grande otelo
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Gostei bastante de Otelo – O Revolucionário, a biografia que Paulo Moura, grande repórter do jornal Público, escreveu sobre a figura de Otelo Saraiva de Carvalho. A falta assumida das fontes de documentação não elide o facto de a obra revelar uma pesquisa intensa, que permite ao leitor acreditar no relato biográfico ao mesmo tempo que se interessa por ele como se de um romance se tratasse.

Otelo é talvez 'A' figura do 25 de Abril, não apenas por ser o estratego do golpe de estado, mas pelo carisma e pela força aglutinadora da sua personalidade. Otelo é o mais puro dos heróis de Abril, provavelmente porque é o mais transparente e o mais contraditório de todos, deixando à mostra os seus pés de barro.

Paulo Moura consegue a proeza de deixar intacta essa contradição entre a capacidade de liderar (de ser amado, pois é disso que fundamentalmente se trata) e a fragilidade do seu drive. Revela-nos Otelo mesmo naquilo que é irrevelável, ou seja o sombrio mistério de uma personalidade.

Para além de alimentar a nossa curiosidade e o nosso interesse em relação a Otelo e ao papel (ou aos vários papeis) que ele desempenhou na história da revolução portuguesa, o livro, sem ter a pretensão da historiografia, é fundamental para se conhecer e perceber melhor o que foram as últimas décadas do nosso país. Nenhum dos grandes actores está ausente, nenhum drama fica por convocar. Ainda por cima, Paulo Moura escreve bem e fácil, e a leitura deste livro é sobretudo um exercício de prazer.
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no more tears
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A semana passada andei no YouTube à procura de um clip para homenagear a Donna Summer a propósito da notícia triste do seu falecimento. E, já agora, aquele que acho mais à altura dessa homenagem contém uma versão muito extended do que foi um dos primeiros êxitos disco, Love To Love You Baby: 17 gloriosos minutos de violinos, gemidos e orgasmos (suponho que) simulados, ao som da batida hipnótica de Giorgio Moroder (link).

Mas não foi esta canção que fui procurar na net. Devo dizer que eu, nessa altura dos meus dezasseis, dezoito anos, odiava o disco sound. Era um ódio mais militante do que visceral, mas ainda assim. Abominava os Village People, a Donna Summer, os Bee Gees versão SNF, e todos os outros artistas disco que infectavam as airwaves das rádios pop (na verdade, acho que só não odiava a Gloria Gaynor, porque nunca resisti ao apelo do I Will Survive).

Até que um dia ouvi uma canção que transformou isso tudo: era a Enough Is Enough (No More Tears), cantada pela Barbra Streisand (um adquired taste que só adquiri muitos anos depois) e pela Donna Summer, e que conjugava, digamos assim, os universos musicais de cada uma delas, com um começo lento e romântico, a la Streisand, que dá lugar a uma batida explosivamente dançável. Caiu-me no goto, uma espécie de guilty pleasure antes de o conceito ter sido inventado, e que teve ao menos a vantagem de me pôr a ouvir música de dança. Não muito tempo depois, uma canção do brasileiro Oswaldo Montenegro, acabou-me definitivamente com o preconceito contra a música de dança: “Se você dançar a noite inteira Não significa dar bobeira de manhã se alienar ou esquecer”.

Pois bem, andava eu no YouTube á procura de um clip decente com a canção Enough is Enough, e eis que descubro uma versão maravilhosa, cantada pela KD Lang e pelo Andy Bell, que, para os mais novos, fez parceria nos Erasure com o Vince Clark, um dos fundadores dos Depeche Mode (ya ya, foi ele que escreveu Just Can´t Get Enough). Confirma-se a minha teoria de que tudo aquilo em que a KD põe a garganta se transforma em ouro, não só por causa da voz dela, mas porque é a cantora que tem a maneira de cantar mais cool do mundo desde a sua formação.

Ou seja, e too cut a long story short, cá estamos a homenagear uma grande diva do disco (ah, os clichés) ouvindo um dos seus grandes êxitos cantado pela maior diva do mundo (ok duas, se considerarmos o Andy Bell).


debris
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O DEUS ABANDONA MARCO ANTÓNIO

Quando subitamente se ouve à meia-noite
um cortejo que invisível passa
com sublimes músicas e cânticos -
a tua fortuna que desiste, as tuas obras
que falharam, os planos de uma vida inteira
tornados nada -, não vale chorar.
Como aquele de há muito preparado, corajosamente
diz-lhe adeus, à Alexandria que de ti se afasta.
Acima de tudo não te iludas, nunca digas que foi
apenas sonho, um engano, quanto ouviste:
não te agarres a tão vãs esperanças.
Como aquele de há muito preparado, corajosamente,
e como é próprio de quem, como tu, era digno de uma tal cidade,
aproxima-te firme da janela,
e escuta emocionado, mas não
com lamentos e súplicas cobardes,
escuta, derradeira alegria tua, os sons que passam,
os sublimes instrumentos do cortejo místico,
e diz adeus, adeus à Alexandria que perdeste.



