the imperial hotel, pt 2
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Em julho de 2012 li o segundo volume dos diários de Christopher Isherwood, relativo aos anos 60, e transcrevi para aqui (link) uma passagem de uma entrada de dezembro de 1963, escrita quando Isherwood acompanha o seu Swami numa viagem à Índia. Fazem escala em Tóquio e Isherwood aproveita para espreitar o Hotel Imperial, onde, em junho de 1938, juntamente com o poeta W.H. Auden, tinha passado uma noite. O trecho que então transcrevi é o seguinte:

"We (…) then peeked into the Imperial Hotel. I felt a wave of sentiment for the old place. Wystan and I first saw it in 1938, and my memory clings to an improbably symbolic tableau: under a chandelier (which certainly isn’t there nowadays though that in itself proves nothing) stand two figures in uniform, a Japanese officer and a Nazi gauleiter; in fact, The Axis. As I regard them, the chandelier begins to sway – and this is my first earthquake!"

Estou agora a ler (e a adorar, mas falarei mais do livro depois) as páginas finais de Christopher And His Kind, o livro que Isherwood escreveu em 1976 (treze anos depois do texto dos diários), sobre o período que vai de 1929, quando decide ir viver para a Alemanha ("Berlin meant Boys", diz ele), a 1939, quando se fixa na América. Naturalmente, é referida a viagem à China que faz na companhia de Auden, para cobrir a guerra sino-japonesa. No regresso da China, fazem escala no Japão e viajam até Tóquio, onde passam uma noite, a de 17 para 18 de junho, no Hotel Imperial. E escreve o seguinte:

"While Christopher is sitting waiting for Wystan in the lobby of the hotel, next morning, he witnesses a ceremonious meeting between two officers in uniform, a Nazi and a Japanese - the Berlin-Tokyo Axis personified.They exchange Nazi salutes, then bow Japanese-style, then shake hands. They are standing beneath a big chandelier; and, as they greet each other, the chandelier begins to sway. It is Christopher’s first, very slight, earthquake."

Reconheci de imediato a passagem e achei curioso o Isherwood ter-se referido a este episódio duas vezes, com tantos anos de intervalo, e quase nos mesmos termos, pelo menos as expressões mais enfáticas e impressivas são quase idênticas.

Quando transcrevi o trecho de cima, não me ocorreu que a única vez que presenciei um terramoto,também ligeiro, estava num restaurante na cidade de Antigua Guatemala, e o que me chamou a atenção foi precisamente o facto de os candeeiros do restaurante estarem a oscilar.

Ainda a propósito da viagem à China, ela começou quando Isherwood e Auden embarcaram, em janeiro de 1938, em Marselha e atravessaram o canal do Suez, tendo aproveitado para sair do barco em Port Said e para visitar o Cairo. Retornaram ao barco em Port Tewfik e Isherwood escreve:

"They steamed southward, heading for Djibouti, Colombo, Singapore, Saigon, and, ultimately, Hong Kong."

Perdoe-se-me um pequeno momento de auto-comprazimento, mas estava eu a ler este colar de pérolas exóticas e de súbito tomo a deslumbrada consciência de que já estive em Colombo, em Singapura e em Saigão.

o dia da criação
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O DIA DA CRIAÇÃO

Macho e fêmea os criou.
Bíblia: Gênese, 1, 27

I
Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.

Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.

II
Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado.
Há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado.
Há um homem rico que se mata
Porque hoje é sábado.
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado.
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado.
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado.
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado.
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado.
Há um grande espírito de porco
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado.
Há criancinhas que não comem
Porque hoje é sábado.
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado.
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado.
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado.
Há uma tensão inusitada
Porque hoje é sábado.
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado.
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado.
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado.
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado.
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado.
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado.
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado.
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado.
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado.
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado.
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado.
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado.
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado.
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado.
Há a comemoração fantástica
Porque hoje é sábado.
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado.
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado.
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado.

III
Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia,
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.


- Vinícius de Moraes (Rio de Janeiro , 1946)


Conheço este poema desde a infância. Vinícius de Moraes dizia-o, no LP Amália/Vinícius, Um Serão Em Casa de Amália, disco que havia, e ainda há, em casa dos meus pais, desde os tempos anteriores ao 25 de Abril, quando era proibido. Houve alturas, na minha adolescência, em que sabia, se não todo, pelo menos a maior parte, de cor. Vi-o publicado, creio que num blog, no dia mais indicado de todos, Sábado de Aleluia. Voltei a lê-lo com assombro, sobretudo a terceira parte, a minha preferida, e apeteceu-me logo trazê-lo para aqui.

O poema é poderoso, e dito pelo Vinícius, então, é qualquer coisa de sublime. É muito fácil encontrar clips na net com essa gravação. Mas eu preferi juntar-lhe quatro fotos que fiz, numa manhã de domingo de há umas duas ou três semanas, quando fui passear para o parque verde da cidade. Não têm nada a ver com o poema, eu sei. Mas é assim mesmo.

fim de semana pascal
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O meu fim de semana pascal foi muito tranquilo; não sei se por causa do tempo, sempre fosco, foi até marcado por um toquezinho de angústia. Não dormi muito bem: poucas horas e muitos sonhos, daqueles muito elaborados. Hoje quando acordei estava ferradíssimo a sonhar com duas miúdas adolescentes, mas assim mesmo pitas, muito novinhas, à minha porta, mas não era a minha porta, era uma outra minha porta qualquer, a venderem-me edições encadernadas, daquelas pesadas, tipo enciclopédia, das obras do Kafka. Eu estava a pensar que não precisava daquelas edições para nada, até era um pouco embaraçoso ter em casa livros do Kafka com aquele tipo de edição, cheias de couro e dourados e vermelho sangue-de-boi. Mas, por um lado não conseguia dissuadir as miúdas, estava-me a custar dizer-lhes que não, e por outro os livros eram muito baratos. Quando acordei, com o despertador, uma das miúdas esta a tentar convencer-me a comprar O Processo e O Castelo por seis euros.

Na sexta-feira à noite descobri, ao fim de catorze anos a viver nesta casa, para que serve o bidé: para rebentar um cano e ter a casa de banho inundada. No sábado consegui arranjar um canalizador, um ucraniano, muito jovem, alto e espadaúdo e razoavelmente bonito. Gostei logo do rapaz e, muito rapidamente, consegui lembrar-me de arranjar uma torneira avariada para ele lá voltar hoje outra vez. O problema é que não percebi bem se o cano do bidé ficou arranjado ou não: ao longo do fim de semana, quando ia espreitar, umas vezes estava seco outras estava outra vez o chão com água!

Para além de ler um livro do Isherwood como se não houvesse amanhã, passei grande parte do fim de semana em casa dos meus pais: tiveram a visita do filho da cuidadora deles, que está a estudar na Alemanha, e veio passar a Páscoa com a mãe. Um puto de vinte anos, alto, loiro, muito bem disposto, a dar vida a uma casa habitualmente muito tristonha. Até o meu pai parecia estar mais antenado. Às tantas, o rapaz ensinou o meu pai a tirar fotos no tablet e ele interessou-se e aprendeu. Mas a seguir entrou num daqueles loops de perguntas, e de três em três minutos perguntava ao rapaz se a fotografia ficava ‘ai dentro’, de modo a que se ele ‘amanhã’ a quisesse ver, podia. O rapaz lá ia pacientemente respondendo que sim, e de cada vez ensinava-o a recuperar a foto para a visualizar. Até que, aí pela décima ou vigésima repetição, virou-se para o meu pai e disse-lhe: sim, pode ver amanhã, depois de amanhã, semana que vem, e até no próximo ano!

Por conta do rapaz, ontem à tarde fui ao Forum, que, aos domingos à tarde, é um sítio absolutamente proibido. Estava cheio de gente, mas mesmo assim não tão mau como eu temia. Fui à Fnac, onde não entrava há anos, e descobri que agora eles também vendem electrodomésticos para a cozinha: batedeiras, liquidificadores e outros acessórios. Deve ser tudo muito trendy, porque os preços eram caríssimos. Juro que estive a um bocadinho “assim” de perguntar a um dos empregados onde é que era a secção de mercearia, mas tive vergonha. A propósito, a Fnac está a lançar uma revista dedicada aos livros, chamada Estante. Vai ser trimestral, e este primeiro número é gratuito, apesar de ter marcado o preço de capa de € 1,50. Claro que a intenção da publicação é fazer o marketing da loja, mas mesmo assim achei a revista engraçada, vale a pena passar por uma das lojas e levá-la.

o nome dos gatos
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Dedicado a todos os meus amigos que adoram os gatos, e em especial para a Margarida, um clip onde me dedico a assassinar o célebre poema The Naming of Cats, de T.S. Eliot.

Este poema é o primeiro do livro The Old Possum's Book of Pratical Cats que, por exemplo, esteve na origem do célebre musical Cats, de Andrew Lloyd Weber, e que eu já vi duas vezes, uma no New London Theatre, no West End londrino, onde a peça estreou e se manteve em cena durante décadas, e outra no Coliseu de Lisboa.

Adoro este poema, a sua música, a cadência das palavras que nos conduz. E como me dá prazer dizer em voz alta os poemas de que gosto muito, não resisto a gravá-los e, perdida toda a vergonha, a pô-los aqui.

