as mil e uma noites, vol 1: o inquieto
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Tive em relação à primeira parte, o Inquieto, do filme As Mil e Uma Noites, a mesma impressão de que tinha tido em relação a Tabu, o anterior filme de Miguel Gomes: a de que o filme tinha tudo para ser um barrete, com a palavra desastre escrita em letras garrafais, mas depois o resultado final é absolutamente brilhante e irresistível.

Correndo o país, ao longo de um ano, atrás de histórias que de algum modo reflectissem os tempos de crise que temos atravessado, o filme vai buscar às 1001 Noites a sua estrutura mas sobretudo o seu drive: a noção de que há histórias que pedem para ser contadas e que são elas que nos salvam.

O que é admirável é que filmando os estaleiros de Viana e os seus trabalhadores ou as aventuras de um galo condenado à morte por cantar a desoras, Miguel Gomes não apenas destapa a vontade de ficção das histórias que compõem o filme, sejam elas reais ou fantasiadas, mas consegue, como já fazia em Tabu, sobretudo na segunda parte, dar-lhes um tom encantatório, construindo relatos que nos prendem e nos fazem sempre pedir mais (daí a justeza do título).
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gente melancolicamente louca, por fim
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Conheci a prosa de Teresa Veiga através de um conto incluído numa das edições da revista Granta, e fiquei, é claro, com imensa vontade de ler mais. Esse conto reaparece agora nesta colecção de onze magníficas histórias, todas elas sempre um pouco perturbadoras (eventualmente mesmo perturbadas elas próprias, ou pelo menos os seus, ou melhor as suas protagonistas).

Os contos são intensos, densos, com uma pontinha de mistério e outra de perversidade, e um humor por vezes irónico, por vezes sarcástico, por vezes mesmo cruel. É engraçado, porque normalmente apaixono-me por histórias que são generosas e inspiram ternura em relação às suas personagens, mas aqui estamos, no mínimo, um pouco distantes desse modelo. Teresa Veiga não poupa as suas personagens: as masculinas não têm fulgor, as femininas são quase sempre vítimas do seu próprio veneno, mesmo quando aparentam estar em pleno controlo das suas vidas.

Para além do insight em relação aos lados sombrios da natureza humana, o que mais fascina nos contos de Teresa Veiga é a excelência da escrita: precisa, depurada, seca. Por vezes é um pouco gótica, sobretudo em termos atmosféricos, porém nunca desliza para os excessos próprios do género.



Tenho de confessar que o meu interesse pela saga de Patrick Melrose foi diminuindo à medida que ia avançando pelos romances de Edward St Aubyn. Gostei muito dos dois primeiros, um pouco menos de dois seguintes; em relação a este Por Fim, o último volume da série, custou-me muito progredir na leitura e fi-lo muito em diagonal. Pode ser que noutra oportunidade o livro me calhe melhor.

missão impossível, kilas
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Retomei as actividades cinéfilas pós-férias (como se alguma vez as tivesse interrompido) com dois filmes.

Nos cinemas, a última aventura da Missão Impossível: Rogue Nation é o título deste quinto filme da série, realizado por Christopher McQuarrie (o primeiro foi já há quase vinte anos, realizado pelo Brian de Palma), e traz de volta o team habitual, capitaneado por Ethan Hunt, naquele que é um dos melhores e mais conseguidos, com um cheirinho a eficácia série B, e uma perseguição de moto verdadeiramente alucinante.
A principal dificuldade do filme, na minha opinião, é o próprio Tom Cruise, que também produziu o filme, e cuja idade começa a dar um ar demasiado desgastado ao lado sombrio de Hunt. O melhor do filme é, como sempre, o tema da Lalo Schifrin, que tem esse condão de pegar em nós e nos colocar no centro da acção.

O cineclube decidiu encerrar o ciclo de filmes clássicos que programou para as sessões ao ar livre durante o mês de Agosto, com a exibição de um verdadeiro clássico do cinema português, o célebre Kilas, O Mau da Fita, que eu vi no cinema na altura da estreia, e que continua a ser um filme delicioso.

Muito por responsabilidade da música de Sérgio Godinho que é usada, com grande eficácia, por José Fonseca e Costa, o realizador, como verdadeiro elemento narrativo. Muito, muitíssimo, por obra do desempenho irrepreensível do Mário Viegas, perfeito em cada frame; e, para usar a linguagem antiga dos teatros, à frente de um grande elenco onde impera a classe voluptuosa da Lia Gama, uma Pepsi-Rita inesquecível.

Mas muito, também, por responsabilidade de um argumento muito bem escrito, cheio de humor e simpatia, que consegue equilibrar rigorosamente uma história do bas-fond lisboeta e dos seus figurões menores, outra da voragem política de que à época do filme se vivia a ressaca, e uma outra de homenagem ao cinema: ao clássico policial negro, em primeiro lugar, mas de facto a todo o cinema, de Chaplin a Bruce Lee, de Rita Hayworth a Hermínia Silva, sempre obsessivamente invocado ou mesmo citado em cada cena e em cada plano.

Eu gosto muito das chamadas comédias de ouro do cinema português, dos filmes do Vasco Santana e do António Silva, de que agora pelos vistos vai estar na moda fazer remakes. Gosto mesmo, palavra, sei de cor trechos de diálogos e acho-as muito divertidas. Mas para falar com franqueza, prefiro de longe identificar-me com um cinema que, quando pretende invocar uma comédia classica do cinema português, se lembra deste Kilas de Fonseca e Costa e de Mário Viegas.
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luso pop
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Para assinalar condignamente o último dia de férias, às nove e meia da manhã já estava despachado da inspecção obrigatória ao automóvel (é oficial: o meu carro é velho), e aguardava a minha vez na fila da caixa do intermarché, onde tinha ido comprar alguns produtos de higiene pessoal para levar à clínica onde está o meu pai.

A senhora à minha frente estava a ver os cd’s num escaparate junto à caixa e eu, por reflexo, também olhei. Chamou-me a atenção uma capa fantástica, a ironizar com o célebre disco da banana dos Velvet Underground and Nico, cuja capa foi desenhada pelo Andy Warhol, com um bacalhau amarelo e, usando o mesmo tipo de letra, o título Luso Pop.

Olhei para a lista das 18 canções, a maior parte grandes êxitos dos anos 80, primeira metade. Para além de nomes seguros como os Heróis do Mar, os Rádio Macau ou os GNR, outras pérolas da época, como a Concha, as Doce ou a Anamar, ou ainda o Carlos Paião, o Variações, o José Cid ou a própria Amália. Ao preço de seis euros, claro que comprei o disco.

