churchill
rosas
innersmile
Realizado por Jonathan Teplitzky, Churchill é uma visão um pouco inesperada do mais célebre político da história da Inglaterra, e um dos maiores (o maior?) estadistas mundiais do século XX. O filme debruça-se sobre os três ou quatro dias que antecedem o famoso Dia D, o dia do desembarque nas praias da Normandia das tropas aliadas, sob orientação estratégica dos generais norte-americanos, para iniciarem o ataque a Hitler na Frente Ocidental, a libertação de França e da Europa e a derrota da Alemanha nazi.

E digo que o filme é inesperado porque nos apresenta uma visão, suportada em factos históricos, do outro lado do herói: Churchill de facto opunha-se ao desembarque, achava que se tratava de um profundo erro de estratégia militar, e que tal operação comprometia as hipóteses de vitória no conflito. A imagem que o filme dá de Winston Churchill é de um homem fora do tempo, amedontrado pelos seus próprios fantasmas, vítima da decadência pessoal, física e psíquica, tentando manter-se à altura do mito, em confronto com os generais norte-americanos, e que apenas recua na sua obstinação porque a isso é forçado pelo rei George VI.

O filme honra a tradição do cinema inglês dos filmes de época, tem dois desempenhos absolutamente notáveis, de Brian Cox e Miranda Richardson, nos papeis de Winston e Clementine Churchill, com natural destaque para Cox, cujo trabalho é assombroso e justificaria, só por si, a visão do filme. A justificar atenção especial é, também, a banda musical da autoria de Lorne Balfe, excelente, tal como o trabalho de David Higgs na cinematografia.

Não terá lugar entre as obras primas do cinema, mas Churchill é, não obstante, um belíssimo filme, que questiona a nossa assumpção da história e é capaz de criar conflito. Contar bem uma boa história: não é isso que se pede a um bom filme?
Tags:

vitória
rosas
innersmile


No domingo, fiz a viagem de regresso a casa sob um calor imenso. É verdade que escolhi viajar à hora de maior calor, mas preferi regressar mais cedo e evitar o trânsito de final de mini-férias que se faria sentir mais ao final da tarde. Além disso, fiz a viagem sob uma certa tensão, por causa do clima de tragédia que se vivia no país, ansioso por chegar a casa, e pôr-me a salvo de uma certa noção, psicológica mais do que real, de perigo.

Mas foi uma viagem tranquila. Ouvi três discos ao longo dessas quase cinco horas de viagem (com duas paragens, uma para meter combustível, em pleno Alentejo, e outra para almoçar). Primeiro, o Vestida de Nit, da Sílvia Pérez Cruz, que se confirmou um disco belíssimo, com arranjos fantásticos para quinteto de cordas, e onde a Sílvia apresenta um lote de excelentes canções, entre elas algumas versões muito originais. Já tinha ouvido o disco, é claro, e várias vezes, mas ainda não nestas condições que eu adoro: sozinho, a conduzir o automóvel, sem interrupções do princípio ao fim (só repetindo algumas canções), concentrado na música, mas também atento à estrada e ao que se ia passando à minha frente.

Os outros dois discos foram habitués. O disco do encontro entre Vinícius de Moraes e Amália Rodrigues, em Lisboa, em 1967, a gravação de um serão em casa da fadista, com poesia, samba e, naturalmente, muito fado. É um dos discos da minha vida, está presente desde que eu era criança e sempre sempre o ouvi. O outro foi o cd da Marisa Monte, O Que Você Quer saber de Verdade, um disco que entrou recentemente na minha vida, mas que ocupa um lugar muito prazeroso, com um lote de canções pop daquelas que parece que co/a/ntam a nossa vida.

A propósito destes discos, fiquei a pensar no lugar que ficamos a ocupar nas vidas uns dos outros, depois de sairmos delas. Se oferecemos a alguém um fado da Amália, ou seja, uma coisa completamente intangível, que vive apenas da intenção, do gesto imponderável, que espécie de reverberação, se alguma, essa coisa fica a emitir nessa vida que se perdeu da nossa? E esse fado da Amália, mudou alguma coisa pelo facto de um dia o termos oferecido a alguém? Ainda é nosso? E de que maneira? Todo ele? Mais ou menos, do que já era?

Os dias lá em baixo foram, apesar do calor e da minha dificuldade em lidar com ele, muito bons. Tranquilos, no aconchego da amizade, com belas refeições, os meus sobrinhos-netos que estão sempre mais famosos (o meu baby mais novo já diz uma palavra em alemão, um espectáculo), e uma coisa que me soube tão bem: a companhia de um cão, no caso, de uma cadela: meiga, mimalha, esperta, brincalhona. Apaixonamo-nos mutuamente. Foram uns dias de férias deliciosos. Foram as férias com a Vitória.

paula rego, histórias e segredos
rosas
innersmile
Vi a semana passada, em dvd, o filme Paula Rego, Histórias e Segredos, realizado por Nick Willing, filho da pintora. Tenho de começar por dizer que as artes plásticas, de uma forma geral, não me convocam de forma inapelável. Nunca me “eduquei” como deve ser e por isso, na maior parte dos casos, olho para as artes plásticas com alguma indiferença emocional (há excepções, claro, estou a pensar, assim de repente, nas esculturas de Rui Chafes, nas fotografias de Duane Michals, ou nos quadros de David Hockney).

E confesso que nunca tinha prestado grande atenção ao trabalho da Paula Rego, até ver este filme de Nick Willing, que despertou em mim a vontade de me pôr a olhar, infinita e fascinantemente, para os quadros. Percebe-se como a vida da artista está contada nas suas pinturas, como ela, de facto, se escondeu toda a vida revelando-se e expondo-se no seu trabalho.

O filme ensinou-me a “ler” as histórias que os quadros contêm. Não as histórias da própria Paula Rego, a história por detrás dos quadros por assim dizer, mas o perceber o seu potencial narrativo, como os quadros escondem e revelam histórias e segredos, precisamente da mesma maneira como um escritor usa a sua biografia para se esconder nas narrativas que cria. Não me quero comparar, é claro, mas é isso que eu procuro sempre fazer naquilo que escrevo, uma história onde esteja o pedaço da minha vida que eu preciso de resolver, mas de uma maneira que aquilo já não seja a minha vida mas a de quem está a ler.
Tags:

alegre e o prémio camões
rosas
innersmile
Confesso que me chocaram algumas reacções ao anúncio da atribuição do Prémio Camões a Manuel Alegre. E não me refiro às habituais bocas “políticas” no facebook a propósito do passado antifascista de Alegre, ou do facto de ser um histórico do Partido Socialista, ou mesmo por ser um dos símbolos do regime que saiu do 25 de Abril. Isso não passa da espuma das redes sociais que, para ser franco, dizem mais acerca do povo a que pertence quem as manda do que ao povo a que pertencem os seus destinatários (às vezes pensamos que é o mesmo, mas a maior parte das vezes não parece!)