Claro que só faz sentido dizer o poema em inglês, mas é muito fácil encontrá-lo na net traduzido em português. Eu tenho uma edição bilingue d' O Livro dos Gatos, com tradução de João Almeida Flor. As folhas já estão cheias de nódoas amarelas, e algumas já estão soltas. A data por baixo da minha assinatura diz: Dezembro 92! Não encontrei a tradução do poema que está neste livro, mas há uma boa neste link: arcadajade.blogs.sapo.pt/7396.html. E no YouTube há uma gravação do próprio Eliot a dizer o poema mas para a qual, por vergonha, não ponho aqui o link.

Como o recitativo é miserável, aqui fica o texto original do Poema de T. S. Eliot:

The Naming of Cats is a difficult matter,
It isn't just one of your holiday games;
You may think at first I'm as mad as a hatter
When I tell you, a cat must have THREE DIFFERENT NAMES.
First of all, there's the name that the family use daily,
Such as Peter, Augustus, Alonzo or James,
Such as Victor or Jonathan, George or Bill Bailey--
All of them sensible everyday names.
There are fancier names if you think they sound sweeter,
Some for the gentlemen, some for the dames:
Such as Plato, Admetus, Electra, Demeter--
But all of them sensible everyday names.
But I tell you, a cat needs a name that's particular,
A name that's peculiar, and more dignified,
Else how can he keep up his tail perpendicular,
Or spread out his whiskers, or cherish his pride?
Of names of this kind, I can give you a quorum,
Such as Munkustrap, Quaxo, or Coricopat,
Such as Bombalurina, or else Jellylorum-
Names that never belong to more than one cat.
But above and beyond there's still one name left over,
And that is the name that you never will guess;
The name that no human research can discover--
But THE CAT HIMSELF KNOWS, and will never confess.
When you notice a cat in profound meditation,
The reason, I tell you, is always the same:
His mind is engaged in a rapt contemplation
Of the thought, of the thought, of the thought of his name:
His ineffable effable
Effanineffable
Deep and inscrutable singular Name.



E, sim, tive de treinar muitas vezes para conseguir dizer 'Effanineffable'.

veneza pode esperar
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Já há tempos que tinha vontade de ler um livro da escritora Rita Ferro. Estive quase quase a ler o anterior, mas depois meteu-se qualquer outro pelo caminho e passou; mas talvez ainda lá volte, porque gostei tanto deste Veneza Pode Esperar, que fiquei com vontade de repetir. O facto de se tratar de um diário convenceu-me, gosto muito da diarística, e acho que RF conseguiu uma coisa admirável que foi encontrar, na escrita de um diário que se sabe à partida que é para publicação, o ponto exacto entre o confessionalismo (sem nunca tropeçar no intimismo ou no gossip, mas também não os desprezando completamente) e o carácter reflexivo e um pouco mais distante e analítico sobre a condição humana.

Para mais, Rita Ferro escreve bem, de maneira elegante, e com humor. Sabe compor a sua própria personagem em doses homeopáticas de ego e auto-depreciação, mas sem nunca correr o risco da auto-complacência ou do cinismo. É feminina e feminista; nunca santa ou predadora. Defende as jóias da família, mesmo quando tem de as vender, e a exacta consciência de classe livra-a de frivolidades e de frioleiras. Deu a impressão de que este livro foi uma prenda, e uma prenda de amor. E isso só o engrandece.

rui chafes + joão tabarra
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Gostei muito das duas exposições que fui ver ao CAM. Gosto quando a arte me provoca e interpela, e foi o que aconteceu nestas duas mostras, de João Tabarra e Rui Chafes.

Narrativa Interior, de João Tabarra mostra uma série de trabalhos de grande formato, em fotografia e video, que usam a imagem para invocar narrativas, quase cinematográficas, e que põem o próprio artista no centro da representação. Há nestes trabalhos uma certa ideia de risco, por vezes mesmo de risco físico, ou apenas de uma certa exposição que é, no entanto, quase sempre dissimuladora, mais do que reveladora. João Tabarra conta-nos histórias, por vezes marcadas por um humor muito provocador, mas mais do que as suas, são as nossas narrativas que se convocam.

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A exposição de Rui Chafes é antológica, reunindo 25 anos de escultura em ferro. Gosto muito dos trabalhos de RC, que exercem sobre mim fascínio e sortilégio, e esta exposição magnífica foi muito inspiradora. Por um lado agrada-me muito o carácter minimal, por vezes de um conceptualismo quase seminal, de muitas destas esculturas. São, nas suas formas, simples e quase naturais, e esse é outro dos confrontos que suscitam, entre uma proximidade à natureza (troncos, aves, formas vegetais muito simples) e uma densidade negra e cheia de mistério.

As esculturas de RC parecem as histórias que sobraram dentro dos buracos negros, memórias encerradas para sempre dentro do ferro, e que pedem, na sua leveza e vocação para o voo, para serem contadas, por vezes de forma quase lancinante. Nem é bem uma vocação para o voo, é mais um desprendimento, como se a força da gravidade fosse de súbito invertida, e estas memórias profundamente encerradas ascendessem respondendo a um apelo inexorável. São peças que nos interpelam, que nos pedem para as levarmos connosco, para descobrimos a sua aérea tristeza, para nos forrarmos com a sua ternura escondida.

A exposição do CAM traz-nos alguns dos trabalhos mais marcantes de Rui Chafes, e resulta de uma organização interventiva, em particular explorando a relação entre a sala, a grande nave do CAM, e os jardins circundantes, e esse aspecto, o de podermos experimentar estas esculturas quer na forma como extravasam da sala para a natureza, quer quase numa dimensão de flora, de espécimes do próprio jardim, marca outro dos sortilégios de O Peso do Paraíso.

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the grand budapest hotel
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Estava com tanta vontade de ver The Grand Budapest Hotel que ontem lutei contra o sono e o cansaço de meio da semana, e fui ao nimas. E ainda bem, porque adorei o filme. Ok, não é que isso seja grande novidade, pois gosto muito dos filmes do Wes Anderson, mas mesmo assim é delicioso um tipo ir à espera de gostar muito e gostar mesmo muito.

O plot é uma jóia de jogos e referências: em 1932, numa república na Mitteleuropa, devastada por uma guerra e à beira de desaparecer por causa de outra, a vida segue igual para um conciérge de um hotel de montanha: rigor nos gestos, aprumo no fardamento, requinte nos pormenores, e noites de prazer com as clientes velhas, louras e ricas. A morte inesperada (era tão jovem, aos oitenta e tal anos) de uma das suas clientes, põe o conciérge, ajudado pelo seu lobby boy, a lutar contra tudo e contra todos para provar a sua inocência.

Tudo o que esperamos de Wes Anderson está lá: o formalismo, o maneirismo, a ironia delicada e subtil, as cores saturadas, os planos geométricos, a escrita deputada, as referências cinéfilas e literárias, a ternura pelas personagens (é incrível como as personagens dos filmes de Anderson, apesar de caricaturais, são sempre personagens de carne e osso e alma), e por aí vai.

A galeria de actores é notável, entre habitués dos seus filmes e novatos. Ralph Fiennes carrega o filme todo ao colo, co-adjuvado por um fantástico Tony Revolori; depois é uma lista que é um prazer quase erótico pronunciar: Tilda Swinton, Andrew Brody, Harvey Keitel, William Defoe, Jeff Goldblum, Edward Norton, Bill Murray (claro, não podia faltar, não é?), Owen Wilson (outro), F. Murray Abraham, Mathieu Amalric (tão bom que até comove), Jude Law, Jason Schwartzman (pois), Tom Wilkinson, Bob Balaban, Saoirse Ronan, Léa Seydoux.

Só mais uma nota para referir que o filme é inspirado, e cita directamente, o universo literário do escritor austríaco Stefan Zweig. Nunca li nada deste autor, mas lembro-me de que, na minha infância e juventude, era um escritor muito popular, não havia biblioteca ou mesmo estante da sala, que não tivesse um dos mais dos seus livros. Já tinha curiosidade em ler algum livro seu, e fiquei ainda com mais vontade.
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regresso a casa
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Não me lembro de ter assistido alguma vez ao vivo à representação de uma peça de Harold Pinter, mas mal começou a sessão da tarde de Regresso a Casa, no TNDM a impressão que tive é que não podia ser de outra maneira, que aquele modo de a levar à cena era o único possível. A encenação de Jorge Silva Melo, que também representa, parece-me ser exacta dessa forma, clássica no seu rigor e no modo como prescinde de artifícios. A cenografia, os figurinos, os objectos cénicos, parecem estar ali exactamente com a mesma função do texto: devolver-nos de maneira tão intacta quanto possível, e sem explicações, o que aconteceu, o que ali se passou.

Não se trata propriamente de um texto fácil, pelo contrário, é enigmático e por vezes quase esparso, vivendo tanto dos silêncios como das falas, e muitas destas são tão as-a-matter-of-fact que o plot é sempre mais subentendido do que enunciado. O humor é sarcástico, muitas vezes rasando o cruel. As personagens parecem-nos feras que são atiradas para dentro de uma cela e deixadas entregues ao seu destino predador. A peça desafia a moral, não porque a provoque ou ponha em crise, mas porque parece tão simplesmente, dela prescindir.

