse desprendimento, ajudado por uma natural bonomia, que lhe dava dignidade, o saber que em democracia sempre se ganha e sempre se perde, e, como lhe ouvi mais do que uma vez, por vezes perder até é mais importante do que ganhar.

Mas admirava~lhe acima de tudo a sabedoria. A visão de Estado, conseguir olhar, como diz uma canção de Caetano Veloso, “pra fora e acima da manada”. Essa sabedoria, feita de muito bom senso, de inteligência, de argúcia, mas também de muita cultura, muitos livros, muito mundo, foi o que me fez votar nele inúmeras vezes (nomeadamente de todas as vezes que se candidatou a presidente da república, tanto quando ganhou como quando perdeu). Mas também foi o que sempre me faz ler os seus artigos de opinião, fossem sobre que tema fossem, porque sempre neles vi clarividência e perspicácia, e porque sempre com eles aprendi alguma coisa.

Viva a Liberdade.

the milky road
rosas
innersmile
Apesar de não ser grande fã do cinema de Emir Kusturica, fui ver o seu último filme, The Milky Road, A Via Láctea, marcando um regresso depois de vários anos sem realizar. Tenho de confessar que dormi durante a primeira parte do filme, mas, apesar disso, gostei mais da segunda.

Resultando da articulação de três histórias que o realizador anuncia como verdadeiras, The Milky Road centra-se na guerra dos Balcãs, tendo como personagem principal Kostas, um leiteiro que, literalmente, tenta escapar por entre fogo cruzado para transportar o seu leite, tarefa na qual é ajudado por vários animais, desde o burro ao falcão, passando pela serpente, e que se apaixona pela bela italiana que ordenha o gado.

A primeira parte do filme, a que se centra nas idas e vindas do leiteiro, foi a que gostei menos, com aquele excesso de grotesco e violência que se tornou um pouco a imagem de marca do realizador. Na segunda parte do filme, Kostas e a bela leiteira, únicos sobreviventes do holocausto da guerra, tentam escapar à perseguição que lhes é movida por três soldados das SFOR (a força da Nato que interveio na guerra da antiga Jugoslávia, em nome das Nações Unidas). O filme assume uma vertente de realismo mágico, sendo já não apenas os animais mas a própria natureza, que decide ajudar os dois amantes, numa série de sequências em que a candura das personagens, a sua vontade de sobreviver apenas para se poderem entregar e viver o amor, convoca toda a espécie de recursos naturais, que jogam a seu favor.

Finalmente, perdida a companheira, o frade Kostas dedica os seus dias a transportar pedras para o local onde ela foi morta, construindo, aos poucos, pedra a pedra, um novo chão que sirva de homenagem ao seu amor, ao mesmo tempo que lhe dá um sentido à existência.
Como disse, nunca fui fã do cinema de Kusturica, mas sabe bem ver um filme (descontando os excessos grotescos, está bem de ver) que tem ideias, que tem personalidade, que tem uma intenção e uma vontade de cinema, que tem histórias para contar e que se encanta pela forma de as contar. The Milky Road tem o condão, pelo menos, de nos devolver uma certa alegria em ir ao cinema, e que é mais, muito mais, do que a mera procura funcionária de duas horas de distracção a que o cinema actual parece estar condenado.
Tags:

epicédica
rosas
innersmile



EPICÉDICA

Liso é o choro do passado
Concreta a voz que esconde o dia de hoje
(O travo seu agora foge
Escuso na sombra do grito adiado).

Perdeu-se o gesto da tragédia
Liso é o choro do passado...


- José Blanc de Portugal (Lido no blog POESIA DISTRIBUÍDA NA RUA: http://ruialme.blogspot.pt/)

vacinas
rosas
innersmile



Hoje apanhei a vacina contra a pneumonia. Há dois meses, tinha apanhado a da gripe. Foi a primeira vez que apanhei estas duas vacinas. Por indicação médica, porque passei a pertencer a vários grupos de risco:a idade, a profissão, os problemas recentes de saúde. Os médicos não querem que eu apanhe infecções, por causa da insuficiência renal.

Em 1971 e em 1976 (esta, a poucos dias do meu embarque para Portugal), apanhei a vacina antivariólica. A varíola fartou-se de matar gente ao longo da história da humanidade, e considera-se erradicada desde 1980. Creio até já nem faz parte dos programas de vacinação obrigatória. Mas é bom estar protegido, em caso de guerra biológica ou do degelo das regiões subpolares trazer novos surtos da doença.

Todas estas informações relativas à minha história imunitária constam do meu boletim individual de vacinas. Foi emitido em Nampula, Província de Moçambique, em 1972, mas recuperou todo o histórico, pelo que o registo mais antigo data de junho de 1962, tinha eu pouco mais de 4 meses, quando fui inoculado com três gotas da vacina antipoliomielítica.

(Nampula, 1972)

elegia
rosas
innersmile
Tenho saudades do tempo em que o teu
Nome se escrevia como uma promessa
Como um delicado e incerto futuro
A suave perturbação dos dias a haver
E não sabermos, então
Que chegarias um dia, e chegaste.

Tenho saudades dos dias quando me chamavas
Sem razão ou motivo
Pelo puro prazer dos nomes que nos davam.
Da inefável claridade de todas as
Manhãs em que vinhas
Das noites sem compromisso.

