tomorrowland: a world beyond + l'image manquante
rosas
innersmile
Não posso dizer que não me tenha divertido a ver a mais recente aventura da Disney, Tomorrowland: A World Beyond, dirigido por Brad Bird, o realizador de, entre outros, The Incredibles, Ratatouille, e do mais recente episódio de Mission Impossible. O filme é simpático, muito optimista, e sobretudo é uma aventura visual espantosa, em termos de efeitos especiais, sem dúvida, mas principalmente na concepção e na construção de uma visão do futuro, que é simultaneamente muito moderna mas também muito enraizada no imaginário futurista dos anos 50 e 60.

O problema é a narrativa, que nunca é muito eficaz, e nos deixa sempre na dúvida se estaremos de facto a ver um filme ou um longo teaser publicitário de mais um produto da gama Disney, a desenvolver em filmes futuros, em gadgets e outros brinquedos, e obviamente nos parques de diversão que a Disney tem um pouco por todo o mundo. Ou seja, durante o visionamento do filme nunca consegui afastar com eficácia a dúvida sobre se estaria a ser demasiado cínico ou a ser o objecto do cinismo da grande indústria do divertimento de massas.


Na outra ponta do espectro cinematográfico está o filme que fui ver ontem em sessão do Cineclube: l’Image Manquante, A Imagem que Falta, realizado por Rithy Panh, natural do Camboja, e que se baseia na própria experiência do seu autor, cuja infância foi passada sob o terror do regime do Khmer Vermelho de Pol Pot. Tratando-se de um documentário autobiográfico, Panh recorre a pequenas figuras de barro para encenar os caminhos da sua infância, intercalando esses segmentos com imagens reais do Kampuchea.

É, como se calcula, um filme fortíssimo, que dá conta do que foi viver, na esfera íntima, privada, familiar, as atrocidades do regime Khmer Vermelho. É esse, de resto, o seu principal traço distintivo: dar nome às vítimas, ainda mais do que rosto, já que faltam as imagens como o título do filme indica. E a violência e o horror acentuam-se com a ‘descolagem’ que o filme ensaia entre a crueza dos relatos, em voz off, e o aparente carácter lúdico (até porque é de uma infância que se trata) dos bonecos.

É interessante como a realidade retratada no filme parece tão distante, e no entanto é tão próxima. Afinal o Khmer Vermelho passou -se já no meu tempo, eu tenho memória própria desses acontecimentos, para mais vividos entre a exaltação do comunismo internacionalista e a descoberta do horror. No tempo da acção do filme, a segunda metade da década de setenta do século passado, eu, que tenho sensivelmente a mesma idade de Pithy Panh, vivi, de seguida, a exultação da revolução do 25 de abril, depois a descolonização e a independência da terra onde vivia, durante dois anos a experiência da construção de um regime comunista não muito diferente, na sua essência, e mesmo em alguns dos seus métodos, e por fim o abandono dessa vida para encetar uma outra, pós-colonial, e indelevelmente marcada por isso.
Tags:

folha de menta
rosas
innersmile
Final de dia perfeito na sexta-feira passada. Saí do serviço ainda relativamente cedo, por volta das seis, e fui, com uma queridíssima amiga, lanchar à casa de chá do jardim da Sereia. Um lanche demorado, sem pressas, com muita conversa, e que me permitiu falar, e ouvir certamente, sobre algumas das coisas mais íntimas, daquelas com quem não falo com quase ninguém.

Depois do lanche, uma volta pela cidade à procura de um quiosque que ainda estivesse aberto para comprar o Público, e de forma a evitar os lugares do costume, que estariam, a essa hora, invadidos pela horda futebolistica. Já a caminho de casa, descemos a Sá da Bandeira e comentámos o restaurante indiano Mint Leaf. Claro, mesmo tendo acabado de lanchar há pouco, parámos o carro e fomos jantar. Como houve uma troca de serviços, acabámos a comer o que tínhamos pedido e ainda mais um prato: galinha tikka masala, um caril de camarão e korma de porco. Uma refeição deliciosa, que iniciou com chamuças vegetarianas e terminou com uma sobremesa quente feita de cenoura ralada, cardamomo e frutos secos, cheia de sabores diversos, mas todos eles intensos e delicados. Bebi dois copos de nimbu pani.

o sol, o céu azul, é sempre assim
rosas
innersmile
FADO DA PRIMAVERA

Os dias estão maiores e mais brilhantes
A luz cintila com mais claridade
Esquecemos o que passou há instantes
A primavera voltou à cidade

As andorinhas gritam esvoaçantes
E girassóis florescem no jardim
Os jacarandás abrem deslumbrantes
O pôr do sol parece não ter fim

É sempre igual e sempre renovada
A força com que a vida se refaz
Só no meu peito ficará marcada
A primeira estação em que não estás

A primavera voltou à cidade
O sol, o céu azul, é sempre assim
É tudo igual, apenas a saudade
Faz chover de tristeza só para mim.


Quando reuni num livro as letras que escrevi a pensar em fados, pensei que não voltaria a escrever este tipo de poemas. Mas há uns dias, a propósito de uma das canções do concerto da Ala dos Namorados, lembrei-me de que poderia escrever um dedicado à primavera que incluísse, além desta, a palavra girassóis. Mas quando, depois de uns dias a macerar cá dentro, o poema saíu quase completo, essas duas palavras não ganharam o privilégio da rima. A “inspiração” musical para esta letra foi o Fado Alberto.
Tags:

antónio chaínho
rosas
innersmile
Concerto de António Chaínho, ontem, no auditórrio do Conservatória, a apresentar o álbum Cumplicidades. A acompanhar o mestre da guitarra, as cantoras Ana Vieira e Filipa Pais, e ainda Ciro Bertini, em viola baixo e voz, Tiago Oliveira e viola de fado, e Diogo Melo Carvalho nas percussões. Foi o terceiro concerto de Chaínho a que assisti (registados aqui no innersmile, mas acho que vi mais um), e é sempre uma enorme emoção. A guitarra do mestre é livre e imaginativa, procura sempre novas soluções e sonoridades, é tímida e exuberante. Voa lá pelos seus voos livres, mas tem sempre a raíz no fado.