Prevalecem no alinhamento da antologia dois grandes ‘troncos’ da pop tuga. Por um lado, temas da dupla António Pinho / Nuno Rodrigues, que nos intervalos da música que faziam para a Banda do Casaco, escreviam canções pop irresistíveis, tanto nas melodias como nos arranjos como sobretudo nas letras. O outro tronco foi o da Fundação Atlântico, com temas de Miguel Esteves Cardoso, Ricardo Camacho ou Pedro Ayres Magalhães.

A compilação é da autoria de Rodrigo Affreixo, que escreve o texto de apresentação, e o grafismo genial de Hugo Piteira. O que é quase uma epifania é um tipo de repente constatar que por entre nomes de ’enésima’ linha da pop portuguesa, estão aqui alguns exemplos do que poderá ter sido uma das fases mais criativas da música popular portuguesa. Não sei se a música pop que se fez em Portugal nesta época foi influente ao ponto de se poder dizer que mudou o panorama musical nacional; mas seguramente que não houve muitos mais tempos em que se tenham feito canções tão divertidas e entusiasmantes.


só se morre uma vez. fantasma
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Manhãs de praia, tardes de piscina, serões no bar do hotel. Ou seja, horas e horas de leitura.



Li em primeiro lugar Só Se Morre Uma Vez, o segundo volume do diário de Rita Ferro. Já tinha lido, na altura em que foi editado, o primeiro volume, Veneza Pode Esperar, sobre o qual escrevi aqui o seguinte:

“RF conseguiu uma coisa admirável que foi encontrar, na escrita de um diário que se sabe à partida que é para publicação, o ponto exacto entre o confessionalismo (sem nunca tropeçar no intimismo ou no gossip, mas também não os desprezando completamente) e o carácter reflexivo e um pouco mais distante e analítico sobre a condição humana. Para mais, Rita Ferro escreve bem, de maneira elegante, e com humor. Sabe compor a sua própria personagem em doses homeopáticas de ego e auto-depreciação, mas sem nunca correr o risco da auto-complacência ou do cinismo. É feminina e feminista; nunca santa ou predadora. Defende as jóias da família, mesmo quando tem de as vender, e a exacta consciência de classe livra-a de frivolidades e de frioleiras. Deu a impressão de que este livro foi uma prenda, e uma prenda de amor. E isso só o engrandece.”

Mutatis mutandis como se dizia nos direitos, ou seja, isto vale igualmente para este segundo volume do diário, e isto não é uma crítica; pelo contrário, é um reencontro.



Li igualmente Fantasma, de Luís Alfredo Garcia-Roza. Mais uma aventura do Delegado Espinosa nas ruas de Copacabana, desta vez envolvendo uma Princesa intrigante. Muito atmosférico, como os anteriores volumes da série, mas mais concentrado na intriga e nas suas peripécias.

polvoeira
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De regresso a casa, depois de uns dias de férias, junto ao mar. Óptimos. Fiquei instalado num dos meus hotéis preferidos, em Monte Real. Foi a quarta vez que lá fiquei instalado, e todas as anteriores tinha sido, primeiro, com os meus pais, e depois só com a minha mãe.

Claro, lembrei-me muito dela, estava presente nos gestos, nos hábitos, nas rotinas. Recordava sobretudo o quanto ela gostava de ali estar, de quanto apreciava o próprio hotel, as instalações, a decoração simples e requintada, o pessoal muito simpático. E por isso estes dias souberam-me bem duas vezes: pelo prazer de ali estar, e também pela lembrança do prazer que ela sentia.

Aproveitei as manhãs para fazer praia em São Pedro de Moel, que continua a ser um lugar onde me sinto muito bem. Já conhecia a praia da Polvoeira, e sempre senti vontade de lá fazer praia, o que nunca tinha acontecido. Desta vez vinguei-me, três belas manhãs numa praia imensa, quase deserta. Na manhã em que fiz praia em São Pedro, estava céu aberto e sol na zona em frente às piscinas, e um nevoeiro cerrado junto à falésia. Os almoços a seguir à praia, tardios, foram quase todos numa esplanada no meio do pinhal, uma frescura. E os finais de tarde já de volta ao hotel, junto à piscina.

Se juntar a isto tudo dois belos livros e a companhia da amizade, foram uns dias de férias perfeitos.

home alone
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Vou passar uns dias de férias fora de casa, junto de uma das minhas piscinas preferidas e muito perto de uma das minhas praias predilectas. Um sítio ao qual me ligam recordações muito fortes, e por isso estes dias também vão ser um teste.

Pela primeira vez, saio e deixo o gato em casa. Home alone. Agora que já tem um ano, prefiro deixá-lo em casa do que o levar para um gatil, onde, receio, ia-se sentir mais infeliz e ainda apanhava uma camada de pulgas. Também vai ser um teste. Não sei o que me custa mais: saber que vai passar muitas horas sozinho, sobretudo durante as noites, uma vez que as passa sempre junto a mim; ou a preocupação pelo nível de destruição que vou encontrar no regresso.
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perversões
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Não costumo ler ensaios sobre temas ligados à sexualidade, mas uma curta nota de Eduardo Pitta no seu blog e os escritos e crónicas que li na net do seu autor, trouxeram-me à leitura de Perversões, de Jesse Bering, escritor e professor de psicologia.

O livro é uma actualização sobre o estado actual dos estudos científicos sobre as parafilias, e uma enorme e muito divertida provocação ao modo como lidamos com as perversões sexuais, que em termos de atitude quer de comportamento, quer do ponto de vista da moral, em particular da religiosa, quer do da justiça.

Jesse Bering consegue contestar preconceitos e abalar convicções, e fá-lo (trocadilho intencional) com um sentido de humor notável. O facto de ser homossexual assumido dá-lhe uma perspectiva muito particular, uma vez que até há relativamente pouco tempo a homossexualidade era considerada uma perversão, e, do ponto de vista cultural e das mentalidades, ainda o é por uma gente.

O livro é tão desafiador, tão eficaz em nos tirar de debaixo dos pés o tapete da zona de conforto, que há passagens que chegam a ser inquietantes; de facto é preciso uma dose de coragem, e sobretudo uma convicção muito fundamentada naquilo que se diz, para, por exemplo, desconstruir uma série de mitos que as sociedades contemporâneas têm em relação à pedofilia.

O único senão do livro é a sua tradução. Por vezes muito agarrada ao inglês original, faz-nos andar atrás da frase para lhe conseguir entender o sentido; outras vezes, são mesmo erros gramaticais, de sintaxe ou de concordância, por exemplo, que fazem a leitura tropeçar. É uma pena, porque a tradução verdadeiramente perturba a compreensão do livro e sobretudo a sua fruição.

abraços
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Irritam-me as frases feitas. Claro que já todos as usámos, e por vezes não há melhor maneira de falar num determinado assunto do que recorrer a um lugar comum ou a um cliché. Mas irritam-me aquelas frases que estão na moda, que ouvimos constantemente a serem repetidas, aquelas que as pessoas usam porque lhes soa bem, porque querem usar palavras que lhes parece terem uma certa ressonância solene, mas que verdadeiramente papagueiam sem atentar sequer no seu significado.

