Tenho a impressão de que o Arturo Pérez-Reverte de vez em quando faz uns envios de uns romances para os outros. São quase como os cameos no cinema, personagens de um livro a aparecerem numa outra história. O primeiro caso que percebi foi no A Rainha do Sul. Há uma passagem, em que Teresa Mendoza está em Gibraltar, e vê passar um carro a subir em direcção ao Rochedo com um casal lá dentro. Quando li esse trecho lembrei-me logo da viagem que Tanger e Coy fizeram ao alto do Rochedo para se encontrarem com o salteador de tesouros afundados.
No livro A Pele do Tambor há um velho padre, Don Príamo, que defende com unhas e dentes a igreja barroca de ser destruída, sobre quem impende a acusação de, no passado, quando era um pároco rural, ter vendido arte sacra para conseguir dinheiro para as suas paróquias. Agora em A Tábua de Flandres, há um leiloeiro que, segundo uma das personagens, é suspeito de comprar arte sacra roubada das igrejas.
Claro que podem ser acasos, mas na literatura, como na vida dos romances da famosa best-seller nacional, não há coincidências. Além disso um leitor sabe, percebe logo quando aparece uma personagem que já conhece, ainda que seja de raspão. Acho deliciosa esta ideia de pôr as personagens a aparecerem, sem qualquer valor narrativo, noutras histórias que não aquelas em que protagonizam. Dá assim uma ideia de planeta revertiano, um universo em que habitam as personagens e as histórias criadas por um escritor.
Terminei hoje de manhã (a única coisa boa que sou capaz de me lembrar a propósito do tempo invernoso, são as manhãs passadas na cama a ler) a leitura de mais um livro de Arturo Pérez-Reverte, A Rainha do Sul. Mais um romance muito bem urdido, com os ingredientes habituais do autor: narrativa bem balanceada entre momentos de acção, cheios de peripécias, e outros mais contemplativos e, dígamos assim, psicológicos, personagens fortes e sedutoras, com um toque de mistério, uma atenção quase luxuriante aos detalhes, forte envolvência geográfica (os romances de AP-R são sempre histórias de um lugar, mais do histórias num lugar), referências culturais (o papel da música nestes romances é quase uma aventura em si para o leitor melómano).
O grande leit-motif de A Rainha do Sul, como o título anúncia, é a personagem de Teresa Mendoza, uma mexicana que foge a um assassinato certo no meio do narco-tráfico do seu país natal, e que se torna na patroa do tráfico no estreito de Gibraltar. É uma história do nosso tempo, que de certa forma nos vem mostrar as vidas que se escondem por detrás das notícias breves nos telejornais sobre o tráfico e os traficantes. Apesar de a personagem principal ser irresistivelmente sedutora e fascinante, não me parece que de forma alguma o livro dê charme, e desse modo branqueie, ao crime ligado ao tráfico de droga.
Entretanto, e aproveitando este final de tarde escuro e chuvoso, já comecei a ler mais um livro do espanhol. E vão cinco.
Acho que tenho um caso de amor com a Jacinta. A sua voz e o seu canto encantam-me. Encontro neles um aconchego, uma tranquilidade que é exaltante, e não há nada nisto que seja contraditório. O canto da Jacinta acalma-nos, para nos levar à descoberta das nossas emoções mais íntimas e intensas. A sua voz não é divina, pelo contrário é humana ao ponto da comoção. Dito isto, parece-me que a Jacinta ainda não fez um grande disco, sendo o primeiro, o tributo a Bessy Smith, aquele que mais se aproxima dessa grandeza.
Tenho passado os últimos dias a ouvir Songs of Freedom, o último disco da Jacinta, uma colecção de canções, dígamos, inspiradoras, que vêem do universo da pop e do jazz (hits from the 60's, 70's and the 80's, é o subtítulo). Confesso que numa primeira audição achei o disco um bocadinho banal, mas aos poucos tem-se insinuado e já estou completamente agarrado a algumas das faixas. Mesmo àquelas que tinham originais ou versões praticamente definitivas, como as da Nina Simone (My Baby Just Cares e I Wish I Knew How), ou o Surfin'Usa, dos Beach Boys, em relação à qual parecia impossível fazer uma versão que trouxesse alguma coisa de novo à canção. Na verdade, agora que estou a pensar no disco, acho estou agarrado a todas as faixas e não apenas a algumas delas. Por exemplo, as duas versões que o disco traz de Redemption Song de Bob Marley (em gravação, com a formação que participa no disco, e em solo ao vivo) são absolutamente definitivas. Há versões inesperadas e mesmo surpreendentes, mas é melhor não as referir todas para não estragar o efeito surpresa (são onze temas em doze faixas, contando com as duas versões da canção de Marley).
Participam no disco dois músicos, Pedro Costa, no piano, a fazer a base ritmíca, e Paulo Gravato, em, saxofone, a servir de contraponto. Para adoçar a boca, aí fica um clip com uma gravação ao vivo da Redemption Song, a canção que marca em definitivo este disco e a cuja letra, de resto, foi buscar o título.
E já que estamos com a mão na massa, fica também um clip com uma participação assombrosa da Nina Simone numa edição do Festival de Montreux, a cantar, e a tocar, uma das canções que a Jacinta interpreta no seu cd, precisamente a I Wish I Knew How It Would Feel to Be Free. Não faz sentido nenhum comparar as duas versões, mas esta interpretação da Nina Simone está muito para lá do arrepio. De facto a única coisa que parece possível e apetece fazer perante isto, é mesmo cair de joelhos em terra e chorar compulsivamente. Chorar sem saber porquê, sem saber se é de tristeza ou de alegria. Chorar apenas porque no sabor salgado das lágrimas parece residir a essência da nossa alma e da nossa condição.
Vi dois filmes este fim de semana e ambos tinham como ponto de partida a mentira e a ilusão, como matéria da vida, da ficção, e, o que era mais curioso, como matéria da própria narrativa.
The Brothers Bloom conta a história de dois irmãos, um que escreve argumentos para elaboradíssimos contos do vigário, e outro que os vive. Os irmãos tentam dar um derradeiro golpe do baú numa herdeira jovem, rica e ingénua, mas, talvez porque ela própria viva num mundo mais de faz de conta do que de realidade, as coisas não vão correr propriamente como planeado.