Já aqui tinha posto este poema de Kavafys, e agora reincido, mas com uma tradução diferente, esta de Jorge de Sena. Tenho-me lembrado muito do poema, e reli-o com atenção, à procura de sinais, ou do seu sentido mais claro. Ou simplesmente à procura de esconjuro.

Em momentos em que a nossa vida parece suspensa de qualquer coisa muito decisivo, é difícil resistir à tentação de ver em tudo um certo tom de definitivo. Acho cruel eu ter-me lembrado deste poema a propósito do momento que vivo, e apetece-me sacudi-lo da minha mente, para não azarar. Por isso a foto lá em cima serve para o contrapôr.

Mas percebo, acho eu claro, que o que me trouxe ao poema é essa carga de que se vai passar alguma coisa decisiva e de que o que for retomado depois já não vai ser, forçosamente, igual ao que era. É angustiante essa sensação, e, por outro lado, provoca-me uma necessidade de arrumar coisas, de as deixar preparadas, em ordem.

Aqui há umas semanas tive de ir buscar um velho telemóvel para desenrascar uma avaria. Entretanto arranjei um novo, e voltei a guardar o velho, desligado mas com a bateria carregada, numa gaveta do móvel da entrada. Como tinha o alarme programado, todos os dias úteis, às sete, sou despertado (apesar de na maioria dos dias já estar acordar) com o som distante do melodia simples do despertador. Hoje de manhã, mal o comecei a ouvir, pensei logo que na próxima quinta-feira ele vai tocar e não estar ninguém em casa para o ouvir. É esta sensação de ausência da minha própria vida que me angustia. E o receio de que as coisas mudem para sempre. Descubro, e sem muita surpresa devo admitir, que afinal eu gosto da minha vida. Quero-a assim tal e qual ela era até há umas semanas atrás, quando de maneira absolutamente inopinada (é sempre, não é?), descobri que se estava a passar qualquer coisa de errado.

Acho que, apesar de tudo, me tenho estado a safar sem muitos lamentos e súplicas cobardes. Mas fode-me verdadeiramente este sentimento de que eu era digno da cidade e ela não tinha o direito de desabar assim sobre a minha cabeça, deixando-me soterrado em toneladas de entulho.

fuga
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Fui ontem ao Cae na Figueira da Foz ver Fuga, uma peça de teatro (de extracção espanhola, mais uma) encenada por Fernando Gomes, com o José Pedro Gomes, a Maria Rueff e o Jorge Mourato, entre outros. Espectáculo mediano, mas com alguns bons momentos de comédia, e que proporciona duas horas e picos de divertimento escorreito. O JPG é um belíssimo actor de comédia, e ontem tinha um registo que me fez lembrar muito o Raul Solnado. A Rueff tem um talento extraordinário a criar bonecos, mas numa peça como esta perde um bocadinho da força histriónica que a distingue.
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haywire 4*
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A lista de actores é impressionante: Michael Douglas, Antonio Banderas, Michael Fassbender, Ewan McGregor, Bill Paxton, Channing Tatum. E uma única mulher, Gina Carano, que, as a matter of fact, nem é bem uma actriz, mas uma lutadora de MMA.

Penso que está dado o tom de Haywire, um filme de Steven Soderbergh (que também montou), e que é uma pequena jóia de acção concentrada e em estado puro. Soderbergh é, como se sabe, um realizador prolixo e que gosta de experimentar, não apenas géneros, mas inclusivamente universos cinematográficos diversos. E em todas essas abordagens, é sempre rigoroso, económico, e compulsivo.

O mesmo acontece neste Haywire, uma história de traição com ressonâncias políticas, mas que se esgota, num bom sentido, no exercício da acção. O enredo vai sendo revelado a conta-gotas, num feedback que é, ele próprio, uma sequência de acção. A encenação é meticulosa, a narrativa isenta de gangas ou gorduras, a tensão a de um elástico permanentemente esticado. O filme teria a ganhar se Gina Cancaro fosse mais actriz, mas percebe-se o fascínio do realizador para com aquele corpo que é uma arma de combate em constante estado de explosão.

Haywire não é um grande filme. Mas é mais uma obra consequente e eficaz de um dos melhores realizadores da actualidade, um homem sempre fascinado pelo cinema, pela sua linguagem, e que não tem receio de correr riscos.
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patrões
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Naquela empresa familiar, os trabalhadores apresentavam as suas reivindicações junto da entidade paternal.
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flor
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Referi aqui, em Janeiro, que a minha orquídea desatou a dar botões em pleno Inverno. Os botões não vingaram e acabaram por secar sem chegarem a desabrochar. Fiquei na dúvida se seria por estar claramente fora da época, ou se quereria dizer que a planta tinha atingido uma espécie de menopausa e perdido a capacidade (ou paciência, vá-se lá saber) para ter mais flores.