(Não sei ao certo onde reside a felicidade
Mas nas ruas e nas casas ainda se pressente
O enlevo triste da tua sombra)

Hoje, sabe-me a inverno a tua ausência
A distância que nos une
As árvores já despidas na avenida onde
Juntos, acreditámos.
E onde os teus dedos como uvas doces.
Tags:

avião de lisboa para o mundo
rosas
innersmile
Quase não consigo resistir à tentação de fazer, neste último dia de 2016, um balanço pessoal do ano. Para me lamentar, claro, e dizer, esquecendo tudo o que de bom me aconteceu, que foi um verdadeiro annus horribilis, com a morte do meu pai, um ano depois da da minha mãe, e com um episódio de doença grave, do qual estou longe de recuperar. Mas enquanto estou a pensar nisso leio numa rede social alguém que não conheço de parte nenhuma dizer que foi um ano fantástico, o melhor ano da sua vida! São assim os anos, valem o que valem, ou seja: pouco. Meros marcos a marcar o tempo das nossas vidas, inúteis folhas de calendário deitadas ao chão.

Por isso, sem mais delongas, o melhor mesmo é aproveitar o poema do Alexandre O’Neill, Avião de Lisboa para o Mundo, para desejar a todos os amigos e leitores um Excelente Ano Novo de 2017, cheio de, como se dizia antigamente, saúde, dinheiro e amor.


balanços IV, livros
rosas
innersmile
Foram os seguintes, os livros que li no ano que termina. Vão agrupados, em primeiro lugar, pelo idioma em que foram originalmente escritos (língua portuguesa, inglês, outras) e por autores, e depois por géneros, começando por ficção e não-ficção, e depois policiais, memórias e autobiografias, temática gay, etc. Mas os critérios são pouco rígidos, até porque há livros que fogem a qualquer categorização.

- Machado de Assis, Memorial de Aires (ebook)
- Rubem Fonseca, A Grande Arte (ebook)
- Rubem Fonseca, Pequenas Criaturas (ebook)
- Nelson Rodrigues, A Vida Como Ela É (ebook)
- Luiz Alfredo Garcia-Roza, Um Lugar Perigoso

- Germano Almeida, Regresso ao Paraíso

- Alexandre Andrade, Quartos Alugados
- Fernando Assis Pacheco, Trabalhos e paixões de Benito Prada (releitura)
- Paulo Varela Gomes, Passos Perdidos
- João Ricardo Pedro, Um Postal de Detroit (ebook)
- Hélio Loureiro, O Cozinheiro do Rei D. João VI
- Teresa Veiga, Jacobo e Outras Histórias
- Isabela Figueiredo, A Gorda

- Nuno Oskar, Todo Teu: Sábado (ebook)
- Nuno Oskar, Todo Teu: Domingo (ebook)
- Nuno Oskar, Todo Teu: Segunda (ebook)
- Nuno Oskar, Todo Teu: Terça (ebook)

- Mário Cesariny, Um Sol Esplendente nas Coisas, Cartas para Alberto de Lacerda
- Mário Cesariny, Cartas para Cruzeiro Seixas
- Eugénio Lisboa, Acta Est Fabula Memórias II
- Eduardo Souza Caxa, 3 e 15
- Ruy Castro, Chega de Saudade
- Ricardo Alexandre, Não Vem Que Não Tem - A Vida e o Veneno de Wilson Simonal (ebook)
- João Máximo e Luís Chainho, Sidney: Duas Mil Léguas Australianas #1, (ebook)

- Luís Filipe Castro Mendes, Outro Ulisses Regressa a casa
- Adília Lopes, Bandolim

- Colm Tóibín, Homenagem a Barcelona
- Colm Tóibín, Nora Webster
- Hanya Yanagihara, Uma Vida Pequena (ebook)
- Julian Barnes, O Ruído do Tempo
- Graham Greene, Os Comediantes (releitura)
- David Leavitt, The Lost Language of Cranes (releitura)

- Gordon Merrick, The Lord Won’t Mind
- Amy Jo Cousin, Full Exposure

- Maus, de Art Spiegelman

- Nelson DeMille, Quando A Noite Cai
- Paula Hawkins, A Rapariga do Comboio
- Lars Kepler, Stalker

- Oliver Sacks, Gratidão
- Jan Morris, Espanha
- Agatha Christie, Na Síria
- Bruce Springsteen, Born To Run

- Elena Ferrante, A Amiga Genial
- Elena Ferrante, História do Novo Nome
- Elena Ferrante, História de Quem Vai e de Quem fica
- Elena Ferrante, História da Menina Perdida

- Italo Calvino, Um Optimista na América

- Andrea Camilleri, A Viragem Decisiva
- Andrea Camilleri, A Forma da Água

- Leonardo Padura, A Neblina do Passado

- Granta 7: Palco
- Granta 8: Medo

Foram muitos, ou pelo menos alguns, e bons. De acordo com os meus registos e com a estatística do site goodreads.com, onde tenho conta, foram 52 livros, a que corresponderam 14267 páginas.

Claro, a aventura do ano foi a leitura da tetralogia de Elena Ferrante (perto de mil e quatrocentas páginas), uma narrativa fulgurante, que não deixa o leitor intacto. Mas também A Vida Pequena, de Hanya Yanagihara, que com as suas quase oitocentas páginas, e com a intensidade quase cruel da narrativa, foi uma experiência e tanto.

Mas os livros que mais me marcaram este ano, que transformaram a minha experiência de leitor, que ficaram comigo depois de os fechar em cada dia, e muito depois de terminar a sua leitura, foram os seguintes:


?

Log in