wolfgang tillmans + sonnabend collection + liam gillick
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Como já aqui referi, fui no fim de semana passado ao Museu de Serralves, ver três exposições, e gostei muito de todas.



A razão que me levou ao Porto foi especialmente para ver a exposição No Limiar da Visibilidade, do fotógrafo alemão Wolfgang Tillmans, de quem eu já tinha visto, há muitos anos, uma exposição imensa, em Londres, creio que na Modern Tate (nos tempos em que eu era um gajo cosmopolita e culto). A maior parte das obras expostas em Serralves são de grande formato e ilustram situações de contraste de luz e cor: o céu, as nuvens, o mar, a terra. O meu amigo Zé diz que o WT tem andado muito de avião e que se entretém a tirar fotografia pela janela (claro, ele é maldoso, e depois eu é que sou castigado, quando me partem o vidro da porta do carro).

O que mais me impressionou na exposição foi a sua montagem. Tendo sido criada site-specific, a exposição parece de facto ter um diálogo com a arquitectura do museu, com os seus espaços amplos, os seus pontos de luz, com as perspectivas de aproximação por parte dos visitantes. As obras de Tillmans parecem aproveitar as qualidades expositivas do museu, e ao mesmo tempo devolvem uma mais valia ao usufruto do espaço e da arquitectura.



Outra exposição muito boa, é a da colecção Sonnabend de arte contemporânea norte-americana e europeia, de que Serralves mostra actualmente a primeira parte, e que constitui uma oportunidade fantástica de vermos e contactarmos com obras de artistas tão fundamentais como Andy Warhol (que fica com a parte de leão, em termos do número de obras apresentadas), Roy Lichtenstein, Jasper Johns, Sol LeWitt, Donald Judd, Bruce Nauman ou Christo, entre muitos outros, nomes fundamentais de correntes artisticas como o minimalismo, a pop art ou a arte povera, que marcaram a arte na segunda metade do século XX.
Gostei muito, e fico à espera da segunda parte da mostra da colecção, que creio ter lido algures chegará a Serralves no final do ano.

Finalmente, logo no núcleo central das galerias do museu, uma instalação de Liam Gillick, Campanha, com um piano de cauda que toca automaticamente loops da Grandola, Vila Morena, sob uma cortina fina de nave negra que cai do tecto. É daquelas peças que, logo à entrada do museu, transporta o visitante para um estado de espírito mais curioso e disponível para a experiência do contacto com a arte contemporânea.

the hateful eight
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Dos filmes de Tarantino pode-se sempre dizer como Woody Allen disse do sexo, que é como a pizza: quando é bom é muito bom, mas quando é mau é bom na mesma. The Hateful Eight não será o melhor Tarantino, mas é um filme muito divertido, filmado com aquela dose de megalomania própria do realizador, escrito com sumptuosidade, e sobretudo que, como é habitual nos seus filmes, respira um conhecimento e uma paixão imensa pelo cinema.

Claro que há sempre várias maneiras de olhar para as coisas, e este regresso ao western, a um dispositivo narrativo e a actores que evocam o primeiro filme de Tarantino, Reservoir Dogs, pode ser visto como um sinal de carência criativa. Ou então podemos olhar para The Hateful Eight como mais um exercício às voltas das obsessões de sempre do realizador, da sua cinefilia compulsiva, do seu gosto irónico mas um pouco cândido sobre a agressividade confrontacional e a violência de tons gore.

Por mim, não me queixo. Três horas de diálogos divertidos, de truques e malabarismos, de uma banda sonora, como sempre, majestosa (original de Ennio Morricone), de planos e sequências de grande vistuosismo, de exercícios narrativos surpreendentes e eficazes; tudo isso, para mim, é mais do que suficiente.
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#ascoisasimportantessoolhasumavez
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"AS COISAS IMPORTANTES

As coisas importantes só olhas uma vez
mas sua imagem se repete muitas vezes dentro de ti
como um eco.

As coisas importantes que estão dentro de ti
e se repetem constantemente
já não estão presas ao que olhaste atento
mas no silêncio que tens dentro
se libertaram e tornaram incertas.

As coisas importantes no teu dentro
só já a ti pertencem
e nada do que está fora de ti as lembra agora.

As coisas importantes metes numa caixa
que com paciência vais abrindo aos poucos
para esqueceres as muralhas de outro tempo."