Esta história de cinco homens da mesma família, e da mulher de um deles, é-nos contada de forma tão seca que dá lugar a toda a espécie de leituras simbólicas, mesmo as mais contraditórias: pode ser a história da cedência de uma mulher à força animalesca dos homens da sua família (e sobretudo à daquele que a abandona, sem o mínimo olhar de hesitação), mas também pode ser a história de uma mulher dominadora e manipuladora, que estabelece as condições do jogo, e os subjuga até todos virem, literalmente, prostrar-se a seus pés.

Com um texto tão seco, por vezes quase agreste, e uma encenação tão rigorosa, o jogo dos actores é fundamental, e eu até diria que se não fosse o texto ser tão excelente e a encenação tão perfeita, que o trabalho dos actores era o melhor: João Perry e o próprio Jorge Silva Melo, e um conjunto de actores que habitualmente consigo trabalham nos Artistas Unidos: Elmano Sancho, Rúben Gomes, João Pedro Mamede, e Maria João Pinto. Se são todos muito bons, e se Maria João Pinto consegue ser admirável na expressão que dá à personagem femínina, não há como não referir a experiência de puro prazer que é ver o João Perry trabalhar.
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encontros
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Balanço de fim de semana:
- um jantar, com serão, no sábado à noite, com amigos de aquém e de além-mar;
- duas exposições magníficas, no CAM: Rui Chafes, O Peso do Paraíso, e João Tabarra, Narrativa Interior;
- uma peça de teatro magnífica: Regresso a Casa, de Harold Pinter, encenada por Jorge Silva Melo, com João Perry e outros, no TNDM.

Hei-de regressar às exposições e à peça de Pinter, mas para já quero falar da noite de sábado. Mais uma vez comprovei que quando estabelecemos pela net relações de amizade honestas e dedicadas, depois o conhecimento pessoal parece ser só uma extensão do que já havia, uma espécie de consagração física, táctil, dos afectos e das emoções.

Foi muito bom conhecer pessoalmente o Eduardo, autor de um dos blogs que sigo fielmente, e com quem se estabelece naturalmente um diálogo interessante e afectivo. O Eduardo, em texto, é brilhante: um homem inteligente, humorado, carinhoso, sensível, perspicaz. Em pessoa é tudo isto, mas em mais e melhor. E é um lindo rapaz, daqueles que faz bem à vista, e cuja companhia eleva e ilumina.

Para mais o Edu trouxe ainda de brinde, para nós, os seus amigos portugueses, a mãe, a D. Augusta, boníssima, como são as mães, as brasileiras em particular, e leitora voraz; e o Reginaldo, o namorado do Edu, que se aguentou bem à bronca com a horda tuga. O Reginaldo pareceu-me especialista em música brasileira, e fiquei a torcer por outras oportunidades de actualização e aprendizagem.

O comité de recepção incluíu os Joões, o Roque e o Máximo, o Luís e a Margarida (além de moi-même, claro). Ou seja, os melhores amigos que qualquer paulista sofistiqué ou rústico coimbrinha pode ter ou desejar. Ocupámos uma cervejaria no parque das nações (comi um bife, ando com uma sede, ou melhor: uma fome, de bifes que até faz dó, a minha hélice carnívora anda desatada), e depois assentámos para o serão em casa do Luís e do João. A Margarida, emérita cake-baker, providenciou uma torta de laranja que estava divinal. A Margarida diz que é capaz de a fazer melhor, mas duvido, só provando.

Para benefício dos amigos brasileiros, nós-os-tugas esgadanhámo-nos a discutir música, o fado em particular, tudo à volta da fadista Marisa: uns gostam, outros detestam, mas sempre com paixão. Eu confesso que não sou fã, mas foi tão bom fazermos tristes figuras à frente dos nossos amáveis visitantes, e eles gostam tanto dela (viram-na a cantar ao vivo, em São Paulo, há poucos meses), que eu até fiquei a simpatizar mais um bocadinho: se a gente da minha terra é capaz de nos dar o mote para todo um serão, é porque merece.

Só mais uma notinha para dizer que no domingo bisei a companhia do João Roque para a ida ao Nacional. Foi a segunda vez que fui ao teatro com ele, e, para que conste, é dos melhores compinchas que já conheci para as teatradas.

O blog do Edu é O Livro dos Meus Dias, e está neste link: eduardocaxa.blogspot.pt
O João Roque pôs no seu blog relato detalhado e reportagem fotográfica dos eventos, e está neste link: wwwdejanito.blogspot.pt

sue townsend
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Mal liguei a net hoje de manhã, caiu a notícia da morte da Sue Townsend. Seria hoje, eventualmente, pouco conhecida, mas nos anos 80, a ST publicou uma série de livros com relatos, sob a forma de diários, de um adolescente inglês, chamado Adrian Mole. Eu li creio que 4 dos livros da série, os primeiros. Ao contrário de Harry Potter, os sonhos e as ambições de Adrian eram bem terrenas: ele queria ser escritor e namorar com a Pandora. Tudo o resto era relativo. O cenário era, pelo menos nesses livros iniciais, a Inglaterra de Margaret Thatcher, e o diário de Adrian Mole, para além das crises próprias da adolescência, devolvia-nos intacto o espírito do tempo.

Nunca mais li nada da Sue Townsend, nem sequer os restantes livros da saga Adrian Mole (mais dois ou três, o último deles bastante recente, o Adrian Mole, que nasceu em 1967 já casado e com filhos). Mas a diversão e o entusiasmo que os diários de Adrian Mole (aos 13 anos e ¾, era assim o primeiro) são recordações impagáveis. I owe you Sue. Obrigado e boa viagem.

gases
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Nem butano nem propano; se és português, usa gás lusitano.
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um ano
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fotografia (1)

"Ah, fumarás demais, beberás em excesso, aborrecerás todos os amigos com tuas histórias desesperadas, noites e noites a fio permanecerás insone, a fantasia desenfreada e o sexo em brasa, dormirás dias adentro, noites afora, faltarás ao trabalho, escreverás cartas que não seráo nunca enviadas, consultarás búzios, números, cartas e astros, pensarás em fugas e suicídios a cada minuto de cada novo dia, chorarás desamparado atravessando madrugadas em tua cama vazia, não conseguirás sorrir nem caminhar alheio pelas ruas sem descobrires em algum jeito alheio o jeito exato dele, em algum cheiro estranho o cheiro preciso dele."

- Caio Fernando Abreu, MORANGOS MOFADOS


Fez ontem, dia 7 de abril, um ano que o Saint-Clair morreu.
O tempo suaviza o gume agreste da mágoa e do desgosto, mas não acalma o vazio de um impossível absurdo.

numbers
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Estou a terminar a leitura de Numbers, o segundo livro de John Rechy, depois de ter lido, há poucas semanas, o seu primeiro romance, City of Night. Apesar da semelhança temática, as duas obras são diferentes: Numbers é, de certa maneira, uma obra mais ficcionada, enquanto em City of Night era muito nítida a ligação ao real, nomeadamente à própria experiência pessoal do autor. No entanto, Numbers inspira-se directamente na experiência de Rechy enquanto prostituto em Los Angeles, para criar uma personagem, Johnny Rio, e descrever um regresso á cidade dos anjos, durante dez dias, para fazer uma espécie de teste à sua capacidade de ainda ser um objecto do desejo masculino. Outra diferença de realce relativamente a City of Night, é que Numbers é muito mais explícito no que toca à descrição das actividades sexuais; mas apesar da ousadia gráfica (para os tempos pré- porno na internet, é claro) creio que, de qualquer modo, estamos longe da pornografia ou sequer da literatura erótica. Acho que o sexo é muito mais usado para chocar, com a crueza da linguagem, do que propriamente para facturar com o factor porno. Claro, é preciso contextualizar, e este livro foi publicado em 1967, quando, apesar de tudo, o mundo da homossexualidade masculina, literário e não só, era muito diferente do actual.

Há um aspecto muito interessante no livro, que já estava presente em City of Night mas é mais explicitado neste Numbers, e que é a forma como a personagem usa a prostituição para concretizar o seu desejo homossexual sem abdicar do seu quadro mental heterossexual: Johnny Rio entrega-se a outros homens, apesar de já não ser por dinheiro, apenas para se assegurar da sua condição de objecto do desejo, de deus cobiçado pela pulsão dos outros, e não porque ele próprio sinta desejo ou pulsão. Claro que é uma falácia, como de resto o próprio romance desmonta. Mas não deixa de ser curioso observar como este era um dos caminhos possíveis para viver a condição sexual, nos anos 60; esta forma de negação que é viver-se a experiência homossexual como uma forma ainda de afirmação heterossexual, era ainda muito comum quando eu era jovem, por exemplo na determinação dos papeís dos parceiros na relação: o activo não era verdadeiramente homossexual, apenas o passivo. Apesar de ultrapassada, estou convencido de que esta espécie de auto-desculpa para a transgressão, ou para a cedência, ainda é muito usada hoje em dia.