Refiro-me antes às bocas dos chamados literatos, que constestaram a atribuição do prémio por razão do valor da poesia de Alegre, ou da falta dele. Não cito nomes, claro, há muito que aprendi a fugir das polémicas, mas cheguei a ler num blog que a atribuição do prémio era uma má notícia e uma vergonha.

Não sou admirador da poesia de Manuel Alegre. Nunca fui um seu leitor. Conheço, como é evidente, em particular a poesia do tempo e de cariz antifascista, nomeadamente a do livro Praça da Canção, que tenho e li. E por muito que se não goste da poesia de Alegre, há de reconhecer-se que pelo menos alguns dos seus poemas têm lugar no cancioneiro da poesia portuguesa, mesmo que seja num capítulo específico desse cancioneiro, o da luta contra a ditadura e da guerra colonial.

É evidente que a atribuição deste prémio a Manuel Alegre tem um peso e um significado institucional. E suponho que seja isso, se calhar até mais do que questões de gosto, que anima os seus detractores. Sentirem-se assim uma espécie de Almada em modo de manifesto anti-Dantas. Mas a maledicência, o comentário soez, a necessidade de deixar explícita a demarcação, parecem aproximar bastante os literatos do nível das polémicas do facebook ou das inenarráveis páginas de comentários dos jornais on-line.

Como disse, não sou apreciador do génio literário de Manuel Alegre, quer em prosa quer, de forma mais significativa, na poesia, onde o seu lugar é mais reconhecido. Mas de alguma maneira, revejo-me e identifico-me com uma literatura que tem um poeta como Manuel Alegre no seu cânone.
Tags:

gilgamesh, our young man
rosas
innersmile


Aproveitei o fim de semana para ler o Gilgamesh, um poema narrativo de origem suméria, que li com tradução do poeta Pedro Tamen.

Como todas as narrativas fundadoras, o Gilgamesh contém simultaneamente uma “versão” (ou uma explicação, conforme se prefira) da criação do mundo, quer dizer da criação do homem, e uma enumeração, quase como fosse uma listagem, daquilo que é essencial na aventura humana.

E por aventura não me refiro apenas ao caminho que o homem tem percorrido desde que ganhou consciência para se questionar acerca da razão da sua existência, mas ao próprio conceito de narrativa de aventuras, de epopeia, de romance de acção.

E como de certo modo está destinado a que aconteça quando lemos este tipo de narrativas, também a leitura do Gilgamesh parece que nos põe muito próximo de algo que é essencial, daquilo que nos liga directamente ao que era o mundo mental do nosso companheiro homem de vários milénios antes de Cristo. Com o Gilgamesh voltamos a sentir, de forma muito literária e mesmo literal, aquilo que de certo modo sentimos quando olhamos as estrelas todas as noites: tentar perceber alguma coisa.



Antes do Gilgamesh, tinha lido, no kindle e em inglês, o mais recente romance de Edmund White, Our Young Man. Com este livro, diz-me o Goodreads, o Edmund White é, juntamente com o Saramago, um dos escritores de quem li mais livros: 16.

Our Young Man conta a história de um modelo francês, que vive em Nova Iorque, e que vinga no exigente mercado da moda, durante os anos 70 e 80, evoluindo a narrativa ao longo dos seus quatro ou cinco amantes/namorados. O livro é, por um lado, um exercício sobre o poder da beleza física e da juventude, mas serve ao autor, de igual forma, como exercício sobre os modos de vida gay na época em que aparece a epidemia da sida.

De certo modo, é inevitável perguntarmo-nos se o White precisava de escrever este livro, se ele vem trazer alguma coisa de novo ao universo narrativo do autor. Mas, por outro lado, o prazer da escrita de White mantém-se incólume, a elegância do toque, o sentido de humor de uma ironia tão irresistível quanto perigosa, o confronto com as matérias mais íntimas, o gosto pelo mundano e pelo gossip que, no autor, convive na mesma frase com a erudição e a atenção obsessiva à natureza humana.

E postas as coisas assim, mesmo sem se revelarem experiências de descoberta e inovação, continuarei a ler os romances de Edmund White, enquanto ele tiver paciência e fulgor para os ir escrevendo.

antónio zambujo
rosas
innersmile
No sábado à noite, concerto de António Zambujo no auditório do Convento de São Francisco, para apresentar a música de Até Pensei Que Fosse Minha, a disco dedicado às canções de Chico Buarque.

Apresentação irrepreensível, com um naipe de cinco músicos excelentes: Marcello Gonçalves, genial executante de guitarra de sete cordas e director musical do projecto, Bernardo Couto na guitarra portuguesa, José Miguel Conde no clarinete, João Moreira no trompete e Ricardo Cruz no contrabaixo, e que foi, se não estou em erro, um dos produtores do disco, em conjunto com Marcello. A propósito, tenho ideia de que uma das canções do disco ficou de fora (Sem Fantasia) e entraram para o alinhamento do concerto outras que não fazem parte do álbum, estou a lembrar-me de Tatuagem e de Terezinha.

Zambujo está, como se sabe, num excelente momento de forma, com um domínio total do seu instrumento, e, neste concerto, coloca a sua voz e o seu saber completamente ao serviço das canções.
Tags:

a day in the life
rosas
innersmile
É assim que os blogs morrem. Começa-se por não se ter muita coisa a dizer, passam os dias, aumenta a preguiça, diminui o interesse, o blog começa a definhar, a secar, instala-se a letal indiferença e, pronto, era uma vez. Ainda bem que eu não tenho um blog.

Na sexta-feira meti um dia de férias. Tive a ideia infeliz de o ir passar na repartição de finanças: uma hora e meia à espera, para me dizerem que estava no balcão errado, transferiram-me para o balcão certo, mais quarenta e cinco minutos de espera, meia-hora a ser atendido, sentado numa cadeira posicionada mesmo em frente à saída do ar condicionado. Como os funcionários são simpáticos, ficou-me com os papéis, mas antes de final de julho não se pode fazer nada. Depois é mais ou menos um mês para o cheque ser emitido e depois só duas ou três semanas para me chegar às mãos. Tudo feito a tempo e sem erros da parte do contribuinte, tudo de acordo com o procedimento. Um reembolso de imposto relativo ao ano passado há-de ficar resolvido lá para o final do ano.

Salvou o dia a visita da Margarida, que veio almoçar e passar a tarde. Passámos aqui por casa para ela ver o gato e depois fomos aboborar (gosto da expressão “açafatar”, que paga direitos de autor, mas que não sei se existe) para uma esplanada, à sombra, com vista para o velho mosteiro e a cidade, e com tostas no menú. Muita conversa para pôr em dia. E também ouvir algumas conversas das mesas próximas, que eu não sou calhandreiro mas um bocadinho de gossip sabe bem.