O outro filme foi The Informant, do Steven Soderbergh, em que Matt Damon dá corpo (e esta é uma daquelas vezes em que esta expressão tem pleno cabimento) a um executivo de uma empresa que pretende avançar na vida através de mentiras, enredando-se em imbróglios cada vez mais labirínticos por causa da sua compulsão para inventar histórias.
Os filmes são muito diversos entre si. O filme dos irmãos Bloom é quase uma fábula, cheio de referências literárias, com recursos narrativos extra-cinematográficos, um humor irónico mas terno, que vive muito dos ambientes que vai recriando e que são essenciais ao próprio universo dos protagonistas. Soderbergh, por seu lado, constrói um filme de argumento, em que toda a narrativa assenta no discurso, com um humor muito seco e que pretende ser um olhar frio, até um pouco cínico, para o mundo das instituições norte-americanas.
O que é então curioso é que ambos os filmes recorrem ao tema, o das mentiras e da ilusão, para criarem constantes cortinas de fumo em que nós os espectadores nunca conseguimos destrinçar o que é a realidade (enfim, a realidade da própria história) e o que são as fantasias que os seus personagens vão criando.
No livro de Arturo Pérez-Reverte que estou a ler, A Rainha do Sul, a personagem principal é uma jovem mexicana viúva do narcotráfico, que se refugia no sul de Espanha e acaba por se tornar a dona do tráfico de haxixe e cocaína que, vindo da América do Sul através de Marrocos, atravessa o estrito de Gibraltar para entrar na Europa.
De vez em quando batem à Mexicana, como é conhecida Teresa Mendoza, umas saudades do México, de Culiacán, no estado de Sinaloa, e do homem cujo assassinato a obrigou a fugir, El Guero D’Ávila, um piloto ao serviço do cartel de Juárez. Num dos capítulos do livro, Teresa está num quarto de hotel da cidade de Jérez a ouvir CDs de José Alfredo Jiménez. Conheci a música de Jiménez através do disco La Cantina, da Lila Downs, que trazia quatro versões de temas daquele que é um dos grandes autores da chamada canção rancheira mexicana.
No trecho do livro de Pérez-Reverte, a Mexicana recorda que o Guero lhe contou que Jiménez morreu bêbado, e que as suas derradeiras canções foram escritas em bares, com as letras anotadas pelos amigos, porque já estava incapaz de as escrever. Às escuras no seu quarto de hotel, Teresa está a ouvir Tu Recuerdo Y Yo, uma das canções de Jiménez que Lila Downs cantou, no CD e num concerto fabuloso dela, a que assisti na Casa da Música, no Porto.
Durante três ou quatro páginas, num momento crucial da narrativa (não são todos?) em que os fantasmas do passado regressam, Teresa vai fazendo um balanço da sua vida, da sua situação actual, e no texto vão aparecendo frases da canção. Termina assim:
«Olhou para cima, para o tecto escuro, e não viu nada. Já me estão servindo o último copo, dizia nesse momento José Alfredo, e ela dizia-o também. Ora… Agora já só lhes peço que toquem outra vez La que se Fue. Estremeceu novamente. Sobre os lençóis, ao seu lado, estava a fotografia rasgada. Dava muito frio ser livre.»
É fantástico cruzarmo-nos nos livros com coisas, neste caso músicas, que fazem parte da nossa bagagem na vida real. Parece que as narrativas se cruzam, a nossa e a literária, e de algum modo sentimo-nos mais próximos das personagens, quase que nos conseguimos relacionar com elas.
Claro que se impõe pôr aqui um clip com esta rancheira de Jiménez, que é uma das minhas preferidas, e da qual, de resto, já tinha posto aqui a letra (sim, o innersmile é de um tempo pré-YouTube!). Como não consegui decidir qual das versões pôr, se a da Lila Downs se o original de Jiménez, ficam as duas. Escolhi clips só com as músicas. Mas aqui há uma versão ao vivo da Lila e aqui há um clip de um filme com o grande Jose Alfredo.
Estoy en el rincon de una cantina, oyendo una cancion que yo pedi, me estan sirviendo ahorita mi tequila, ya va mi pensamiento rumbo a ti.
Yo se que tu recuerdo es mi desgracia, y vengo aqui no mas a recordar, que amargas son las cosas que nos pasan, cuando hay una mujer que paga mal.
Quien no sabe en esta vida, la traicion tan conocida, que nos deja un mal amor, quien no llega a la cantina, exigiendo su tequila, y exigiendo su cancion.
Me estan sirviendo ya la del estribo, ahorita ya no se si tengo fe, ahorita solamente ya les pido, que toque otra vez 'La que se fue'.
Enquanto esperavam na sala de espera do hospital pela conclusão da operação da mãe, Thomas disse ao seu irmão mais novo que a razão porque tinha saído de casa quase quarenta anos antes, tinha sido para escapar ao controlo manipulador da mãe. Disse-lhe ainda que quando era pequeno o pai lhe batia com um cinto, quando chegava a casa ao fim da tarde e a mãe o atormentava com as queixas das tropelias que Thomas tinha feito ao longo do dia. E que, apesar de não guardar rancor nenhum aos pais por causa dessas sovas, nunca tinha conseguido ultrapassar a revolta que sentia por o pai lhe bater quando esperava com ansiedade o seu regresso do trabalho, e por não conseguir relacionar os castigos com as tropelias que tinha feito de manhã e das quais já se tinha esquecido.
Roger ficou chocado com as revelações do irmão. Sempre pensara que a saída de casa do irmão, com pouco menos de dezassete anos, tinha sido por causa do espírito rebelde e livre, e que não teria nada a ver com problemas familiares. Implorou ao irmão que nunca dissesse à mãe que tinha sido por sua causa que tinha saído de casa, porque isso a iria deixar devastada de desgosto. A verdade é que a mãe sempre lhe tinha dito que o irmão saíra de casa por causa do pai, e que ela não perdoava ao pai o facto de, quando isso aconteceu, eles não terem ido atrás do filho. Mas isto, por qualquer razão, Roger não contou ao irmão.