Há um outro aspecto que me prendeu ao livro: às tantas, comecei a ler um dos capítulos do livro e achei que uma das personagens daquele capítulo era o Christopher Isherwood; com esta referência, todos os pormenores que rodeavam a personagem batiam certo: o facto de ser escritor, a descrição física, o facto de ter um companheiro bastante mais novo e que era um aspirante a artista plástico, e até o círculo literário que se reunia na casa de Santa Monica, precisamente onde Isherwood viveu. No fim de ler o capítulo, fui ao segundo volume dos diários de Isherwood, referentes aos anos 60, e lá estavam as referências a Numbers e à presença daquela espécie de caricatura de Isherwood e de Don Bachardy. Não achei o retrato de todo negativo, mas também não é propriamente lisonjeiro, e apesar de nos diários, o Isherwood até ser um bocado blasé acerca do assunto, uma pesquisa na net sobre o tema, diz-me que a reacção não foi propriamente a melhor, sobretudo da parte de Bachardy, que achou que a inclusão do casal no livro tinha sido um acto de grande deslealdade.

anaquim + deolinda
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Sexta-feira, 4, Gil Vicente cheio, programa a dobrar: concerto dos Anaquim e dos Deolinda. Foi uma festarola, ambos os grupos fazem do palco uma festa de interacção com a plateia, e as canções são propícias.

Já tinha assistido a um concerto dos Anaquim, também no TAGV, há cerca de dois anos, e comprova-se que são uma óptima banda de palco, com letras interessantes e um som boa onda. Mesmo num concerto mais abreviado. A Ana Bacalhau foi ao palco cantar O Meu Coração.

Quanto aos Deolinda, foi uma estreia, nunca os tinha visto ao vivo. Surpreendeu-me a presença em palco da Ana Bacalhau, que, além da voz poderosa, e de ser capaz de ir reinventando as canções à medida que as canta, é uma entertainer. Mas mesmo fazendo um belíssimo concerto, é muito evidente que aquilo que faz a banda são as canções: quando os Deolinda acertam numa canção, ela é perfeita, e isso é um talento muito raro, e um enorme gozo para quem gosta de música popular.
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KC, 20 anos
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Não costumo assinalar efemérides aqui no innersmile, mas há efemérides e efemérides, e hoje passam vinte anos sobre o dia da morte de Kurt Cobain. Soube da notícia da sua morte num aeroporto norte-americano, onde fazia escala, no dia em que atravessava quase costa a costa o continente americano para ir a Nova Iorque apanhar um avião para Lisboa, de regresso a casa. No dia 6 de março de 2007 publiquei aqui no innersmile um conto que se baseava vagamente nesse facto, porque se há coisas que não podemos esquecer na vida, é o que estávamos a fazer quando soubemos que Kurt Cobain tinha morrido.

Quando aqui publiquei o conto, dediquei-o ao Saint, que inspirou uma das suas personagens cariocas do conto, precisamente chamado S. Aproveito republicá-lo hoje, para assinalar a efeméride, e dedico-o, além de à memória do Saint, à Tania que estava comigo no aeroporto do midwest quando vi a notícia num monitor de tv da sala de espera do aeroporto, e que se chamava, não Tania, mas Margarida. E dedico-o também à personagem que na terceira parte do conto está a dormir atravessado na cama de casal.

Não mexi no texto do conto, mas clarifiquei a sua estrutura, marcando as três partes em que se divide. Reler hoje, tantos anos depois, o comentário do Saint na publicação original, deixa-me cheio de saudades, e mostra de maneira tão dolorosamente exacta a falta que ele me faz, agora que está quase a fazer um ano que ele morreu.




NO DIA EM QUE KURT COBAIN MORREU

«Chatterton, suicidou
Kurt Cobain, suicidou (…)
E eu, puta que pariu, não vou nada bem.»

- Seu Jorge

1.
No dia em que Kurt Cobain morreu eu estava no aeroporto de St. Louis, no estado do Missouri, a fazer escala entre Salt Lake City e Nova Iorque, onde iria apanhar o avião para Lisboa. Não se pode dizer que estivesse com saudades de casa, afinal de contas estava em viagem há apenas duas semanas, e, sobretudo, ainda estava sob o efeito do deslumbramento que tinha sido visitar várias cidades dos Estados Unidos, praticamente de costa a costa, em poucos dias.

A única coisa que conheço de St. Louis é o aeroporto. Também me lembro do arco, mas para ser franco, não tenho a certeza se realmente o vi do ar ou se isso não passou de um sonho.

Eu e Tania esgotámos a imaginação de todas as coisas que poderíamos fazer para ajudar a passar o tempo enquanto esperávamos pela ligação. Passámos várias vezes pelo controlo de segurança, corremos todo o aeroporto, entrámos em todas as lojas, e bebemos tantos cafés quanto era humanamente possível.

No ano em que Kurt Cobain morreu o mundo era, apesar de tudo, um lugar diferente. Os aviões comerciais não eram armas de destruição massiva, e nos aeroportos norte-americanos as famílias podiam ir até à porta do avião despedir-se dos seus filhos que iam estudar para longe, e os namorados podiam ir esperar pelas distantes namoradas de finos cabelos loiros. Não havia polícia nos aeroportos, e os funcionários da segurança deitavam olhares distraídos para o monitor de raios-x quando um passageiro passava apressado de sobretudo a esvoaçar e mala executiva a abarrotar de minutas de contratos ou de apólices de seguros.

Por isso, no dia em que Kurt Cobain morreu, eu e Tania passeávamos à vontade pelo aeroporto de St. Louis, e Tania entrou numa loja que vendia bonés de basebol. Começámos a experimentar bonés em frente ao espelho, e não fazíamos ideia o que responder quando a rapariga simpática de finos cabelos loiros (concerteza haveria algum rapaz à espera dela junto à porta de um avião) nos perguntou qual era o nosso clube. De repente Tania lembrou-se de que tinha deixado a carteira abandonada num sofá da sala de embarque e desatou a correr pelos corredores, passando pelos detectores de metais sem levantar o menor sobressalto aos funcionários da segurança. Eu atirei o boné que tinha na cabeça para cima do balcão, e expliquei atabalhoadamente à rapariga de finos cabelos loiros (num aeroporto de uma cidade qualquer, possivelmente do midwest) que Tania tinha perdido a carteira e desatei a correr atrás dela, empurrando o carrinho das bagagens atestado até à impossibilidade do equilíbrio. Encontrei-a sentada no sofá, respiração ofegante, ar triunfante de carteira na mão. No alto da sua enorme e crespa cabeleira negra, brilhando vermelho, um boné dos Cardinals.

2.
No dia em que Kurt Cobain morreu, S., um adolescente favelado do Rio de Janeiro, saía ao final da tarde das aulas quando, ao atravessar o enorme portão de ferro do ginásio, viu a sua amiga F., olhos pisados e lábios trementes, esperando ansiosa no passeio. Entre soluços, e rebentando num choro convulsivo, F. deu a S. a notícia da morte de Kurt Cobain. S. abraçou-a com força, enxugando as lágrimas que escorriam pelas faces da moça, beijando-a na testa e ao de leve nos lábios húmidos e salgados. Passearam durante horas, assim abraçados, quase sem proferir palavra, andando ao acaso pelas ruas sujas da cidade velha.
Mais tarde, depois de deixar F. no ponto do ônibus, S. começou a subir para casa. Quando lá chegou, já era noite, e a casa estava vazia. A sua mãe ainda iria demorar umas horas até chegar do trabalho, na Zona Sul. S. atirou a sacola com os livros para um canto, dirigiu-se para o seu quarto, trancando a porta atrás de si. Despiu-se, pôs no walkman uma cassete gasta e roufenha dos Nirvana, e deitou-se, de luz apagada. Masturbou-se, até adormecer.

3.
Pelo estore mal corrido entra a luz fraca e cinzenta de uma manhã de domingo de final de Inverno. Luís levanta-se e, sem fazer barulho, dirige-se à casa de banho. Molha o rosto, lava os dentes e sai do quarto, fechando cuidadosamente a porta atrás de si, de forma a que nada perturbe o sono de Sérgio, que dorme pesadamente, corpo atravessado na cama de casal.

Luís passa pela cozinha, liga a máquina de café, e vai-se sentar no chão da sala, de pernas cruzadas, em frente a uma enorme caixa de cartão. São as últimas coisas que trouxe da antiga residência dos pais, antes de a entregar, devoluta, ao agente imobiliário. Ele próprio empacotou o conteúdo desta caixa, com as coisas do seu antigo quarto de solteiro que queria guardar, mas, por alguma razão, a caixa ficara esquecida na garagem. Só na véspera, quando se encontrara com o agente, este lhe lembrou que ainda havia uma caixa de cartão na garagem com aquilo que pareciam ser coisas dele.

Sorvendo o café, Luís começou a tirar ao acaso coisas de dentro da caixa. Bilhetes de concertos, envelopes com fotografias, cadernos rabiscados, t-shirts que assinalavam momentos especiais da adolescência, um troféu desportivo, um livro de versos com uma dedicatória apaixonada. Recordações de viagens: uma pedra negra do vulcão Etna, um cinzeiro rachado de uma cervejaria de Praga, um envelope em papel vegetal com relva do estádio do Boca Juniors, um frasco de vidro com areia de uma praia africana, um boné de basebol roubado num aeroporto americano.

agosto
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O livro começa no dia primeiro de agosto de 1954, com o atentado contra o lider oposicionista Carlos Lacerda, que vitima um major da aeronáutica, seu correlegionário, e termina no dia vinte e seis do mesmo mês, dois dias depois do suicídio do presidente Getúlio Vargas (o livro tem 26 capítulos, um por cada dia). Trata-se efectivamente de um romance histórico, que nos traz a asfixiante e violenta sucessão de eventos que levam o presidente a tomar a decisão de sair de cena da forma mais dramática possível, num gesto derradeiro para se salvar a si, ou ao legado que deixaria para a história, e ao Brasil.