Entretanto o mês em que ela costumava dar flor, Abril, chegou, passou, e nada. Nasceram umas hastes, com uns botões muito raquíticos, uma coisa pouco prometedora. Mas desde há umas duas semanas, quando o sol apareceu e o calor começou a apertar, deu-lhe a genica: as hastes novas, quatro, começaram a crescer, e os botões a inchar. Ontem à noite, começou a abrir a primeira flor. E, é claro, tive de tirar umas fotos.

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the history boys
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The History Boys é uma peça de teatro da autoria de Alain Bennett, escritor e dramaturgo inglês que eu já conhecia de nome há muito tempo, e cuja obra tenho tentado conhecer nos últimos tempos. Já li dois livros seus, e agora tive oportunidade de ver a adaptação dessa peça que Nicholas Hytner fez para o cinema. Hytner foi o director da produção teatral da peça no Royal National Theatre, e o elenco do filme é precisamente o mesmo que estreou a produção no palco londrino.

Os rapazes da história (trocadilho intencional com o título do filme) são um grupo de alunos de uma escola inglesa privada, uma public school, exclusivamente masculina, que se preparam para os seus exames de acesso às grande universidades inglesas, nomeadamente ao Oxbridge. A orientação para os exames cabe a uma dupla de professores, de história e de conhecimento geral, que são apoiados por um outro professor mais jovem especialmente contratado para o efeito. O tom da narrativa repousa sobretudo na caracterização das personagens, quer dos alunos quer dos professores, mas também no relacionamento que se estabelece entre uns e outros, e, de forma particularmente acutilante, na análise do tipo de educação que as escolas devem providenciar aos estudantes: uma que alargue os horizontes e traga aos alunos o sabor da vida; ou uma educação que os prepare eficazmente para o sucesso nos estudos e nas futuras carreiras profissionais.

No entanto, o que dá um sabor especial ao filme é que tudo isto se passa num clima de uma certa subversão de costumes. Porque há professores que não se inibem de assumir perante os alunos as suas fraquezas e fragilidades, porque os alunos não se inibem de subir a parada dos jogos que estabelecem entre si e com os professores, e porque isto significa, não só mas também, que o sexo tem um papel a desempenhar.

O Alan Bennett é um escritor maravilhoso, que alia uma escrita elegante e rica, com uma visão muito particular que consegue ser, na mesma passada, muito formal e muito subversiva, insinuando o excesso e a transgressão de forma muito subtil. E se o enredo do filme, a sua realização e o trabalho dos actores seriam suficientes para o transformar numa obra muito recomendável, o que o torna excepcional é a linguagem, que é, ao fim e ao cabo, a verdadeira protagonista do filme. Um argumento cheio de referências literárias, com constantes envios para a cultura popular, nomeadamente para o teatro musicado, mas sobretudo um inglês belíssimo, muito poético e exaltante. De certo modo, a lição do filme é que não importa o que tu tens para dizer, desde que o digas bem!
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ensaio sobre a angústia
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Houve uma fase, aqui há uns anos, em que parecia que as editoras portuguesas tinham descoberto o filão da literatura de temática, ou, vá lá, de interesse homossexual. Depois lá devem ter olhado para os números das vendas e o facto é que nos anos recentes muito pouco tem sido editado, e o pouco é sobretudo na área do ensaio ou na da investigação jornalística. Esta sobretudo ligada à aprovação da lei dos casamentos para pessoas do mesmo sexo, e do debate que a precedeu, e que de vez em quando ainda recrudesce nalguns espíritos menos conformados com a danação eterna. E não acredito que não haja gente a escrever romances e outras histórias e ficções gay. Mais não seja, os autores que já publicaram obras anteriormente lá devem continuar a escrever.

É por isso que é sempre de saudar o aparecimento de um livro que coloque no centro da sua narrativa questões que tenham a ver com a condição homossexual. Que, e para despachar já a discussão, sendo condição humana, diz naturalmente respeito a todas as pessoas, da mesma forma que um romance com uma perspectiva feminina, ou judaica, ou dos habitantes do bairro de Palermo, Buenos Aires, também não pode deixar de me interessar.

Tudo isto a propósito de Ensaio Sobre a Angústia, da autoria de Joaquim Almeida Lima, editado pela Gradiva, que, apesar de não ser uma grande editora de ficção, é uma editora do mainstream, o que também não é um bom sinal. O romance conta a história de João, narrada na primeira pessoa do singular, que tem de lidar com o facto de sofrer de depressão crónica, agravada pelo processo sempre complicado de assumir, perante si e perante os outros, a sua homossexualidade.

O livro está razoavelmente bem escrito, com um bom domínio da narrativa (firme e despachada), e é uma história verdadeira, não no sentido de que tenha na sua origem acontecimentos reais, autobiográficos ou não, mas no de ser uma história que contém uma verdade sobre a vida, e que muitas pessoas se podem reflectir nessa verdade.