O meu avô José morreu um ano antes de eu nascer, e só o ouvi tocar guitarra em raras gravações que havia em bobine na casa dos meus pais, e que há muito se perderam. Mas sempre que ouço tocar variações, como as que ontem António Chaínho tocou de modo sublime, lembro-me do meu avô e sinto-me ligado a ele, quase como ele estivesse presente.

casque d'or
rosas
innersmile
Mais uma sessão do cineclube Fila K, desta vez com o filme Casque D’Or, realizado em 1952 por Jacques Becker, com Simone Signoret e Serge Reggiani nos principais papeis, e de novo programado e apresentado com brilhantismo por Fernando Fausto de Almeida. Trata-se de uma tragédia romântica, que conta os amores funestos entre uma prostituta e um carpinteiro num ambiente de criminosos, estabelecimentos de má fama e polícias corruptos, da Belle Époque.

Uma recriação da época minuciosa e opulenta, a maravilhosa fotografia a preto e branco e o trabalho de atores e atrizes no apogeu da sua arte são factores que transformam este filme numa verdadeira obra de arte, mas aquilo que lhe dá o toque de génio, que o transforma numa obra-prima, é a narrativa, o story-telling.

O modo como o filme vai desfiando a sua história, a progressão do enredo, a sucessão das peripécias, o desenho das personagens, é tudo tão envolvente, que depressa esquecemos que estamos a ver um filme de época, realizado há mais de sessenta anos, de tal modo estamos absorvidos e interessados no destino daquela história e dos seus protagonistas. Não há momentos mortos, a acção está sempre a progredir com uma noção perfeita de ritmo.

E o que é mais espantoso é que tudo isto acontece visualmente, toda a informação está nas imagens, não há cenas ou diálogos explicativos ou de enquadramento, cada sequência é importante, cada frame conta. Mas também não há informação a mais, nada que nos distraia ou confunda, nenhuma ganga, nenhuma gordura. Acho que vi muitos poucos filmes assim, com uma narrativa tão absorvente e eficaz.
Tags:

têm alma própria
rosas
innersmile



SÃO AS COISAS E TÊM ALMA PRÓPRIA

São as coisas e têm alma própria
e as nomeio pedra água pau casa
e me equilibro e perco em seu centro
mas as trato como pessoas iguais a mim.
Nunca estou só como as crianças
que frente a ninguém estão no meio dos seus amigos.
São as coisas e povoam tudo como pessoas
e como pessoas me cercam e seu coração lhes bate e me chama.
Suas almas atravesso e as trato por tu


- Jall Sinth Hussein, POEMAS DO ÍNDICO (Amores Perfeitos, 2004)

mad max: fury road
rosas
innersmile
Gostei muito do regresso de Mad Max com Fury Road. Claro, sendo eu um senhor de idade, vi os primeiros filmes Mad Max no cinema, na altura em que saíram (só não me lembro muito bem se vi o Beyond Thunderdome no cinema ou em video, mas para falar com franqueza a única coisa de que me lembro bem desse filme é do clip musical da Tina Turner, para a canção We Don’t Need Another Hero), e são eles os responsáveis por o nome do George Miller ter sempre ficado um pouco mítico para mim.

Neste filme o Max é completamente eclipsado pela Charlize Theron, o que em si não é mau. Mas, claro, todas as oportunidades de ver o Tom Hardy são boas. Mas tirando isso, o filme é excelente, tem aquela dose de ‘ugliness’ que fazia o charme dos primeiros filmes, uma música tonitruante, máquinas bestiais, perseguições escaldantes, e sobretudo um clima de caos e anarquia que acentua o carácter distópico da história.
Tags:

piso 3 quarto 313
rosas
innersmile


Fernando Correia é um conhecido homem da rádio e da TV, em particular no campo do jornalismo desportivo. Neste Piso 3 Quarto 313, o autor relata a sua experiência de tratar e lidar de perto com uma doente de Alzheimer, no caso a sua própria mulher.

Interessava-me muito ler este livro por duas razões. A primeira, naturalmente, é porque se trata de uma questão que me diz respeito, embora haja uma diferença não escamoteável: enquanto que o meu pai começou a apresentar os primeiros sinais de degenerescência cognitiva aos 80 anos, a doente do livro tem neste momento 71 e já leva mais anos de doença do que o meu pai, e está num estado muito mais avançado. Ou seja, isto sim, é uma verdadeira tragédia. Apesar de haver muitas coisas que são familiares, quer em relação ao aparecimento da doença, quer na maneira como ela progride, quer no enorme peso em que esta doença se traduz para os que cuidam dos doentes.

Outro aspecto que me interessava particularmente tem a ver com o facto de tanto no caso do livro como no meu, estar em causa a mesma instituição religiosa, ainda que em casas diferentes. Interessava-me em especial perceber a avaliação que Fernando Correia faz dessa instituição e dos cuidados que são dispensados aos doentes. Ainda que o autor, a avaliar pelo relato, esteja muito mais envolvido , quer no acompanhamento quer no próprio tratamento, do que eu; o que tem a ver, creio, quer com o factor idade, quer sobretudo pelo diverso impacto que a doença tem nos dois casos.

ala dos namorados
rosas
innersmile
Fui ontem às quintas no Conservatório, para o concerto da Ala dos Namorados. Confesso que não sou particular fã da banda, nem sequer ouvinte atento, mas o concerto surpreendeu-me muito, e gostei bastante. Os músicos são, para além da Nuno Guerreiro na voz, e Manuel Paulo, piano e voz, o Zé Nabo, no baixo e voz, e o Alexandre Frazão, na bateria e percussões, e ainda João Balão, músico convidado, para tocar cavaquinho em alguns temas. Ou seja, todos grandes músicos, dos maiores da música portuguesa, do jazz, do rock e da música popular. Esta formação reduzida deu às canções arranjos novos e estimulantes, e o apoio necessário para fazer a voz de Nuno Guerreiro brilhar em toda a sua capacidade e saber.