Neste tecido histórico e factual (e rigorosamente factual, segundo creio), Rubem Fonseca vai entretecendo a ‘pequena’ história, no caso a do comissário de polícia Alberto Mattos, melómano (de ópera) e sofredor de úlcera no duodeno (que o faz estar sempre a beber leite frio e a mastigar comprimidos de pepsamar), que investiga o assassinato de um empresário jovem e rico, dono de uma empresa que recebeu favores económicos do governo.

Há uma multiplicidade enorme de personagens, umas reais outras ficcionadas, mas uma das características do livro, e que o tornam tão notável, é que, para além de ser claro, nada confuso, todas e cada uma dessas dezenas de personagens parece fazer sentido. O romance não tem pontas soltas, pistas em aberto, tudo faz sentido, e é por isso que falo numa espécie de teia; o livro é como se fosse uma rede, uma malha, em que cada nozinho faz sentido e é necessário para a compreensão do conjunto.

E depois a escrita de Rubem Fonseca é majestática, um portento; é a maneira como ele cruza os coloquialismos com os termos mais eruditos e com aqueles que eram comuns na linguagem dos anos 50 e que hoje caíram em desuso. A sintaxe perfeita, que dá às frases uma desenvoltura quase musical. O humor, ácido e irónico. O modo como as duas narrativas são tratadas, como se fossem uma única. O ambiente negro, corrupto, sempre à beira do colapso. A carga da violência, de marca urbana, a desgastar lenta e corrosivamente.

O livro é muito bom, mas muito bom mesmo, e tem passagens geniais. O final é soberbo, uma coisa em grande, operática, um épico em que os destinos individuais e as multidões se cruzam de forma vertiginosa, e que nos conduz a um desenlace triste, violento e desalentado, anónimo e abandonado, para tudo terminar na placidez tranquila de um dia de primavera.
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provérbios
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Para justificar a chuva que tem caído sem parar, tenho visto invocar-se o velhinho provérbio “Em Abril, águas mil.”

Como este provérbio se tem mostrado tão certeiro, e atenta a experiência do último inverno, este que ainda dura, proponho a criação dos seguintes novos provérbios:
Em Dezembro, choveu sempre que me lembro.
Em Janeiro, choveu muito o mês inteiro.
Em Fevereiro, choveu tudo menos dinheiro.
Em Março, choveu que foi um embaraço.

Pronto, assim bate tudo certo e os sacanas dos provérbios acertam sempre.
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mas como se faz?
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Chovia sempre e eu custei para conseguir me levantar daquela poça de lama, chegava num ponto, eu voltava ao ponto, em que era necessário um esforço muito grande, era preciso um esforço tão terrível que precisei sorrir mais sozinho e inventar mais um pouco, aquecendo meu segredo, e dei alguns passos, mas como se faz? me perguntei, como se faz isso de colocar um pé após o outro, equilibrando a cabeça sobre os ombros, mantendo ereta a coluna vertebral, desaprendia, não era quase nada, eu, mantido apenas por aquele fio invisível ligado à minha cabeça, agora tão próximo que se quisesse eu poderia imaginar alguma coisa como um zumbido eletrônico saindo da cabeça dele até chegar na minha, mas como se faz? eu reaprendia e inventava sempre, sempre em direção a ele, para chegar inteiro, os pedaços de mim todos misturados que ele disporia sem pressa, como quem brinca com um quebra-cabeça para formar que castelo, que bosque, que verme ou deus, eu não sabia, mas ia indo pela chuva porque esse era meu único sentido, meu único destino: bater naquela porta escura onde eu batia agora. E bati, e bati outra vez, e tornei a bater, e continuei batendo sem me importar que as pessoas na rua parassem para olhar, eu quis chamá-lo, mas tinha esquecido seu nome, se é que alguma vez o soube, se é que ele o teve um dia, talvez eu tivesse febre, tudo ficara muito confuso, idéias misturadas, tremores, água de chuva e lama e conhaque no meu corpo sujo gasto exausto batendo feito louco naquela porta que não abria, era tudo um engano, eu continuava batendo e continuava chovendo sem parar, mas eu não ia mais indo por dentro da chuva, pelo meio da cidade, eu só estava parado naquela porta fazia muito tempo, depois do ponto, tão escuro agora que eu não conseguiria nunca mais encontrar o caminho de volta, nem tentar outra coisa, outra ação, outro gesto além de continuar batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, na mesma porta que não abre nunca.

- Caio Fernando Abreu, MORANGOS MOFADOS (no Kindle)

a vida no céu
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É difícil não gostar de um livro de José Eduardo Agualusa. A sua escrita é irresistível, leve e cheia de bonomia, sobretudo pelos personagens, ágil, colorida e bem-humorada. Tudo caracteristícas presentes em A Vida no Céu, uma história pós-diluviana, em que a humanidade sobrevive em artefactos aéreos, desde os imensos dirigíveis, com nomes de grande cidades, até às pequenas balsas, com nomes de lugares mais secretos. Um fio de aventura conduz a narrativa, que está cheia de boas ideias, como o dicionário nefelibata com que abre cada capítulo. O universo temático é o habitual no autor, nomeadamente o aspecto alegórico, e as referências geográficas são fieis ao mundo onde se fala português. Achei, todavia, o livro demasiado fácil, até um pouco preguiçoso na sua concretização. Lê-se quase como se fosse um simples divertimento, e se é verdade que há divertimentos que resultam em grandes obras, francamente não me pareceu ser o caso. É Agualusa, sem dúvida, e para quem gosta do autor, e muito, como eu, ele cumpre, mas não deixa de provocar saudades por outras obras suas mais substanciais.

recordações da malásia
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O escritor José Luís Peixoto tem uma página na plataforma Instagram, onde, entre outras, vai publicando fotografias das suas viagens; e Peixoto é um grande viajante, como já sabemos através do relato que escreveu sobre a primeira das suas viagens à Coreia do Norte.

Neste momento o escritor está a viajar pela Malásia (hoje publicou fotos sobre o grande prémio de F1); além de Kuala Lumpur, já pôs fotos de Putrajaya, a cidade construída para ser sede de governo (da mesquita, que eu visitei e onde tirei fotografias com um vestidinho cor de rosa que tive de pôr porque estava de calções), e de Malaca, onde ainda são visíveis, e audíveis, as marcas da presença dos portugueses. E de KL, fotos das Batu Caves, de Bukit Bintang, além das icónicas e incontornáveis Torres Petronas.

Tudo lugares que visitei em novembro de 2006, durante as quase três semanas que lá passei, de férias. Foi uma viagem um pouco estranha, onde ganhei uma grande amiga e perdi outra; onde havia sempre um clima de grande tensão, e por vezes mesmo de conflito aberto e agressivo; onde algumas vezes desanimei e me arrependi de ter ido e desejei que acabasse depressa.

Mas foi uma estadia muito intensa e que deixou recordações muito fortes e impressivas. Tive a oportunidade rara de andar no meio das pessoas, de apanhar os transportes públicos, de comer nos restaurantes onde as pessoas iam todos os dias, sobretudo jantar, de viajar de carro e num incrivel comboio nocturno, de conhecer muitas pessoas, que deixaram em mim uma marca que nunca esmoreceu. O ponto é que tenho muitas saudades dessas férias, e as fotos que José Luís Peixoto tem posto no Instagram têm-me ajudado a perceber que essa viagem à Malásia foi das melhores que eu fiz. Razão para estar sempre muito grato às minhas amigas com que a partilhei, mesmo que com uma delas, essa viagem tenha significado um corte definitivo.

O link para o Instagram de José Luís Peixoto é o seguinte: instagram.com/joseluispeixoto

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edit: em especial para o João Máximo, aqui fica uma foto da visita à mesquita de Putrajaya.

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hamlet em pessoa
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O espectáculo de ontem das Quintas do Conservatório foi também uma maneira de assinalar o dia mundial do teatro: Hamlet em Pessoa, uma visita a poetas e poemas portugueses influenciados pela peça da W. Shakespeare, ou apenas que glosam o tema da morte e do fascínio pela noite eterna. Abrindo com um breve poema de Borges, e sem contar com as referências ao texto de Hamlet, houve poemas de, entre outros, Pessoa e seus heterónimos, Mário de Cesariny, Jorge de Sena, Pascoaes, Antero, António Nobre, Alberto Pimenta ou Alexandre O’Neill.

O André Gago é um extraordinário actor e isso notou-se nesta apresentação de poemas, além de ser simpático e charmoso. Gostei muito de o ouvir dizer os poemas, alternando entre um registo mais neutro, de diseur, e outro de actor, mais dramático.