Dois meses depois desta conversa, Roger chegou num final de tarde a casa dos pais, onde a mãe ainda convalescia da operação, e passava as tardes sentada numa poltrona a resolver problemas de palavras cruzadas. Apesar da idade avançada, da falta de autonomia da mãe e do princípio de senilidade do pai, viviam sozinhos, com a ajuda de uma empregada na parte da manhã, e sem aceitarem sequer discutir a possibilidade de irem para um lar de assistência. O irmão há muito que tinha regressado à pequena cidade de um estado do sul, onde vivia com a sua própria família. Chovia nesse final de tarde, já praticamente não havia luz lá fora, e a sala estava quase às escuras. A mãe estava sentada na sua poltrona, a falar ao telefone, e o pai resolvia paciências de cartas num velho computador que servia apenas para esse efeito.
Mal Roger entrou em casa a mãe desligou o telefone e começou a fazer queixas do pai, das coisas que ele lhe tinha feito ao longo dia, das que não tinha feito e devia ter feito, das discussões que travaram, do seu mau feitio e dos maus modos. Falava de uma forma não exaltada, tranquila mas entristecida, e quase sem pausas. O pai interrompia os seus jogos para dizer que não percebia porque é que ela passava o dia ao telefone e que não teria dinheiro para pagar a conta da companhia. Repetia isto, quase a mesma frase, com as mesmas palavras, vezes e vezes sem conta. Roger tentava manter-se calmo e até um pouco alheado da discussão, voltando, quase sem as ler, as páginas de um jornal do dia.
Mais tarde, Roger, sozinho na cela, lembrou-se da conversa que tinha tido com o irmão na sala de espera do hospital no dia da operação. Mas nesse final de tarde a única coisa que sentiu, quase como quando ouvimos um comboio a aproximar-se pela linha quando estamos à espera na guarda de uma passagem de nível, foi uma fúria enorme e explosiva a crescer dentro de si.
Deram-me ontem a notícia de que está doente. Chovia. Era já de noite, apesar de ser ainda o final da tarde. Talvez porque esteja muito cansado por um ano que tem sido desgastante de sustos, medos e preocupações, talvez por isso, talvez por ser Outono e já estar frio, senti um desânimo tão grande. E uma ponta de remorso, apesar de procurar fundo e não lhe descortinar razão. Talvez seja então uma vontade enorme de lhe dizer que é uma das pessoas mais extraordinárias que conheci, não lhe ter dito quando isso a faria sorrir, e agora ser já o tempo e o tom das elegias.
Meti-me no carro e fui parar à sua porta. Há muitos meses, parei ali mesmo o carro, e saí para lhe abrir a porta. Só pelo prazer e pelo privilégio de a tratar bem, como um cavalheiro deve tratar uma Senhora. Que é como sempre senti que a devia tratar. Uma ocasião, encontrávamo-nos muitas vezes, manhãs de Sábado ou de Domingo na esplanada. Um dia disse-me: “Olha querido, vieram-me perguntar se tu eras meu filho, e eu disse-lhes que sim”. Muito tempo depois encontrou a minha mãe no cabeleireiro, não se conheciam, foi ter com ela e disse-lhe. “Deixe-me dar-lhe um beijo e dizer que tenho muito gosto em conhecer a mãe do meu filho”. Ficaram amigas, e eu sempre soube que a minha mãe sente por ela exactamente o mesmo que eu.
Acho que nunca chegámos a trabalhar juntos, não sei sequer se coincidimos no sítio onde comecei a trabalhar tímido e inexperiente, mas já com o mundo a pesar-me o fundo dos olhos, e de onde ela se aposentou daquela que pode ser a mais nobre das profissões, se exercida com a nobreza e a entrega de que ela conhecia o segredo. Uma vez, um homem já velho que foi meu chefe e trabalhou com ela, disse-me que ela era a mulher feia mais bonita que já tinha conhecido. Percebo perfeitamente o que queria dizer, mas declaro que nunca a achei feia, talvez porque sempre a tenha considerado uma mulher superior.
O Miguel Esteves Cardoso não é meu Papa nem guru. Mas, para que não haja peneiras, já foi. Há muito tempo, muito muito tempo, algumas das maneiras que aprendi de olhar o mundo, e sobretudo de o ouvir, foi com o MEC. Antes da internet, do Pastilhas, antes até do Independente, e mesmo antes da K, e dos livros. No tempo em que aprendíamos a ler os jornais e a ouvir a rádio. O tempo do Se7e, do Expresso, da Rádio Comercial.
Talvez aquela máxima de que não devemos regressar aos lugares onde fomos felizes também se aplique aqui. Não me cansei de ler o MEC, nem de o ouvir, mas como que me desabituei. Durante muitos anos não soube nada dele, não lia o que escrevia, nem sabia onde, e desabituei-me. Há tempos ele foi voltando aos meus hábitos quotidianos, através da crónica que assina diariamente no Público. Curiosamente, embora já não o lendo com a atenção de antes, muito menos com a devoção de antes, fui ocupando com as suas crónicas aquele lugar que estava vazio desde que Eduardo Prado Coelho morreu, e com ele as crónicas diárias O Fio do Horizonte. Não leio todos os dias, mas dou-lhe quase sempre uma chance de me arrebatar, de me surpreender, de me ensinar. Muitas vezes nem é a crónica inteira, basta um parágrafo, uma frase.
Mas hoje o Miguel Esteves Cardoso voltou a extasiar-me, como nesses tempos de antigamente, em que era meu mestre e guru. Bastou isto:
«O sonho de escrever é tornar em letras aquilo que só se sente quando se tenta tornar em letras aquilo que se sente ou imagina. Não porque se sente ou imagina, mas por querermos achar em nós próprios algumas coisas que dêem para tornar em palavras.»
Estou a ler a edição de Novembro da revista Ler. Logo nas primeiras páginas há dois artigos de que gostei muito. Uma lista, elaborada pela Joana Amaral Dias, das 10 personagens literárias feministas mais inspitadoras, pela ordem, como ela diz, por que se sentaram no sofá. A lista é deliciosa porque é simples, natural, mas pouco óbvia, inteligente, e porque as justificações fazem muito sentido. É a lista que eu gostaria de fazer. A habitual crónica de José Eduardo Agualusa, O Lugar do Morto, desta vez é sobre Saint-Exupéry e as Misses. É um pedaço de humor do mais sarcástico que se possa imaginar, e faz tremer qualquer devoção ao Principezinho.
Para além destes artigos, já li a entrevista ao Richard Zimler e um conjunto de artigos muito interessantes sobre Jorge de Sena. Assim que me lembre, ainda tenho para ler um outro sobre Vinicius de Moraes. É isso, o número da Ler deste mês é imperdível.
