Já aqui escrevi (no dia 15 de Dezembro de 2004) sobre o meu amor à Patagónia. É um amor literário, e faltava-lhe, para ser completo, uma das fontes desse amor, o livro de Paul Theroux, O Velho Expresso da Patagónia, o qual, apesar do título, apenas no final se passa na Patagónia, e mesmo assim nos comboios que a atravessam. Mas é, em todo o caso, um livro sobre a Patagónia, sobre a maneira, ou melhor, sobre como é e o que é lá chegar.
Eu quero muito ir à Patagónia. Mas preciso de uma companhia para viagem. Haverá alguém aí desse lado (como se diz em moçambicano) que queira ir comigo à Patagónia? Seria projecto para concretizar, sei lá, talvez em 2012. Seria uma viagem de uns quinze dias, sim, duas semanas. E não seria uma coisa barata, é claro. Estimo que seja coisa para custar qualquer coisa entre os três mil e quinhentos e os cinco mil euros.
A meu favor posso dizer que acho que sou um bom companheiro de viagem. Adapto-me com facilidade e não sou caprichoso (tenho os meus moods, mas mesmo assim são pouco frequentes). E gosto sempre, ou quase sempre, de tudo: das pessoas, dos hotéis, das comidas. Contra mim tenho alguma limitação física, não posso dar grandes caminhadas, nem me meto em aventuras que podem exigir destreza ou resistência ou agilidade. Ah, e já não tenho idade para grandes noitadas, aliás gosto de acordar cedinho, de preferência para ver a primeira luz da manhã, que é sempre a mais bonita do dia.
Não sei se é um ponto a favor ou contra, mas sou preguiçoso, e mesmo em viagem, ou sobretudo em viagem, sou preguiçoso. Não tenho a urgência de ver tudo, ir a todos os sítios, entrar em todas as igrejas, ver todos os museus, experimentar tudo o que os outros experimentaram. Gosto de perder tempo. Gosto de passar tardes em esplanadas ou cafés, sem fazer nada, a ler ou simplesmente a olhar em redor. Gosto de estar sentado. Gosto de andar de carro e de viajar de comboio. Gosto de conforto, de casas de banho onde se possa sentar e tomar um duche de água tépida. Gosto de tomar notas em caderninhos e não gosto muito que me perguntem o que estou a escrever, ou sequer que se interessem por isso. Quando estou a escrever, basicamente gosto que me deixem em paz. Tenho bom sentido de orientação, não sou (muito) medroso, sou tímido, discreto, cortês e afável.
Não vi nem o Ali G nem o Borat, os filmes-personagem que o Sacha Baron Cohen fez antes deste Bruno, apesar de, é claro, estar familiarizado com as personagens, por causa dos programas de TV. Não sou grande fã do humor do SBC, embora me agrade um certo lado subversivo. Mas o facto de esse humor se basear muito em pôr os outros a ridículo, mesmo quando eles merecem, deixa-me quase sempre incomodado. É um humor que está muito próximo da humilhação e se há coisa que não suporto é ver alguém ser humilhado.
Fui então ver o Bruno porque tinha vontade de ver como é que ele utilizava a homossexualidade da personagem. Não estava à espera que o filme tivesse uma leitura muito plana acerca do assunto, nem gozando abertamente com os clichés ligados aos homossexuais, nem, pelo contrário, pondo a ridículo a homofobia. Ou seja, não me parecia que o filme tivesse uma leitura política. O que de facto acontece. O humor de SBC funciona demasiado como um rolo compressor para conseguir salvaguardar muitas subtilezas, apesar de ser um humor mais inteligente e mental do que parece.
Para falar com franqueza acho que o SBC utiliza demasiado o sexo como elemento desencadeante das situações. Não que isso me choque pessoalmente, mas acho que tem um efeito perverso: muitas vezes o filme esgota-se nesse incómodo, e o facto de ser todo construído sobre isso faz com que haja uma certa dissipação do cómico. Ou seja, ser provocador só faz sentido quando se pretende obter mais qualquer coisa do que uma simples reacção. É um terreno perigoso, o do provocador: raras vezes consegue ser subversivo, a maior parte delas limita-se a ser um chato.
Sinceramente acho que é sobretudo isso que acontece ao Bruno.
Retardo-me nas últimas páginas do livro. Não tenho vontade de o terminar, pelo contrário apetece-me atrasar o momento da derradeira página. Leio e releio o capítulo dedicado ao encontro com Borges. É irrepreensível. Em todo o capítulo há apenas uma palavra de que não gosto. Tento, sem sucesso, fixar os trechos dos poemas citados. Levanto-me e vou olhar os livros de Borges que tenho na minha estante, e que li há tantos anos.
Já tinha visto um filme do realizador filipino Brillante Mendoza, Pantasya, e não tinha achado grande piada. Mas vi agora Serbis (Serviço) e gostei bastante. Tenho ideia de o filme ter sido exibido num festival de cinema português, creio que no IndieLisboa, mas não tenho a certeza.