Por falar nisso, quando ia no carro das Finanças para a Rodoviária, parei nos semáforos ao lado de outro carro, de janela aberta a apanhar fresquinho. De súbito, no carro ao lado também abrem as janelas e “aterro” no meio de uma discussão conjugal acaloradíssima. Voltei a cabeça por reflexo, claro, e levei com um olhar do marido tipo “não te metas nisto”. Fechei a janela do carro e liguei o ar condicionado. É mais seguro.

À noite aninhei-me no sofá e vi um filme no dvd, coisa que não acontecia há muito tempo (há muitos anos?)

«I read the news today oh boy
Four thousand holes in Blackburn, Lancashire
And though the holes were rather small
They had to count them all
Now they know how many holes it takes to fill the Albert Hall.
I'd love to turn you on.»

o rosto de lorenzo
rosas
innersmile
Contempla o rosto de Lorenzo
olhando-te do outro lado da morte
- esse apelo constante a
que fingimos ser surdos.

Mesmo sem quereres, ouves a
sua voz, e recordas:
o nariz largo,
a fina comissura dos lábios,
o queixo sólido.

Porém, só vês os olhos de Lorenzo,
porque ele te olha do lado de lá da morte.
E enquanto contemplas,
é, literalmente,
a poesia que te salva.
Tags:

a voz e o seu canto
rosas
innersmile
É preciso voltar ao assunto. Porque ficou muito por dizer, ficou tudo por dizer. Porque a essência, pela sua natureza, escapa à definição. Porque a voz, e em concerto isso acontece ainda com mais intensidade do que nas gravações, é uma abstracção. É intangível e inefável. Só por ser uma abstracção é que sentimos um arrepio quando a ouvimos. A voz atinge um lugar onde não conseguimos ir, aonde não há palavras que nos transportem. Esse lugar fica dentro de nós, é o lugar mais recôndito e inacessível de nós. O lugar em nós onde existimos para além, ou para aquém, do que nos rodeia, da vida quotidiana que nos alimenta e desgasta. Somos de certa forma abençoados quando conseguimos viajar até esse lugar, sem que essa viagem assuma proporções que nos escapem completamente ao controlo. Poder ir, e regressar de modo mais ou menos incólume. É esse o privilégio, raro, que a voz e o seu canto nos concede.



[Este clip da Sílvia Pérez Cruz a cantar o Cucucurrucucu Paloma, na noite de 27 de maio, foi gravado pela minha amiga Ana, lá da última fila do gigante auditório, para onde a obriguei a ir. Vê-se longe, eu sei, mas ouve-se muito]

sílvia pérez cruz
rosas
innersmile
Em primeiro lugar acho que temos de agradecer ao Ricardo. Não sei de quem se trata, mas a Sílvia Pérez Cruz, que fala muito entre canções e vai contando as suas histórias, apresentou a canção dizendo que não a tinham previsto no alinhamento do concerto mas que o Ricardo, um dos promotores, lhe tinha falado na canção e, como é daquelas canções a que ela recorre para fazer improvisação, tinham decidido apresentá-la. E acho que temos mesmo uma dívida de gratidão para com o Ricardo, porque, pelo menos para mim, Cucucurrucucu Paloma foi um dos momentos altos do concerto (num concerto todo ele feito de momentos altos, altíssimos). É que não foi apenas um dos momentos do concerto em que a SPC mais se entregou àquele seu modo de cantar em total liberdade, foi ainda o gozo imenso de ver uma canção ser feita com um tal grau de liberdade, com um acompanhamento de quinteto de cordas, e, mais ainda, perceber como funciona a relação da cantora com os seus músicos, como a canção vai sendo “construída” ao longo da sua interpretação, como a SPC vai dando indicações aos músicos acerca da orientação que vai imprimindo à canção. É muito bom, aliás, é extraordinário.

Quando penso nos melhores concertos a que assisti, há sempre dois ou três que me vêm à ideia (um deles, é o da Lhasa de Sela, no Gil Vicente) e acho que a partir de agora o concerto que a SPC deu no sábado à noite, no auditório do Convento de São Francisco, vai passar a ser um deles. Infelizmente o auditório estava apenas meio cheio, de modo que logo antes de começar a SPC pediu às pessoas para se juntarem mais perto do palco. Infelizmente não pude fazer o mesmo, tive de continuar sentado na distante e “gelada” última fila. Mas mesmo assim fui completamente envolvido pela apresentação da cantora, não apenas pela sua voz, pelas suas potencialidades, pelo som tom cristalino, pela afinação perfeita, mas também pela sua forma de cantar, pelo modo como vai improvisando, como está constantemente a recriar a canção, mesmo durante o período de tempo em que a está a interpretar. Há no canto da SPC um ponto único e surpreendente, no qual descobrimos influências e cruzamentos, que vão desde a raíz da flamenco à liberdade do jazz, a de improvisar mas também a de recriar as notas.

Também me surpreendeu muito a parte musical da prestação, garantida por um quinteto de cordas que incluiu um violoncelo, um contrabaixo, uma viola e dois violinos. Digamos que nos seus momentos mais convencionais, me lembrei de algumas sonoridades do Kronos Quartet, mas o que me encantou foi a criatividade dos arranjos, a maneira como os arranjos serviam as canções e as suas particularidades, e sobretudo a maneira como os músicos iam reagindo aos caminhos que a SPC ia traçando com o seu canto.

O concerto apresentou, essencialmente, o conjunto de temas que constituem o mais recente disco da SPC, Vestida de Nit, mas também recriou outros temas muito ligados ao seu percurso musical. E se a interpretação de Cucucurrucucu Paloma já me tinha dado indicações de que SPC tinha ouvido muito o Caetano Veloso, este concerto reforçou essa impressão. Foi a apresentação de Asa Branca, um tema de Luiz Gonzaga mas que a SPC trabalha a partir da leitura que o Caetano fez desse tema, logo nos dos seus álbuns iniciais, de início dos anos 70. Mas achei mesmo que a sua interpretação de Estranha Forma de Vida devia mais à leitura que o Caetano fez desse tema que à própria Amália. Claro que descobrir o Caetano na Sílvia Pérez Cruz ainda me faz gostar mais dela e deste concerto.
Tags:

à tarde na sala
rosas
innersmile
Preciso de voltar a deitar a cabeça
No teu colo, almofada tranquila da tarde
Na penumbra da sala
Só o teu colo afasta a vontade de chorar
E os teus dedos por entre os meus cabelos,
Eu ainda tinha cabelos que pediam os teus dedos,
E a palma da tua mão era suave e morna como
Nuvens.
Desde que te perdi, ou que nos perdemos,
Não sei se é traição ou destino
A vontade de regressar à sala,
A sombra da tarde,
A luz coada pelas cortinas finas,
O leve crepitar das páginas dobradas do jornal,
E voltar a pousar a cabeça no teu colo.
Tags:

granta 9
rosas
innersmile


Excelente edição da Granta Portugal, dedicada ao tema Comer e Beber. Na minha opinião, uma das melhores das edições nacionais da revista, e o que mais me agradou foi a qualidade dos textos escritos originalmente em língua portuguesa. Gostei muito dos textos da Tatiana Salem Levy, da Alexandra Prado Coelho, do Richard Zimler, de Giles Foden, de Ricardo J. Rodrigues, de Sousa Jamba e de David Mitchell.