Para além das canções clássicas da banda, foram apresentados vários temas do seu mais recente disco, Felicidade, em particular um tema que eu já tinha ouvido na rádio e que me comove sempre, chamado Águas Furtadas. O público foi aquecendo ao longo da noite, e foi muito caloroso, o que contribuiu igualmente para ter sido um concerto memorável. O Nuno Guerreiro em particular estava muito entusiasmado, e, no final, não lhe apetecia nada ir embora, e ficou no palco a cantar temas da banda a capella, com o público.
Tags:

la ronde
rosas
innersmile
Fui ontem ver, em sessão organizada pelo cineclube Fila K, o filme La Ronde, de Max Ophuls, integrado num ciclo dedicado o Simone Signoret. O filme é fabuloso, e é mesmo caso para dizer que já não se fazem filmes assim, em que o próprio objecto filme é tão ou mais fascinante do que a história que pretende contar, ou mesmo do que a mensagem que pretende passar para o espectador.

Em resumo, trata-se da história, adaptada de uma peça de teatro da autoria de Arthur Schnitzler, ou melhor de 10 histórias de sedução e desejo. De desejo sexual, note-se, que o filme não o faz por menos, apesar de, como se calcula num filme feito em 1950, não haver propriamente figuração da concretização desse desejo. Mas, para compensar, há muita representação e muito innuendo.

Há, em primeiro lugar, um compere, um mestre de cerimónias, que vai introduzindo as histórias, narrando e comentando, e ao mesmo tempo participando nelas. Depois vão sendo introduzidas sequencialmente outras personagens: uma prostituta, um soldado, uma criada, um jovem, uma mulher casada, o marido da mulher casada, uma aspirante a actriz, um poeta, uma actriz, um conde, e regressamos à prostituta inicial; estas personagens vão tendo sucessivos encontros a dois, de forma que, à vez, cada uma delas vai protagonizando o encontro seguinte. É como na Quadrilha, o poema de Carlos Drummond: a prostituta seduz o soldado, que por seu lado seduz a criada, que por seu lado seduz o rapaz, e por aí adiante.

Esta estrutura circular da história é acentuada pela própria estrutura do filme, em que o elemento circular está sempre presente, quer através dos elementos cénicos, como o carrocel, quer através do argumento, por exemplo na canção recorrente, quer na própria narrativa, nos travellings circulares, nos planos sequência, no modo como os cenários das histórias se vão transformando.

O resultado é admirável, e reforça o sentido lúdico de um filme todo marcado pelo humor. Como referi anteriormente, toda a parte do desejo sexual e da sua concretização é relatada mais de modo figurado e insinuado do propriamente explicito. Um dos exemplos mais divertidos disto, é quando o próprio carrocel avaria e começa a fumegar e a perder força, ao mesmo tempo que um dos encontros sexuais não é concretizado porque o seu protagonista masculino falha na hora decisiva por excesso de nervosismo e ansiedade. Outro absolutamente genial é quando o mestre de cerimónias aparece de tesoura em punho a cortar um pedaço de filme precisamente no momento em que começa mais uma cena de sexo.

Para além de Signoret, participam no filme outros actores maiores do cinema francês, como Anton Walbrook, que cria um compere que só pode ter inspirado Wes Anderson e Ralph Fiennes para a criação do Monsieur Gustave H do Grande Hotel Budapeste, Serge Reggiani, que foi também um cantor de imensa popularidade, Daniel Gélin ou Gérard Philipe, um homem tão belo quanto meteórica foi a sua carreira e a sua vida.

A sessão foi programada e apresentada por Fernando Fausto de Almeida, que eu não conhecia mas de quem fiquei fã incondicional. Ouvi-lo falar sobre cinema e o filme, é não apenas uma lição (FFA foi professor, e deve ter sido dos bons, a avaliar pela forma cativante como fala dos assuntos), como sobretudo acrescenta muito ao prazer de perceber e fruir do filme que se vai ver.

A única nota negativa da noite vai para a imensa dificuldade que eu tenho em manter-me acordado numa noite de semana, sobretudo depois das onze horas. É um sacrifício enorme, agravado pelo desconforto das cadeiras do auditório. O início da sessão estava marcado para as 21.40, e com a apresentação do filme, a projecção só começou em cima das 10 horas. Muito tarde, sobretudo para quem no dia seguinte tem de se levantar cedo e passar o dia a trabalhar. Se fosse eu a mandar, a sessão começava mais tardar às 9, e mesmo assim. Em Londres, a sessão principal dos cinemas, tal como o horário dos teatros, é ali entre as 7 e as 8, e a sessão das 10 nos cinemas já é para noctívagos. Mas isso, claro, é num país em que se trabalha, e em que se considera que o trabalho é importante.
Tags:

os passos em volta, campo santo
rosas
innersmile


O que mais me fascina nestes conjunto de textos em prosa, uns mais próximos de serem contos, outros mais soltos do género, é a depuração da escrita, a forma burilada, por um lado, e, por outro, a palavra fulgurante, o poder das metáforas, que ultrapassa a nossa capacidade de as entender completamente. Dito isto, confesso que tenho, na prosa como já acontecia na poesia, uma certa dificuldade em entrar no universo de Herberto Helder, como se fosse necessária uma chave que não possuo.



Este livro reúne postumamente escritos de vária natureza, do autor de Austerlitz e Os Emigrantes. Numa primeira parte, mais curta, quatro textos sobre a Córsega onde, ainda que em partes desiguais, está o Sebald reflexivo e contemplativo que conhecemos de outras deambulações. Numa segunda parte reúnem-se textos de crítica literária, com particular enforque na literatura alemã e na literatura do pós-guerra. O meu ensaio preferido foi, no entanto, sobre Bruce Chatwin, uma análise certeira que iluminou e enriqueceu o meu gosto pela literatura da errância de Chatwin.

modus operandi
rosas
innersmile
Acordei hoje às cinco e meia da manhã a meio de um sonho. Estou de férias num país qualquer, que identifico como um dos antigos países de leste. Não percebo a língua nem o modus operandi da cidade. Há sempre uma certa barafunda, quer nas ruas quer no hotel onde estou instalado. A minha mãe adoece e a situação a princípio não é grave mas piora numa espécie de contagem decrescente. Estou cada vez mais pressionado pelo prazo que está a terminar mas não consigo que ninguém me entenda quando tento saber onde é que há um hospital e como é que posso levar a minha mãe para lá.