O filme é todo construído à volta (ou melhor, dentro) de um velho cinema, daqueles enormes, com plateia, balcão e muitos foyers, que está completamente decrépito, sujo e degradado, e cuja programação consta de filmes pornográficos, em sessões frequentadas sobretudo por homossexuais à procura de engates. O velho cinema chama-se Family, é gerido por uma família que vive nas próprias instalações, e constitui o palco da sua luta pela sobrevivência.
O edifício é, e isso para mim é o mais fascinante do filme, a sua principal personagem. O modo como são ocupados os espaços, o forte contraste entre a função para que foram criados e a sua actual utilização, o modo como esses espaços cederam e tiveram de se adaptar, a maneira como o filme vai percorrendo e desvendando os circuitos, os corredores, as escadarias, como entra e sai das salas, tudo isto dá ao edifício um carácter quase orgânico. Como se fosse um barco que navegasse através das ruas da cidade (como o edifício da companhia de seguros no início do filme dos Monty Python, The Meaning of Life), a qual quase só se entrevê a partir do interior do próprio cinema.
Apesar de as personagens não serem muito desenvolvidas do ponto de vista dramático e de lhes faltar alguma espessura e densidade, a família e os clientes do cinema e do seu restaurante (enfim, por assim dizer) constituem o outro polo de interesse do filme. Muito pelo modo como a câmara ora os vai seguindo nos seus percursos labirínticos pelo interior do edifício, um pouco como se estivesse à procura do seu desígnio, ora como se detém a contemplá-los, na expectativa de uma revelação. Se a personagem da matriarca da família se assume como o pólo dinamizador da narrativa, para mim as personagens essenciais do filme são, como é óbvio, as de Nayda e Alan, respectivamente tia e sobrinho, que nos seus papéis muito contrastantes, simbolizam os dois vectores que marcam esta família: uma tenaz vontade de sobreviver, e um inelidível desejo de evasão.
Todo (ok, quase todo) o dia de ontem enfiado num auditório enorme, à cunha, a participar numa mega feira das vaidades, hardcore 1º escalão, muito auto-congratulatória(!), com laivos de comício pré-campanha eleitoral. Já há muito que não saía da minha toca e estava desabituado do cerimonial dos beijinhos, dos bolinhos secos, dos jarros de sumo de laranja, e dos 'olá, tá bom?'.
Salvou a jornada a escapadela para um magnífico almoço no restaurante Ibo, ali escondido junto à estação do Cais do Sodré, voltado para o rio, e que nos traz a memória tropical e terna dos sabores de Moçambique.
O Tour de France, cuja edição de 2009 começou no Sábado passado, é a prova de ciclismo mais popular e importante em todo o mundo. Para mim, o Tour de France é o Eddye Merckx, o Bernard Hinault, o Miguel Indurain. É o Joaquim Agostinho. São as tardes de domingo a ver a última etapa, nas ruas de uma Paris que dificilmente parecia mais gloriosa e monumental.
Mas é sobretudo uma canção dos Kraftwerk: Tour de France Tour de France.
O dia de ontem começou às sete da manhã com um telefonema. O meu pai estava a sentir-se mal. Fui levá-lo ao hospital. Às nove e meia tive notícias de que estava bem e vim para casa. Voltei ao hospital ao meio-dia para o ir buscar e fui levá-lo a casa. Depois fui almoçar com um grupo de amigos, companheiros de viagens passadas e, esperançosamente, de viagens por vir. Às quatro vim a casa, vesti um fato e tive de ir a um velório. Logo a seguir, para contrabalançar, e ainda de fato vestido, fui visitar uma bebé que tem pouco mais de três meses de idade e que é uma ternura: linda e perfeita, daquelas que parece que são feitas para podermos olhar para elas e reconciliarmo-nos com o mundo. Regressei a casa, despi o fato e fui ter com outros amigos, de passagem pela cidade, para jantarmos. Soube-me logo bem encontrar-me com eles na esplanada e melhor ainda o seu ar veraneante. Pela primeira vez ao longo do longo dia, descontraí-me e senti-me bem e feliz. Quando me deitei, apesar de cansado, estava tão estimulado e sensível, que não conseguia adormecer, a ter ideias para textos. Tomei nota de alguns, para ir escrevendo. Um deles foi este. Que dia.
Dedico este texto, não à rainha santa, cujo dia ontem se assinalou, mas ao João, ao Dejan e ao Félix, que me salvaram o dia.
Por vezes, quando estou fascinado com um livro, só me apetece lê-lo, de seguida, quase sem levantar a cabeça, completamente absorvido. Outras vezes a maneira de um livro me fascinar é brincar com ele, entreter-me, tomar notas, recortar e fazer colagens. Ok, não propriamente em sentido literal, pelo menos os recortes e as colagens.