No entanto, os meus preferidos deste n. 9 da Granta, foram os textos de Mieko Kawakami, muito misterioso e perturbador, a história desconcertante e muito divertida de Luís Afonso, o texto da Adília Lopes porque... bem, é a Adília Lopes, e a maravilhosa banda desenhada de Juan Cavia e Filipe Melo, muito atmosférica e esteticamente deslumbrante.

Os restantes textos (4, dos quais três em língua portuguesa e um traduzido, num total de 15, se não estou em erro) não me prenderam grandemente a atenção.
Tags: ,

tarde de sábado
rosas
innersmile
Entrei na livraria perto da hora do almoço de sábado, e fui sentar-me na cafetaria, na mesa do canto, junto à montra envidraçada. Na mesa ao lado, dois casais, ali a rondar os setenta anos, gente com aspecto de quem vive a vida sem grandes preocupações materiais, mas simples, nada exibicionista. Tenho a vaga ideia de que reconheço um dos cavalheiros, que usa um bigode farto e grisalho, talvez das lides profissionais.

Na altura em que me sentei, e inadvertidamente ouvi a conversa, os dois casais trocavam impressões da experiência que foi terem estado no fim de semana em Fátima, por ocasião da visita do Papa, onde se deslocaram separadamente: como tinham viajado até Fátima, onde cada um deles ficou instalado, como se deram enquanto estavam no recinto, o grau de proximidade em relação ao Papa, por aí fora.

Entretanto veio o café e a água fresca que eu pedira, pus-me a ler, e desliguei da conversa. Lembro-me de que a certa altura terão, os cavalheiros naturalmente, falado das respectivas experiências nas ex-colónias, na guerra colonial, mas não prestei grande atenção pois estava embrenhado no conto que estava a ler.

Reparei que, entretanto, entrara no café um outro casal, da mesma idade, e que eu conheço bastante bem: a ele do meio profissional, trabalhámos na mesma instituição durante anos, ambos em lugares de responsabilidade, apesar de sermos de diferentes profissões. E, à Senhora, por um lado por ser esposa desse meu conhecido, mas também porque durante muito tempo foram vizinhos dos meus pais, e eu conheço-a, de vista e de cumprimentar cordial mas educadamente, quando nos encontramos por acaso. O Dr. R, chamemos-lhe assim, foi ao balcão comprar o jornal, e depois sentaram-se os dois a beber um café, do outro lado da cafetaria, junto à porta de entrada. Eu continuei de olhos enfiados nas páginas do meu livro, a desejar que o mundo estivesse mais desatento de mim do que eu dele.

Às tantas, os dois casais que estavam na mesa ao a meu lado, levantaram-se e, sempre em animada conversa, dirigiram-se à saída. Um dos cavalheiros, o do bigode, ao passar junto à mesa onde estava sentado o Dr. R, sem grandes prolegómenos, abeirou-se da mesa e deu um beijo na face ao Dr. R, que levantou os olhos do jornal ao mesmo tempo que lhe dizia qualquer coisa. Logo a seguir, aproximou-se da esposa do Dr. R e também lhe deu um único beijo na face.

Mais ninguém do grupo, nem a esposa do cavalheiro do bigode nem o outro casal, deram sequer mostras de que conheciam o Dr. R e a esposa, quanto mais trocarem cumprimentos. Saíram os quatro, ficaram ainda um pouco no passeio em frente à livraria, junto à esplanada, com ar de quem terminava a conversa em curso, despediram-se com apertos de mão, e separaram-se. Passado pouco tempo, também o Dr. R. e a esposa, depois de pagar a despesa dos cafés, se levantaram e saíram.

Eu continuei sentado à mesa, o café já terminado, um resto de água fresca na garrafa de plástico. Para ser franco, nem me lembrei do poema do Reinaldo Ferreira:
”Oh! tarde de sábado britânica,
Poema da rotina,
Prodígio do bem-estar...
Eu, que donde vou, latino e desgrenhado,
Intenso, irregular,
Apenas sei a vibração e o desânimo
(O sol excessivo e a sombra opaca),
Olho-te no deslumbramento
De quem se banha
E se deslumbra
Em penumbra.”
Tags:

memórias anotadas
rosas
innersmile


Muito interessantes, estas Memórias Anotadas de um dos mais conhecidos líderes dos movimentos de revolta estudantil dos anos 60, que foi membro do último governo provisório e ministro do primeiro governo constitucional, abarcando a pasta dos negócios estrangeiros, responsável pelo pedido de adesão de Portugal ao Mercado Comum, hoje União Europeia, e que abandonou a política em 1980 para se dedicar à carreira académica.

Transparece do livro que a sua vida política, que nunca verdadeiramente abandonou, foi marcada por uma relação de tensão, para não dizer conflituosa, com o PS, partido a que pertenceu, e que representou no parlamento, em diversas ocasiões, e em particular com o seu líder histórico, Mário Soares.

As Memórias Anotadas são uma obra muito interessante para quem quer conhecer melhor o que foi o percurso de uma certa parte da esquerda portuguesa, desde os anos 60, mas sobretudo após o 25 de Abril de 1974. E também para ficar a conhecer melhor a personalidade e o pensamento de um dos grandes protagonistas de uma certa maneira, ideológica, empenhada, séria e elevada, de fazer política.

os traços hesitantes na folha de papel
rosas
innersmile
Preparas-te para os
Embates da vida. Vistos à distância,
Os traços hesitantes na folha de papel -
As palavras com que tacteias o devir -
Parecem-se com o poema
Ou a lista da mercearia.

Estás, sempre outra vez, sentado
Naquele ponto em que as margens
Já se confundem com o leito do rio.

Dir-se-ia que não aprendes.
Ou que te vais esquecendo.
Os teus olhos ainda procuram o imenso azul.
Mas os teus ouvidos já se vão habituando
Ao frágil rumor do oceano longínquo.
Tags:

livritos
rosas
innersmile
Referi aqui há umas semanas que a Index ebooks tinha publicado 2 novos livros meus, um de contos e outro de poemas. Entretanto, tenho-me esquecido de vir aqui avisar que os livros já estão à venda nos locais habituais (sempre quis utilizar esta expressão). Há de tudo, como na botica: em ebook, em formatos diversos para todo o tipo de dispositivos de leitura, em sites localizados em diferentes partes do mundo, e em livro físico, com possibilidade de print on demand (aconselho a alternativa da amazon espanhola, em que os portes de correio são muito baratos). E, principalmente, são escritos em português, o que lhes permite poderem ser lidos por quase 300 milhões de falantes.