Uma das expressões que agora estão na moda, sobretudo em contextos profissionais, é “abraçar um projecto”. Que nervos, que prurido! Como o meu trabalho tem sido, nos últimos anos, muito ligado à área dos recursos humanos, é inacreditável a quantidade de vezes que ouço pessoas dizerem-me que decidiram “abraçar o projecto”. Apetece-me logo perguntar-lhes a razão pela qual, se abraçaram o projecto, porque raio também não o beijaram?!

Ainda um dia destes estava a fazer entrevistas de selecção e lá aparece um cavalheiro (o único homem num grupo de vinte candidatos), todo assertivo e com um discurso muito organizado e ensaiado, que às tantas, justifica uma determinada decisão profissional porque lhe fizeram um convite e ele decidiu abraçar o projecto.

Por pouco não rebentei à gargalhada; é que nessa mesma manhã tinha ouvido no rádio uma série de entrevistas a pessoal que tinha ido mais cedo para Paredes de Coura para aproveitar as condições da zona e fazer uns dias de férias de campismo antes do festival, que julgo ser este fim de semana. E então lá se ouve um entrevistado, com sotaque nortenho, a dizer que era a primeira vez que ali estava, que nunca tinha ido a Paredes de Coura, mas que os colegas o tinham convidado e ele decidiu abraçar o projecto!

sonhos
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A noite passada sonhei com as minhas férias. Com as próximas. No início era tudo muito colado à realidade: eu saía de carro, de Coimbra, com destino ao sítio para onde conto mesmo ir no próximo fim de semana. Ia acompanhado, não me lembro com quem, mas por poucas pessoas, pois cabíamos todos num automóvel ligeiro, não sei se o meu. Quando já estávamos quase a chegar ao destino, que é relativamente perto de casa, uma hora e pouco de caminho, parei no que parecia ser uma área de serviço, mas que tinha um jardim, ou um parque, nas traseiras. Mesmo antes de chegar a esse sítio eu lembrei-me de que me tinha esquecido de trazer os livros que contava ler nas férias e que eram precisamente aqueles que eu conto levar comigo. Entretanto, um colega meu, por quem eu tenho um fraquinho, e que até aí eu nem sabia que ia connosco, quis ir visitar uma coisa qualquer que ficava também por ali, e para onde se entrava por uma escadaria que descia à esquerda do edifício, e pela qual ele tinha um interesse profissional. Eu fiquei um pouco contrariado, porque nessa altura só me apetecia voltar para trás para ir buscar os livros de que me tinha esquecido, mas como eu tenho de facto essa secreta predilecção pelo meu colega, não fui capaz de o contrariar. Nesse momento o tempo do sonho dilatou-se e já era quase de noite, tinham passado pelo menos duas horas, e as pessoas que tinham ido com o meu colega não havia maneira de regressarem. E eu sempre com a preocupação compulsiva dos livros esquecidos, uma vez que era cada vez mais difícil voltar atrás para os ir buscar, porque já estava a ficar tarde e também porque durante o tempo em que estivemos parados, aquele lugar ia ficando mais longe de casa e o regresso já era impraticável. Lembro-me de, lá pelo meio, ter pensado que não fazia mal, ia resolver o meu problema com o kindle, mas depois, claro, cheguei à conclusão de que também tinha deixado o kindle em casa e por isso o problema continuava a ser o esquecimento dos livros e o que é que eu ia fazer em relação ao problema da leitura durante as férias. Nesse momento, já havia um grupo de companheiros de viagem comigo, já estávamos junto a um autocarro que nos transportava, mas ainda faltava gente e por isso não podíamos partir. Tenho a impressão de que nesta fase os meus pais já estavam comigo.

Quando, horas depois de ter acordado, recordei o sonho, com todos estes pormenores, achei que sou mesmo um palerma, um tipo sem qualquer tipo de ambição ou desmesura: ninguém faz do esquecimento de livros para levar nas férias o tema de um sonho obsessivo. Mas depois, é claro, lembrei-me da minha própria teoria, de que nós não sonhamos com acontecimentos, em particular os da nossa vida, e apesar das peripécias mais ou menos absurdas que acontecem nos sonhos. Nós sonhamos, sim, com emoções; os sonhos são a forma do nosso subconsciente processar as nossas emoções, de as perceber e dar sentido, de as tentar integrar de forma o mais saudável possível na nossa estrutura psíquica, sobretudo aquelas muito elementares, comuns a todas as pessoas, e que marcam no essencial a nossa mais íntima relação com a vida e o mundo exterior. Visto a esta luz então o sonho faz todo o sentido.

bigger than life
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Bigger Than Life, de Nicholas Ray, foi o filme desta semana na sessão ao ar livre do cineclube. Melodrama poderoso, faz parte de uma série de três filmes geniais que Ray realizou nos anos 50, sendo os outros dois bastante mais conhecidos: Johnny Guitar e Rebel Without a Clause, o filme que criou para o cinema a figura do adolescente problemático e de caminho transformou James Dean num mito.

Claro que o cinema de Ray não se esgotava nas regras do género, e Bigger Than Life aborda assuntos no mínimo delicados, para não dizer mesmo controversos, para a América dos anos 50: o esvaziamento da imagem sólida da família assente no domínio do patriarcado, os efeitos desconhecidos e potencialmente perigosos dos novos medicamentos e dos milagres da medicina, enfim, o predomínio da psicose e da deriva demencial na everyday life.

Mas o que fica verdadeiramente, mais do que a história e os seus assuntos, é o próprio cinema, a arte de contar histórias por imagens, e algumas características que Bigger Than Life partilha com os outros filmes referidos: o cinemascope glorioso, o technicolor que torna as cores fortes e intensas, os encarnados vivos a lembrar que o sangue que nos alimenta também nos devora, os planos que transformam as personagens e as suas sombras verdadeiramente maiores do que a vida.

E uma direcção de actores de cortar a respiração, trazendo-os sempre para o fio da navalha. James Mason, que produziu o filme e participou na escrita do argumento, é preciso como uma lâmina, e a sua passagem da bonomia para a malvadez psicótica tão inequívoca mas subtil que nunca conseguimos decidir qual das duas facetas, a boa ou a má, é a mais fascinante.
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amor entre samurais
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A Index ebooks acaba de fazer mais uma edição histórica, com a publicação de Amor Entre Samurais, da autoria de Ihara Saikaku, poeta e prosador do século XVII, notável autor de haikus, essa peça da poesia tradicional japonesa marcada pelo poder de concisão e enorme capacidade evocativa.