Só vejo duas pequenas, pequeníssimas falhas no livro, e até hesitei em as trazer para aqui porque não quero rebaixar nada o livro. Mas refiro-as apenas porque este comentário deve reflectir as impressões da minha leitura. Uma diz respeito à trama do romance, acho-a pouco intrigante, por vezes demasiado esquemática. E previsível, apesar de isto acabar por não ser propriamente uma falha: sabemos como vai acabar, e desatamos a ler depressa para ver se vai dar uma explosão bonita! E o autor tem o mérito de aguentar o suspense praticamente até à última linha.

A outra falha tem a ver com a verosimilhança cronológica. O livro é ambicioso, pretende cobrir um arco temporal demasiado alargado, e nas descrições e no contexto da história não se dá pela passagem do tempo. Ok, parece um pormenor palerma, mas como se sabe o deus das narrativas está nos pormenores (mesmo nos aparentemente palermas), e ficamos sempre com a sensação de que os trinta e poucos anos desta história decorreram em dois ou três meses.
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(no subject)
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"Na parede lateral esquerda da bexiga vemos dois espessamentos polipóides, um com 16,2 mm e outro com 7,5 mm. Sugerimos reavaliação desta alteração por cistoscopia e eventual caracterização histológica."

Ouch?
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dark shadows 4*
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Ok, eu gosto muito dos filmes do Tim Burton, e sobretudo porque os acho muito divertidos e com muita imaginação, e quer esta quer o sentido de humor ao sentido de uma certa perversãozinha, um gostinho pela maldade, que não é o mesmo que ser mau (não há crueldade nos filmes de Burton, pelo menos que me esteja a lembrar).

Isto para dizer que me diverti muito com Dark Shadows, o seu mais recente filme, que recupera uma série de TV dos anos 70. E parte do gozo do filme tem a ver precisamente com o modo como o realizador recupera um certo ambiente dos anos 70, não é bem aquela história da reconstituição da época, é mais, numa atitude muito burtoniana de resto, de recuperar um certo kitsch e usá-lo para dar densidade a um sentimento de ingenuidade que é sempre muito necessário para usufruir bem dos filmes de Burton.

Claro, que Dark Shadows não é um dos grandes filmes de Tim Burton, mas também porque um tipo não pode passar a vida a reinventar-se. Quer dizer, nós deslumbrávamo-nos quando não percebíamos bem o Burton system, e agora que achamos que já o dominamos, achamos que os filmes dele são mais do mesmo. Claro, não se pode negar que o Tim Burton atingiu um bocadinho a sua fase Disney, tipo creeps for all the family, mas o facto é que os filmes dele continuam a ser inventivos, a terem um sentido de humor muito negro, e a serem experiências visuais sempre muito estimulantes.

Ou seja, gostei.
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o índio
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Na quinta-feira à noite, no show a que assisti, Maria Bethânia disse, entre muitos poemas que eu desconhecia, um que achei lindo e poderoso, e que me agarrou de imediato. Não sabia de quem era, é claro, mas memorizei a ideia forte do poema, e na sexta-feira procurei-o na net. Quase à hora que o encontrei, soube da notícia da morte de Bernardo Sassetti, e de alguma maneira o poema ficou marcado por essa notícia tão infeliz.

Por uma série de razões, e as piores nem sequer vêm ao caso, a semana que passou foi terrível. Passei-a sempre triste, mas, pior, passei-a em sofrimento, muito angustiado, cheio de medo da vida e do futuro. Ainda hoje de manhã, acordei de madrugada e não consegui reconciliar o sono, sempre a temer o pior que pode estar para acontecer.

O poema de Reynaldo Jardim é lindíssimo, comovente, erótico e inspirador. Descobri-lo, ouvi-lo dito por Bethânia, lê-lo e aprendê-lo (e apreendê-lo), foi uma das coisas boas que me aconteceram numa semana tão triste. Aqui o convoco, ao poema e ao seu índio, para que me acompanhe e me ajude sempre na vida.



O que se odeia no índio
não é apenas o ocupado espaço.
O que se odeia no índio
é o puro animal que nele habita,
é a sua cor em bronze arquitetada.
A precisão com que a flecha voa
e abate a caça; o gesto largo
com que abraça o rio; o gosto de
afagar as penas e tecer o cocar;
O que se odeia no índio
é o andar sem ruído; a presteza
segura de cada movimento; a eugenia
nítida do corpo erguido
contra a luz do sol.
O que se odeia no índio é o sol.
A árvore se odeia no índio.
O rio se odeia no índio.
O corpo a corpo com a vida
se odeia no índio.
O que se odeia no índio
é a permanência da infância.

vidas, lugares e tempos
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Vidas, Lugares e Tempos é uma memória autobiográfica da autoria de Joaquim Chissano, herói do nacionalismo e da independência de Moçambique, primeiro-ministro do governo de transição que levou o território dos acordos de Lusaka à independência, ministro dos negócios estrangeiros do primeiro governo do país, e presidente da república desde a morte de Samora Machel, em 1986, até 2005.