Hoje vinha a viajar de comboio e tive, acho que pela primeira vez, uma ideia para um romance. Claro que já me aconteceu muitas vezes ter ideias para histórias, mas foi a primeira vez, tanto quanto me lembro, que tive uma ideia tão completa, tão desenvolvida, com uma voz narrativa tão autonomizada e distinta. E audível: mal a ideia me surgiu, percebi logo com clareza que era uma coisa na qual eu estava interessado e que tinha pernas para andar. Claro que não a vou escrever, não tenho tempo nem, principalmente, disponibilidade mental, para me organizar e começar a escrevê-la. Mas mesmo assim fiquei contente. Sempre achei que nunca iria ser capaz de escrever um romance basicamente porque nunca tinha tido uma ideia para um, assim uma história que eu achasse que fazia sentido, e fazia falta, contá-la.
Claro que não vou aqui dizer do que se tratava, mas, até para fixar alguns detalhes importantes, registo que o tempo da narrativa seria um arco de dez anos, entre 1989 e 1999, e o romance teria três momentos. Começaria com uma espécie de epílogo feliz, depois teria uma enorme travessia no deserto, e terminava com uma redenção. Pronto, fica aqui anotado, pode ser que um dia ainda a venha a usar.
Caraças, hoje veio tudo para o trabalho de fato e gravata, menos eu que vim de camisa aos quadrados e blusão. Sinto-me totalmente o odd one out! Como se houvesse qualquer coisa importante e eu tenha ficado de fora. Ou pior, uma coisa importante e eu sou o único a destoar na fotografia. Tipo aquele gajo do Porto, o da verruga, que se vai sempre meter lá atrás nas fotografias.
Mas o pior (e o pior é o pior) é que me esqueci de que hoje à tarde vai haver entrevistas de selecção e eu, que a bem dizer sou o tipo dos recrutamentos, não estou nada trajado para a ocasião. Que mau aspecto, os outros tipos do júri todos bem postos e eu ali especado com ar de trolha.
Ou seja, é uma emergência, e por isso é a hora de chamar o super-atitude, pôr um ar charmoso, de intelectual não engagé, e fazer perguntas inteligentes. Isto, claro, com o risco inerente (tipo doença profissional) de que é muito ténue a fronteira entre o ar de intelectual inconformista e o puro e duro ar de parvo. É o preço a pagar: quem tem preguiça de se vestir de manhã, tem de dar ao litro para compensar durante o resto do dia.
A porta estava quase a fechar-se, mas mesmo assim consegui um bilhete para o último dos quatro concertos com que José Mário Branco, Sérgio Godinho e Fausto decidiram celebrar, celebrando-se, as respectivas carreiras. E se um certo revival revolucionário (que em alguns momentos teve tons de êxtase bloquista) não foi propriamente o mais interessante da sessão, teve, apesar disso, o condão de criar um clima especial que elevou à potência as emoções que ajudaram a fazer este que será, sem dúvida, um concerto memorável em todos os que tiveram a sorte de assistir e participar.
O melhor, então, foi mesmo a música, e os músicos. Fausto, Sérgio e Zé Mário estão velhos, isso nota-se, e ainda bem. Primeiro porque têm um reportório imenso, feito não só de belíssimas canções, mas mesmo de algumas obras-primas. Depois porque têm muita experiência de criar projectos musicais interessantes e desafiadores, rodeando-se de bons músicos, e aprofundando e explorando os caminhos da música popular. Finalmente porque sabem do público, sabem estar no palco a servir e a governar, têm a confiança, mas também o respeito pelo público que os obriga a serem sempre exigentes.
Se o Sérgio Godinho é o escritor de algumas das mais extraordinárias canções da música popular, e muitas delas integram a nossa história e a nossa memória pessoal, se o Fausto é um talento a compor e a escrever, e ainda por cima toca muito bem viola, e ainda por cima tem um timbre de voz que é sempre espantosamente bonito, cabe, apesar de tudo isso, e apesar de este projecto ser rigorosamente a três, um destaque para o José Mário Branco. Pelo entusiasmo, que se notava e transbordava, pela maneira talentosa como personaliza as interpretações das canções alheias, mas sobretudo pelo seu génio musical, pelo arranjador e produtor que é sempre e acima de tudo, pelo rigor da exigência, por vezes mesmo um pouco estóico, mas que nunca rouba o prazer e a alegria de cantar.
As palavras gastam-se e muitas vezes diluem-se na banalidade do lugar-comum. Mas este concerto dos Três Cantos, para além de único e raro, foi verdadeiramente uma daquelas ocasiões especiais em que, ao assistir, temos a plena consciência, e a emoção intensa, de estar a construir a memória do futuro.
Volto a ouvir Kind of Blues, pelo Miles Davis, e penso num rosto para Coy. Vou à net procurar o rosto que Imanol Uribe escolheu para o filme que fez com a história de Pérez-Reverte. É o de Carmelo Gómez, e ainda que me pareça uma escolha muito acertada, não é a minha. E então numa tarde, num final de tarde, encontro-o. Encontro aquele que desde esse momento tem sido o rosto, o corpo, a figura, a sombra, a silhueta, de Coy. Na piscina, nado sem parar durante quarenta e cinco minutos, e todo esse tempo penso no livro, em Coy, tento imaginá-lo como pessoa real, e não como mera personagem literária, como seria conhecê-lo, como é que um tipo totalmente gauche, como eu, seria capaz de se relacionar com um tipo como Coy, para quem a vida é o que é.
Vou lendo as derradeiras páginas do livro. Não é como se estivesse obcecado e não conseguisse parar de ler. Não é uma coisa compulsiva. É sobretudo estar sob influência. Pego no livro, começo a lê-lo e parece que tudo à minha volta desaparece e eu entro num estado de espírito muito particular. Uma atmosfera. Estou aqui sentado à mesa, a escrever no computador, e olho para o sofá, em cujo braço está o livro, de capa voltada para cima, à minha espera. E sinto uma urgência (a que não falta uma ponta de mau-estar) em lhe pegar e entrar nessa atmosfera. Não que o livro seja mais verosímil do que outros, não é como naqueles casos em que dizemos que um livro parece real. Mas é como que uma esperança de que o livro se torne realidade, que de tanto o ler, e com tanta intensidade, eu consiga entrar no livro. Uma vontade muito grande de que Coy seja verdadeiro, e ler o livro, estar a lê-lo, aumenta as hipóteses de isso acontecer.