É o que me está a acontecer com o livro que estou de momento a ler, O Velho Expresso da Patagónia, de Paul Theroux. É um clássico da literatura de viagens, publicado pela primeira vez há quase 30 anos, e que se conta em duas penadas: um dia o Paul Theroux apanhou o comboio suburbano que o levou da cidade de Medford até Boston, e foi mudando sucessivamente de comboios até chegar à Patagónia. Ao contrário do que é habitual na literatura de viagens, que nos fala dos lugares visitados, o objecto do livro de Theroux é a viagem em si. Não o lugar, mas o modo como se chegou lá.
Se a ideia já de si é fascinante, o estilo de Theroux torna-o irresistível. Não sendo propriamente uma personagem muito simpática, é o seu humor, as suas idiossincrasias, as suas observações sempre pouco complacentes. Mas, atenção, Theroux não chega exactamente a ser arrogante, e se o seu olhar nunca deixa de ser o do estrangeiro, do forasteiro de passagem, essa é também a sua maior honestidade, a sua razão.
Até ao ponto do livro onde estou, pouco menos de meio, quando Theroux acabou de fazer aquela que creio ter sido a única viagem de avião que fez (ele não fala sequer disso, não gosta de viagens de avião e por isso não se rebaixa a falar deste ponto fraco da viagem), entre El Salvador e a Costa Rica, uma vez que não teve autorização para atravessar a Nicarágua, então a viver o período final da ditadura dos Somoza e a revolução sandinista.
O livro compõe-se essencialmente das peripécias relativas à própria viagem, às linhas férreas, aos comboios; de apontamentos sobre as paisagens e os lugares; e dos encontros que Theroux vai tendo ao longo da viagem, e que compôem uma galeria de personagens notável.
Estou a companhar o evoluir da viagem de Theroux através das Américas nos mapas do Google Earth, tentando reconstituir todos os percursos, as linhas férreas utilizadas, os pontos de fornteira atravessados. Estou, além disso, a apontar todas as cidades (enfim, quase todas) que Theroux vai referindo ao longo da prosa, e também os livros que ele vai lendo (e que são igualmente uma parte importante da viagem). Apetecia-me ir pondo aqui estas listas de lugares e de livros, e se calhar ainda o faço. Também tentei desenhar no mapa todo o percurso do Theroux, mas por um lado há pedaços do texto que são demasiado imprecisos para conseguir reconstruir o trajecto, e por outro há linhas férreas que não se conseguem ver no Earth. Seja como for, ler um livro destes, e partilhar a aventura de Theroux, é só por si uma pequena aventura.
Para quem esteja eventualmente interessado, o blog da editora Quetzal tem o primeiro capítulo do livro disponível para download, e o Books.Google tem a edição integral do livro, em inglês.
Para aí há três ou quatro meses que não punha os pés numa sala de cinema. No sábado, para recuperar, vi dois filmes. Mas não sei porquê quer-me cá parecer que depois deste interregno o jejum cinematográfico vai continuar.
Vi Rudo Y Cursi, uma comédia made in Mexico, realizada por Carlos Cuarón, irmão do Alfredo Cuarón que realizou Y Tu Mamá También, e que é um dos produtores deste filme juntamente com o Alejandro Gonzáles Iñarritu e o Guillermo Del Toro. Ou seja, assim uma espécie de Tacowood system! Apesar de não ser um filme brilhante, e do plot ser uma assinalável colecção de clichés, o resultado é divertido e simpático. A verdade é que os filmes resultam sempre mais divertidos quando não é visível um grande esforço para terem piada, e é este o caso deste filme, que é sempre (ou quase sempre) muito cool na sua vocação de comédia. Claro que parte significativa da simpatia repousa no carisma dos dois actores principais, o Diego Luna e o Gael García Bernal. É certo que estão ambos, sobretudo o Diego Luna, a representar papéis que contrariam a imagem de jovens galãs que Hollywood lhes tem colado, mas quando se é tão jovem e tão giro, como são estes dois (e com uma narrativa que não se impõe com muita força), é um bocado difícil que isso não passe para o ecrã. O Guillermo Francella no papel de Batuta, o manager descobridor de jogadores, impõe-se sempre que está em cena e rouba o filme aos galãs com a maior das tranquilidades, e até algum cabotinismo.
O outro filme que vi foi Coco Avant Chanel (o título é fantástico, porque enuncia o filme sem denunciar o seu conteúdo), uma quase bio-pic sobre a famosa criadora de moda francesa. E digo quase porque o filme parece estar sempre mais interessado em criar um quadro de filme romântico (para intelectuais, ainda por cima) do que em prestar verdadeira atenção à personagem da Coco Chanel. E é pena, porque ao fazê-lo arrasta-se pelos sítios errados, e torna-se um pastelão muito razoável. O melhor do filme, hélàs, é mesmo o que consegue sobreviver de Coco Chanel, do seu espírito revolucionário no mundo da moda, e do modo como essa sua visão nasceu da confluência entre talento e circunstância, como de resto suponho que aconteça quase sempre. Apesar de tudo o filme tem algumas coisas entusiasmantes, nomeadamente a personagem de Balsan, representada por Benoît Poelvoorde, e a própria composição da Audrey Tatou (para quem se quis construir um chamado filme-veículo, projecto claramente fracassado).