Trata-se de um conjunto de treze narrativas curtas, que a Index traduziu a partir da edição inglesa da obra Comrade Loves of the Samurai: And Songs of the Geisha, e que, como o título deixa adivinhar, contam histórias de amor entre os guerreiros samurai, normalmente de natureza pederasta, ou seja entre um samurai mais velho, ou um senhor, um xugum, ou mesmo um sacerdote, e guerreiros mais jovens, ainda efebos, cuja extrema beleza é irresistível.

Se não fosse, esta ousadia, já de si suficiente para nos prender a atenção, os contos de Saikaku fazem-nos emergir no espírito e na prática do feudalismo japonês, que dá contexto, e sobretudo intenção e razão de ser, a estas narrativas. De facto, sob a aparência de simples histórias de amor, do que se trata, na realidade, é de breves explicitações do espírito e da prática dos samurai, dos seus rígidos códigos de conduta, onde o valor da honra é o mais importante e enaltecido, tal como o da pertença, próprio dos regimes feudais.

Os tradutores, e editores, desta obra são meus amigos, mas isso não pode dar pretexto a não realçar aqui a extraordinária tradução desta obra, fiel à sua essência, e que consegue dar a este conjunto de textos uma verdadeira voz narrativa, feita de um grande rigor linguístico, mas sobretudo de uma espantosa beleza.

doce de tomate
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No fim de semana passado reeditei um hábito antigo, mas há alguns anos posto de lado, de me encontrar com a M. pra irmos ver filmes de carreirinha. Ontem fui passar o domingo a uma aldeia ali perto de Tondela para me encontrar com uma das minhas mais queridas amigas de Londres, que ali está a passar férias.

Há muitos anos que não nos encontrávamos. Alguns mal-entendidos e depois os desencontros da vida assim o ditaram. Vivi com esta amiga uma das aventuras da minha vida, a da minha estadia em Londres para fazer tratamentos contra o cancro, há 30 anos. Foi ela quem primeiro me acompanhou, no início da minha estadia, e foi sempre um dos nossos maiores apoios, meu e da minha mãe. E de certo modo foi a morte da minha mãe que tornou obrigatório, e até inevitável e urgente, este reencontro. E também a minha maior disponibilidade actual para estar com os outros, depois de muito tempo ocupado e apenas concentrado nos problemas familiares.

Foi um dia bem passado, com um rico almoço (frango, de casa, guisado com ervilhas, tão boas), conversas à esplanada com amigos velhos e novos, e ainda trouxe, de regalo, um frasquinho de doce de tomate que está uma maravilha, e que já comi ao pequeno-almoço, com as torradas.

a flor da juventude
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"A cada ano, as árvores cobrem-se de flores, tal como em todos os anos anteriores; mas os homens não conseguem perpetuar a flor da sua juventude. A beleza dos rapazes desvanecerá logo que cheguem à idade adulta e lhes cortem as mechas de cabelo da fronte e os vistam com roupas de mangas curtas. O amor dos rapazes não é mais, portanto, que um sonho passageiro."

- Ihara Saikaku, AMOR ENTRE SAMURAIS (Index ebooks; tradução de João Máximo, Luís Chainho e Patrícia Relvas)

um eléctrico chamado desejo
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Ver o Stanley Kowalsky no grande écran é outra coisa, ainda que o écran seja uma das paredes do museu do mosteiro de santa clara. A Street Car Named Desire foi o filme desta semana no cineclube (é fantástico, estamos em agosto e as sessões continuam cheias de público), num ciclo dedicado aos clássicos.

Sou um fã devoto do filme de Elia Kazan (tal como sou da peça de Tennessee Williams, aliás de todas as suas peças), que já tinha visto muitas vezes, mas foi a primeira vez naquilo que se pode chamar uma verdadeira sessão de cinema, ou seja sem ser na tv ou no computador, numa plateia pública, às escuras. E tudo parece ainda maior e mais intenso. E é tão bom rever as cenas icónicas do filme, a tragédia daqueles anjos em queda parece que fica ainda mais em evidência; e ver como Kazan mantém a tensão, e até o ritmo, do teatro.

Vivien Leigh e Marlon Brando são dois animais em fúria, e feridos de morte. Sempre que vemos o Brando num filme, e sobretudo neste, parece quase impossível como se pode ser tão belo e tão bom actor. Mas este visionamento permite confirmar que Blanche é a verdadeira personagem desta história, é nela que Tennessee Williams se projecta, na sua fragilidade que resulta de uma impossibilidade de lidar com as coisas do mundo, com o tráfego abrasivo que é o mundo dos outros.

happy catday
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A data a assinalar é no início de setembro, dia 5 se não estou em erro. Foi apanhado em meados de agosto, esteve três semanas em casa da vet até desmamar e veio cá para a casa com cerca de 5 semanas. Mas o registo oficial marca o dia primeiro de agosto como o dia do nascimento. Por isso, na manhã de sábado passado, ainda na cama, tirámos uma selfie e depois tirei-lhe uma foto-bibelot.
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o evangelho segundo jesus cristo
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Cumprido o projecto de ler um livro de Saramago por ano, desta vez o polémico Evangelho Segundo Jesus Cristo. Não foi o meu livro preferido de Saramago, mas é um livro poderosíssimo, e percebo bem o incómodo da igreja católica, e dos círculos mais conservadores a ela ligados, com esta obra. E não é tanto, parece-me, pelas acusações contidas no romance à violência a que a igreja católica recorreu ao longo da sua história, ou pelos aspectos mais caricaturais do romance, como a relação matrimonial, e carnal, entre Jesus e Maria Madalena.

O romance é muito mais subversivo do que isso - cria um deus à semelhança do pior que o homem tem, caprichoso e vingativo; e cria um homem que se agiganta quando, na hora da sua morte, se rebela, preferindo morrer como rei dos homens do que como filho de deus.

Como acontece sempre, o melhor dos livros de Saramago é o seu narrador, e mais uma vez isso acontece neste livro tão sério, onde o humor e a ironia do autor não deixam de estar presentes (por exemplo, opondo o deserto ao jardim de São Pedro de Alcântara por, ao contrário deste, não ter bancos para as pessoas se sentarem…).

regresso a casa + amy
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No sábado, matei saudades dos encontros de antigamente com a minha amiga Manela; fui ter com ela, almoçámos com a mãe, perto de casa delas, e depois rumámos ao Arrábida para ver filmes! 2-filmes-2, e ambos excelentes, muita conversa pelo meio das sessões, um jantarinho leve para não atrasar muito a segunda sessão.

Primeiro vimos Regresso a Casa, do realizador chinês Zhang Ymou, uma história de amor e dissipação no cenário da grande revolução cultural, com que Mao virou a vida dos chineses entre as décadas de 60 e 70. Afastados por razões políticas, um casal volta a encontrar-se na reconciliação que se seguiu ao fim da revolução cultural. Com uma nota amarga: a mulher, abalada pelo desgosto, tinha ficado amnésica, esquecendo-se por completo do rosto, e da pessoa, do seu marido. Ao longo do filme vamos assistindo às tentativas que o marido faz para tentar resgatar a memória da mulher, conseguindo a sua reconciliação com a filha, uma antiga aspirante a bailarina que, para conseguir o papel de protagonista de uma peça revolucionária, denunciara o pai quando este fizera uma tentativa de se encontrar com a mãe, da qual resultou a sua prisão e degredo.