Aqui ficam as belas capas (posso elogiar sem pudor porque foram criadas pelos gráficos da Index), e o link para o site da Index ebooks onde estão os links para os diferentes lugares da net onde os livros podem ser adquiridos.

Fico, desde já, e muito naturalmente, muito feliz se houver muitas pessoas a lê-los, nomeadamente se forem lidos pelos amigos e leitores aqui do innersmile, que foi onde estes livros nasceram. E sem querer ser muito garganeiro, se os meus amigos e leitores quiserem podem aproveitar a ocasião para adquirir os outros meus livros que a Index publicou.



Link para a página do livro no site da Index ebooks: http://www.indexebooks.com/dezasseis_poemas.html



Link para a página do livro no site da Index ebooks: http://www.indexebooks.com/alma.html

o silêncio e o exemplo do Papa
rosas
innersmile
Sou admirador de António Costa. Gostei dele quando foi ministro e quando foi presidente da câmara de Lisboa, apesar de, neste caso, não ser parte interessada, pois não era seu munícipe. Fiquei contente quando disputou a liderança do PS a A.J. Seguro, e admirei-o muito quando conseguiu estabelecer entendimentos com o Partido Comunista e o Bloco de esquerda para apresentar um governo de esquerda que, baseado na configuração parlamentar saída das eleições de 2015, conseguisse apresentar uma alternativa estável à vitória eleitoral da direita. E admirei-o por duas razões: em primeiro lugar, por provar que era possível estabelecer acordos à esquerda do PS e que o PC apoiasse soluções governativas. Mas principalmente por arredar do governo uma direita de agendas escondidas, que teimou em governar o país desrespeitando e até ofendendo, por vezes de maneira insolente, o povo.

Mas ser admirador não significa ser devoto, e eu, na política como na religião, e até no desporto ou mesmo na cultura (aqui menos, admito), não sou muito dado a devoções. Pelo contrário, gosto da crítica e da análise crítica, e, também por isso, tenho sido crítico de muitas acções de Costa enquanto primeiro-ministro. E fui-o, mais uma vez, neste fim de semana, em relação à vinda do Papa a Fátima, por ocasião do centésimo ano das chamadas “aparições de Fátima” e da canonização dos ditos “pastorinhos”.

Acho muito bem que Costa tenha estado presente nos aspectos, digamos, “civis” da visita do Papa, mas não gostei de o ver participar nas cerimónias religiosas, em particular nas celebrações eucarísticas. Costa, ao contrário do que acontece, por exemplo, com o Presidente Marcelo, não é conhecido pelas suas convicções religiosas, e não gostei de o ver a participar nas celebrações de forma passiva, ou seja, sem seguir o ritual.

Claro que eu já fiz isso muitas vezes, estar na missa sem seguir o ritual, mas isso sou eu, um mero cidadão anónimo, produto das minhas circunstâncias, e das minhas contradições. Não sou exemplo para ninguém, e, principalmente, não represento ninguém, muito menos o povo e o país. Como disse, aceito perfeitamente a participação de Marcelo nas celebrações, não me chocou vê-lo a cantar os hinos, e pronunciar o ritual, a fazer o sinal da cruz ou a genuflexão. Mas não gostei de ver Costa a fazer figura de corpo presente, com aquele ar embaraçado de não-sei-o-que-é-que-estou-aqui-a-fazer. Como referi, teria preferido que Costa tivesse estado presente em todos os momentos não especificamente religiosos da peregrinação do Papa a Fátima, por respeito, atendendo à forte tradição do catolicismo em Portugal, para com o chefe da igreja católica e até, aí sim, por respeito para com o povo, ou a sua maioria, de quem ele é o governante.

A propósito da visita do Papa a Fátima, impressionou-me o seu longo silêncio, na sexta-feira à tardinha, mal chegou ao santuário, em frente à figura de Nossa Senhora de Fátima, na Capela das Aparições. Como já me tinha impressionado muito o seu silêncio veemente quando, aqui há uns meses, visitou o campo de Auschwitz, na Polónia (e até mencionei isso aqui, num texto). Numa época em que o ruído é constante, e, de certo modo, uma forma de nunca os confrontarmos com a nossa própria e imensa solidão, os silêncios do Papa são, na minha sensibilidade, a sua maneira de se afirmar enquanto homem, só e frágil perante tudo o que nos escapa à compreensão e à racionalidade.

O Manuel S. Fonseca escreveu um texto, admirável como a maior parte de tudo o que escreve, precisamente sobre “O silêncio de Francisco”. É obrigatório ler o texto integral, no blog Escrever é Triste, no seguinte link: http://www.escreveretriste.com/2017/05/o-silencio-de-francisco/. Mas tenho de reproduzir aqui este pequeno trecho que me comoveu e me fez vir as lágrimas aos olhos, e aqui fica como a única coisa que se me oferece referir a propósito da visita do Papa a Portugal:

”Foi um silêncio humano, um desses silêncios de que nem Deus, nem a Natureza conhecem o segredo. Só nós, os humanos, em momento de temor ou tremor, de perplexa alegria, ou de incendiada fé, somos capazes de um silêncio deste espantado tamanho.”

museu do caramulo
rosas
innersmile
Aproveitei a tolerância de ponto de ontem para ir ao Caramulo. Já lá tinha ido uma ou duas vezes, mas há muitos muitos anos. Aqui há tempos, a minha vontade de voltar a visitar o museu foi estimulada por um episódio da série Visita Guiada, que a Paula Moura Pinheiro apresentou na rtp2.

E, de facto, adorei voltar a visitar o Museu. Suponho que a exposição de automóveis seja o principal chamariz do Museu, mas gostei mesmo de visitar a colecção de arte. Agrada-me o facto de ser um museu pequeno, com uma colecção muito diversificada, que vai da pintura à faiança, da impressionante colecção de tapeçaria à estatuária de diferentes épocas e culturas, passando por um considerável acervo de diversos tipos de objectos, decorativos, de mobiliário, de uso doméstico, de origem oriental, sobretudo chinesa e indo-europeia. Gosto particularmente de um museu que nasce de uma colecção particular, e que evidencia, não tanto o gosto do coleccionador, mas o seu labor e o seu empenho coleccionista.

Vale bem a pena fazer a viagem rápida desde Coimbra para visitar o museu, para nos deliciarmos com a arquitectura beirã, sobretudo a das casas particulares, e para aproveitar a espantosa beleza natural da serra e a pureza do seu ar. E, naturalmente, qualquer visita que valha a pena tem de começar à mesa. Assim foi desta vez, com um repasto que incluiu uma entrada de alheira no forno (com migas), um bacalhau à Zé do Pipo que estava de chorar por mais, e um arroz de pato que cumpriu.