Com este currículo percebe-se que o livro de Chissano teria necessariamente de ter um enfoque político. O que de facto acontece, mas, tanto quanto é possível a um leitor mais ou menos leigo avaliar, o livro não deixa de ser surpreendente, por se tratar de um esforço aparentemente honesto de escrever, e dar testemunho, de um percurso e de uma vida.

Apesar de tal não resultar inteiramente claro, este será o primeiro volume de um conjunto de 3, e como tal abrange a infância do autor, a sua juventude, e o caminho político e geográfico que o levou do bairro da Mafalala, em Maputo, até aos escritórios da Frelimo em Dar-es-Salam, para se juntar á luta armada pela libertação de Moçambique, em 1963, com passagens por Lisboa e por Paris.

Pessoalmente a parte que mais me interessou foi a da infância de Chissano, na sua terra natal Malehice, e em João Belo / Xai Xai, na província de Gaza, e a sua adolescência na cidade de Lourenço Marques, para onde foi frequentar o liceu (Salazar, de seu nome), onde reclama ter sido o primeiro aluno negro. E interessou-me não apenas pelo que transmite acerca da vivência dos negros, quer no mundo rural quer na grande cidade, durante a ocupação colonial portuguesa, mas porque essa vivência representava como que o outro lado, a negativo da fotografia, do que foi a infância e a juventude dos meus pais.

Há um trecho do livro em que Chissano descreve as fronteiras da cidade, referindo as avenidas Craveiro Lopes e Caldas Xavier como a fronteira entre a cidade branca, de cimento, e o caniço, os bairros periféricos habitados pelos negros. Pois bem, as casas onde a minha mãe viveu durante a sua infância e juventude, e aquela que foi a primeira habitação onde eu vivi, ficava precisamente na confluência dessa duas avenidas, numa zona que o próprio Chissano refere ser habitada por brancos pobres.

O que resulta daqui é que muitas dessas vidas e lugares e tempos, e histórias que Chissano conta, têm ressonância em muitos relatos que eu sempre me habitei a ouvir da minha mãe e das minhas tias: são nomes, são referências, são hábitos, são vivências do dia a dia, que eu reconheci no livro de Chissano, apesar de ter bem consciência de que, apesar de tudo, os meus familiares viviam do lado de cá da Caldas Xavier, e que entre os dois lados da avenida havia uma ponte imensa e, na maior parte das vezes, intransponível.

bernardo sassetti
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«O gajo tem ar de beto e é daqueles tipos que a falag não diz os égues, como o Mogais Sagmento. Mas senta-se ao piano, dobra-se para a frente, e transfigura-se, e o concerto foi das coisas mais lindas a que eu já assisti, lindo assim de um lirismo imenso e pungente, lindo como quando vamos de carro numa noite de Verão pela auto-estrada e temos a sensação de que a viagem se prolonga até ao infinito, até as luzes do automóvel se confundirem com as estrelas no céu, e nós já não sabemos se ainda somos o que somos por fora ou se somos já o nosso melhor sonho de nós próprios. Já o disco, Indigo, era muito bonito, mas ao vivo é uma experiência transcendente. Só gostava que os temas se prolongassem um bocadinho mais, fica a sensação de que ainda havia mais estrada para nos perdermos. Não sei se foi um dos concertos do ano, mas assistir ao Bernardo Sassetti a tocar ao vivo, em piano solo, foi uma das maiores experiências musicais do ano, sem dúvida.»

Foi isto que eu escrevi aqui, no dia 4 de Dezembro de 2004, a propósito da primeira vez que vi o Bernardo Sassetti a tocar ao vivo. Depois vi-o, que me lembre, em pelo menos três outras ocasiões: a tocar em trio, com Carlos Barreto e José Salgueiro, na apresentação ao vivo da banda sonora do filme Alice, e com Mário Laginha e Pedro Burmester, na série de concertos 3 Pianos. Todos eles concertos inesquecíveis

Sassetti foi, durante alguns anos, uma presença fulgurante na minha vida de ouvinte de música. De certo modo a sua música amadureceu a minha relação com a música jazz, porque raras vezes, até aí, eu tinha percebido tão nitidamente, e aceite de maneira tão natural, a linguagem do jazz, como se a sua música falasse comigo, fosse feita para mim. Para além dos concertos, ouvi-lhe, até ao limite da intensidade, os discos, sobretudo o Nocturno e o indigo, dois discos que eu adoro em absoluto. Comprei cd’s de outros músicos apenas porque contavam com a colaboração de Sassetti. Fui ver filmes apenas porque tinham a assinatura de Sassetti na banda sonora. E ainda o ano passado, um dos discos que mais me surpreendeu, e que mais ouvi, foi o que gravou em colaboração com o Carlos do Carmo.