O filme repousa por inteiro na interpretação da extraordinária actriz Gong Li, um dos nomes maiores do cinema chinês, e presença assídua dos filmes de ZY. A narrativa do filme é um prodígio de informação e construção dramática, e, nunca perdendo o foco nos três protagonistas e no seu drama familiar, o realizador está-nos sempre a remeter para as ruas da cidade, para o movimento das massas; e é neste equilíbrio entre o intimismo do melodrama e o fresco do filme histórico que se jogam as imagens sumptuosas do filme, os seus planos irrepreensíveis no aspecto formal, e um jogo cromático que, enchendo o olho, vai ser tomando a temperatura ao desenvolvimento da acção. Grande cinema, em suma.

O outro filme visto foi Amy, o também ele extraordinário documentário que Asif Kapadia construiu para nos devolver, com um retrato que procura captar o seu tumulto interior, a glória e a tragédia que Amy Winehouse viveu ao longo dos 10 anos em que decorreu a sua carreira de música de génio, como cantora, instrumentista e autora de canções, e de estrela pop em queda desamparada.

É impossível não sermos tocados pelo infelicidade que foi a vida de Amy a partir do momento em que ela perde completamente o pé e o controlo do seu destino, e até à sua morte, que não conseguimos deixar de sentir como sendo a de alguém que se atira com toda a força de encontro a um muro; como não podemos deixar de nos sentir exultantes perante o seu génio e a sua voz, pelo seu domínio natural e espontâneo, quer do sentido musical do jazz quer da intensidade da soul.

Sem as habituais ‘cabeças falantes’ (substituídos por comentários em off), repousando inteiramente em imagens privadas e públicas de Amy Winehouse, o filme tem, na minha opinião, duas pequenas falhas. Uma que o simplifica, ao apontar de forma inequívoca o dedo às pessoas que ele considera ser as responsáveis pela tragédia de Amy (ainda que o sejam). Outra que o fragiliza, porque ficamos sempre a sentir que, de alguma maneira, a figura e até as palavras de Amy ganham em protagonismo à sua música e ao seu canto.
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uccellacci e uccellini
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Tenho a ideia de já ter escrito, e posto aqui, sobre Uccellacci e Uccellini (em português Passarinhos e Passarões), um filme de Pier Paolo Pasolini, que vi uma destas semanas nas sessões ao ar livre do cineclube. Tenho quase a certeza de ter escrito o texto, mas provavelmente apaguei-o sem querer, pois não o encontro, nem aqui, nem nos sítios onde vou escrevendo.

O filme é de 1966 e isso nota-se, pois já não se fazem filmes assim, com forte consciência social e política, mas de vocação popular, poéticos e subversivos, perpassados por uma ironia que os torna simultaneamente implacáveis e frágeis. E que sejam capazes de misturar a poesia de Totò e um olhar languido sobre o corpo e a face de Ninetto Davoli (que ao tempo era amante de Pasolini, e com quem ainda rodaria quase todos os filmes do realizador), o misticismo bucólico e um grupo de rapazes a dançar música pop, engates a uma prostituta de rua (partilhada por pai e filho) e cenas reais do funeral de um militante comunista.

A ousadia de Pasolini, de resto, está desde logo expressa no genérico inicial: Domenico Modugno canta, com música de Ennio Morricone, o genérico inicial; e no facto do filme ser narrado por um corvo, politizado e tão sério, que enfada os personagens ao ponto de eles decidirem jantá-lo.
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14
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O innersmile faz hoje 14 anos.

Por um lado não tenho muito mais a acrescentar ao que aqui escrevi, a este propósito, noutros anos, e sobretudo àquilo que escrevi, há umas semanas, sobre um certo cansaço que por vezes sinto em relação a este formato, agravado por se tratar de um exercício cada vez mais solitário. Mas quanto a este ponto, nem vale a pena estar a bater mais no ceguinho, é mesmo assim.

Mas por outro continua a dar-me um imenso prazer escrever, e, como também já mencionei, escrever aqui já faz parte da minha relação com o mundo; este diário online é uma espécie de portal que me ajuda a perceber o mundo e a vida (ou mesmo que me ajuda a não perceber...) e de certo modo a devolver aquilo que processo.

Este último ano foi muito difícil, dos mais difíceis e dolorosos da minha vida (só ao nível de 1983 e 1984, os anos que vivi sob o signo do cancer!) Por isso o innersmile talvez nunca tenha sido tão confessional e íntimo como nestes últimos meses. Não é coisa que me agrade inteiramente, mas provavelmente o facto de haver cada vez menos pessoas a lê-lo tenha também contribuído para um certo exercício de exposição. Hoje em dia as coisas estão melhores, ou o equilíbrio é outro, e se por um lado já não há razão para tanto confessionalismo, por outro ficou o hábito de vir aqui reflectir, não só sobre o que se passa à minha volta, mas também sobre o que se passa cá dentro.

Um relatório e contas de uma empresa ou organização, sendo um balanço do que ficou para trás, é sempre, de certa maneira, igualmente uma ponte para o futuro, uma perspectiva de evolução. E é engraçado porque acho que nunca fiz aqui profissões de fé, nunca disse ‘a partir de agora isto vai ser assim ou assado’. Porque sendo um exercício muito colado à mão é necessariamente o reflexo dos movimentos dessa mão. Regista os sítios por onde andou; mas nunca sabe muito bem os lugares para onde vai.

gisela joão
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O melhor do fim de semana passado foi o concerto da Gisela João, no sábado à noite, no auditório ao ar livre da Quinta das Lágrimas. A Gisela parece uma miúda (ok, é uma miúda), de saia curta e sapatilhas, sempre aos pulinhos e a dançar pelo palco. Mas tem aquele vozeirão e uma maneira de o usar para exprimir emoções, contida e ao mesmo tempo exuberante, que nos transmite gravidade e respeito. E depois tem ainda um cuidado extremo com a dicção que nos possibilita perceber todas e cada uma das palavrinhas dos poemas e das letras que canta. Foi acompanhada por Ricardo Parreira, na guitarra portuguesa, Nelson Aleixo, na viola clássica e Francisco Gaspar, no baixo acústico.

Apesar de ter sido um belo concerto, não gosto muito dos espectáculos na Quinta das Lágrimas, sobretudo estes concertos que dependem muito da cumplicidade entre artista e público. Apesar do enquadramento de luxo (a noite, as estrelas, a lua, a água, as árvores, o ruído da cidade lá ao fundo), há uma distância física muito grande entre o palco e a plateia que arrefece o ambiente. Não me estou propriamente a queixar, mas gostava de assistir a um concerto da Gisela num espaço mais acolhedor e, digamos, íntimo.