Como o Caramulo tem mais uma série de restaurantes que gostaria de experimentar, e um hotel muito convidativo, não me importava nada de lá passar uns dias, a ler, descansar e a aproveitar os saudáveis ares da montanha.

sal mineo, uma biografia
rosas
innersmile


Excelente biografia de uma personagem mítica do cinema de Hollywood. Com apenas 16 anos, Sal Mineo protagonizou Rebel Without a Cause, ao lado de James Dean e Natalie Wood, sob a direcção de Nicholas Ray. O filme tem um lugar especial no Olimpo do cinema norte-americano, em particular no contexto dos anos 50 e do surgimento de uma cultura jovem, cuja identidade se construiu, pela primeira vez, por oposição ao mundo dos mais velhos, dos adultos. E tem além disso, uma certa aura de maldição: todos os seus protagonistas morreram muito jovens, quem mais lhe sobreviveu foi Natalie Wood, Dean morreu poucos meses depois de terminar a rodagem do filme, Sal foi assassinado em 1976, com 37 anos. Morrem jovens os que os deuses amam, de facto.

Rebel transformou Mineo num ídolo da juventude, daqueles como hoje já não se fazem.E o resto da sua vida, passou-o a tentar provar a sua valia e o seu compromisso enquanto verdadeiro actor. Num primeiro momento, a tentar livrar-se da imagem de adolescente bonito e delinquente, recusando papéis fáceis que o limitavam a essa imagem. Depois, a tentar reconquistar o estatuto de estrela. Por fim, a lutar pela sua sobrevivência enquanto actor profissional. Mas esse lento caminho para a obscuridade permitiu-lhe, por outro lado, viver em maior liberdade, descobrindo-se ao longo do processo, vivendo em pleno o hedonismo sexual que marcou os anos 60 e 70, explorando os lados mais interditos da sua personalidade.

Muito bem pesquisada, esta biografia, da autoria de Michael Gregg Michaud, pretende ser a abordagem definitiva (e quase se diria “anatómica”) à pessoa, ao actor, à estrela, e a tudo o mais que coube na curta, mas rica e intensa, vida de Sal Mineo. O livro foi-me oferecido pela Margarida, que o comprou em Londres, na Gay’s The World, a melhor livraria do mundo.

sr. namely
rosas
innersmile
Assim que romperam as primeiras luzes da manhã, saí e levei comigo o gato, o Sr. Namely. Os sinos começaram a repicar quando atravessávamos a Mozartplatz, e parámos uns instantes a ouvir os carrilhões e a tirar fotografias aos pombos que enxameavam a praça. A pista de patinagem no gelo, para crianças, estava deserta àquela hora. Depositei o gato na soleira da porta do nº 9 da Getreidegasse, então ainda pouco frequentada, e depois de tomar um pequeno-almoço substancial no Cafe Pamina, voltei apressadamente para o quarto que alugara nas águas-furtadas de uma gasthaus na Schanzlgasse. Devo ter adormecido rapidamente, e não sei durante quanto tempo dormi até ser acordado com um leve arranhar na porta do quarto. O Sr. Namely tinha regressado.
Tags:

dias especiais e noites mágicas
rosas
innersmile
A noite passada, faltavam poucos minutos para a meia-noite, estava eu a ler e a preparar-me para dormir, senti a minha cama tremer três vezes. Ao mesmo tempo o gato, que espera no tapete que eu apague a luz para se vir deitar na minha almofada, deu um salto e foi parar a meio do quarto, a olhar muito fixamente para a porta. Eu fiquei à escuta, a tentar perceber se ele tinha ouvido algum barulho. Ainda pensei que pudesse ter sido ele, com o salto, que tinha feito a cama abanar, mas, claro, isso era impossível. Passou-me pela cabeça a possibilidade de ter sido um terramoto, mas achei a ideia absurda e fiquei mais atento à possibilidade de ter havido algum ruído que tivesse feito o gato saltar.

Hoje de manhã tive de ir trabalhar, e ouvi comentar que, às 23:47 horas de ontem tinha havido um sismo de magnitude 3,5 na escala de Richter com epicentro a cerca de 20 quilómetros ao largo da Figueira da Foz. Confirmei a notícia nas edições on-line de alguns jornais, onde também era referido que de acordo com o IPMA não havia registos de que o sismo tenha sido sentido, apesar de haver comentários nas redes sociais de pessoas a referir o contrário.

Ainda um pouco incrédulo, acho que foi a primeira vez que senti um terramoto em Coimbra, e na minha casa. Já tinha sentido um, com mais intensidade, aqui há uns anos, quando estava a almoçar na Cidade Antiga de Guatemala e de repente foi como se um camião pesado e veloz tivesse passado na rua, e até os candeeiros ficaram a oscilar. Se tivesse sido só eu a sentir a cama a tremer, teria achado que tinha sido impressão minha e não pensava mais no assunto. Mas a reacção do gato foi espectacular, e ele ficou ainda uns largos minutos, primeiro de pé, muito atento, depois aninhado no chão no meio do quarto.

Há cinco anos, nesta mesma noite de cinco para seis de maio, houve uma lua cheia poderosa, daquelas a que os jornais se referiram como a maior lua do ano. Eu estava na net, já no princípio da madrugada, quando apanhei o meu irmão online, e aproveitei para lhe dar os parabéns, porque ele faz anos a seis, e lá no país onde ele está, já tinha sido a meia-noite há algum tempo. Ele disse-me que a mulher do meu sobrinho já estava no hospital para dar à luz. Passado pouco tempo, ligou-me a dizer que o meu sobrinho lhe tinha telefonado a dizer que lhe tinha nascido uma neta.

Mal sabia eu nessa noite, que me iria apaixonar tanto pela minha sobrinha-neta, e que ela se tornaria uma das coisas mais importantes da minha vida. Mudou tanta coisa nestes cinco anos. A maior parte dessas mudanças foram tristes ou mesmo más, mas também aconteceram coisas muito boas, e a melhor de todas foi a vinda dos meus sobrinhos netos, a minha baby, que fez hoje cinco anos, e o meu baby pequenino, que tem um ano. Essa noite de há cinco anos foi tão importante, e viria a mudar tanto a minha vida, que acho que a Terra, a noite passada, quis juntar-se às comemorações.

férias
rosas
innersmile



Estive de férias quase uma semana. Os primeiros dias foram terríveis, a sentir-me cada vez mais fraco, completamente asténico, com ameaças de desmaios. Não conseguia fazer nada, nem levantar-me da cama.

Entretanto, e apesar disso, na sexta-feira fui para Portimão. Fui com a minha amiga MJ e, graças aos seus cuidados, apoio e vigilância, comecei a sentir-me melhor. Alterei a tabela da medicação e comecei logo a sentir-me melhor. Os quatro dias que passámos lá em baixo, mesmo com alguns percalços e preocupações, foram tranquilos e descansados: bons pequenos-almoços, curtos passeios a pé pela rua principal da Praia da Rocha, lanchinhos bons, sestas para recuperar. Não houve muito sol, mas aproveitámos o que houve.