Voltei a adormecer e recomeço a sonhar. Saio à rua e decido trazer o gato. Ele vem atravessado nos meus ombros, da maneira como às vezes gosta de andar em casa. Desço uma calçada muito íngreme, e acho que estou em Lisboa. No fim dessa calçada há uma praça cheia de gente e cheia de gatos iguais ao meu. Quando tento segurar o gato, ele salta para o chão e eu deixo de o conseguir distinguir no meio dos outros. Digo a alguém que está comigo que vou regressar a casa, para ver se o gato me acompanha, mas não tenho esperança nenhuma de que isso aconteça. Começo a afastar-me do centro da praça, e, no meio de tantos gatos iguais, há um que se cola a mim, a roçar-se nas minhas pernas.

Tive um fim de semana muito chato. Passei o sábado com a minha tia, que veio buscar algumas coisas dela que estavam em casa dos meus pais. Fala-me com muita frieza, porque há coisas que eram da minha mãe, que a minha mãe deu a quem quis, e agora a minha tia diz que eram dela. Não estamos a falar de objectos valiosos, quando muito têm pouco valor, mas são coisas de família, com valor afectivo, sobretudo coisas que eram da minha avó. Acabámos por nem sequer ir ver o meu pai, porque passámos a maior parte do tempo na casa quase vazia a separar coisas para ela levar. É certo que já não havia muita coisa lá em casa, mas ela levou tudo o que quis.

No domingo fui visitar o meu pai. Fomos beber um café ao bar, demos uma voltinha e depois fui pô-lo na unidade onde está internado. Estava lá uma freira que desatou a falar comigo e com ele. Demos mais uma volta a todo o piso, os três, a freira a dizer o padre nosso com o meu pai (ela começa as frases, ele termina) e depois a cantar o 13 de maio. Acabei por estar lá a tarde quase toda.

um estranho lugar para morrer
rosas
innersmile


Um policial sui generis, por várias razões: é escrito por um norte-americano que vive na Europa, a trama passa-se na Noruega, o protagonista é um judeu octogenário. Mas a principal razão é porque as personagens, sobretudo a de Sheldon, tem um investimento em termos de construção e densidade que não é habitual nos livros do género.

De facto, pela personagem de Sheldon passam as sombras do holocausto e da ocupação nazi da Europa, em particular dos países nórdicos; mas passam também os traumas das guerras em que os Estados Unidos estiveram envolvidos, nomeadamente as guerras da Coreia e do Vietnam, que desempenham papeis centrais na trama. Mas pelo romance passam igualmente os temas que fazem a actualidade da Europa, como a guerra dos Balcãs e os fenómenos de emigração clandestina e de criminalidade organizada que persistiram na senda do conflito.

A narrativa vai alternando entre momentos mais lentos e reflexivos, e outros mais trepidantes e cheios de acção e suspense.

vozes
rosas
innersmile
Ontem acordei às seis da manhã, com o gato a atirar coisas pesadas da estante para o chão de soalho flutuante (coitada da vizinha de baixo). Não consegui voltar a adormecer, e às seis e trinta estava farto de estar na cama e decidi levantar-me. Fui à cozinha, bebi água e tratei de alimentar o bicho. Vinha eu a atravessar o hall de entrada com o prato da comida do gato na mão, ouço distintamente uma voz, masculina, a chamar o meu nome: Miguel. Quase como se estivesse ali ao meu lado.

Olhei logo para o gato, mas ele, como habitualmente, caminhava à minha frente com o ar frenético que sempre põe quando sabe que vai comer. Olhei em volta, já a começar a racionalizar que devia ter sido uma alucinação auditiva. Acontece-me não propriamente com frequência, mas de vez em quando, aquela sensação de que ouvimos uma voz, por vezes a voz de alguém conhecido, muitas vezes a chamar-nos pelo nome. Mas desta vez era diferente, era demasiado distinto e presente.

Estava ainda um pouco atordoado quando tornei a ouvir a mesma voz a chamar pelo nome, seguida de um leve toque na porta. Era um dos meus vizinhos, a avisar-me de que tinha havido uma inundação numa das lojas do rés-do-chão, a energia eléctrica do prédio tinha feito curto-circuito e a porta da garagem só se podia abrir manualmente. Foi simpático, porque sabe como eu sou nabo nesse tipo de coisas (e nas outras também) e calculou, bem, que eu não conseguiria abrir a porta para sair com o carro.

Desci com ele, tirei o carro cá para fora, agradeci, e voltei para casa, para me arranjar para ir trabalhar. Mas aquela sensação estranha de um tipo estar sozinho em casa, com o seu gato, às seis e meia da manhã, e ouvir chamar pelo seu nome, ficou comigo o dia todo, e ainda sinto um leve arrepio quando me lembro.

o curso normal
rosas
innersmile
No domingo à tarde, regressava de ir ver o meu pai à casa de saúde e cruzei-me, no IC2, com grandes grupos de peregrinos para Fátima. Junto ao local onde há poucas semanas, cinco peregrinos foram apanhados por um carro desgovernado, o trânsito quase para. Pouco depois cruzo-me com um grupo muito grande, um molhe de gente que transborda da estreita berma para a faixa de rodagem. À frente, um homem carrega um porta-estandarte com uma bandeira, azul clara e amarela. Logo a seguir, dois homens suportam um pequeno andor com uma estátua da nossa senhora de Fátima. Não sou religioso, nem sou crente, e, por isso, não comungo do culto mariano. Mas ver aquela imagem da senhora, estrada fora, ao sol inclemente da tarde, por entre o tumulto do trânsito e a brasa do alcatrão, transportada por um grupo de homens e mulheres, comoveu-me. Fiquei com os olhos rasos de água.