Eu sei que é de manhã e a luz conserva ainda a clara brancura do verão. Sei que o sol entra, tímido mas alegre, pela janela. E lá fora há a algazarra dos miúdos a jogar futebol, e a mercearia em frente transborda de promessas frescas. Sei que tenho de sair de casa, e que me espera o que o procuro.
Mas ainda assim o tango declina-se, sombrio e magoado, derramando-se em cada hora. É por ele, afinal, que vou.
Quiero emborrachar mi corazón para apagar un loco amor que más que amor es un sufrir... Y aquí vengo para eso, a borrar antiguos besos en los besos de otras bocas... Si su amor fue "flor de un día" ¿porqué causa es siempre mía esa cruel preocupación? Quiero por los dos mi copa alzar para olvidar mi obstinación y más la vuelvo a recordar.
Nostalgias de escuchar su risa loca y sentir junto a mi boca como un fuego su respiración. Angustia de sentirme abandonado y pensar que otro a su lado pronto... pronto le hablará de amor... ¡Hermano! Yo no quiero rebajarme, ni pedirle, ni llorarle, ni decirle que no puedo más vivir... Desde mi triste soledad veré caer las rosas muertas de mi juventud.
Gime, bandoneón, tu tango gris, quizá a ti te hiera igual algún amor sentimental... Llora mi alma de fantoche sola y triste en esta noche, noche negra y sin estrellas... Si las copas traen consuelo aquí estoy con mi desvelo para ahogarlos de una vez... Quiero emborrachar mi corazón para después poder brindar "por los fracasos del amor"...
(NOSTALGIAS, de Juan Carlos Cobián e Enrique Cadícamo, 1936)
É o terceiro livro de Arturo Pérez-Reverte que leio, de seguida. O Mestre de Esgrima cativou-me pela elegância da escrita, para o que ajudou, sem dúvida, a brilhante tradução de Pedro Tamen. A Pele do Tambor conquistou-me devagar, sobretudo pelas personagens muito marcadas, desenhadas quase como se estivéssemos a falar de banda desenhada, e nas quais se inclui a cidade onde o romance tem lugar, Sevilha.
Mas em O Cemitério de Barcos Sem Nome (o título é terrível, tão longe do fascínio do título original, La Carta Esférica) aconteceu-me uma coisa que não sucedia há muito tempo: apaixonar-me por uma personagem literária, e logo à primeira página. Amor à primeira leitura, digamos assim. A verdade é que já vou avançando no livro e contínuo apaixonadíssimo por Coy, o protagonista. É um amor quase físico, erótico, e chego a ter ciúmes de Tânger.
Há qualquer coisa nas histórias de mar e marinheiros que me toca num ponto fraco, e me deixa sempre num estado de melancolia, com saudades de uma vida que não vivi.
Caramba, já não ia a um espectáculo há tantos meses. Soube-me mesmo bem ir no Sábado à noite ver La Traviata pela companhia nacional de ópera da Moldávia. Já não é a primeira vez que vejo esta ópera de Verdi, nomeadamente por companhias dos países da antiga URSS. Não foi propriamente, acho eu, que do assunto percebo muito pouco, a melhor prestação operática que eu vi, mas o barítono Vladimir Dragos, no papel de pai de Alfredo, era fantástico, e a soprano Maria Tonina, na protagonista, ía crescendo e impondo-se à medida que a história se desenvolve.
Para além de já a ter visto ao vivo, La Traviata deve ser das óperas que melhor conheço e de que mais gosto. O que não admira, pois é das mais populares e conhecidas. Tenho-a em dvd e em cd, e ouço-a muitas vezes, nomeadamente o primeiro acto, que tem uma série de temas e árias lindíssimas. ‘Un di felice, eterea’ é das minhas favoritas (em competição com a Sempre Libera), e esta gravação do dueto por um Pavarotti ainda jovem e a Joan Sutherland é divinal (é o primeiro do clip, o segundo é do IV acto, o último da peça). Um aspecto curioso deste clip é que se ouve a voz do ponto a dar indicações, e se é verdade que isso por um lado pode ser um bocado irritante, também não deixa de ser interessante poder acompanhar esse aspecto mais técnico da construção do espectáculo e que, felizmente, passa sempre despercebido.
ALFREDO Un di', felice, eterea, Mi balenaste innante, E da quel di' tremante Vissi d'ignoto amor. Di quell'amor ch'e' palpito Dell'universo intero, Misterioso, altero, Croce e delizia al cor.
VIOLETTA Ah, se cio' e' ver, fuggitemi Solo amistade io v'offro: Amar non so, ne' soffro Un cosi' eroico amor. Io sono franca, ingenua; Altra cercar dovete; Non arduo troverete Dimenticarmi allor.
Há aí uns tipos, ateístas ao que suponho, que, para marcar posição, e quando se despedem, dizem 'até amanhã se EU quiser', em vez do católico e tradicional 'se deus quiser'.
Ora abóbora, se EU quisesse, parava tudo neste momento e começavam-se a ouvir os acordes iniciais da banda sonora que o Ennio Morricone compôs para o filme Once Upon a Time in America, do Sergio Leone.
Isso sim, é que era um milagre do caraças e uma demonstração de power à maneira... (toma lá reticências)
A Fnac prestou-me um mau serviço, que me prejudicou de forma objectiva, sobretudo porque se eu não tivesse confiado no serviço não tinha tido problema nenhum e tinha resolvido a minha necessidade de consumo. Fui à loja reclamar. A pessoa que me atendeu concordou que tinha havido prejuízo mas que os termos do negócio isentavam a Fnac de responsabilidade. Chamou o responsável da loja que reconheceu que o serviço em causa não era perfeito, e que desse facto tinha resultado um prejuízo para mim. Pediu-me muita desculpa, mas que não havia nada a fazer, nem forma nenhuma de me compensar, porque, como já disse, os próprios termos da transacção, e até ao ponto em que ela se concretiza, isentam a loja de responsabilidade. Apesar de, como reconheceu igualmente, se não houvesse uma ideia de compromisso, na qual confiei, eu poderia ter resolvido o problema a meu contento. Assim sendo, comuniquei-lhe que pretendia anular o meu cartão de aderente, porque não fazia sentido ser aderente de uma loja que presta maus serviços, o que fiz de imediato. Eu sei que à Fnac não faz diferença nenhuma, e que eu perdi não só os pontos acumulados, como também as vantagens, ainda que estas não sejam propriamente mirabolantes. Mas às vezes uma pessoa tem de fazer o que tem de fazer. Nem que seja um gesto insignificante, mas que tem a vantagem de nos repor o valor mínimo de dignidade e sentido. Ou seja, a Fnac pode não ouvir, mas sabe bem à mesma mandá-la pró caralho.