Por todas estas razões, ainda estou aqui aflito, a tentar perceber algum sentido na morte absurda de Sassetti. Mas a sua perda, é claro, ultrapassa muito o choque que eu, como certamente muitos e muitos admiradores da sua música, estou a sentir. Bernardo Sassetti era um dos maiores músicos portugueses, um nome incontornável do jazz nacional, mas que não se cingia às barreiras do género. Tocava muito e com muita gente. Era, como são quase sempre os músicos de jazz, de uma generosidade sem limites, e ainda por cima de uma generosidade viva e entusiasmada. Era um compositor genial, como o atestam, por exemplo, as suas obras para o cinema, meio que o atraía especialmente. Tal como a fotografia, cujo gosto e entrega parece estar na origem do acidente que o vitimou.

Eu sei que já é um pouco um lugar comum, mas suponho que raras vezes faça tanto sentido dizer, com o poeta, que "morre jovem o que os deuses amam".
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bethânia e as palavras
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Bethânia e As Palavras, ontem, no CAE da Figueira da Foz. Ao contrário do que costuma acontecer nos shows da cantora, em que as canções têm a primazia e os textos ditos surgem como interlúdios ou sínteses, nesta leitura / apresentação, Bethânia diz, poemas mas também trechos de prosa, de autores de língua brasileira: brasileiros, portugueses, e também pelo menos um moçambicano.

Toda a apresentação (a própria cantora evita chamar-lhe show) é um encadeado de palavras, ditas ou cantadas, poemas integrais ou trechos, por vezes muito breves, que se sucedem e intercalam, uns chamando outros, referências, convocatórias, apelos, chamamentos. Alguns são reconhecíveis em Bethânia, acompanham-na desde sempre, outros são revelações (aprende-se muito neste espectáculo, só é pena o roteiro não ser distribuído pelo público, seria tão mais enriquecedor). Dois músicos, Jaime Além nos violões e Reginaldo Vargas na percussão, dão ressonância à voz.

Os temas são os de sempre em Bethânia, o sagrado e o profano, o erudito e o popular. Portugal não podia deixar de comparecer, é claro: o fado, Pessoa, Campos e Alberto Caeiro, Sophia. E José Craveirinha, com Quero Ser Tambor que nunca me soou tão certo. E que emocionante que é ouvir “o silêncio amargo da Mafalala” no palco da Figueira, dito com sotaque brasileiro.

Foi a terceira vez que vi a Bethânia ao vivo, e de todas as vezes senti que estava a participar de uma liturgia, que o palco do teatro era o altar de uma celebração misteriosa e sublime, e que alguma coisa de muito simples e essencial nos é revelado na voz da sacerdotisa.
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northsea texas
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Já conhecia o cinema de Bavo Defurne através de um dvd que comprei há uns anos atrás, através da Amazon, e que tinha creio que quatro curtas metragens, sendo que uma delas, Campfire, dava título ao conjunto. Filmes leves, com sentido de humor a servir de contra-ponto a um romantismo exacerbado, um olhar queer a insinuar-se homo-erótico, tudo isto servido com um apuro formal muito rigoroso e cromático.

Bavo evoluiu agora para a longa-metragem e realizou Northsea, Texas, uma comédia romântica, menos comédia e mais romântica, que salvaguarda o que era essencial e bom no seu cinema, nomeadamente o aprumo visual, e acrescenta-lhe arco e estofo narrativo. E este foi talvez o aspecto que mais me surpreendeu no filme, essa capacidade de segurar, e entregar, uma história, quando as curtas do realizador poderiam indicar alguma dificuldade narrativa em favor do excesso de formalismo e de intenção.

Além disso, o realizador ama as suas personagens e por isso elas parecem sempre envolvidas numa espécie de halo que as resgata de qualquer miséria, mesmo quando sofrem do mal de amar. Como nas curtas, Bavo ama a juventude como as setas amam o corpo incorrupto de São Sebastião, e isso dá tensão aos filmes e mesmo uma certa pulsão.

Claro que é pouquíssimo provável que o filme alguma vez chegue ao circuito comercial nacional (já me parece mais plausível que apareça nos circuitos dos festivais). A boa notícia é que é fácil passear pela internet e tropeçar em coisas boas.
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heróis
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Em Janeiro de 1985, na primeira avaliação que fiz após terminar os tratamentos contra o cancro, fui referenciado pelo meu médico para uma consulta num hospital neurológico em Wimbledon, no sul de Londres, porque estava a sofrer de uma perda muscular severa nas pernas, sobretudo na esquerda, que já me obrigava a utilizar uma canadiana como auxiliar de marcha. O diagnóstico foi de que se tratava de uma consequência dos tratamentos de cobalto e quimioterapia, porque havia tecidos fibrosados que provocavam compressões neurológicas, particularmente do nervo ciático. E o prognóstico não era famoso: não havia tratamento cirúrgico ou medicamentoso, provavelmente a doença iria progredir de maneira sempre mais incapacitante, e que só havia duas coisas que eu podia fazer para contrariar essa progressão, já que a recuperação era pouco provàvel: fisioterapia e natação.