Como o fado se pratica sobretudo nas casas de fado, a necessidade de o trazer para os grandes auditórios das salas de espetáculos do país tem cristalizado num modelo de concerto que, por um lado, alterna temas mais lentos e íntimos (eventualmente mais devedores do fado tradicional) com outros mais animados e que apelam mais à participação do público, e que, por outro, tenta equilibrar os repertórios próprios dos artistas, em particular o que gravam em disco, com outros temas, mais populares, que são convocados para os espectáculos ao vivo. Curiosamente é nestes temas mais populares e “mexidos” que a maior parte dos artistas vai buscar ao baú da Amália Rodrigues que, por fazer muitos concertos, criou, de certo modo, este modelo. No concerto de ontem, a Gisela João cantou o Sr. Extra-terrestre, um tema do Carlos Paião que a Amália gravou em início dos anos 80, numa altura em que a sua carreira estava um pouco em baixo, na sequência dos fervores revolucionários do pós-25 de abril que colaram muito o fado aos tempos do regime fascista. Gostei de ouvir o tema, que nem é dos seus melhores, sobretudo porque foi uma bela maneira de recordar um grande autor de canções populares.
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old no. 7
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No final da tarde de domingo fui, com o meu amigo Zé, à praia da Cova da Gala. A ideia era ir até Quiaios, mas como a serra tinha ar de estar cheia de nevoeiro, achámos mais prudente ficar logo ali. Até porque a Cova da Gala tem a grande mais valia de ter logo ali o restaurante Carrossel, onde eu já tinha saudades de ir.

Quando nos preparávamos para sair da praia, constatei que a garrafa de água que estava na mochila tinha extravasado e a minha t-shirt estava encharcada. Como não podia ir para o restaurante em tronco nu, e era impossível vesti-la, estava já preparado para ir dar uma volta de carro com a camiseta presa num dos vidros para ajudar a secar; deixar de ir ao restaurante é que não era opção.

Acabei por comprar numa lojinha da praia uma t-shirt preta, com publicidade ao whiskey Jack Daniel’s que, disse a menina da loja, está a ter muita saída este ano. E que, principalmente, era a maior que havia na loja, 2XL, mas que mesmo assim me ficava apertada no peito. Ou nos peitos, vá! E eu, que não bebo um trago de whiskey há anos, lá fui de t-shirt nova comer o belo do arroz de couve com as pataniscas de bacalhau.

mr. holmes
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Aprendi a gostar do Fred Astaire com o meu pai, que era fã absoluto da parelha que Astaire fazia com Ginger Rodgers. Tenho a vaguíssima ideia de ter visto um filme dele em miúdo, mas foi depois da nossa vinda para Portugal que pudemos dar azo ao nosso gosto através da TV, nomeadamente das sessões de matiné dos domingos (sim, houve um tempo em que os filmes do FA passavam na tv portuguesa), que me deram a oportunidade de ver quase todos os seus filmes, nomeadamente os que fez nos gloriosos anos trinta.

Foi um pouco como a ver o Fred Astaire a evoluir com elegância pelos gigantescos e brilhantes plateaus desses filmes, rodopiando com Rodgers nos braços, ou a deslizar com leveza em números de sapateado tão rápido que não lhe víamos os sapatos a tocar no chão, que me senti a ver o Ian McKellen a fazer de Sherlock no filme Mr. Holmes, de Bill Condon, cujo primeiro filme que vi foi Gods and Monsters, igualmente com McKellen, uma ficção baseada na vida, ou nos últimos dias da vida de James Whale, realizador de filmes de terror nos anos trinta e que era homossexual assumido.

A Mr Holmes falta-lhe, talvez, uma narrativa mais clara e determinada, e um plot que verdadeiramente interesse o espectador. O filme vai evoluindo através de três linhas narrativas, sendo que duas delas, contadas em flashback, dão o tom detectivesco à história mas que, como disse, não chegam a prender a atenção.

Mas o trabalho de Ian McKellen na composição de um Sherlock nonagenário, atormentado por um caso mal resolvido, e em luta desesperada contra a demência que lhe vai aos poucos esvaziando a memória, é das coisas mais notáveis que eu já vi, e um trabalho todo ele sem esforço, sem maneirismos ou tiques cabotinos, sempre a serviço da personagem e da sua verdade, ao mesmo tempo subtil e denso, límpido e misterioso. Kudos para Sir Ian, of course, e espero que ele ganhe os prémios todos para o cinema deste ano.
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24 de julho
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Os meus pais casaram há 61 anos, naquele que era o dia da cidade de Lourenço Marques e que, tanto quanto sei, continua a ser feriado em Moçambique. Ano passado ainda estávamos juntos os três, apesar de em condições muito difíceis, por causa da acentuada demência do meu pai. Em poucos meses, a doença da minha mãe agravou muito, o que, há um ano, não me passaria pela cabeça que pudesse acontecer; sabia que ela tinha uma doença muito grave, mas acreditava que a sua evolução seria muito lenta, e que o verdadeiro perigo, no seu caso, havia de chegar por causa da insuficiência cardio-respiratória.

O facto é que um ano depois a minha mãe já partiu, o meu pai está internado, num processo de progressivo oblívio da sua memória e das suas referências, a data diz pouco à restante família, que nem se lembra, e apenas a minha memória guarda e celebra, com comoção e um misto de alegria e tristeza, este dia. Que é importante, porque foram muitos anos de vida em comum; os meus pais viveram muita coisa, muitos revezes da vida, mas também muitas alegrias. Sempre tiveram, acho eu, e embora nem sempre de uma maneira muito clara, vontade e prazer em gozar a vida, e souberam, mesmo em períodos muito complicados, fazer coisas apenas pelo gozo de as fazerem juntos.

Suponho que, vistos à distância da memória, foram um casal feliz. Embora em ambos tenham sempre convivido, ainda que de maneiras diferentes, muito diferentes, sentimentos contraditórios: o amor que viveram era-lhes muito compensador, mas ambos sentiam alguma frustração por esse amor de certo modo lhes ter limitado tudo o que desejavam para as suas próprias vidas. Mas tenho consciência de que se calhar, neste aspecto, e apesar de os conhecer muito bem, estou um bocado a inventar; mas sinceramente, penso que não.