Estou sentado no café de uma livraria a ler as primeiras páginas de um livro. Coy, o protagonista, está deitado no seu quarto da pensão La Marítima, no Bairro Chino em Barcelona, a observar as manchas de humidade no tecto e a ouvir, nos auscultadores do walkman, So What, do disco Kind of Blues, de Miles Davis.
Parece de todo natural que no sistema de som do café comece a passar So What, do disco Kind of Blues, de Miles Davis.
Uma vez, ofereceram-me, dentro de uma caixinha de plástico e embrulhado em algodão, um finíssimo fio de ouro. Pu-lo de imediato à volta do pescoço e, com raríssimas excepções, nunca o tirei. Há uns meses, um dos elos partiu-se e mandei-o compor. Contei os dias em que não tive o fio posto. Parecia que me faltava qualquer coisa, mas o pior é que parecia que era eu que estava em falta. Há cerca de duas semanas o fio tornou a quebrar-se. Guardei-o dentro de uma caixa de louça, com motivos de Gaudí, que está numa prateleira de uma estante à entrada do meu quarto. Entre essa ocasião em que mo ofereceram e o pus de imediato e este dia em que guardei o fio de ouro, finíssimo, na caixinha de louça, passaram quase vinte e cinco anos. Mais de metade da minha vida.
Aproveitei este fim de semana para rever dois filmes antigos, que já tinha visto há muitos anos (mesmo muitos), mas dos quais a minha memória era mais mítica do que factual. Ou seja, lembrava-me de que tinha gostado muito de ambos, mas já não me lembrava porquê. Têm em comum o facto de serem comédias, e de serem produtos dos anos 60, uma época em que os estúdios claramente tentavam a estratégia de the bigger the better para manter o público nas salas. Ah, e também têm em comum os títulos compridos: um, It's a Mad Mad Mad Mad World, o outro, A Funny Thing Happened On The Way The The Forum.
Lembro-me de que que vi It's a Mad Mad Mad Mad World no cinema, em ecrã de 70 mm., numas sessões memoráveis que o Gil Vicente fazia sempre no mês de Setembro, para assinalar o reinício da actividade (numa altura em que em raros os espectáculos, e o Gil funcionava quase exclusivamente como sala de cinema). É um típico filme de produtor, Stanley Kramer, que neste caso também realizou, e é uma daquelas comédias slapstick, em que vale tudo, que parecem estar sempre a caminhar para o caos e para a destruição. Mas sendo um filme típico de produtor, não é um filme muito típico de Stanley Kramer, que é mais conhecido por fazer filmes, não digo politicos, mas com algum tipo de preocupação social. Isto apesar de a história do filme poder ser lida como uma parábola sobre a ambição cega e desmedida pelo dinheiro fácil. De resto, um dos filmes que fez a seguir a este foi Guess Who's Coming To Dinner, de que já falei aqui, e que é um filme que põe o dedo na ferida do racismo entre as classes mais liberais da sociedade americana. Um dos sinais do respeito que Hollywood tinha por Kramer vê-se, de resto, no facto de estes dois serem os dois últimos filmes feitos por esse monstro sagradíssimo que era o Spencer Tracy, e que em It's Mad Mad... dá mostras do gozo que lhe estava a dar este papel de um chefe da polícia, sério e honrado, bom pai de família, que não resiste a tentar deitar a mão à, literalmente, mala do dinheiro. Apesar de ser um bocado comprido demais, e de algumas cenas de destruição do cenário serem mais do mesmo, o clima de loucura, as perseguições de automóveis e o trabalho dos duplos, e mesmo uma certa concepção de cinema que estava subjacente a este tipo de filmes, nomeadamente no que se refere à comédia como género nobre do cinema clássico norte-americano, tudo são razões para ver e rever It's a Mad Mad Mad Mad World com prazer.
Quanto a A Funny Thing Happened On The Way The The Forum, as coisas são um pouco diferentes. Trata-se de uma comédia, é certo, mas uma comédia musical, um filme que adapta um exito da Broadway, e que tem nas canções de Stephen Sondheim um dos seus argumentos mais imbatíveis. E que são também o melhor do filme, não porque ele seja mau, mas porque são verdadeiros clássicos da escrita de canções para o teatro musical. Sondheim é um génio, e um dia vai ter o reconhecimento que merece. Fora, é claro, dos círculos especializados da Broadway e do West End, onde é sempre um dos maiores entre os maiores. O filme vive então das excelentes canções, e do tom de comédia de enganos, da farsa de costumes. O resultado é uma espécie de cross-over entre a genialidade do S. Sondheim e o tom destravado e malandro das comédias do Mel Brooks. Para o qual contribui a presença do Zero Mostel, actor mais de teatro do que de cinema, e que participaou na versão original de The Producers, do Mel Brooks, no papel de Max Bialystock. Outro aspecto curioso do casting do filme é a presença do grande Buster Keaton, herói da história do cinema e estrela da comédia sem palavras, naquela que seria o seu derradeiro papel. Só mais uma nota: o realizador é Richard Lester, nome importante do cinema, particularmente nos anos 60, em que assinou a realização de dois filmes dos Beatles, o Help e o Hard Day's Night.
Primeiro há Lorenzo Quart, o padre enviado de Roma para saber o que se passa em torno da igreja de Nossa Senhora das Lágrimas. E há mais dois padres, Príamo Ferro, o velho cura que se defende a golpes de mau feitio, apaixonado pela astronomia, e o seu jovem acólito, Óscar Lobato, que vai ser transferido por castigo. E Gris Marsala, a freira americana, arquitecta dos andaimes.
E há Macarena Bruner, a duquesa jovem de olhos cor de mel, que guarda o isqueiro na alça do soutien. E Maria Cruz, a velha duquesa, sua mãe, que bebe Coca-Cola de garrafa, a de lata não sabe à mesma coisa, nem os piquinhos são iguais.