Ontem de manhã recebi um telefonema da casa de saúde. Convidam-me para, na sexta-feira de manhã, participar numa reunião do grupo multiprofissional que definirá e planeará a intervenção terapêutica em relação ao meu pai. Respondi logo que sim, claro. E mais uma vez fiquei muito comovido.

A vida segue o seu curso normal. A felicidade reside nas pequenas coisas, nos momentos em que nos sentimos apaziguados. Não há que pedir mais, pois a vida já é generosa, com tudo aquilo que recebemos dela; e com aquilo que passamos aos outros do que a vida nos dá.

viagens pagãs
rosas
innersmile


Viagens Pagãs é um conjunto de sete relatos, da autoria de Fernando Dacosta, dos quais quatro são de viagens, um é uma memória de infância, e dois são ensaios reflexivos. A marcar cada um dos relatos, um meio de transporte: uma avioneta no Corvo, uma motocicleta em África, um "carocha" no Brasil, e por aí fora.

Característica comum a todos os textos, cada um deles com uma epígrafe temática, é uma reflexão sobre Portugal, a sua história e a sua identidade, salientando o carácter pagão (daí o título) desses traços identitários, nomeadamente os que se relacionam com o mito sebastianista.

Confesso que soube a pouco, pelo menos no meu caso, que ia sobretudo à procura de travelogues. E é pena, porque o autor é um excelente prosador e cronista, e sabe muitas histórias e conheceu muita gente.

O meu relato preferido foi o da Ilha do Corvo, que chega a ser empolgante. E tem duas histórias deliciosas. Uma é a do cartaz que os habitantes da ilha fizeram para acolher o Presidente da República Óscar Carmona: Bem-vindo a esta terra. E puseram-no no cemitério!

A outra, se não é verdadeira, mais valia que o fosse, e justifica o facto de haver tantos rapazes chamados Maria na ilha. Durante a guerra colonial, os pais davam nomes femininos aos filhos homens, para passarem despercebidos pelas autoridades encarregadas de fazer a mobilização militar.

the humbling
rosas
innersmile
Não se trata de um grande filme, mas The Humbling, adaptado de um livro de Philip Roth, tem qualquer coisa que anda muito perdido do cinema actualmente. Realizado por Barry Levinson (que nos anos 80 fez filmes como Good Morning Vietnam ou Rain Man), e contando com Buck Henry como co-argumentista (o autor, entre outros, do argumento de The Graduate), este filme recupera uma certa tradição de cinema para adultos, ou seja filmes de argumento, de história, sobre assuntos que interessam a adultos, nada a ver, portanto, com acção e efeitos especiais.

The Humbling traz-os ainda de volta Al Pacino, no papel de um velho actor que entra em depressão por se aperceber que está a perder as faculdades necessárias à sua arte. Pelo caminho conhece Pegee, desempenhado por uma estupenda Greta Gerwick, uma rapariga que traz à sua vida uma certa dose de loucura e desconformidade. O tom é de comédia, ainda que amargo e desiludido, mas com alguns momentos de franca gargalhada. Pacino está em forma, como sempre.
Tags:

primeira pessoa plural
rosas
innersmile




Há muito tempo que não ia ver uma grande exposição, e tive sorte porque me aconselharam a ir ver esta, hoje, precisamente no último dia em que está patente ao público. primeira pessoa plural apresenta obras da colecção de arte contemporanea de Ana Cristina e António Albertino, com curadoria de Delfim Sardo, ocupando a nave e os escritórios de um espaço industrial desenhado pelo arquitecto João Mendes Ribeiro, que foi igualmente o autor do projecto expositivo. Como se percebe, uma oportunidade de ouro, a de ver obras muito estimulantes, nomeadamente de artistas portugueses, com o desafio adicional de usufruir em primeira mão de um espaço que se confronta com uma utilização diversa daquela para que foi criado.

A colecção AA é excepcional, e podemos fazer uma ideia da sua riqueza a avaliar pelos artistas que não estão representados nesta exposição. Gostei muito de ver duas fotografias do Robert Mapplethorpe, não me lembro de ter visto antes o seu trabalho ‘ao vivo’, e também de uma obra de Juan Muñoz que não conhecia. Mas o grande destaque vai, sem dúvida, para a arte contemporânea portuguesa, e como é impossível referir todos os nomes presentes, destaco aqueles de cujos trabalhos mais gostei: Francisco Tropa, Rui Chafes e Pedro Cabrita Reis.

22 de agosto de 1927
rosas
innersmile


No dia 22 de agosto de 1927, a Lucinda e o José trocaram fotografias. Ela tinha 17 anos e escreveu na dedicatória: “Ofereço ao meu querido José como prova de verdadeira amizade“. Depois assinou o nome completo (apenas dois, o nome próprio e o apelido) e datou: Lourenço Marques, 22 de Agosto de 1927. Ele foi mais ousado e, com outro arrebatamento, escreveu: “À sua inolvidável Lucinda como testemunho do grande e sincero amor que lhe consagra o seu José.” E, pôs, a seguir, a data.

No início do ano seguinte casaram, em janeiro de 1929 tiveram a primeira filha, e dois anos depois, em 1931, igualmente em janeiro, a segunda, a minha mãe. A terceira filha nasceria dois anos depois, em março de 1933, e foi quem me deu a conhecer estas fotografias.

As fotos têm a forma de postal, com capa, e a caligrafia da minha avó, então uma adolescente, é precisamente a mesma que lhe conheci toda a vida, até às suas últimas cartas que recebi pouco antes de morrer, em abril de 1993. O meu avô nunca conheci, morreu um ano antes de eu nascer. Ao arrumar a casa dos meus pais, principalmente o meu antigo quarto, encontrei muitas cartas e postais da minha avó, que guardei e continuo a guardar.

mudanças
rosas
innersmile


A minha baby faz hoje três anos. O meu irmão, sessenta.

É impossível esquecer a noite de há três atrás. Maio de 2012, tinham-me aparecido as primeiras hematúrias há poucos dias, e eu estava literalmente em pânico, mas aquele pânico contido, em que mantemos tudo cá dentro, em segredo, com a esperança, tão vã como insana, de que tudo não passe de mal-entendido e a vida retome o seu curso normal. Uma noite de domingo, lua cheia, a maior lua do ano, sinal de que o satélite atingia o seu ponto orbital mais próximo da Terra.