Não sou um especialista, nem sequer um amador à séria, mas diria que raras vezes a música jazz feita em Portugal conheceu tantos músicos, e tantas possibilidades de chegar ao público, através dos discos e dos concertos. Hoje em dia é possível criar uma discoteca razoável feita apenas com músicos nacionais, cobrindo diversas correntes e os diferentes instrumentos.
Porque gosto muito de piano jazz, chamam-me particularmente a atenção os pianistas, e em Portugal há muitos e bons. Tantos, que os nomes, mesmo daqueles que já tivemos oportunidade de assistir ao vivo, nos vão escapando. Ainda um dia destes, no concerto da Amélia Muge, a descoberta do Filipe Raposo. Aqui há uns meses, o Luís Barrigas, a acompanhar a Marta Plantier. O Rui Caetano, que eu ouvi a acompanhar a Jacinta. O Filipe Melo, que tem um disco, e que eu ouvi tocar ao vivo num 'celeiro' em Pereira do Campo. O Ruben Alves, mais conhecido das andanças televisivas, mas que tem um disco muito bonito, Súbito. E isto, claro, para já não falar nos incontornabilíssimos (a palavra não existe, mas é para isto que passa a existir) Laginha e Sassetti ou no galáctico Pinho Vargas.
Vem tudo isto a propósito de um cd que comprei no fim de semana, White Works, do João Paulo Esteves da Silva, de quem já tinha o anterior Memórias de Quem. Partilha com este o facto de serem ambos discos de piano solo, mas enquanto o disco anterior era de improvisação pura, este White Works é composto quase integralmente (e o quase é porque há três improvisações) por temas da autoria do contrabaixista Carlos Bica (outro nome muito muito grande do jazz nacional), que o João Paulo recria e transforma.
Estou absolutamente apaixonado por este disco, que é de uma beleza intensa e subtil, aproveitando da música de Carlos Bica um certo lirismo mais contemplativo do que introspectivo.
É impossível ficar indiferente no momento da morte de Michael Jackson. Para o melhor e para o pior, pelas melhores e pelas piores razões, ele marcou o nosso tempo. Em relação à personagem mediática, ao media monster freak (monstro em todos os sentidos da palavra), há pouco a dizer. Lembro-me de uma entrada bem velhinha do innersmile (do dia 21 de Fevereiro de 2003) em que disse tudo o que, para mim, faz sentido dizer sobre o assunto. Seja como for, parece-me de assinalar a forma como a notícia da sua morte tomou conta desse magma ruidoso em que vivemos, que é o espaçõ mediático, o que diz menos da sua importância enquanto músico do que sobre a sua qualidade de pop icon, e diz mais ainda acerca do modo como é feito e se alimenta esse espaço mediático.
Do ponto de vista musical, é impossível não prestar tributo ao criador de algumas canções pop perfeitas. É certo que há anos que o Michael Jackson tinha perdido relevância musical, mas de algum modo ele foi o precursor, o primeiro, de um estilo de pop que de alguma maneira ainda é a que domina. E do ponto de vista da pop, e da indústria da pop, deve-se a Michael Jackson pelo menos um momento definidor: há de facto um tempo antes e um tempo depois de 'Thriller', o video-clip (realizado por um enorme realizador, John Landis) que transformou a pop num fenómeno visual tanto quanto musical.
Quando vi a notícia, no twitter, e fui à procura dela, não me senti muito triste. Mas passado um bocado, a fazer zapping pelas televisões e a navegar pelos sites, dei por mim a cantarolar, de cabeça, aquela que é, se não a minha canção preferida, pelo menos a que me vem automaticamente à cabeça quando me lembro do Michael Jackson. Fui ouvir a canção e fiquei triste. Nem consigo bem racionalizar porquê, nem interessa.
You Are Not Alone é uma balada já tardia na carreira do Michael Jackson, do álbum HiStory, creio que da autoria do R. Kelly. Estará longe das suas canções de maior sucesso, e, na verdade, este que foi o seu penúltimo disco, é já claramente um disco da decadência criativa do cantor. O clip é um bocado weird, registando a participação da Lisa Marie Presley, filha do Elvis, e que ao tempo era casada com Michael. Um casamento, claro, demasiado bom para ser verdade, a filha do king of rock'n'roll casada com o king of pop! Como disse, não sei se é a minha canção preferida do Michael Jackson, mas é aquela que automaticamente associo ao Michael. E, além do mais, parece-me uma canção tão apropriada para homenagear o Michael Jackson.