Há os banqueiros. Machuco, Don Octávio como é tratado, que passa os dias a despachar na esplanada. Pencho Gavira, jovem e ambicioso, cuja Vice-Presidência está sob prova de fogo. E como cada criado quer o seu criadito, há Celestino Peregil, o seu homem de mão, sempre ajeitando o capachinho.
Há três outros que se passeiam pela cidade como se fossem anjos de pedra. Don Ibrahim, o meu preferido de todos, exilado cubano, advogado não documentado, sempre de fato branco, chapéu de aba larga e a brasa de um Montecristo a incendiar-se nos lábios. O isqueiro foi uma prenda de Garcia Marquez, o relógio ganhou-o numa noite de póquer a Hemingway, e El Che ensinou-o a fazer cocktails molotov. Acompanham-no Piña Puñales, cantora desvalida de boleros e sevilhanas, caracol desenhado na testa e o crochet enfiado na carteira, e o Potro del Mantelete, ex-toureiro e ex-pugilista, homem de acção, duro e impassível.
Há ainda Carlota e Manuel Xaloc, uma duquesa louca e um pirata das Caraíbas, fantasmas que se buscam um ao outro (“Mi carta, que es feliz, pues va a buscaros”).
Há um hacker, Vésperas, que deixa mensagens no computador pessoal do Santo Padre.
É há Sevilha, cheia de luz e de sol, cheia de noite e de tascas, cheia de igrejas, de praças e de pátios, perfumada de laranjas. “Como nenhuma outra, aquela cidade conservava na esquina das ruas, nas cores e na luz, o rumor do tempo que se extingue lentamente, ou melhor, de nós próprios extinguindo-nos com aquelas coisas do tempo a que se apegam a vida e a memória.”
Mi carta, que es feliz, pues va a buscaros, cuenta os dará de la memoria mía. Aquel fantasma soy que, por gustaros, jugó estar viva a vuestro lado un día.
Cuando lleve esta carta a vuestro oído el eco de mi amor y mis dolores el cuerpo en que mi espíritu ha vivido ya durmiendo estará bajo unas flores.
Por no dar fin a la ventura mía, la escribo larga... casi interminable... ¡Mi agonía es la bárbara agonía del que quiere evitar lo inevitable!
Hundiéndose al morir sobre mi frente el palacio ideal de mi quimera, de todo mi pasado, solamente esta pena que os doy borrar quisiera.
Me rebelo a morir, pero es preciso... ¡El triste vive y el dichoso muere!... ¡Cuando quise morir, Dios no lo quiso; hoy que quiero vivir, Dios no lo quiere!
¡Os amo, sí! Dejadme que habladora me repita esta voz tan repetida; que las cosas más íntimas ahora se escapen de mis labios con mi vida.
Hasta furiosa, a mí que ya no existo, la idea de los celos importuna; ¡Juradme que esos ojos que me han visto nunca el rostro verán de otra ninguna!
Y si aquella mujer de aquella historia vuelve a formar de nuevo vuestro encanto, aunque os ame, gemid en mi memoria; ¡Yo os hubiera también amado tanto!...
Mas tal vez allá arriba nos veremos, después de esta existencia pasajera, cuando los dos, como en le tren, lleguemos de vuestra vida a la estación postrera.
¡Ya me siento morir!... El cielo os guarde. Cuidad, siempre que nazca o muera el día, de mirar al lucero de la tarde, esa estrella que siempre ha sido mía.
Pues yo desde ella os estaré mirando; y como el bien con la virtud se labra, para verme mejor, yo haré, rezando, que Dios de par en par el cielo os abra.
¡Nunca olvidéis a esta infeliz amante que os cita, cuando os deja, para el cielo! ¡Si es verdad que me amasteis un instante, llorad, porque eso sirve de consuelo!...
¡Oh Padre de las almas pecadoras, conceded el perdón al alma mía! ¡Amé mucho, Señor, y muchas horas; mas sufrí por más tiempo todavía!
¡Adiós, adiós! ¡Como hablo delirando, no sé decir lo que deciros quiero! ¡Yo sólo sé de mí que estoy llorando, que sufro, que os amaba... y que me muero!
Normalmente não ligo muito a prémios e coisas do género (ok, tirando os Óscares, que curto mesmo). A minha consideração por alguém não se move um milímetro em função de um prémio recebido ou negado. A recente atribuição do prémio Nobel ao Obama deixou-me indiferente, e não vou a correr ler os livros dos premiados com o Nobel da literatura (mas fiquei feliz quando o Saramago recebeu o dele).
Mas estou muito contente com a atribuição do prémio Leya (que não sei bem o que é, mas suponho que seja atribuído pelo grupo editorial daquele senhor que tinha a TVI antigamente) ao escritor João Paulo Borges Coelho. Apesar de ter nascido no Porto, Borges Coelho é um escritor moçambicano (e também historiador) de quem li todos menos um dos seus livros (falta-me Campo de Trânsito, que tenho em casa, mas ainda não li). Um dos seus livros, As Visitas do Dr. Valdez, devia ser de leitura obrigatória para quem queira perceber o que foi o fim da presença colonial portuguesa em Moçambique, pelo menos na sua geografia afectiva. Outros livros do escritor são o inaugural As Duas Sombras do Rio, passado na guerra civil (tema muito presente na obra do escritor, ou não fosse um dos seus temas enquanto investigador), as colectâneas de contos Setentrião e Meridião, a Crónica da Rua 513.2 e Hinyambaan.
Como sou grande fã da obra do JPBC, são inúmeras as referências que lhe tenho feito aqui no livejournal, e também muitos os excertos que coloquei no blog À Sombra dos Palmares. Apesar de nem sempre o ritmo narrativo ser constante, nos seus melhores momentos, e são muitos, a prosa do JPBC é magnífica, nomeadamente pelas descrições poderosas e evocativas, pelo modo como capta ambientes e vivências, e sobretudo pela maneira como parece conseguir revelar o essencial da maneira de ser de um povo e da sua cultura.
Gostava muito que este prémio constituísse o pretexto e a oportunidade de trazer a obra e a escrita do JPBC para a primeira linha da literatura escrita em português, que o desse a descobrir ao Brasil, que tornasse mais acessíveis as suas obras, nomeadamente no seu próprio país, que o consagrasse, não no sentido institucional, mas no de que o tornasse um escritor lido por mais gente. E mais acessível, que muitas vezes me vi aflito para encontrar os seus livros, de cuja existência sabia nomeadamente através da Internet, mas que nem o facto de ser editado por uma das maiores editoras nacionais, os tornavam mais disponíveis nas livrarias. Por mim, o que espero deste prémio é sobretudo que ele torne possível deitar rapidamente a mão à obra premiada, O Olho de Hertzog.