Mas tenho de confessar que o que mais gostei na noite de ontem foi do Carlos Barreto, que é um contrabaixista fabuloso e um improvisador genial. Ainda que à partida o seu papel no espectáculo fosse um pouco acessório, servindo de contraponto ou mesmo de acompanhamento, ao actor e às palavras dos poetas, houve três ou quatro momentos em que o contrabaixista roubou nitidamente o palco: não só aqueles em que tocou sozinho, mas mesmo naqueles em que, de repente, a sua voz tornava.-se mais interessante e fascinante do que a dos poetas.

aquário
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Às vezes quando vou nadar, partilho a piscina com o treino dos rapazes e raparigas do hóquei subaquático. Normalmente na piscina de 50 mts, que, como é tão grande, mal dá para me aperceber da sua presença. Mas uma destas noites partilhámos a piscina de 25 e aí sim, eles estão a treinar mesmo ao meu lado e é impossível não dar por eles e pelos seus movimentos no fundo da piscina. Gosto particularmente de quando eles se juntam numa das extremidades da piscina e receber instruções do treinador, vistos de dentro da água, as longas barbatanas agitando-se suavemente para suster a flutuação. É tão bonito. É como estar dentro de um aquário enorme a observar o suave movimento dos peixes, esse que por vezes é tão parecido com o voo das aves.

morangos mofados
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Vai fazer no próximo mês dez anos que o Saint-Clair me deu a conhecer a obra de Caio Fernando Abreu. Faltava-me ler Morangos Mofados, talvez a obra mais conhecida de Caio F e uma das preferidas do Saint. Li finalmente o livro e trata-se de uma obra verdadeiramente extraordinária, um conjunto de dezoito contos, divididos em duas partes (O Mofo e Os Morangos), por um critério não exactamente literário, mas sobretudo afectivo: os contos mais desesperados para um lado, os mais esperançados para outro. Mas todos eles muito bons. Alguns dos contos eu já conhecia, ou de colectâneas do autor, ou porque o Saint mos tinha dado a conhecer (por exemplo, o Sargento Garcia, que eu devo ter em ficheiro algures no meu computador).

Para além do prazer da leitura, pude ainda constatar, tantos anos depois de ter lido mais intensamente outras obras de Caio F, o quanto, e o porquê, de a minha escrita ser tão inspirada na de Caio. Há um nervo nos contos de Caio que me toca muito e, se eu analisar bem, é aquilo que eu procuro quando escrevo. Pude também constatar o quanto o próprio Saint era influenciado por este livro, sei lá, na maneira de organizar a colectânea, no modo de conceber os contos e de os apresentar.

O que eu quero dizer com isto é que a leitura de Morangos Mofados tornou muito evidente para mim a forte influência que conhecer a obra de Caio teve naquilo que eu escrevo (ou escrevia), na maneira de olhar a literatura, ou mesmo até na minha vida, no modo como eu lido com as emoçoes e os sentimentos. Lastimo não o ter lido há mais tempo, mas como todas as grandes revelações, a sua chegada não é tardia.
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august: osage county
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Fui no fim de semana passado ver August: Osage County, um filme realizado por John Wells com base numa peça de teatro de Tracy Letts, que assinou a adpatação. Esta proveniência teatral é, ao mesmo tempo, uma fragilidade do filme, porque nunca consegue descolar do dispositivo dramatúrgico, mas também a sua mais-valia, porque ajuda a criar tensão entre as personagens, uma família no momento em que o desaparecimento do patriarca provoca o desmoronar das máscaras, e é essa tensão que sustém e conduz a narrativa.

Num filme de ensemble, tudo gira, porém, em torno de duas personagens, a mãe e a filha mais velha, que constituem veículos para um trabalho de actrizes: Meryl Streep, sempre excelente, e Julia Roberts, que consegue dar intensidade e mistério à sua protagonista; estas duas personagens são, de certo modo, duplas uuma da outra, mas também antagonistas, e é neste conflito, a que as duas protagonistas dão firmeza, que se faz o filme.
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poemas homoeróticos escolhidos
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O AMOR DOS HOMENS MAIS VELHOS

Eles são sempre tocantes em
sua tristeza, ternura e ansiedade,
todos os tristes homens idosos
que um dia foram tristes rapazes.

Como não se emocionar
com seu isolamento e desolação,
seus ténues sonhos e esperança
de um amor, um novo amor, uma amizade?

Os mais pobres e feios ainda anseiam
por um calor humano passageiro, um toque,
um aperto de mão, a sensação, o deleite
da nudez de um outro, de sua força e graça
enriquecendo toda aquela pobreza, vazio e morte.

Amizade é apenas para os jovens
mas também deveria ser para os velhos.
Os velhos precisam mais de amigos
que os jovens, que os têm em excesso.

Quando eu era mais jovem e de boa aparência
sempre me oferecia aos homens idosos.
Eu também saía com outros rapazes, às vezes,
mas pelos velhos sentia um amor especial.
Eu costumava me sentir como um radioso anjo louro
que descia ao mundo para libertá-los da
escuridão de suas moradas insalubres,
da cansativa procura nos parques, nas saunas,
da espera paciente, costas doridas, tornozelos inchados,
de pé no fundo escuro das salas de cinema.

Fátua juventude! E no entanto do fundo do coração,
eu apenas queria que eles fossem amados
tanto quanto eu o era. E mais importante:
eu vinha ao encontro deles e eles
nunca me rejeitavam, como os jovens às vezes faziam
com sua frivolidade, capricho e mesquinharia.

Os velhos são sempre sérios. Eles têm que ser.
Era por isso, em parte, que eu os amava.

Minha mocidade passou, eu ainda amo os homens idosos,
mas não existem mais à minha volta, como outrora,
anjos radiosos como o que eu fui em meus dias dourados.


- James Kirkup; tradução de Paulo Azevedo Chaves


O mais recente lançamento da Index ebooks é uma colectâena de poesia homoerótica, da autoria de Paulo Azevedo Chaves e Raimundo de Moraes, e que inclui, além, de poemas dos autores, uma curta selecta de poemas traduzidos, e, em jeito de homenagem, dois poemas de António Botto e de Cassiano Nunes. Entre os poemas traduzidos, contam-se autores como Cavafy, Garcia Lorca ou Walt Whitman. Como sempre o livro é gratuíto, e pode ser adquirido através do seguinte link: www.indexebooks.com/poemas-homoeroticos-escolhidos.html

Gostei muito do volume, dos textos dos dois autores, e sobretudo das traduções, nomeadamente de alguns poemas que já conhecia. E gostei principalmente de um poema chamado, no original, The Love of Older Men, da autoria do inglês James Kirkup. Não conhecia o poema nem sequer, tanto quanto me recordo, tinha ouvido falar no seu autor. Fui pesquisar, e aprendi que Kirkup, que faleceu em 2009, com 91 anos, além de poeta era tradutor e escritor de livros de viagens, e foi o protagonista do último processo por blasfémia que teve lugar no Reino Unido, em 1976, por publicar um poema que contava uma história de amor entre um centurião romano e o Cristo, e que é 'consumado' quando o Cristo, já morto, é descido da cruz e fica à sua guarda. Intitula-se The Love That Dares To Speak It’s Name, é de facto um poema fortíssimo, e não admira que tenha sido tão polémico. É muito fácil de encontrar na net, por isso prefiro pôr aqui o texto original em inglês do poema The Love Of Older Men; apesar da óptima tradução, é sempre mais belo um poema lido na língua em que foi escrito.

THE LOVE OF OLDER MEN

They are so moving in
their sadness, gentleness and longing -
all the sad old men who once
were all the sad young men.

How can you not be moved
by their loneliness and desolation -
their faint dreams and hopes
of love, a new love, a friendship?

The poorest and the ugliest still long
for just a passing warmth, a touch,
the clasp of hands, the feel, the joy
of another’s nakedness and strength and grace
enriching all that poverty and emptiness and death.

Friendship is only for the young.
But it should be for the old also.
The old have more need of friends
than the young, who have too many.

When I was young and better-looking
I always offered myself to old men.
I had young men too, sometimes, but
with the old I felt a special love.
I used to feel like a radiant blond angel
coming down to deliver them from
the darkness of their stinking cottages,
the weary wanderings of the parks, the baths,
patient waiting with aching backs and swollen ankles
in the dark at the back of the movies.

Fatuous youth! And yet my foolishness
came from the heart: I wanted them to be loved
as much as I was. And even more important -
I came to them, and they
never denied me, as the young so often did
in their caprice and frivolity and meanness.

The old are always serious. They have to be.
It was for that I loved them.

Now I am older, I still love older men,
but there are no young angels
like the one I was in my golden days.

hav
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hav

Hav, a única obra de ficção de Jan Morris, reune dois livros escritos com vinte anos de intervalo, sobre o mesmo lugar imaginário, a cidade-estado de Hav, localizada na costa mediterrânica da Ásia Menor, entre a Turquia e a Síria: Últimas Cartas do Hav, de 1985, e Hav dos Mirmidões, de 2005.

Um dos aspectos interessantes de Últimas Cartas do Hav, é Jan Morris nunca tratar a cidade como se fosse inventada. Ao invés de nos dar pormenores para contextualizar, Morris parte do princípio de que há informação que é do conhecimento comum (a começar pela sua localização exacta), e por isso não tem a preocupação de no-la transmitir. O livro é um travelogue, um livro de viagens, e não um guia turistico, por isso não há necessidade de nos dizer como é que se pede um copo de água ou o horário de expediente dos bancos.