Percebi que o meu irmão estava on-line e liguei-lhe, para lhe dar os parabéns. Ele disse-me que estava acordado, porque a minha sobrinha já estava em trabalho de parto e aguardava a notícia do nascimento da neta. Ficámos, cada um no seu lado do mundo, no seu hemisfério, e ambos longe do centro da acção, ligados, à espera de desenvolvimentos.

Tanta coisa mudou nestes três anos. A principal delas foi que eu recebi a notícia do nascimento da bebé com muita cautela, com medo de me envolver muito, afectivamente. E o que mais mudou nestes três anos, é que eu envolvi-me mesmo muito, afectivamente, com a minha baby. Que hoje é minha afilhada. E por quem eu sou absolutamente louco de amor.

o assassinato de margaret thatcher
rosas
innersmile


O Assassinato de Margaret Thatcher, da autoria de Hilary Mantel, é uma colectânea de contos em que o último, cujo título é auto-explicativo, dá nome à colecção. Todos os contos são excelentes, com narrativas que radicam no dia-a-dia, e nessa possibilidade de o quotidiano por vezes conseguir ser pior que a mais grotesca das ficções. Mantel tem um sentido de humor negro e ácido, e uma capacidade afiada como uma faca de cortar a direito até expor o lado mais sombrio do espírito humano. Divertidos e inteligentes, estes contos abrem o apetite para voos mais altos na bibliografia da autora.

mother's day
rosas
innersmile


No dia 2 de abril, quando fez um mês que a minha mãe faleceu, eu fui para o Algarve, para passar uns dias com a minha baby e os meus sobrinhos. Ontem, fui almoçar com a minha tia e a minha prima a Rio de Mouro, onde tirei uma foto a uma fotografia antigo, em que a minha mãe tem dois anos de idade. Acho que a minha mãe aprovaria a escolha de aproveitar esta data para me divertir e estar com pessoas de quem gosto em vez de mandar rezar missas, ou estar sozinho a ter pena de mim próprio. Não consigo sentir tristeza maior ou mais poderosa do que a sinto pela sua ausência, nem mais saudades do que aquelas que andam sempre comigo. E vivo essa tristeza e essas saudades da mesma maneira como eu sei que ela vivia as suas próprias perdas irreparáveis.

Depois do almoço fui ter com o meu amigo João e fomos para Lisboa, para participar numa sessão de lançamento promovida pela Index ebooks. Teve lugar no Centro LGBT da Ilga Portugal, em plena baixa lisboeta; foi a primeira vez que eu lá fui e gostei de lá ter ido. Apesar de não ter ocorrido exactamente como previsto, devemos ao livro Dois Mundos e ao seu autor, a oportunidade de passar um belo pedaço da tarde a falar de livros, do seu e de muitos outros. E eu agradeço-lhe ainda a oportunidade sempre rara de me encontrar e conviver com algumas das minhas pessoas favoritas e a quem mais admiro. O convívio prolongou-se depois num repasto que correspondeu por inteiro àquilo que me parece ser a definição de um jantar perfeito. E isto para nem falar no bacalhau cozido com grão.

Foi um sábado que me soube pela vida, e como eu já não tinha há algum tempo. Tenho de agradecer ao João, à Margarida, ao João, ao Luís, à Patrícia, ao Marco, ao Paulo e, claro, ao Pedro, por me terem ajudado a lembrar-me da minha mãe da melhor maneira possível.

dora bruder
rosas
innersmile


Gostei imenso de Dora Bruder, da autoria de Patrick Modiano. Eu já tinha lido um outro livro do autor, As Avenidas Periféricas, que a Margarida me ofereceu no Natal, e de que já tinha gostado bastante. Não é uma escrita empolgante, não se trata propriamente de page turners, mas os livros têm ao mesmo tempo uma profundidade e uma limpeza, que me seduzem. Por outro lado gosto da mistura de realidade e ficção, de modo que não conseguimos perceber exactamente o que é que são factos concretos e o que é que é fruto da imaginação do escritor. Quando estava a concluir a leitura do livro lembrei-me que, se calhar, Modiano e Sebald são os dois escritores que eu escolheria se pudesse escrever à maneira de. Não é a mesma coisa que dizer que são os meus escritores favoritos, não é nem deixa de ser, mas a escrita de ambos fascina-me ao ponto de eu dizer que sim, que se eu conseguisse, escreveria livros como os deles.

Este Dura Bruder é uma espécie de inquérito. Tem como ponto de partida um anúncio de jornal publicado em 31 de dezembro de 1941: os pais de Dora noticíam o desaparecimento da filha, uma adolescente judia de 15 anos, divulgam os seus sinais particulares, e pedem informações sobre o seu paradeiro. Com base nesta escassa informação, o narrador Modiano tenta, por um lado, reconstruir o que foi a vida dos Bruder e de Dora nos tempos da ocupação nazi, e o percurso de Dora desde o seu desaparecimento até ser deportada para Auschwitz, em setembro de 1942.

Outro aspecto que me fascinou particularmente no livro é o seu carácter “topográfico”. Muita da pesquisa de Modiano tem a ver com as ruas, com os edifícios, com aquilo que permanece desse tempo negro, e com aquilo que desapareceu para sempre. O autor percorre os caminhos, estabelece trajectos, e formula hipóteses baseando-se nas suas próprias vivências da cidade. Este aspecto dá um certo tom à narração, uma certa melancolia, uma dor por todas as perdas que a França ocupada sofreu: a perda das pessoas, das histórias, até das ruas e dos bairros.

O resultado deste inquérito pessoal é um relato sombrio e desesperado sobre a vida na capital francesa sob a ocupação nazi. A violência e o horror que sentimos latente ao longo de todo o livro, entra como um relâmpago quase no final, breve e intensamente, a justificar a razão pela qual este como outros exercícios de memória são imprescindíveis.

cobain: montage of heck
rosas
innersmile
Fui ver na sexta-feira passada o filme Cobain: Montage of Heck, um documentário realizado por Brett Morgan com base em filmes caseiros e outros documentos pessoais de Kurt Cobain. Gostei muito do filme, apesar de haver um certo tom excessivo que não é muito o meu género. Mas o filme passou-me por completo a sua perplexidade, que é a de tentar, não entender as razões, mas de alguma maneira captar o movimento auto-destrutivo de Kurt Cobain, a sua impossibilidade de resolver a equação em que se transformou a sua vida, a sua vocação de anjo caído.