Os últimos cinco anos da sua vida comum foram muito complicados, apesar de eu ter tentado tudo o que creio ter sido possível, para amenizar essas dificuldades, sobretudo para a minha mãe, e tentar dar-lhe algumas alegrias que a compensassem dessas difíceis complicações. E foram tão difíceis que, progressivamente, e depois de termos feito uma bela festa quando foram as bodas de ouro, em 2004, a data foi ganhando um certo sabor agri-doce. Por isso faço em esforço para tentar resgatar a alegria e a celebração dessa festa, quando nem tínhamos consciência de que o abismo estava tão perto. E enquanto tiver memória, espero continuar a celebrar.

inside a pearl
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Terminei no fim de semana passado a leitura de Inside a Pearl: My Years in Paris, o terceiro volume que Edmund White publica dedicado às suas memórias. Desta vez o período abrangido são os quase vinte anos que o autor viveu em Paris, e segue-se a dois outros livros de memórias: My Lives e City Boy: My Life in New York in the 1960s and 70s. Considerando que três dos seus romances mais conhecidos são clara e assumidamente autobiográficos, é óbvio que para White o tema preferido é a sua própria vida. Não tanto a sua vida pessoal, intelectual, a sua visão do mundo, mas a sua vida de todos os dias, a sua vida que interage com os outros, seja na dimensão mais social e literata, seja na dimensão explicitamente sexual.

Além disso, esta é já a terceira obra que leio do autor, dedicada a Paris, depois de Flaneur, editada em Portugal numa belíssima colecção de literatura de viagem da editora ASA, e de Our Paris: Sketches from Memory, que White escreveu para desenhos de Hubert Sorin, que foi seu amante e que é uma das personagens principais do romance The Farewell Symphony.

Contando com este, já li 15 livros do autor, e começo a sentir alguma familiaridade com os seus amigos e amantes, que aparecem nos livros como personagens recorrentes. Na base deste Inside a Pearl está uma amizade em particular de White: a que nasceu num encontro em Nova Iorque com Marie-Claude du Brunhoff, e que é, de certa maneira, responsável pela sua ida para Paris, no início dos anos 80, em plena eclosão da epidemia da Sida, tendo White sido um dos pioneiros do activismo a favor dos doentes com o VIH.

De facto, se Inside a Pearl muitas vezes se parece como uma mistura entre a lista telefónica e as páginas de bisbilhotices das revistas de celebridades, MC, como o autor a denomina a maior parte das vezes, está presente ao longo de quase todo o livro que se assume, desta maneira, quase como a memória de uma relação de amizade que durou décadas, e uma homenagem biográfica à própria MC.

O estilo da escrita é o mesmo de sempre, um equilíbrio perfeito entre o rigor da linguagem e uma certa leveza que não recusa, por exemplo, o coloquial ou mesmo o calão. Culto e informado, literato e sempre profundamente irónico, não resistindo ao gossip, mas com uma grande capacidade de perceber a profundidade da natureza humana.
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love & mercy
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Fui no sábado à tarde ver Love & Mercy, um filme realizado por Bill Pohlad, que reconstrói dois momentos particulares da vida de Brian Wilson, o músico que deu às canções dos Beach Boys a sua inspiração genial.

Esses dois momentos situam-se, o primeiro, nos anos 60, nas vésperas das sessões de gravação do disco Pet Sound, por muitos considerado o melhor disco de pop de sempre, e que o filme reconstrói com grande rigor, devolvendo-nos a exaltação de podermos assistir à criação de um dos marcos mais influentes e perenes da música pop dos anos 60. O filme dedica especial atenção à emersão dos sinais de perturbação psíquica de Brian Wilson, que convivem com a sua genialidade enquanto músico, e aos conflitos que surgiram, naturalmente, entre o visionarismo das ideias de Wilson, e as que os restantes membros da banda tinham para o que deveria ser o som dos TBB, votado à consagração da juventude surfista ao sol da Califórnia.

O outro momento da vida de Wilson que o filme acompanha decorre já depois da euforia do sucesso, quando o músico, nos anos 80, está completamente afundado na depressão e na psicose, alimentada em parte por um psicoterapeuta que, dessa forma, assume um controlo total sobre a sua mente e a sua vida.

Gostei bastante do filme, sobretudo porque consegue captar muito bem aquilo que transforma a música dos Beach Boys numa coisa tão exaltante e inspiradora, e que é eminentemente musical, ou seja, não tem tanto a ver com o género musical, com o surf ou as raparigas, ou só com as lindíssimas harmonias que os irmãos e primos de Brian conseguiam criar, mas é muito mais do que isso, é música verdadeiramente tocada pelo génio criativo, que, como todas as obras de arte verdadeiramente geniais, nos ajuda a descodificar a vida, ao mesmo tempo que adensa o seu mistério.
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encontros
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Um fim de semana tranquilo e dedicado às rotinas habituais, mas que culminou com uma ida, no final da tarde de domingo, a Fátima, para me encontrar com o meu amigo Bruno. É a segunda vez que nos encontramos em Fátima, encontros breves pois aproveitamos intervalos na sua actividade profissional; e já nos encontrámos mais duas vezes, para gozarmos juntos alguns dias de férias. Tendo em atenção que em três anos e meio já nos encontrámos quatro vezes, e que entre as nossas moradas se interpõe uma imensa e oceânica lagoa, trata-se de um feliz conseguimento cujo mérito é todo do Bruno, uma vez que esses encontros têm sido sempre em Portugal.

O que é muito reconfortante nos encontros com o Bruno é que mal nos vemos retomamos as nossas conversas, muito pessoais, muito francas. Ainda ontem nos lembrámos da ocasião em que nos encontrámos no aeroporto de Lisboa, quando, mal ele desembarcou, nos instalámos num dos cafés do aeroporto a conversar. Isto define bem a natureza dos nossos encontros: juntamo-nos para estar um com o outro, não tanto para contarmos novidades ou pormos a escrita em dia, para isso servem os mails e as redes sociais, mas para conversarmos sobre nós, daquele modo íntimo que apenas o contacto pessoal pode proporcionar.

Como ontem o Bruno estava disponível para jantar, fomos a um restaurante que fica na Cova da Iria e debatemo-nos com uns belos bifes: o do Bruno com molho de queijo da serra, o meu à Marrare, que estava delicioso e que saudades eu tinha de um bife a boiar naquela molhanga maravilhosa, feita de natas e pimentas, acompanhando com uma mega-travessa de batatas fritas.

Apesar de não atribuirmos, nem ele nem eu, significado espiritual ao santuário (e de o Bruno, quando chega a Fátima, já vir farto de santuários e de missas e de rosários), é um sítio de que gosto muito, sobretudo às horas em que está mais tranquilo e esvaziado. É um sítio bom para nos encontrarmos, para dar um ambiente de paz e serenidade às nossas perturbações emocionais, às nossas dúvidas e angústias, e para nos encontrarmos com as memórias, as nossas, da nossa história comum, mas também as que trazemos das nossas vidas.

recado
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Preciso de te contar como foi o dia de ontem. Parece que fica sempre tudo incompleto se tu não souberes, se eu não te contar, como se, de alguma maneira, as coisas só fizessem sentido se fossem para ti; talvez porque tu fosses a única pessoa a perceber exactamente o que sentia, o modo como eu sentia as coisas da vida.