Another day has gone I'm still all alone How could this be You're not here with me You never said goodbye Someone tell me why Did you have to go And leave my world so cold
Everyday I sit and ask myself How did love slip away Something whispers in my ear and says That you are not alone For I am here with you Though you're far away I am here to stay
But you are not alone For I am here with you Though we're far apart You're always in my heart But you are not alone
Just the other night I thought I heard you cry Asking me to come And hold you in my arms I can hear your prayers Your burdens I will bear But first I need your hand Then forever can begin
Everyday I sit and ask myself How did love slip away Something whispers in my ear and says That you are not alone For I am here with you Though you're far away I am here to stay
For you are not alone For I am here with you Though we're far apart You're always in my heart For you are not alone
Whisper three words and I'll come runnin' And girl you know that I'll be there I'll be there
You are not alone For I am here with you Though you're far away I am here to stay For you are not alone For I am here with you Though we're far apart You're always in my heart
For you are not alone For I am here with you Though you're far away I am here to stay
For you are not alone For I am here with you Though we're far apart You're always in my heart
O Augusten Burroughs é autor de um romance, Sellevision, o único que não li, dois volumes de histórias autobiográficas, Magical Thinking e Possible Side Effects, e os que lhe granjearam maior popularidade, os volumes de memórias Running With Scissors e Dry, ambos editados em Portugal, relatos na primeira pessoa do singular de situações disfuncionais levadas ao limite, salvas pelo humor do Augusten, que é feito da mais ácida auto-ironia que se possa imaginar.
Acabei de ler agora o mais recente volume destas memórias, A Wolf At The Table, dedicada à figura do pai de Augusten, e centrada sobretudo na sua infância (Scissors era sobre a adolescência e Dry sobre os twenties). É de longe o meu livro preferido do Augusten, e isto é dizer muito porque eu já era um fã da sua escrita. É um livro negríssimo, de uma crueldade que chega a ser chocante, de um sofrimento que só não leva às lágrimas porque ficamos absolutamente secos e mudos. Não consigo bem apontar o que é que é diferente neste livro que o torna mais poderoso do que os anteriores, mas tem a ver, talvez, com o facto de Augusten ter posto candura onde antes punha humor. Ou também com uma certa tranquilidade que emana do livro, e que pode parecer paradoxal face à sua crueza. Pode ter a ver, enfim, com o facto de enquanto os livros anteriores serem relatos de disfuncionalidades, este é quase apenas sobre um sofrimento que é tão incompreensível que se torna manso, mudo. Quase como se tivéssemos uma ferida que nos alimenta tanto quanto nos consome e destrói.
Os livros anteriores do Augusten, sobretudo o Running With Scissors, que foi um fenómeno brutal de vendas nos EUA, estiveram sempre rodeados de alguma polémica, nomeadamente no que toca à exactidão e ao rigor dos relatos memorialistas. Houve sempre, nomeadamente da parte de algumas pessoas envolvidas (mesmo com o disfarce dos nomes alterados), uma forte contestação quanto à sua veracidade, acusando o autor, não de dourar, mas de enegrecer a pílula. Não sei se o mesmo aconteceu em relação a A Wolf At The Table. Mas garanto que se o que lá está é verdade, todas as infâncias difíceis vão parecer brincadeiras de crianças ao pé do deserto espinhoso de medo e solidão emocional que foi a infância de Augusten.
… Escrevi este texto há dois ou três dias, no momento em que terminei a leitura do mais recente livro de Augusten Burroughs. Não o publiquei de imediato, porque precisava que acalmasse a comoção que foi a sua leitura. Precisava de arrefecer, de ganhar distância. Percebi que nestes dias o livro continua comigo, e que é um livro que me marcou profunda e intensamente.
Há livros, e autores, de que gostamos muito, e este era o caso, comigo, do Augusten Burroughs e dos seus livros. Mas de vez em quando aparece um livro que nos toca de maneira especial. Nem sequer é o caso de dizer que o livro me falou de modo particular, longe disso, não tive uma infância difícil, antes pelo contrário, fui sempre muito amado e, enfim, a minha família sempre este ali dentro da curva de Gauss da funcionalidade normal. De modo que não é uma questão de identificação. Acho que é mesmo o caso de o livro estar tão bem escrito que é impossível não nos deixarmos invadir pela sua história, mais até do que nos emocionarmos com o facto de se tratar de uma memória de infância do autor. Todo o livro é negro, sombrio, há nele uma ânsia, uma sede, e ao mesmo tempo uma ausência, um vazio; isso tudo que nos transporta creio ao que de mais elementar e essencial existe no sentimento humano. De algum modo, a essência do amor, e por isso do humano, está presente, na sua forma mais dolorosa e pungente, em cada página deste livro.
Em 2004, julgo que logo no início do ano, a minha amiga S. ofereceu-me uma caneta de tinta permanente. Sempre gostei muito de escrever com caneta, e ainda que a maior parte das canetas que tive (e tenho) fossem das mais baratas, cheguei a usar clássicos como a Mont Blanc ou a Parker. Tenho a maior parte dessas canetas guardadas, infelizmente não no melhor estado de conservação, ou seja, não as limpo nem as mantenho em bom estado.