Só li anteriormente dois livros de Morris, sendo um deles uma memória, Cunundrum, sobre a sua transexualidade, e o famoso Veneza, um dos mais conceituados livros sobre a cidade italiana. Ora, Últimas Cartas do Hav é, nesse aspecto, muito parecido com Veneza, na densidade, nas impressões, no tom, nos pormenores; o que o torna numa obra ainda mais notável e fascinante.

O livro carrega uma imensidade de simbolismos e informações codificadas, mas mesmo sem estarmos apetrechados a descodificá-lo por inteiro, trata-se de um livro sedutor e divertido, que nos remete tanto para o universo da grande literatura de viagens, como para o universo dos escritores do mistério, como Borges.

Hav dos Mirmidões, por outro lado, aproxima-se mais da literatura fantástica, ao encenar aquilo que é essencialmente uma distopia, moldada à imagem do mundo pós-11 de setembro, aliando o fundamentalismo ideológico de raiz religiosa à assepsia tecnológica, e servida por uma linguagem oficial ingénua e intolerante à dissidência.

Apesar da actualidade, esta distopia de Jan Morris não tem a grandiosidade de obras clássicas da literatura como 1984, nem, apesar da aridez do regime, a violência opressiva dessas outras obras. E em parte isso tem a ver com a pessoa da própria escritora, que é, em ambos os livros, e na sua qualidade de escritora de viagens, a personagem principal dos relatos. O humor luminoso e irónico de Morris, o seu olhar amistoso e quase evanescente (que todavia nunca deixa de ser profundo e cirúrgico), impedem de facto que o leitor sinta o peso da opressão distópica.

A Jan Morris é considerada uma das melhores escritoras inglesas da actualidade, mas assim do top 20, num país com muitas dezenas de bons escritores. Este Hav, cuja edição portuguesa, da Tinta da China, tem uma capa belíssima, entrou, pelo menos, no meu top pessoal dos livros favoritos de sempre.

adolfo suarez
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innersmile
Quem tem idade e memória não pode ficar indiferente à morte de Adolfo Suarez, ontem, em Espanha. Deve-se ao antigo primeiro-ministro, juntamente com o rei Juan Carlos e com Santiago Carrillo, líder do PC e da oposição, o protagonismo da transição política, social e económica, da Espanha franquista para o regime democrático. Uma transição feita verdadeiramente a ferro e fogo, contra a poderosa resistência dos franquistas e a radicalização política, que em Espanha significou verdadeira e efectiva violência política: da ETA, da extrema-direita, da Grapo, de todos os lados.

E em 1981, quando se demitiu do governo, Suarez protagonizou ainda outro momento histórico, marcando a sua saída com a coragem e a frieza com que tinha sido governante. No dia 23 de fevereiro de 1981, a sessão do parlamento espanhol que deveria escolher o sucessor de Suarez na presidência do governo, o seu ex-ministro Calvo Sotello, foi interrompida por uma tentativa de golpe de estado, protagonizada por um grupo de guardas civis. Tejero Molina, o chefe dos guardas, faz um disparo para o ar e manda todos deitarem-se no chão. Do lado do governo, apenas Adolfo Suarez e o seu ministro da defesa, um militar mais graduado que o tenente-coronal da Guardia Civil, permanecem sentados. Do lado da oposição, Santiago Carrillo permanece tranquilamente sentado, se não estou em erro fumando um cigarro. A tentativa de golpe fracassaria na madrugada seguinte quando o rei se distancia e, na qualidade de comandante supremo das forças armadas, vem à televisão garantir que respeitará a constituição.

Este momento ajudou a tornar inesquecível a figura de Suarez, tal como a de Carrillo e a do próprio rei. Não sou saudosista nem é o tipo de discurso de que gosto, mas são de facto personagens de um tempo que já passou, em que os homens de estado tinham a capacidade, a sabedoria e sobretudo a coragem de se elevarem acima de si próprios, e de responderem com grandeza e sentido de futuro nos momentos decisivos em que a história lhes fazia apelo.
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a naifa
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innersmile
No primeiro concerto d’A Naifa a que assisti, aqui há uns dois anos, senti que foi assim uma espécie de conversão: saí do concerto absolutamente rendido ao universo musical da banda, ao seu imaginário poético, às melodias complexas e subtis, aos arranjos simples e imaginativos. E ontem à noite, no Cine-Teatro de Estarreja a sensação que tive é que muita gente que foi ao concerto assim um pouco às apalpadelas, também saiu de lá completamente submetido ao mundo d’A Naifa. A própria banda, pareceu-me, estava um pouco surpreendida com a receptividade do público (a Maria António referiu que era a primeira vez que tocavam em Estarreja) que, a princípio, esta um bocadinho de pé atrás, mas depois foi aderindo num crescendo, e o final foi em verdadeiro clima de festa.

Claro, ajudou muito o facto de algumas canções do mais recente disco serem muito familiares, nomeadamente a Tourada e a Desfolhada Portuguesa, nas quais o público participou de forma muito espontânea. Mas o que é notável n’A Naifa, uma banda com uma identidade muito marcada, é a maneira como sabem trazer esses temas tão conhecidos para o universo sonoro da banda.

Tudo foi bom. A música, o público, até o facto de se tratar de um concerto visualmente muito bonito. Enfim, se eu já era fã d’A Naifa, ontem acho que fiz a primeira comunhão. Mal posso esperar pelo crisma.

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edit:
Ora aqui vai um printscreen da página do facebook d'A Naifa, com uma foto e um comentário ao concerto de ontem.

anaifa
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sem rede
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innersmile
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Mas sabes principalmente, com uma certa misericórdia doce por ti, por todos, que tudo passará um dia, quem sabe tão de repente quanto veio, ou lentamente, não importa. Por trás de todos os artifícios, só não saberás nunca que nesse exacto momento tens a beleza insuportável da coisa inteiramente viva. Como um trapezista que só repara na ausência da rede após o salto lançado, acendes o abajur no canto da sala depois de apagar a luz mais forte no alto. E finalmente começas a falar.

- Caio Fernando Abreu, MORANGOS MOFADOS (no Kindle)


caio f, os sobreviventes
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Graças à minha amiga Margarida consegui finalmente deitar a mão a Morangos Mofados, talvez o livro de contos de Caio Fernando Abreu mais celebrado e popular, e que eu desejava ler há anos, desde que o meu saudoso mestre Saint-Clair me revelou a obra de Caio F, uma das que mais inspirou a minha vida.

Comecei logo a ler o livro, sem esperar terminar a leitura do que já estava a ler; mas como também estou a gostar muito deste, e não o queria pôr de lado, a solução é estar a ler os dois alternadamente. O ponto é que mal comecei a ler, logo à segunda narrativa, o conto Os Sobreviventes revelou todas as razões porque eu gosto tanto deste autor. Ainda por cima o conto é ‘inspirado’ pelas canções de Ângela Rô Rô (a forte ligação à música popular é uma das características marcantes da literatura de Caio F), e contém referências explícitas a algumas canções, nomeadamente a Preciso Tanto, do álbum Só Nos Resta Viver, um disco que eu adoro (também já escrevi um conto, que está no meu livro, onde uma das canções deste disco é protagonista). E o amor pela música de Rô Rô era outra das coisas que eu e o Saint partilhávamos.

Trago para aqui muitas vezes excertos de livros que leio, mas desta vez vou aqui por o texto integral do conto de Caio Fernando Abreu, os Sobreviventes. É um pouco longo, eu sei, mas também só lê quem quer. E é tão bom, tão bom, tão intenso e profundo, e “fala tanto comigo” (até no Sri Lanka), que não resisto mesmo a guardá-lo aqui.


OS SOBREVIVENTES (para ler ao som de Ângela Rô Rô)