Claro, lá em baixo tentei passar a maior parte do tempo possível com os meus sobrinhos e os meus babies. Que estão, ambos, uma loucura. Venho derretido com eles, encantado com o seu desenvolvimento e a sua desenvoltura. O baby pequeno, que fez um ano a semana passada, está o cúmulo da fofice. Muito esperto e mexido, atento e comunicativo, uma pessoa enternece-se só de olhar para ele. A baby, quase quase com cinco anos, está melhor do que nunca, é meiga e irreverente, imaginativa, com sentido de humor. É uma felicidade muito grande ter dois sobrinhos-netos assim tão lindos.

Na viagem de regresso, no feriado, parámos em Alcácer do Sal para almoçar. Desde que lá estive no Carnaval, fiquei fã. Os restaurantes estavam cheios, acho que toda a gente se lembrou de lá ir almoçar, e não me admira, come-se estupendamente. Depois de algumas esperas e outras tantas voltas, lá conseguimos, já um pouco tarde, uma mesa num restaurante que ainda não conhecia. A recuperação do meu apetite já se fez notar: comemos umas belas de umas amêijoas à Bulhão Pato, que estavam fabulosas, e a sopa de cação, que adoro. Comemos, mais uma vez, muito bem.

Como se vê, na média as férias foram assim-assim: a primeira parte muito má, a segunda muito boa. Claro, na recordação, só esta é que conta e permanece. Os sobrinhos-netos, e uma rica almoçarada ao sol da Alcácer.

within
rosas
innersmile
Domingo, quase meio-dia. Atravessamos, de carro, a ponte sobre o Arade. No rádio, os Daft Punk tocam a faixa Within. A minha sobrinha-neta, no banco traseiro vai dando indicações ao pai, que conduz, ao meu lado. Primeiro, o pai toca piano e ela canta. Depois trocam, é a vez dela tocar piano e o pai cantar. “Mais alto, pai, tens de cantar mais alto, não estou a ouvir”, repete ela o que o pai lhe dizia há momentos. Quando chega o refrão, cantam os dois. A voz dela, fininha, em falsete, hesitante, a cantar sons que que para ela ainda não constituem palavras. Eu tento acompanhar, mas não sei a letra. Mais tarde, ela explicará que a canção conta a história de um robot que seguia na sua nave espacial e foi parar a um planeta (“Júpiter”, adoro ouvi-la dizer “Júpiter”), onde encontrou um amigo (o Piruças. O nome do robot é Joaquim). Decidiu ficar a viver ali no planeta, ao pé do amigo, mas com muitas saudades dos pais.

Chegamos ao outro lado da ponte. No meio da rotunda, no alto de um candeeiro de iluminação pública, uma cegonha ocupa-se a construir o seu ninho.

«There are so many things that I don’t understand
There’s a world within me that I cannot explain
Many rooms to explore but the doors look the same
I am lost I can’t even remember my name

I’ve been for sometime, looking for someone
I need to know now, please tell who I am.»



the zookeeper's wife, a rapariga apanhada na teia de aranha, the pink panther, 007
rosas
innersmile
Este mês de abril tem sido muito propício ao lazer, felizmente: foram as mini-férias da Páscoa, e agora esta sucessão de feriados (o 25 de abril e o 1 de maio são assim uma espécie de natal e ano novo da política!) Por isso, livrinhos e filminhos estão na ordem do dia. Gravados na box, aproveitei para rever alguns James Bond, nomeadamente da era Roger Moore, a mais divertida. E, já agora, aproveitei também para ver o genial The Pink Panther, do Blake Edwards e com esse monstro, em todos os verdadeiros sentidos da palavra, Peter Sellers.

Fui ver, aos cinemas, The Zookeeper’s Wife, realizado por Niki Caro, e que traz ao cinema uma história verdadeira, da Polónia ocupada durante o nazismo. É a história do director do jardim zoológico de Varsóvia e da sua esposa (a perspectiva do filme é a de Antonina, como se percebe até pelo título) que viu os animais do seu jardim serem, os mais valiosos, roubados para o zoo de Berlim, e os restantes, abatidos. Optando por continuar a viver nas instalações semi-destruídas do jardim, os Zabinski dedicam-se então a criar uma rede de refúgio, abrigo e ponto de fuga, para muitos judeus, que iam buscar propositadamente ao gueto de Varsóvia. Conseguiram salvar cerca de trezentas pessoas do holocausto, e esse seu gesto foi reconhecido pelas autoridades israelitas que preservam a memória do holocausto.

Aproveitei então esta temporada para ler o quarto volume de Millennium, as aventuras de Lisbeth Salander e de Mikael Blomkvist, primeira vez em modo pós Stieg Larsson. Trata-se de A Rapariga Apanhada na Teia de Aranha, e o seu autor David Lagercrantz. Mantém-se, tanto quanto me lembro da saga original, o músculo narrativo, mas sobram, na minha opinião, demasiadas informações de contexto. Menos umas dezenas de páginas, e a narrativa ganhava mais nervo. Mas nada dizer: continua a ser divertimento do melhor, ainda por cima com consciência política e social.


jonathan demme, rip
rosas
innersmile
Jonathan Demme, cuja morte foi hoje anunciada, não foi propriamente um realizador prolixo, e, apesar de eu ter visto um dos primeiros filmes que fez, o Something Wild, e um dos últimos, Rachel Getting Married, não foram muito mais os seus filmes que vi. Mas bastavam três filmes para se tornar um realizador marcante e absolutamente inesquecível.

Falo, claro, em primeiro lugar, de The Silence of The Lambs, o filme que, de maneira um pouco inesperada, arrebatou os chamados Big Five nos Oscars da Academia: melhor filme, melhor realizador, melhor argumento adaptado, melhor actor e melhor actriz! E digo que foi inesperado, dado que era uma produção relativamente independente e o género em que se insere, o terror, não é muito dado a prémios do mainstream, mas completamente justificado. O filme é estupendo, as personagens são daquelas que ficam para sempre, a realização é meticulosa e perfeccionista, os diálogos são daqueles que apetece sublinhar.

Outro dos filmes marcantes de Jonathan Demme foi Philadelphia. Talvez não seja um filme tão fascinante como o anterior, mas teve uma importância histórica determinante, ao trazer para a ribalta de Hollywood, e, mais uma vez, para a glória dos Oscars da Academia, o tema da Sida e o seu impacto na comunidade homossexual, quando isso ainda constituia um forte tabu.