A caneta que a minha amiga me ofereceu, para suavizar um momento muito complicado a nível profissional, é dessas mais baratas, de cartucho, de uma marca muito comum, que estão à venda em montinhos nos balcões das papelarias. O corpo da caneta é de plástico, claro, de cor azul, com um padrão discreto de umas flores, e um nome de uma senhora em espanhol que não faço ideia quem seja, suponho que uma designer ou coisa do género. Enfim, uma caneta sem nada de especial, daquelas para usar durante uns tempos e acabar por perder, mais não seja no fundo de uma gaveta.
Acontece que comecei a usar a caneta logo na ocasião em que ela ma ofereceu. Gostei da leveza e do volume do corpo, e da maciez do aparo. Durante muito tempo usei cartuchos de tinta negra, sem marca, que um amigo me ofereceu em duas saquetas de plástico cheias, e que ele tinha em casa à espera de uma oportunidade para deitar fora! Quando acabaram (guardo ainda dois, de reserva) comecei a usar aquilo que ia encontrando, que não é muito frequente encontrar à venda cartuchos de tinta permanente, sobretudo nos supermercados do material para escritório. Aqui há tempos, encontrei cartuchos Pelikan de tinta azul à venda pelo preço da chuva na Papelaria Fernandes, e comprei logo um carregamento deles.
Nunca mais deixei de usar a caneta e é seguramente aquela que usei, e ainda uso, durante mais tempo. Com o tempo o aparo foi-se fazendo totalmente à minha mão, e à maneira pouco usual como pego nas canetas e nos lápis, com três dedos, em vez dos habituais dois como nos ensinavam na escola primária. Agrada-me o facto de quase não precisar de fazer pressão com os dedos para escrever, o que é uma vantagem quando se têm de fazer muitas assinaturas por dia. E se a maior parte dos documentos escrevo directamente no computador, é a caneta que uso para tomar notas no caderninho que anda sempre comigo, nas reuniões ou para fazer as vezes de agenda, no dia a dia.
A minha caneta está sempre à mão na secretária ou na mesa de reuniões, e é um objecto que tão naturalmente prolonga a minha mão, que geralmente pego-lhe quase sem precisar de a procurar com o olhar, sei sempre mais ou menos onde ela está, onde é que a larguei. Mesmo quando fica debaixo de uma pilha de papéis, mesmo assim tenho sempre noção onde a deixei. O que não acontece, como é óbvio, com os outros materiais: ando sempre à procura do agrafador, ou dos marcadores, os lápis sucedem-se na minha mesa com um turn-over estonteante, estou sempre a perdê-los, nunca encontro a lista telefónica, e isto para já não falar dos papéis, claro, das fotocópias, dos ofícios, dos livros, dos relatórios, das pastinhas de plástico com o expediente.
Mas porque é que eu comecei a falar na caneta de tinta permanente? Ah, já sei! Na segunda-feira, vinha eu de uma reunião, com a tampa da caneta presa na capa do caderninho, quando a caneta se soltou e caíu ao chão. Conclusão, o aparo ficou a arranhar e a tinta a falhar. Até fazia barulho, o aparo a arranhar no papel. Que chatice, um aparo tão macio, tão moldado. Claro que a coisa aos poucos vai ao sítio, e de vez em quando pego numa folha de rascunho e ponho-me a fazer riscos e rabiscos, para, literalmente, ir limando o aparo nos pontos em que ficou áspero. Até acho que hoje já está a ficar um pouco mais macio, a tinta a sair de um modo mais uniforme, a voltar outra vez aquela suavidade na escrita. Temos caneta!
Não é que tenha um interesse especial, mas é engraçado ter começado a ler um livro esta noite, e logo no primeiro capítulo se referirem duas das cidades onde é passado o livro que acabei de ler ontem à noite. Ficam no estado de Massachusets, nos EUA, e são as cidades de Springfield e Amherst.
Um concerto delicioso, ontem, o da Ámélia Muge no Teatro Aveirense. Acompanhada em palco por Filipe Raposo (excelente pianista e autor dos arranjos, ou pelo menos de alguns deles) e pela violoncelista Catarina Anacleto, e ainda pelos samplers manuseados pelo incontornável José Martins, o concerto surgiu no seguimento de um outro que a Améia Muge fez, creio que no CCB, há uns bons meses atrás, sob o signo das 202 canções que tem registadas na SPA, como autora.
O concerto serve assim para passar em revista alguns temas antigos da cantora, e também para mostrar algum do trabalho que Amélia Muge tem feito para outros intérpretes, sobretudo da área do fado. Confesso que para mim foi uma oportunidade maravilhosa de ouvir alguns dos meus temas preferidos da Amélia, um deles, se bem me lembro, que nunca a tinha ouvido antes cantar ao vivo, o Colchão às Riscas.