- Jall Sinth Hussein, POEMAS DO ÍNDICO

estação seca
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Já aqui tinha falado da edição, pela Index Ebooks, de mais um livro electrónico com textos que, a maior parte deles, fui escrevendo aqui no innersmile. Chegou hoje a encomenda que fiz com alguns exemplares do livro impresso, para guardar a evidência física, claro, mas também para oferecer a alguns amigos.

Apesar de ser um livro complicado, mesmo difícil, para mim, que o escrevi, não deixo de sentir um certo gozo em olhar para ele. Não quero ser presunçoso, nem pomposo, mas é o quarto livro que 'publico', e o terceiro editado por aqueles que são os verdadeiros responsáveis por esta aventura, os amigos da Index, o João e o Luís.

A Index tem uma página dedicada à Estação Seca, onde estão os links para se poder fazer o download do livro electrónico, ou a encomenda do livro impresso (na loja espanhola da Amazon, os portes ficam muito em conta). A página da Index fica no seguinte endereço: www.indexebooks.com/estacao-seca.html.
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em cacos
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Fui ontem ao Porto, para ver as duas exposições em Serralves. Cheguei por volta das doze e trinta, almocei, vi as exposições (acerca das quais hei-de escrever) e às quinze e trinta, quando voltei ao carro tinha o vidro da porta do passageiro partido e um pedregulho enorme em cima do assento. Claro, nesse momento começou a chover copiosamente, como aconteceu todo o percurso ate Coimbra, com um saco preto, do lixo, a fornecer fraca protecção, e uma barulheira ensurdecedora.

O mobil do crime foi roubar um telemóvel que ficou esquecido em cima do banco: um Hawei, que custa menos de cem euros. Não roubaram mais nada, nem mexeram no porta-luvas. O carro estava estacionado quase junto ao portão do museu, era para ai o terceiro ou quarto automóvel estacionado.

À hora a que cheguei a Coimbra, já não havia oficinas especializadas em vidros de viaturas, abertas, de modo que só segunda-feira é que posso começar a tratar do assunto, e tenho algum receio de andar por aí com o automóvel, por causa da chuva, e porque alguém pode querer acabar o trabalhinho que o gajo do Porto começou.

À noite, quando finalmente cheguei a casa e me preparava para tomar um duche e reconciliar-me com o mundo, o palerma do gatinho resolveu fazer das suas, o que já não acontecia há algum tempo, e deitou ao chão um vaso que estava dentro de um cache-pot de louça. A sério, já não consigo ver vidros e cacos à minha frente!


carol
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Fui a correr no dia da estreia, ver Carol, o filme que Todd Haynes fez a partir do livro O Preço do Sal, da Patricia Highsmith (que li o ano passado). Apesar de algumas alterações narrativas, Haynes manteve-se muito fiel, sobretudo ao espírito do livro de Highsmith, que é fundamentalmente um exercício sobre o poder avassalador de uma enorme paixão, para mais quando é vivido na margem daquilo que é admitido socialmente.

Como já me tinha acontecido em relação ao livro, a miha simpatia nesta história vai toda para a personagem de Therese, que é não apenas a protagonista, mas o verdadeiro motor da história: é o dela o conflito que sustenta toda a história; é ela que que vai oferecer o seu frágil e formoso pescoço de gazela à fria e predadora Carol; é Carol que é o seu objecto do desejo; e é ela que, no fim, decide, contra a sua própria perturbação, que a história deve ter um final feliz.

Todd Haynes filma esta história com o apuro formal, entre o esfumado e o saturado, que é imagem de marca da maior parte dos seus filmes, em especial de Far From Heaven, sendo justo por isso destacar a fabulosa fotografia de Edward Lachman, responsável pela cinematografia de ambos os filmes. A banda sonora é um tratado, quer o score original quer a escolha dos temas. Mas claro que o cast é um dos grandes trunfos deste filme maravilhoso, com a Rooney Mara e a Cate Blanchett a darem vida e alma às personagens, mas mais do que isso, a marcarem este filme com uma beleza, um sortilégio e um fascínio verdadeiramente extraordinários.