Mal regressei a Coimbra, atirei-me à água, e durante praticamente dois anos, fui à piscina todos os dias. De tal modo ganhei o vício, que, com algumas interrupções pelo caminho, continuo a nadar e a ser dependente das minhas braçadas. Tive na altura um professor de natação, da geração e da criação dos meus pais, que me ajudou imenso, apesar de confessar que tinha um pouco de receio do meu mau-feitio matinal, nomeadamente do olhar zangado com que eu todas as manhãs lhe aparecia à frente.

Entretanto fui a um ginásio de fisioterapia que a minha mãe já tinha frequentado, e comecei a fazer tratamentos com um fisioterapeuta. Passadas algumas semanas, ele deixou de trabalhar nessa clínica e eu tratei de me mudar para o hospital onde ele trabalhava. Durante meses, a minha rotina era essa: acordar às sete, ir para a piscina, vir a casa mudar de roupa e comer, e ir para o hospital fazer fisioterapia. Só depois, lá para as onze, ia para a faculdade.

Foi uma guerra incrível. Quando comecei, praticamente já não conseguia fazer movimentos com a perna esquerda, que estava completamente desprovida de músculo, era literalmente só pele e osso. Já precisava de duas canadianas para poder caminhar, e estava sempre a cair, quer por falta de força quer porque fiquei com muitas dificuldades de equilíbrio. Nesta guerra, o meu fisioterapeuta foi a pessoa determinante. Todos os dias, durante meia hora ou quarenta e cinco minutos, suávamos ambos a fazer força para a perna mexer. Porque os exercícios eram de mobilização e por isso eram feitos com a sua participação.

Durante semanas e semanas o resultado foi nulo. Até que um dia ele sentiu uma certa tensão e o músculo da perna, o quadricípete, que é o músculo que faz a extensão da perna, a vibrar. Foi uma algazarra. Chamou os colegas todos para virem testar, para comprovar que o que ele estava a sentir era mesmo real. Daí para a frente, o progresso foi notável. O músculo começou a crescer, e passado pouco tempo eu estava a andar. Quando em Julho voltei ao hospital de Wimbledon, já a caminhar sem auxílios, o médico ficou espantado com a recuperação.

Continuei com a fisioterapia durante mais tempo, ao todo deve ter chegado perto dos dois anos. Mesmo depois de ter alta, que me foi dada contra a vontade do meu fisioterapeuta, continuei a encontrar-me com ele, numa clínica privada, mas a custo zero, para me ir fazendo avaliações. Mais tarde, já eu trabalhava, os nossos caminhos foram-se cruzando por razões profissionais. Há muitos anos que não nos víamos, e eu ultimamente lembrei-me muitas vezes de que devia ir falar com ele para saber a sua opinião acerca das dificuldades de marcha que voltei a sentir nos últimos tempos.

Ontem tive a notícia, brutal, da sua morte. Vítima de uma daquelas doenças súbitas e fatais que às vezes dão em pessoas que, à partida, não teriam nem a idade nem a condição física para as sofrer. Fiquei tristíssimo, com um sentimento de perda quase insuportável. Descobri que, afinal, somos praticamente da mesma idade, pois sempre achei que ele fosse razoavelmente mais velho do que eu, tal era o desequilíbrio de forças durante o tempo em que nos relacionámos, e por causa do tipo de relação que tivémos. Durante todos estes anos, e já lá vão quase trinta desde que nos conhecemos, e mesmo durante todo o tempo em que não nos vimos, o meu sentimento de reconhecimento pelo que ele fez por mim, manteve-se sempre intacto. Tal como a minha admiração. Se há heróis da vida real, o João era um dos meus. E há-de sê-lo para sempre.

le jour de gauche
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A vitória de François Hollande nas eleições presidenciais francesas de ontem significa o regresso dos socialistas ao Eliseu, desde 1995, quando Mitterrand, doente de um cancro que o vitimaria menos de um ano depois, terminou o seu segundo mandato, e Jacques Chirac ganhou as eleições a Lionel Jospin.

Claro que Hollande não vai ter um mandato fácil, e as hipóteses de fracassar não são desprezáveis, numa Europa dominada pela insanável contradição de ter se defender de um ataque implacável e mortal ao Euro, e as políticas económicas que apenas a fragilizam ainda mais face a esses ataques.

Mas temos, apesar disso, o direito a um módico de esperança de que esta vitória possa trazer um novo ciclo para a Europa. Temos, para já, ao menos, a alegria de assistir ao fim do infame Merckozy, que dominou a política europeia nos últimos anos, arrastando a sua economia para a ruína, com o sacrifício absurdo dos países, como o nosso, com economias mais frágeis e vulneráveis.