Os nossos meninos vieram cá. Chegaram na quarta-feira à noite, muito tarde. Pedi à tua sobrinha para eles ficarem lá em casa, apesar de tudo é mais confortável e “normal” do que a minha. Ontem de manhã fui buscá-los e fomos ao Pediátrico, para a baby ter uma consulta. As coisas a princípio não estavam a correr muito bem, mas depois ao longo da manhã compuseram-se substancialmente, e pareceu-me que o resultado da vinda deles cá acima foi positivo, e que a nossa menina ficou satisfeita e, espero eu, menos ansiosa com os problemas da baby.

Depois fomos os quatro almoçar, já em ambiente de grande descontração. Ficámos na esplanada, a miúda comeu bem e brincou. Foi óptimo. A seguir fomos ver o pai, o nosso menino queria ir ver o avô. Estivemos lá um bocadinho. A má notícia é que pela primeira vez ele estava de cadeira de rodas, confirmou-se aquilo que eu previa, que não demoraria muito tempo a ter de ficar na carreira de rodas, as dificuldades da marcha são cada vez maiores. Mas tirando isso, de resto estava bem: tranquilo e muito reactivo. Conversou com o menino, que lhe mostrou vídeos da baby e ele disse-lhe que um dia destes nos temos de juntar todos, na casa de um ou de outro, para passarmos uns dias juntos. Assim mesmo! Ainda liguei ao meu irmão, para eles os três falarem um bocadinho.

Passámos pela tua casa. Está quase vazia. Eu aproveitei para levar uma coisa pesada para minha casa, para o menino alancar escada acima! Levaram uns vidros que ainda lá estavam: travessas, copos, jarras (há tantas coisas tuas em casa dos meninos, tenho a certeza de que gostarias de saber). Fomos para minha casa, para a baby conhecer o gato (apesar da recomendação do médico de que ela não deve conviver com animais, por causa do pelo). Foi uma loucura: ela sempre a conversar com o Zézinho, a dizer-lhe coisas, com um ar muito compenetrado; e o gato sempre atrás dela, com um ar muito curioso, admirado com a presença daquele ser tão movimentado e falador numa casa sempre tão sossegada. Gostei mesmo que eles tivessem ido a minha casa.

Finalmente regressámos a casa da tua sobrinha, para eles prepararem as coisas para arrancarem para baixo. Mais uma vez a loucura. A baby muito bem disposta, a dar espetáculo, muito à vontade, a falar com toda a gente. Eles estavam encantados com a miúda, via-se bem. Ela deu-lhe de jantar, deu-lhe a sopa, e a miúda, sempre tão esquisita para comer, portou-se bem, comeu tudo. Depois jantámos nós sempre num bom ambiente, descontraídos e divertidos. Por volta das dez, os meninos arrancaram e eu vim para casa. De coração cheio, foi um dia emocionante, correu tudo bem, não houve problemas, estávamos todos bem dispostos. Faltavas tu, é claro, para dar sentido às coisas, sobretudo a estas, as coisas boas da vida. Mas, pronto, por isso é que eu estava mesmo a precisar de te contar tudo.

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The Ladies Man, O Homem das Mulheres, dirigido por Jerry Lewis, na sessão de ontem do cineclube (as noites de Coimbra estão tão pouco adequadas a cinema ao ar livre, que briol!) Nunca fui um die-hard fan de JL, e acho que é daquelas coisas que vêm da infância, em miúdo não achava grande piada às caretas e aos trejeitos desengonçados. Só quando “cresci” é que lhe comecei a dar mais atenção, principalmente depois do filme The King of Comedy, do Martin Scorsese, de quem, esse sim, fui sempre e continuo a ser grande devoto.

Este The Ladies Man tem um plot reduzido ao mínimo (um jovem universitário sofre de um desgosto amoroso e arranja um emprego como handy-man numa casa onde vivem dezenas de mulheres) que serve apenas para dar o fio condutor à sucessão de gags. Mas tem um dispositivo narrativo espantoso: todo o filme, ou a sua parte substancial, decorre na imensa casa de hóspedes, aberta para o público como uma casa de bonecas, e que funciona como um palco que a câmara percorre, à procura das personagens ou, mais correctamente, atrás delas, que o filme tem aquele ritmo acelerado próprio das comédias screwball.

Assim tudo acontece quase como se fosse uma coreografia, e, para mim, mais interessante do que o trabalho de Jerry Lewis actor foi assistir ao trabalho de Lewis realizador, ao seu sentido de ritmo, de ocupação do espaço, ao trabalho da câmara num set magnífico, aos travellings que percorrem a parede aberta da casa, ora afastando-se para dar a ideia de conjunto, ora aproximando-se à procura do detalhe e do gag. Mas dizer isto quer também dizer que num filme que é essencialmente uma sucessão de cenas de humor slapstick, há pelo menos uma meia dúzia de gags que são absolutamente geniais, quer na sua construção quer no próprio efeito cómico.
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taxi teheran
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Um filme excelente e marcante: Taxi, de Jafar Panahi. O realizador iraniano, depois de cumprir uma pena de prisão, está proibido de realizar filmes, mas também de abandonar o Irão. Este é, por isso, o terceiro filme “clandestino” que realiza. Todo o filme se passa dentro de um táxi, com câmaras apontadas para o seu interior ou para o exterior, que filmam a relação que se vai estabelecendo entre o condutor, o próprio Panahi, e os seus passageiros, ou mesmo, como na sequência inicial, entre os próprios passageiros.

Sem nunca ser explicita e declarativamente político, Panahi e os seus passageiros vão propondo reflexões veementes sobre a situação política do país, sobre a cidadania e os seus limites sob um regime religioso radical, sobre a liberdade de expressão, sobre, enfim, o cinema e as suas linguagens. Ao mesmo tempo que o filme nos mostra de forma incessante a cidade, os seus habitantes, a vida que fervilha apesar de tudo, sendo, neste aspecto, também um filme sobre uma cidade, Teerão.

E se se trata de um filme profundamente político, e sério no sentido de ser uma voz que nos chega atravessando o denso muro do silêncio e da censura, toda a narrativa é leve e sempre a deixar a comédia entrar dentro da claustrofobia do táxi. Aliás cada sequência organiza-se quase como se fosse um gag, apesar da comicidade das situações ou dos diálogos deixar sempre perceber o drama de quem vive numa sociedade sem liberdade.

Esta capacidade de em cada momento nos transmitir a comédia e o drama atinge um dos seus pontos máximos quando Panahi monta uma solução caricata para pôr fim ao seu filme, enunciando logo de seguida que o filme não tem genérico final, a fim de garantir a integridade e a segurança de todos os que nele colaboraram.
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