A Amélia Muge tem três qualidades que lhe dão um carácter extraordinário no panorama da música popular portuguesa, e que nunca deixam de marcar os seus concertos tanto quanto o seu trabalho em disco. Primeiro é uma compositora inspiradíssima (como o provam os trabalhos que tem feito para outros intérpretes) e com um domínio perfeito dos textos, quer dos que ela própria escreve quer dos que escolhe para as suas composições. Depois, é uma criadora que gosta de arriscar e de experimentar, que trabalha sobre ideias e não sobre fórmulas. Finalmente é uma excelente intérprete, que procura sempre encontrar o tom e o fraseado adequados à melodia e às palavras das canções. A estas qualidades a Amélia Muge alia ainda um conhecimento profundo da música popular, da sua história e dos seus grandes criadores, e que ela incorpora nas suas canções e nos seus concertos, muito mais como inspiração do que como influência.
Claro que a sua música não é própriamente fácil, e exige do ouvinte ou do espectador do concerto, atenção, entrega e disponibilidade. A essa falta de facilitismo, a Amélia junta uma opção, assumida, pelas margens, que regateiam em popularidade o que transbordam em liberdade criativa. Já tive a experiência traumatizante de arrastar para concertos da Amélia Muge amigos que pura e simplesmente detestaram. Felizmente até isso ontem correu bem, e os amigos com que fui ao concerto, e que não a conheciam de todo, ficaram rendidos à 'múgica' da Amélia.
Houve um aspecto no concerto de ontem que dá bem a medida da maneira de estar na música da Amélia. Creio que na véspera do concerto, a Amélia Muge fez um workshop onde participaram membros de dois grupos corais da região. A Amélia decidiu incorporar essa experiência no concerto, solicitando, em dois momentos, ao público presente mas sobretudo às pessoas que participaram no workshop, a sua intervenção directamente da plateia. Note-se que não se tratava tanto de pôr o público a acompanhar as canções, como é habitual, mas usar o trabalho feito para dar alguma coisa de diferente às canções. É esta capacidade de experimentar, de expandir, de criar, que tornam a Amélia Muge num dos nomes de primeira importância da música popular portuguesa.
aos poucos, vão-se esfumando as fotografias no branco das pálpebras
a agulha de um vulcão, o empedrado das ruas, a tranquila superfície das águas profundas, um rosto de fugazes olhos negros, a brandura em desalinho das clavículas
mas quando a face repousa na palma da mão, são ainda las palabras que dão música à insónia
[Ando a experimentar escrever micro-micro-contos, para os 140 caracteres do twitter. A ideia é conseguir transmitir uma ideia de uma personagem e de uma narrativa, com o mínimo de recursos possível. Cada história tem uma palavra que lhe serve de mote. Entre a versão do twitter e a que vou pondo aqui pode haver alterações, mas sempre respeitando a extensão permitida. Seria um desafio interessante saber o que é que o leitor consegue construir a partir de material tão elementar. Esta foi a primeira tentativa e a palavra mote era 'carneirinha'.]
A moça voltou-se para mim e disse, esfregando a pele macia entre as palmas das mãos: "carneirinha, senhor doutor, carneirinha".
Não me anda nada a apetecer ver filmes. Há mais de três meses que não vou ao cinema, e nem em casa tenho visto. Quer dizer, de vez em quando começo a ver um filme, mas normalmente desinteresso-me e nem acabo de o ver. É um bocado estranho, eu adorava cinema e via filmes em barda, e agora simplesmente não me apetece. Isto para dizer que um dia destes vi um trailer e despertou-me a curiosidade. Consegui arranjar o filme e vi-o todo. Ok, em duas prestações, mas mesmo assim já é um avanço.
Apesar de não ser um filme extraordinário, Were The World Mine é um filme curioso, nomeadamente porque junta uma série de ingredientes e fá-lo de um modo feliz. O filme conta a história de uma turma escolar que se prepara para levar à cena a peça Sonhos de Uma Noite de Verão, de William Shakespeare. O protagonista da peça é um rapaz homossexual que a mais de ser gozado e perseguido pelos atletas da escola, está secretamente apaixonado por um deles.
O primeiro aspecto interessante do filme é todo ele, a história, as peripécias, as personagens, o próprio tom da narrativa, decorrer sob o signo da peça de Shakespeare. Além disso, filme representa um trabalho exaustivo sobre o texto da peça, que está presente, por exemplo, nos diálogos ou nas letras das canções. Sim, porque, e isso é outra coisa interessante, o filme é um musical, ou pelo menos tem alguns números musicais, que mais do que ilustrarem a história, fazem mover a narrativa. Finalmente, todo o universo de Midsummer Night's Dream é adaptado para um contexto gay, focando o filme sobretudo os aspectos relacionados com a dificuldade de realização afectiva dos adolescentes homossexuais e com o modo como lidam com o preconceito, nomeadamente por parte dos seus pares.