Mas o que me trouxe ao texto, mais do que o resultado das eleições, foi salientar o papel da imprensa nestas eleições. Foi extraordinário acompanhar o entusiasmo e o compromisso dos principais jornais franceses, nomeadamente do Libération, que nunca escondeu, ‘au contraire’, o seu entusiasmo pela possibilidade do regresso da esquerda ao poder em França. Ontem à noite, quando a vitória de Hollande era já uma certeza, o site do Libé titulava a notícia com a frase “le jour de gauche est arrivé”, socorrendo-se de um trocadilho com a letra do hino nacional gaulês..

Esta atitude comprometida dos jornais (o Figaro, à direita, fez campanha por Sarkozy) pode parecer-nos estranha, já que em Portugal os principais órgãos de informação juram e trejuram pela sua imparcialidade no campo do debate político, como garante das suas objectividade e seriedade. Claro que, como estamos fartos de saber no nosso país, essa pseudo imparcialidade apenas serve para dissimular o manhoso tráfico de influências entre os media e os políticos. É que se a imparcialidade parece ser um valor importante para um órgão mediático, muito mais essencial deveria ser o valor da honestidade e da frontalidade. Quem compra o Libé, sabe ao que vai. Quem compra um qualquer dos grandes jornais portugueses nunca consegue discernir bem o que é notícia do que é manobra e manipulação.
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somewhere among the clouds above
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AN IRISH AIRMAN FORESEES HIS DEATH

I know that I shall meet my fate
Somewhere among the clouds above;
Those that I fight I do not hate
Those that I guard I do not love;
My country is Kiltartan Cross,
My countrymen Kiltartan’s poor,
No likely end could bring them loss
Or leave them happier than before.
Nor law, nor duty bade me fight,
Nor public man, nor cheering crowds,
A lonely impulse of delight
Drove to this tumult in the clouds;
I balanced all, brought all to mind,
The years to come seemed waste of breath,
A waste of breath the years behind
In balance with this life, this death.


- W. B. Yeats


Já tinha posto este poema aqui no innersmile (em 19 de Agosto de 2004), mas posso repetir, não só porque it's my party (and I cry if I want to), mas também porque é um dos meus poemas favoritos. E ainda porque me lembrei logo dele quando vi estas imagens de um avião a fazer acrobacias nos céus de Coimbra, que fiz, a partir da minha varanda, aqui há umas semanas, num any given sunday (ou seria saturday?), quando serviu para entreter as multidões que esperavam o início de um desafio de futebol.

Estas imagens, e o lonely impulse of delight, servem também para assinalar a chegada a este mundo, precisamente hoje, de alguém que, pela inevitável lei das coisas, me é muito próximo. Sangue do meu sangue, é fácil. Amor do meu amor, é o que vamos ver se a vida nos dá, a ela e a mim.

eu vivo sempre no mundo da lua
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Claro que fui ali à varanda tirar umas fotos à Lua, nesta noite em que a fase de lua cheia coincide com o perigeu, o ponto orbital em que o satélite fica mais próximo da Terra: a 356.955 km do nosso planeta, enquanto a sua média normalmente é cerca de 384.000 km. Por isso, e segundo a Nasa, está 14% maior e 30% mais brilhante do que o habitual. Infelizmente o céu está muito nublado, e não consegui ver Saturno, que também tem estado visível a olho nú.

Depois das fotos lembrei-me e fui buscar os meus 'powerful binoculars' (cortesia da Allô Allô, e da Michelle de la Resistance, se não estou em erro), e, bem, que deslumbre!, consegui ver aquele disco de um brilho muito intenso, quase como se estivesse ao alcance das mãos, com as marcas da superfície lunar muito visíveis e nítidas. Se não fosse uma núvem um bocado mais carregada, acho que ainda chegava a ver os restos dos módulos lunares das Apollos e a bandeirinha que os americanos lá deixaram.

Lembro-me sempre desta canção a propósito da lua. Se calhar já a pus aqui, mas assim como assim, e se for esse o caso, cá fica ela outra vez.



Eu vivo sempre
No mundo da lua
Porque sou um cientista
O meu papo é futurista
É lunático...

Eu vivo sempre
No mundo da lua
Tenho alma de artista
Sou um gênio sonhador
E romântico...

Eu vivo sempre
No mundo da lua
Porque sou aventureiro
Desde o meu primeiro passo
Pro infinito...

Eu vivo sempre
No mundo da lua
Porque sou inteligente
Se você quer vir com a gente
Venha que será um barato...

Pegar carona
Nessa cauda de cometa
Ver a Via Láctea
Estrada tão bonita
Brincar de esconde-esconde
Numa nebulosa
Voltar prá casa
Nosso lindo balão azul.



edit: stupid me!, não era nada a Michelle de la Resistance! Agora ao reler isto, de repente lembrei-me de que era o Herr Flick (Herr Otto Flick de seu nome completo), que sempre falava nos "My powerful Gestapo binoculars".

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