A Patricia Highsmith é uma imensa escritora, mas isso apenas não deve explicar o facto de todas as adpatações para cinema das suas obras serem muito boas (apesar de ela achar o contrário), logo desde o seu primeiro livro, Strangers On A Train, que foi adaptado por Alfred Hitchcock, passando pelas novelas de Ripley, duas do Talented Mr. Ripley, dirigidas por René Clement e por Anthony Minghella, ou o Amigo Americano, de Wim Wenders, ou ainda pela adaptação de The Cry Of The Owl, por Claude Chabrol, que eu não conheço, entre muitas outras. E às quais se vem juntar agora esta obra-prima que é o filme de Todd Haynes.

quando a noite cai
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Num final de tarde de julho de 1996, um casal dirige-se a uma praia deserta para dar mais condimento ao seu affair extra-matrimonial. Para a coisa ser ainda mais picante, montam uma câmara de vídeo, apontada ao mar, e acabam por filmar inadvertidamente, como segundo plano das suas tórridas aventuras, a explosão de um Boeing 747.

Situando a acção cinco anos depois, no verão fatídico de 2001, Nelson DeMille põe, em Quando A Noite Cai, o ex-detective da polícia John Corey a investigar a teoria da conspiração que rodeia um dos mais conhecidos acidentes aéreos, a explosão do voo 800 da TWA, em frente à costa de Long Island, poucos minutos depois de ter levantado voo do aeroporto JFK, nesse final de tarde de julho.

Já tinha lido um livro, o primeiro, A Ilha do Medo, da série consagrada a este herói. São livros envolventes e divertidos, com uma escrita muito corrida, bons diálogos, capítulos curtos, enfim, the works. Infelizmente, e depois de um arranque intrigante, o livro perde um pouco o fôlego, que volta a ganhar para as cem páginas finais, alucinantes, que se lêem em modo compulsivo. O final, sendo previsível e até inevitável, não deixa mesmo assim de provocar um arrepio no leitor.

ainda 'o direito ao adeus'
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Sigam o link: medium.com/@educaxa/o-direito-ao-adeus. O Edu decidiu acrescentar mais um elo à amorosa corrente e ofereceu-nos também a sua perspectiva sobre o amor verdadeiro, a acrescentar à do Mark, de que aqui falei ontem.

O Eduardo escreve muito bem, e este texto cheio de citações não será o melhor exemplo, apesar de conter várias das qualidades da sua escrita. Mas é bem demonstrativa de como o Edu escreve sempre literatura, mesmo quando o faz de forma leve e, digamos, circunstancial. Aqui, como noutros textos dele, há sempre um nível que paira fora, e acima, da mensagem, daquilo que se quer transmitir. São as palavras, que valem por si, que nos envolvem e transportam. Lemos, não apenas para saber o que o Edu quer dizer, mas porque a música das palavras nos prende e fascina.

'o direito ao adeus'
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O meu amigo Mark escreveu um texto belíssimo, publicado no seu blog As Aventuras de Mark. Podia transcrever para aqui o texto integral, mas fica só o link, para ele poder ser lido onde deve ser lido, no blog do Mark: asaventurasdemark.blogspot.pt/2016/02/o-direito-ao-adeus_34.

O texto intitula-se, um pouco misteriosamente, ‘O direito ao adeus’. Parece-me que o Mark pode estar a querer dizer qualquer coisa, de forma mais ou menos codificada, qualquer coisa que só ele sabe inteiramente do que se trata, eventualmente até uma espécie de recado para alguém.

Mas como eu não tenho intimidade com o Mark, não sei de que é que ele está a falar. O que é quase sempre uma vantagem, porque assim pude ler o seu texto de maneira muito literal, a valer pelo que lá está escrito, e não pelo que as palavras escondem ou dissimulam. Ou omitem.

E concordo com tudo o que o Mark diz, mesmo com aquilo que ele diz sem o dizer. Concordo quando ele escreve que o amor é unilateral, não precisa de reciprocidade. Acho poderosa esta frase: “Gosta de mimos, mas sobrevive à sua falta”. É verdade, sim, o amor sobrevive à falta de gratificação ou de recompensa.

E concordo quando ele escreve que o amor não cessa. O amor não é só infinito enquanto dura, como dizia o poeta. Se pode findar, como diz o Mark, é porque não foi amor. Mesmo quando falamos do ‘amor romântico’. Aquelas pessoas a quem amámos verdadeiramente nunca desaparecem verdadeiramente, mesmo quando já passou muito tempo desde que estivemos com elas. Aqueles que eu amei, permanecem sempre, como se tivesse sido ontem que viraram a esquina e eu deixei de os ver.