Para além dos filmes caseiros e da iconografia de Cobain (e de sequências de animação e live footage de concertos), o filme tem uma meia dúzia de talking heads estruturantes: a mãe, a irmã, o pai, a madrasta, a namorada,além da Courtney Love e do Krist Novoselic. Ou seja pessoas sempre muito próximas de Kurt e que reforçam a perspectiva íntima do filme, e que partilham dessa perplexidade, ou pelo menos ajudam a equacioná-la.

o aroma da goiaba, lábio/abril
rosas
innersmile


O Aroma da Goiaba reproduz uma extensa entrevista que o escritor e jornalista colombiano Plinio Apuleyo Mendoza fez ao seu compatriota Gabriel Garcia Marquez. Publicado originalmente em 1982, portanto antes do Nóbel mas já em plena época de aúreo reconhecimento e popularidade do autor de Cem Anos de Solidão, o livro passa em revista a biografia de Gabo e a sua obra até então, procurando nesta as marcas daquela. O volume completa-se com curtas vinhetas inseridas em itálico no texto, onde Plinio Apuleyo Mendoza vai ensaiando um esboço de uma biografia um tanto poética de Garcia Marquez, com o objectivo de contextualizar trechos da entrevista.

Trata-se de um livro que se lê bem e depressa, que interessará porventura mais aos fãns de GGM do que aos leitores em geral, mas que não deixa de ser um contributo importante para uma melhor compreensão da obra do autor do Outono do Patriarca.



Uma gentil oferta de um leitor aqui do innersmile possibilitou-me a leitura de Lábio / Abril, de Daniel Lourenço, uma obra que, em prosa poética, procura confrontar a memória da Revolução de 25 de Abril com o lugar que no Portugal contemporâneo é reservado às questões da sexualidade que foge à heteronormatividade. É, neste sentido, um exercício de dupla liberdade: a de escrever sobre o que resvalou para as margens do País de Abril, mas também a de ensaiar um discurso que seja ele próprio livre.

hiato
rosas
innersmile


"Deixaram poucas marcas atrás de si. Quase anónimas. Não se destacam de certas ruas de Paris, de certas paisagens de arrabalde onde descobri, por acaso, que haviam morado. O que se sabe deles resume-se amiúde a um simples endereço. E esta precisão topográfica contrasta com o que ignoraremos da sua vida para todo o sempre - esse hiato, esse bloco de desconhecido e de silêncio."

- Patrick Modiano, DORA BRUDER (Porto Editora)


Os meus pensamentos vão hoje para o meu amigo Bruno, para quem o mundo, neste momento, não pode deixar de ser um vasto desamparo. Ao seu lado, era o único lugar onde hoje faria sentido eu estar.

era uma vez em goa
rosas
innersmile


Era Uma Vez em Goa é o segundo livro que leio em poucas semanas de Paulo Varela Gomes, depois da colecção de crónicas Ouro e Cinza. Pode-se dizer que é um livro muito sui generis: trata-se de um relato de viagem (está publicado na colecção de literatura de viagens da editora), mas de uma viagem inventada, feita por um narrador que é uma personagem de ficção. Acho que com estes pressupostos as hipóteses da coisa correr mal seriam grandes, mas graças à engenhosidade e ao talento do autor, o resultado é notável.

O narrador é um jovem inglês a fazer um périplo pela Índia no espírito beatnick que viria a transformar Goa num local de peregrinação de várias gerações de hippies. O tempo da viagem é o início dos anos 60, mais propriamente em 1963, dois anos depois da anexação do território à União Indiana e da saída, pouco digna, dos portugueses do território. Paulo Varela Gomes utiliza este dispositivo para tratar o tema da presença portuguesa e do seu confronto com a força imensa da cultura e da religião e da organização social, política e económica da não indiana. Não é um livro de tese, até pelo modo bem-humorado como o autor assume as suas liberdades narrativas, mas é principalmente uma obra que interroga um fascínio, que procura os seus sinais, trata-se quase de um jogo, em que o tempo é um desafio mas é igualmente um factor lúdico, ao procurar naquilo que permaneceu até hoje da presença portuguesa de quatro séculos nos territórios da Índia portuguesa, as raízes ou as razões dessa permanência.

Para além do humor, marcam esta narrativa a vivacidade das descrições, o apuro e o rigor da arte e da cultura, nomeadamente da arquitectura e da fotografia, e, correndo o risco de me repetir, um profundo fascínio por uma terra e também por uma cultura que, nas suas forças como nas suas fragilidades, é capaz de ir resistindo quer à erosão do tempo quer à precariedade dos homens.

O protagonista do livro, o narrador, é um jovem inglês chamado Graham. Na primeira parte da história, uma das personagens principais é o escritor inglês Graham Greene, que Paulo Varela Gomes introduz na história por Greene ter efectivamente estado em Goa no tempo da acção e por ter escrito um artigo sobre o território, que é publicado em anexo ao livro. Curiosamente no livro que li a seguir a este, o escritor Gabriel Garcia Marquez tambémse refere a Graham Greene, de quem era amigo e cúmplice, no movediço terreno da política da América Latina.

quatro mãos
rosas
innersmile
Li há pouco, a propósito de um livro que estou a ler, que foi escrito a quatro mãos, porque tem dois autores. Suponho que esta expressão seja importada da música, nomeadamente do piano em que há de facto obras que são executadas por dois pianistas a quatro mãos. Mas escrever livros? Parece-me tão pouco plausível a possibilidade de haver dois escritores ambidextros a escreverem um livro conjunto, com cada um deles a escrever com as duas mãos ao mesmo tempo!
Tags:

follow up
rosas
innersmile
Há perto de cinco meses, no dia 4 de dezembro, fui fazer mais uma cistoscopia de controlo, no seguimento de um carcinoma urotelial que tive em 2012. Estava com o espírito demasiado ocupado com os problemas dos meus pais para me preocupar com o assunto, e francamente optimista quanto ao resultado. O exame estava a correr muito bem, feito pelo meu médico especialista preferido, ele muito animado com os resultados, até que, oh-oh, observou novas lesões neoplásicas.