Finalmente, o outro filme brilhante de Demme, foi um dos primeiros que realizou, em 1984, e que eu,, apesar de o conhecer desde essa altura, só recentemente tive oportunidade de o ver projectado num ecrã grande. Refiro-me a Stop Making Sense, o filme-concerto-documentário que Demme fez com David Byrne e os Talking Heads. Demme conseguiu com sucesso total dar ao filme aquela característica que, na minha opinião, faz dos Heads, e de Byrne, artistas muito distintivos: a mistura perfeita entre a pop e a arte, entre a obra cerebral que nos estimula o intelecto, por um lado, mas com um inegável apelo à dança e à fruição, à libertação e à entrega.

edit: o David Byrne escreveu no seu diário online um testemunho de memória e homenagem a Jonathan Demme. Vale a pena ler em: http://davidbyrne.com/journal/jonathan-demme-rest-in-peace .

grigory solokov
rosas
innersmile
Extraordinário recital de Grigory Solokov, sábado à noite no grande auditório do Convento de São Francisco (a minha segunda visita ao local). Primeiro pela própria circunstância: não é todos os dias que temos possibilidade de assistir, aqui mesmo ao pé de casa, à performance de um dos mais ilustres pianistas da actualidade, por muitos considerado o maior pianista do nosso tempo. Esta ocasião vai assim para a minha coroa de grandes glórias, como ter assistido a concertos de Alfred Brendel ou de Andreas Scholl.

Depois o programa foi magnífico: duas Sonatas e uma Fantasia de Mozart, e duas Sonatas de Beethoven. Neste caso, duas obras tardias de Beethoven, que eu já conhecia, em particular uma delas, a Sonata n.º 32 (opus 111), que é das minhas preferidas, nomeadamente o primeiro andamento, e que Solokov tocou de forma sublime, pelo menos tenho ideia de nunca a ter ouvido assim desta maneira tão arrebatada, e até espontânea, dava ideia de que a música estava a nascer ali naquele momento, a ser criada à medida que Solokov ia tocando.

Extraordinário, ainda, pelo final: Solokov fez seis bis, de cada vez que era chamado ao palco, sentava-se ao piano e tocava mais uma peça. Foram três horas de concerto, eu nunca tinha assistido a uma coisa assim.
Tags:

em vez de cravos
rosas
innersmile


FRÉSIAS

Uma pátria tem algum sentido
quando é a boca
que nos beija a falar dela,
a trazer nas suas sílabas
o trigo, as cigarras,
a vibração
da alma ou do corpo ou do ar,
ou a luz que irrompe pela casa
com as frésias
e torna, amigo, o coração tão leve.


- Eugénio de Andrade, RENTE AO DIZER

livros novos
rosas
innersmile
Um sábado magnífico. Há cerca de um ano que não me encontrava com os meus amigos da index ebooks (a Margarida, a Patrícia, o Luís, os Joões, e a Mãe do João, que faz parte do grupo) para uma tertúlia, e confesso que já tinha muitas saudades. Um dos pontos altos da tarde é sempre a troca de livros, entre empréstimos, devoluções e ofertas: ganhei uma biografia do Sal Mineo, uma obra que eu já tinha sinalizado há tempos, e que entretanto já estou a ler e a gostar imenso. Como diz o João M., parece a feira do livro e é melhor do que a troca de presentes no Natal (sim, até porque no Natal, claro, arriscamo-nos a ganhar cada mamarracho…)

Ontem, os amigos da index surpreenderam-me com a edição de dois livros meus. Já tínhamos concluído o processo de revisão, mas estava longe de supor que não só já estivessem prontos para editar, como já ali estavam, exemplares impressos e tudo. Um chama-se Alma e Outras Mulheres, e é de histórias curtas. O outro intitula-se Dezasseis Poemas de Ausência, Amor e Despedida.

São lindos. Ambos, mas a maior surpresa foi o dos poemas, é um livro que eu adoro, por tem poemas que me dizem muito e que, modéstia à parte, eu acho que ficaram felizes. Já me tinha divertido bastante a fazer a revisão deles, nomeadamente com os comentários e as sugestões que os meus revisores fizeram, e que sempre me obrigam, não só a repensar o texto, mas a pensar nas minhas soluções, nas razões porque uma frase fica melhor do que outra, no fundamento das opções que faço e dos rumos que tomo quando escrevo.

Além do mais, o livro ficou lindíssimo, uma capa maravilhosa, do próprio João, uma edição muito elegante. Um mimo. Fiquei comovidíssimo. No caminho de regresso a casa, sozinho, tive de parar numa área de serviço da autoestrada, para poder olhar para eles e folheá-los. Pedi um chá, na área de serviço praticamente vazia, e estive calmamente a ver e a ler os livros novos. São momentos assim.


jacques morelembaum, lula galvão, márcio dhiniz
rosas
innersmile
Sessão de luxo, ontem, nas quintas do Conservatório de música de Coimbra: Jacques Morelembaum em trio, com Lula Galvão, no violão, e Márcio Dhiniz, na bateria, a tocar temas próprios e a revisitar clássicos da canção popular brasileira. Sempre, é claro, o incontornável Tom Jobim, mas também, por exemplo, uma versão deliciosa de uma das minhas canções preferidas, Coração Vagabundo, do Caetano (“que passou por meus sonhos, sem dizer adeus, e fez dos olhos meus um chorar mais sem fim”).

Aliás, fui confirmar a uma entrada antiga do innersmile, em junho de 2003, a um concerto do Morelembaum2+Sakamoto (um projecto que rendeu um disco fabuloso, Casa, e creio que um outro ao vivo), no Jardim da Sereia, em Coimbra, e lá estava registado que nesse concerto, um dos meus momentos preferidos foi quando tocaram o Coração Vagabundo. Há canções que nunca andam muito longe de nós, toda a vida.

Para além desse concerto com Ryuichi Sakamoto e Paula Morelembaum, todas as outras vezes que vi o violoncelista ao vivo foi a acompanhar o Caetano Veloso, durante o longo período que durou a sua parceria, e que foram, acho eu, os melhores anos do Caetano. O violoncelo de Morelembaum trazia às canções do Caetano, para além de uma enorme criatividade nos arranjos, um toque de melancolia que acentuava bem o natural lirismo dos seus temas.

Adorei por isso poder assistir agora, e finalmente, a um concerto em que Morelembaum é líder, numa formação que cruza com virtuosismo a liberdade criativa do jazz com a tradição e o embalo da bossa nova. É evidente que não tinha dúvidas acerca da sua qualidade, mas poder participar dela em concerto é outra coisa, uma oportunidade fantástica. Foi um grande concerto, e foi, além disso, uma excelente ocasião, a marcar esta edição das temporadas de concertos do conservatório.
Tags:

dalida
rosas
innersmile
Dalida, o filme, realizado por Lisa Azuelos, tem ao menos a qualidade de deixar o mito mais ou menos incólume, não procurando as habituais explicações de pacotilha freudianas para contar a história da mulher por detrás da diva. Ainda bem que assim é, porque o filme permite-nos revisitar a carreira de Dalida e as peripécias da sua atormentada vida pessoal e afectiva, com o gozo acrescido de nos fazer regressar a um tipo de música e mesmo a uma certa noção do mundo que desapareceu completamente. Perdemos uma certa inocência? Sim, é verdade, e isso faz-nos sentir um pouco nostálgicos. Há muito tempo que não me lembro de um filme em que tanto se morre de amor, mas há na tragédia um certo sortilégio. O que nos faz regressar ao início: sim, é isso de que são feitos os mitos.
Tags:

?

Log in