Além destes aspectos, há ainda outros que contribuem para que Were The World Mine seja um filme simpático, nomeadamente uma certa honestidade indy, em que a escassez de recursos é sempre ultrapassada com eficácia, e até algum arrojo narrativo, e que se nota igualmente na prestação dos actores. Também gostei do modo como o filme junta os universos do musical e do filme passado em escolas masculinas, nomeadamente através das coreografias baseadas nos movimentos de certos desportos. Quer dizer, não estamos propriamente a falar de coreografias à Busby Berkerly, mas pronto, estão divertidas e minimamente originais.
quando uma tarde azul e luminosa, e nós estamos no chiado ou no bairro alto e chegamos a uma varanda ou a uma janela, atrás de nós os lençóis brancos da cama por fazer, e à nossa frente, do outro lado do vale que é a baixa, as colinas de Lisboa, claras e misteriosas, caóticas e rigorosas, brancas à procura de todas as cores, iluminadas pelo sol que começa a descer para lá do bugio e bate-lhes de chapa, e a respiração suspende-se por um momento, enquanto recuperamos de tanta luz e tanta beleza, a luz e a beleza de todos os amores que tivemos e mais daquele que ainda dorme sobre os lençóis desfeitos. estão a ver como é? é assim o disco da carminho.
É uma coisa assim aparentada da euforia: começo a ler os livros do José Eduardo Agualusa e fico logo num estado de espírito um tanto ou quanto excessivo, transbordante. Talvez por conterem tão justamente a medida da vida, os romances de Agualusa parecem sempre maiores do que ela. Foi isto, mais uma vez, que me aconteceu com a leitura de Barroco Tropical, o seu mais recente livro.
Assumidamente com pretensões a ser uma distopia, a acção do romance passa-se em 2020, o que permite ao autor traçar um retrato negro da sociedade actual angolana, se não ainda exactamente como ela é, muito mais como ela está a caminho de se tornar. Agualusa é, como se sabe, um crítico do regime de Angola, o que lhe tem valido alguns dissabores. E neste livro essa crítica é particularmente impiedosa, tanto mais que Agualusa autor põe muito da sua experiência, das suas experiências, nas desventuras por que passa Bartolomeu Falcato, o protagonista.
Mas se o quadro é sombrio, a escrita de Agualusa é sempre humorada, luminosa, e o livro lê-se numa fervurinha, com as sua galeria de personagens a bordejar o inverosímil, e uma sucessão de peripécias, em tom de thriller político, que tornam difícil interromper a leitura. Depois, o jogo da autobiografia, a que já me referi, acrescenta humor e desafio à narrativa, tornando-a especialmente instigante.
Em notas no final do texto, Agualusa explica que o título do romance corresponde a um termo utilizado pelo poeta moçambicano (no sentido geográfico do termo) Virgílio de Lemos. Barroco Tropical é uma expressão feliz, e que assenta na perfeição à escrita de Agualusa, mas onde cabe toda uma corrente e uma influência que as literaturas dos Palops vieram trazer à língua portuguesa.
O festival de jazz Dixieland, cuja VI edição termina hoje em Cantanhede, tem características engraçadas, a principal delas é ser um festival verdadeiramente popular, o que é notável tendo em atenção que o jazz não é propriamente a mais fácil das músicas. É certo que o dixieland é um género divertido e acessível, mas mesmo assim é extraordinário ver a música jazz a chegar e a misturar-se com as pessoas: nas aldeias ao redor de Cantanhede onde se organizam concertos, na verdadeira dimensão de rua que o festival comporta, nas noites onde há música junto às barracas de comes & bebes, no facto de a maior parte dos eventos serem gratuitos, na adesão das pessoas. E, por fim, nos concertos na tenda Dixieland, cheia de um público animado e muito barulhento.
E tudo sem correr o risco de o carácter popular da festa prejudicar a componente musical e jazzistica do evento. Ontem os três concertos da tenda foram todos eles muito bons. Começou com a banda portuguesa (é incrível a quantidade de músicos que se dedicam ao dixieland) Astedixie, da Lousã, que pratica um jazz leve, divertido, descomprometido, e muito animado.
A seguir actuaram Los Krokodillos, uma banda sediada em Barcelona e liderada por um russo. Foram, na minha opinião, a melhor banda da noite, um naipe de músicos fenomenal, com solos muito ricos e entusiasmantes, um repertório fácil ainda que não propriamente óbvio, mas nunca facilitado na execução.
Finalmente as Alice in Dixieland, uma banda holandesa inteiramente feminina, que tiveram como special guest a Jacinta. Um verdadeiro mimo para os espectadores, e o milagre sempre renovado de ver músicos que se conheceram poucas horas antes a conseguirem um nível de entrosamento e de cumplicidade notáveis. As AiD diversificam a sua prestação jazzistica, fogem ao dixieland e aproximam-se dos combos e das big bands do jazz mais clássico, que completam com harmonias vocais muito bonitas, a lembrar as bandas dos anos 40 e 50, tipo Andrew Sisters. Não sei se por necessidade de acertar repertório com a Jacinta, ouviu-se muita Bessie Smith, o que é sempre uma coisa extraordinária.
No fim dos concertos ainda ia haver uma jam session, mas confesso que já era tão tarde que tive de recolher. Esta coisa de ser um assalariado com horário fixo arruinou-me completamente a capacidade de ficar até muito tarde sem cair numa soneira praticamente comatosa.