Foi feito o pedido de marcação da cirurgia, e eu saí do hospital apreensivo e desanimado, mas sobretudo muito zangado, a sentir que era uma tremenda injustiça aquilo acontecer-me logo numa altura em que os meus pais, sobretudo a minha mãe, precisavam tanto de mim e da minha disponibilidade.

Nesse dia ao fim da tarde combinei com a minha mãe encomendarmos pizzas para o jantar, e eu fui lá ter. Levava o gato, para o mostrar à minha mãe, e para o levar para casa de uma amiga, pois tinha combinado com o João e a Margarida, ir passar o fim de semana à Covilhã. Passados poucos momentos de chegar lá a casa, percebi que tinha acontecido qualquer coisa de grave: a minha mãe tinha dado uma queda, e não conseguia andar ou fazer qualquer movimento ou carga com as pernas.

Foi um dia terrível, seguramente um dos piores da minha vida. Menos de duas semanas depois eu fui novamente operado à bexiga, e menos de três semanas depois a minha mãe baixou ao hospital, de onde não tornou a sair, até falecer menos de três meses depois desse dia fatídico.

Entretanto hoje fui de novo ao hospital fazer a primeira cistoscopia depois da operação, retomando o follow up necessário. Eu sou muito optimista, e acho que as coisas vão sempre correr bem e tudo se vai resolver, mas ter ouvido, nesse dia de dezembro, o médico dizer que havia novas lesões foi traumatizante, e eu confesso que estava cheio de medo, mas assim uma coisa quase incontrolável.

E desta vez o exame correu bem, novamente feito pelo meu médico especialista preferido, e o resultado, pelo menos enquanto se espera pelo exame citológico, foi positivo, ou seja, o médico não detectou lesões. Daqui a seis meses repetirei o exame, e os medos claro que regresserão. Mas pelo menos nos próximos seis meses, ou cinco meses e meio, vá, vou tentar não pensar no assunto.

conto
rosas
innersmile
DOMINGO À TARDE

Íamos no carro e a Conceição, tentando suster as lágrimas, disse-me que nunca se podia esquecer de que tinha sido ela quem lhe tinha ensinado a gostar de si própria. Que toda a vida se tinha sentido culpada pelas coisas que correram mal na sua vida e que tinha sido ela, nas longas conversas que tinham tido noite fora, que a tinha levado a mudar a sua maneira de pensar e de sentir, a deixar de sentir que ela era a culpada das coisas que tinham corrido mal, da sua própria infelicidade, e aprendido a sentir-se bem consigo mesma, a valorizar as suas qualidades, até a gostar fisicamente de si e a arranjar-se melhor.

Pouco depois estava a estacionar o carro no parque de estacionamento da casa de saúde. Passámos a portaria e fomos até ao primeiro piso. Eu fui falar com os enfermeiros enquanto a Conceição foi ter com ele à sala onde estava um grande número de pacientes, em frente à televisão. Trouxemo-lo até à cafetaria, deixei-os sentados a uma mesa e fui ao balcão pedir: um garoto para ele, um descafeinado para a Conceição e um café para mim. A Conceição tinha-lhe trazido duas queijadinhas, que ele comeu com sofreguidão, a acompanhar o garoto. Tivemos a conversa do costume: relembrar os nomes, os laços familiares, o ano do nascimento, e pedir-lhe para ler as palavras inscritas nas tabuletas de sinalização: cozinha, capela, unidade 01, lavandaria, visitas.

Deixámo-lo já perto das cinco, de novo entregue aos enfermeiros, e no caminho de regresso voltámos a conversar acerca dela. Contei à Conceição a minha dificuldade em ir a casa deles, sobretudo sozinho, principalmente a partir do final da tarde e à noite. Contei-lhe que da última vez que tinha lá ido sozinho à noite, voltei para minha casa e fartei-me de chorar. A casa está bastante desarrumada, há móveis e outras coisas que já saíram, mas ainda falta a maior parte, ou mesmo quase tudo. Não será tão cedo que vou ter a casa pronta para a entregar ao senhorio.

Parei à porta da casa de Conceição para ir buscar uma bola de chouriço que ela me tinha feito. Quase todas as semanas me faz qualquer coisa, uma bola, empadas, bolos. A semana passada fez-me um pão-de-ló, que eu comi barrando as fatias grossas com manteiga. Despedi-me da Conceição, arranquei com o carro mas encostei logo a seguir para fazer um telefonema. Fui visitar o Rogério e a Tó, que eram os seus maiores amigos. Passavam juntos quase todos os finais de tarde de domingo. Demorei-me pouco tempo. Encontro um certo consolo em fazer coisas que eu sei que ela aprovaria. Apetece-me sempre contar-lhe o que faço e quase que consigo ouvir o que ela me diria, as suas respostas aprovadoras. Muitas vezes ao longo do dia sinto essa necessidade de conversar com ela, de lhe contar coisas, trocar ideias. Muitas vezes até, acerca de coisas relacionadas com a própria circunstância da sua morte. Pode parecer um pouco absurdo, mas não há ninguém mais indicado para discutir coisas relacionadas com a morte de alguém do que essa própria pessoa.

Antes de me vir embora, o Rogério, apesar dos seus quase oitenta anos, trepou a um muro para me apanhar meia dúzia de limões. Eram uns frutos enormes e bonitos, de uma cor amarela esplendorosa. Vim para casa e decidi logo ir fazer limonada. Cortei dois limões em pedaços, deitei o açucar e cubos de gelo, mas a liquidificadora não funcionou, deve ter-se avariado durante os meses que esteve lá em casa, sem trabalhar, a ganhar pó em cima do frigorífico vazio.
Tags:

You are viewing innersmile