Para Jane Araújo, a Magra


SRI LANKA, quem sabe? Ela me diz, morena e ferina, e eu respondo por que não? mas inabalável continua: você pode pelo menos mandar cartões-postais de lá, para que as pessoas pensem nossa, como é que ele foi parar em Sri Lanka, que cara louco esse, hein, e morram de saudade, não é isso que te importa? uma certa saudade: em Sri Lanka, brincando de Rimbaud, que nem foi tão longe, para que todos lamentem ai como ele era bonzinho e nós não lhe demos a dose suficiente de atenção para que ficasse aqui entre nós, palmeiras e abacaxis. Sem parar, abana-se com a capa do disco de ngela enquanto fuma sem parar e bebe sem parar sua vodka nacional sem gelo nem limão. Quanto a mim, a voz rouca, fico por aqui comparecendo a atos públicos, entre uma e outra carreira, pixando muros contra usinas nucleares, em plena ressaca, um dia de monja, um dia de puta, um dia de Joplin, um dia de Tereza de Calcutá, um dia de merda enquanto seguro aquele maldito emprego de oito horas diárias para poder pagar essa poltrona de couro autêntico onde neste exato momento vossa reverendíssima assenta sua preciosa bunda e essa exótica mesinha de centro em junco indiano que apóia vossos fatigados pés descalços ao fim de mais uma semana de batalhas inúteis, fantasias escapistas, maus orgasmos e crediários atrasados. Mas tentamos tudo, eu digo, e ela diz que sim, claaaaaaaro, tentamos tudo, inclusive trepar, porque tantos livros emprestados, tantos filmes vistos juntos, tantos pontos de vista sócio político artístico filosófico existenciais e bababá em comum só podiam dar mesmo nisso: cama. Realmente tentamos, mas foi uma bosta. Que foi que aconteceu, eu pensava depois acendendo um cigarro no outro, e não queria lembrar mas não me saía da cabeça o teu pau murchos e os bicos do meus seios que nem sequer ficaram duros, pela primeira vez na vida, você disse, e eu acreditei, pela primeira vez na vida, eu disse, mas não sei se você acreditou. Quero dizer que sim, que acreditei, mas ela não pára, tanta tesão mental espiritual moral existencial e nenhuma física, e eu não queria aceitar que fosse isso: éramos diferentes, ai como éramos diferentes, éramos melhores, éramos mais, éramos superiores, éramos escolhidos, éramos vagamente sagrados, mas no final das contas os bicos dos meus peitos não endureceram e o teu pau não levantou, cultura demais mata o corpo da gente, cara, filmes demais, livros demais, palavras demais, só consegui te possuir me masturbando, tinha a biblioteca de Alexandria separando nossos corpos, enfiava fundo o dedo na buceta noite após noite pedindo mete fundo, coração, explode junto comigo, depois virava de bruços e chorava no travesseiro porque naquele tempo ainda tinha culpa nojo vergonha, mas agora tudo bem, o Relatório Hite liberou a punheta. Não que fosse amor de menos, você dizia depois, ao contrário, era amor demais, você acreditava mesmo nisso? Naquele bar infecto onde costumávamos afogar nossas impotências em baldes de lirismo juvenil, imbecil, e eu disse não, o que acontece é que como bons-intelectuais-pequeno-burgueses o teu negócio é homem e o meu é mulher, podíamos até formar um casal incrível, tipo aquela amante de Virginia Woolf, como era mesmo? Vita, Vita Sackville-West e o veado do marido, não se erice, queridinho, não tenho nada contra veados, me passa a vodka, o quê? e eu lá tenho grana pra comprar wyborowas? não tenho nada contra lésbicas, não tenho nada contra decadentes em geral, não tenho nada contra qualquer coisa que soe a: uma tentativa. Peço cigarro e ela me atira o maço na cara, com que joga um tijolo, ando angustiada demais, meu amigo, palavrinha antiga essa, angústia, duas décadas de convívio cotidiano, mas ando, ando, tenho uma coisa apertada aqui no meu peito, um sufoco, uma sede, um peso, não me venha com essas história de atraiçoamos-todos-os-nossos-ideais, nunca tive porra de ideal nenhum, só queria era salvar a minha, veja só que coisa mais individualista elitista, capitalista, só queria ser feliz, cara. Podia ter dado certo entre a gente, ou não, afinal você naquele tempo ainda não tinha se decidido a dar a bunda, nem eu a lamber buceta, ai que gracinha nossos livrinhos de Marx, depois Marcuse, depois Reich, depois Castañeda, depois Laing embaixo do braço, aqueles sonhos colonizados nas cabecinhas idiotas, bolsas na Sorbonne, chás com Simone e Jean-Paul nos 50, em Paris; 60 em Londres ouvindo here comes the sun here comes the sun, little darling; 70 em Nova Iorque dançando disco-music no Studio 54; 80 a gente aqui, mastigando essa coisa porca sem conseguir engolir nem cuspir fora em esquecer esse gosto azedo na boca. Já li tudo, cara, já tentei macrobiótica psicanálise drogas acupuntura suicídio ioga dança natação Cooper astrologia patins marxismo candomblé boate gay ecologia, sobrou só esse nó no peito, agora o que faço? Não é plágio do Pessoa, mas em cada canto do meu quarto tenho uma imagem de Buda, uma de mãe Oxum, outra de Jesuzinho, um pôster de Freud, às vezes acendo vela, faço reza, queimo incenso, tomo banho de arruda, jogo sal grosso nos cantos, não te peço solução nenhuma, você vai curtir os seus nativos de Sri Lanka depois me manda um cartão-postal contando qualquer coisa como ontem à noite, à beira do rio, deve haver um rio por lá, um rio lodoso, cheio de juncos sombrios, mas ontem na beira do rio, sem planejar nada, de repente, por acaso, encontrei um rapaz de tez azeitonada e olhos oblíquos que. Hein? claro que deve haver alguma espécie de dignidade nisso tudo, ,a questão é onde, ,não nesta cidade escura, não neste planeta podre e pobre, dentro de mim? Ora não me venhas com autoconhecimentos-redentores, já sei tudo de mim, tomei mais de cinqüenta ácidos fiz seis anos de análise, já pirei de clínica, lembra? você me levava maçãs argentinas e fotonovelas italianas, Rossana Galli, Franco Andrei, Michela Roc, Sandro Moretti, eu te olhada entupida de mandrix e babava soluçando perdi minha alegria, anoiteci, roubaram minha esperança, enquanto você, solidário e positivo, apertava meu ombro com sua mão apesar de tudo viril repetindo reage, companheira, reage, a causa precisa dessa tua cabecinha privilegiada, teu potencial criativo, tua lucidez libertária, bababá bababá. As pessoas se transformavam em cadáveres decompostos à minha frente, minha pele era triste e suja, as noites não terminavam nunca, ninguém me tocava, mas eu reagi, despirei, e cadê a causa, cadê a luta, cadê o potencial criativo? Mato, não mato, atordôo minha sede com sapatinhos do Ferro’s Bar ou encho a cara sozinha aos sábados esperando o telefone tocar, e nunca toca, ouvindo samba-canção e blues com caipira de vodka, neste apartamento que pago com o suor do potencial criativo da bunda que dou oito horas diárias pra aquela multinacional fodida. Mas eu quero dizer, e ela me corta mansa, claro que você não tem culpa, coração, caímos exatamente na mesma ratoeira, a única diferença é que você pensa que pode escapar, eu quero chafurdar na dor deste ferro enfiado fundo na minha garganta seca, me passa o cigarro, não estou desesperada, ,não mais do que sempre estive, não estou bêbada nem louca, estou é lúcida pra caralho e sei claramente que não tenho nenhuma saída, não se preocupe, depois que você sair tomo banho frio, leite quente com mel de eucalipto e gin-seng, depois deito, depois durmo, depois acordo e passo uma semana a ban-chá e arroz integral, absolutamente santa, absolutamente pura, absolutamente limpa, depois tomo outro porre, cheiro cinco gramas, bato o carro numa esquina ou ligo para o CVV às quatro da madrugada e alugo a cabeça dum panaca qualquer choramingando coisas do tipo preciso-tanto-de-uma-razão-para-viver-e-sei-que-esta-razão-só-está-dentro-de-mim-bababá-bababá, até o sol pintar atrás daqueles edifícios, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais destrutiva que insistir sem fé nenhuma? Passa devagar a tua mão na minha cabeça, no meu coração, eu tive tanto amor um dia, pára e pede, preciso tanto, tanto, tanto, bicho, não me permitiram, então estendo os dedos e ela fica subitamente pequenina apertada contra meu peito, perguntando se está mesmo muito feia e meio puta e muito velha e completamente bêbada, eu não tinha essas marcas em volta dos olhos, eu não tinha esses vincos em torno da boca, eu não tinha esse jeito de sapatão cansado, e eu repito que não, que está linda assim, desgrenhada e viva, ela pede que eu coloque uma música e escolho o Noturno número dois em mi bemol de Chopin, quero deixá-la assim, dormindo no escuro, sobre este sofá, ao lado das papoulas quase murchas, embalada pelo piano remoto como uma canção de ninar, mas ela se contrai violenta e peded que eu ponha Angela outra vez, então viro o disco, amor meu grande amor, caminhamos tontos até o banheiro onde sustento sua cabeça sobre a privada para que vomite, e sem querer vomito junto, ao mesmo tempo, os dois abraçados, bocas amargas, fragmentos azedos sobre as línguas, ela puxa a descarga e vai me empurrando para a porta, pedindo que me vá, e me expulsa para o corredor dizendo não esqueça então de mandar um cartão de Sri Lanka, aquele rio lodoso, aquela tez azeitonada, que aconteça alguma coisa bem bonita para você, te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa, não importa o quê, como aquela fé que a gente teve um dia, me deseja também uma coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar em tudo de novo, que nos faça acreditar em todos de novo, que leve para longe da minha boca esse gosto podre de fracasso, de derrota sem nobreza, não tem jeito, companheiro, nos perdemos no meio da estrada e nunca tivemos mapa algum, ninguém dá mais carona e a noite já vem chegando. A chave gira na porta. Preciso me apoiar contra a parede para não cair. Atrás da madeira, misturada ao piano e à voz rouca de Angela, nem que eu rastejasse até o Leblon, consigo ouvi-la repetindo que tudo vai bem, tudo continua bem, tudo muito bem, tudo bem. Axé, axé, axé! eu digo e insisto, até o elevador chegar. Axé, odara!


- Caio Fernando Abreu, in MORANGOS MOFADOS (no Kindle)

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