Eu sei que esta já é quase uma last week news, mas mesmo assim não quero deixar de dizer que o que mais me surpreendeu no caso do vídeo da Maité Proença para o programa saia Justa, foi a reacção dos portugueses. Primeiro, e para tirar já isto do caminho, dei uma espreitadela aos comentários do blog dela e a única coisa que senti foi vergonha pelo nível dos comentários. A sério, devia ser estudada pelos psicólogos e outros entendidos esta necessidade de os portugueses serem inacreditavelmente primários e grosseiros no anonimato das caixas de comentários de blogs e jornais.
Quanto ao vídeo da Maité, blimey!, aquilo é uma reportagem tola, de brincadeira, sem interesse nenhum, palerma, mas, caramba, igual a tantas outras que passam na TV. Agora não acho nada daquilo grave ao ponto de suscitar uma reacção tão encarniçada por parte dos portugueses, quase ao nível do crime de lesa-pátria e do incidente diplomático. Para dizer a verdade, na minha opinião há nesta história três coisas interessantes, a merecerem reparo e reflexão.
A primeira é que a reportagem que a Maité Proença faz em Portugal é o protótipo do entretenimento televisivo: leve, tonto, superficial, pseudo-divertido, suportado mais no estatuto da celebridade do que no conteúdo da mensagem. É assim em Portugal, e pelos vistos também é assim no Brasil. Há pouco tempo tivemos um exemplo claro disso por cá: a rapariga que foi a mandatária de Sócrates na última campanha eleitoral legislativa tinha feito um programa de TV em que dizia inanidades sem interesse nenhum, e ninguém ligou nenhuma. Quando deu jeito para a diatribe, lá se foram desenterrar as imagens e caiu tudo em cima da rapariga, só, é claro, para se atingir o Sócrates. Faço-me entender? O espaço televisivo é ocupado com palermices, inanidades, gossip cretino, celebridades a la minuta, enfim o grau zero da cultura e do entretenimento, e ninguém cerra um sobrolho. De vez em quando, porque dá jeito ou nos cai na fraqueza, desatamos todos a usar esse grau zero para a traulitada.
Segundo, esta coisa bem portuguesa de nós podermos dizer o pior acerca de nós próprios mas ai de quem se atreva a dizer mal de nós. A Maité, se bem percebi o alcance da coisa, pôs-se ao lado de uma gárgula que cospe água para uma fonte dos Jerónimos, e tentou imitá-la. É totó? É sim senhor. A Maité cuspiu com desprezo num símbolo da pátria lusa? Não, valha-me deus, coitada da rapariga. Faz-me impressão esta fragilidade patriótica emocional, que nos faz ficar irados porque alguém foi palerma a falar de coisas portuguesas. A reacção ofendida, o orgulho ferido, o ódio contra a rapariga, tudo isso me parece tão desproporcionado. Caraças, sentimo-nos ofendidos porque alguém manda uns bitaites idiotas acerca de coisas sem importância como os pastéis de Belém ou a perícia informática dos porteiros dos hotéis? É humilhante a Maité disparatar, coitada, que os portugueses nunca viram um rato de computador e não sabem como se escreve o algarismo três?
O terceiro aspecto interessante é também o mais perturbador dos três: o que este episódio revela é que, apesar de tudo, a relação entre portugueses e brasileiros continua a ser edificada no desconhecimento e na desconfiança mútuas e, portanto, nos preconceitos e nas ideias feitas. Como sempre acontece com a xenofobia, detestamo-nos mutuamente em geral, mas salvaguardamos sempre os casos particulares. Não me lixem, os portugueses têm sentimentos xenófobos em relação aos brasileiros, e sempre que aparece uma brasileira tresloucada a dizer umas palermices acerca dos portugueses, também elas baseadas em preconceitos e ideias feitas, vêm ao de cima esses sentimentos que, na maior parte do tempo, escondemos mais pelo sentido das conveniências, pelo parece mal, do que por qualquer outra razão.
Não é grave percebermos os outros, o estrangeiro, através do estereótipo. Aliás, até é simplificador: usamos o cliché como a forma mais imediata de percepção do outro. O que já é menos compreensível é não só ficarmos reféns desses estereótipos, como nos refugiarmos neles de cada vez que nos sentimos atacados ou sequer desamparados. Brasileiros e portugueses já se conhecem há tempo suficiente para se conseguirem ver uns aos outros para lá das ideias feitas e dos preconceitos. Para falar com franqueza, a Maité Proença nunca teve um lugar na minha vida. E não há-de ser por isto que vai passar a ter. Por mim, pode continuar a vir cá as vezes que quiser. É-me rigorosamente igual.
Mão amiga disponibilizou-me uma pilha de quatro livros de Arturo Pérez-Reverte, um escritor que é, como me disseram, para reforçar a minha ignorância, “um dos nomes mais importantes da moderna literatura espanhola”. Tenho em casa muitos livros para ler, e com muita vontade de os ler, mas decidi-me então atacar o espanhol.
Comecei por O Mestre de esgrima, uma história passada na Madrid da segunda metade do século XIX, e que junta, em doses homeopáticas, intriga política, amorosa e policial. E o resultado é fantástico, sobretudo porque a escrita é um exercício de elegância e destreza (sim, como a esgrima). Um aspecto que joga muito a favor é a tradução ser absolutamente esplendorosa, e não roubar um milímetro que seja do gozo que desfrutar uma prosa muito bem arquitectada. Gostei tanto da escrita de Pérez-Reverte, que mal terminei a leitura do livro comecei logo a de outro.
vou vivendo na imponderabilidade dos teus gestos, no modo impossível como me entregas, sem querer, a pele tranquila dos tempos (fogo a arder nos dedos)
mas quem me salva as horas, o inquieto sossego das madrugadas: tu, que me transtornas com a negrura do cabelo húmido, ou a mancha tangível que se estende e se oferece no meu sofá
consumo-me, ou, quem sabe, cumpro um destino, à medida que, sábio, desliza pelas tardes, cada vez mais cedo, o rumor frágil de um poente outonal.