Aqueles que amámos verdadeiramente podem ter feito uma espécie de fade out nas nossas vidas. Mas o amor que sentimos por eles permanece sempre, como um farol na noite escura, uma estrela perdida na distância, mas ainda a pulsar na imensidão da galáxia.

spotlight
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O aspecto verdadeiramente interessante de Spotlight, realizado por Thomas McCarthy, é o facto de se focar exclusivamente no trabalho de reportagem de um grupo de jornalistas pertencentes a uma unidade especial do jornal norte-americano Boston Globe que se dedica ao jornalismo de investigação. Claro, a matéria a que se dedicam é sensível: a teia de pedofilia que grassa por entre os padres católicos, com o conhecimento, e até a conivência, da hierarquia máxima da igreja.

O filme não cede à facilidade de representar padres e vítimas, cuja participação no filme é rara e reduzida ao mínimo necessário para justificar o trabalho dos repórteres (a cena em que a jornalista consegue falar com um dos padres envolvidos é das mais intensas e perturbadoras do filme). A narrativa do filme concentra-se no próprio trabalho de investigação, e na gestão das ondas de choque que a preparação da reportagem vai gerando entre os círculos mais ligados à poderosa igreja de Boston.

Ajuda muito à eficácia do filme um elenco de grupo magnífico: Mark Ruffalo (no papel de um jornalista de origem portuguesa, hélas), o magnífico Michael Keaton, Rachel McAdams, Liev Schreiber, Brian DÁrcy James, John Slattery (o Roger Sterling da série Mad Man) e Stanley Tucci, entre outros.

O filme passa-se em 2001, a publicação das reportagens foi adiada por causa do 11 de setembro para janeiro de 2002; mas parece passar-se numa época totalmente diferente, sem o predomínio da internet e dos telefones móveis, onde o papel e os arquivos físicos, juntamente com os protagonistas, ainda eram o principal instrumento de trabalho dos jornalistas. Não sei se tem só a ver com isso, mas o filme transmite uma sensação de seriedade e compromisso que, pelo menos na imprensa portuguesa, parece totalmente desaparecida. E no entanto, basta recuar estas menos de duas dezenas de anos, para nos lembrarmos de que também em Portugal havia jornais e jornalistas sérios, que estavam ao interesse da verdade e do público, e não dos grupos económicos e políticos que, hoje em dia, garantem a sua subsistência.
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menina
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Uma menina, inspirada n’As Meninas, de Vélazquez. Recordação de um fim de semana em Madrid, poucos dias antes do natal de 2010. Logo às primeiras horas, pouco depois da chegada, na Calle Mayor, perto do mercado de San Miguel, entrei numa lojinha de recuerdos e guardei-a logo. Do outro lado da rua, ficava o Instituto Italiano, que anunciava uma exposição dedicada a Pasolini. No dia seguinte, fui ver As Meninas, ao Museu do Prado.

(Madrid, dezembro 2010)

pequenas criaturas
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Trinta contos, mais ou menos breves, a comprovar a excelência da prosa do autor. As aberturas são sempre fulgurantes (os desenlaces um pouco mais frágeis), a narrativa firme, segura e desenvolta, e Rubem Fonseca é mestre a escrever diálogos.

Os contos são pequenos exercícios sobre a natureza humana, suas pequenas grandezas e suas enormes misérias. Em alguns dos contos o enredo é pouco mais do que um pretexto para a escrita, mas, como grande escritor que é, Rubem Fonseca nunca é anedótico ou caricatural. As personagens, mesmo quando apenas entrevistas de perfil, sempre apresentam, ou deixam adivinhar, densidade psicológica.
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heart of a dog
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Finalmente vi o filme de Laurie Anderson, Heart of A Dog, na sessão desta semana do cineclube. Adorei o filme, apetecia-me trazê-lo para casa, como se fosse um livro, para o poder reler, para sublinhar passagens, para explorar as suas imensas pistas e direcções.

A propósito da morte da cadela Lolabelle, Laurie Anderson vai desenhando um mapa das suas perdas pessoais: o marido, Lou Reed, ainda que de forma muito subtil, a mãe, amigos, como Gordon Matta-Clark (um artista plástico norte-americano, falecido em 1978, e que eu apenas descobri recentemente, graças ao Tumblr). Esse mapa serve para a artista fazer uma reflexão sobre a morte e sobre a sua relação com a morte, e é feito de imagens manipuladas, em video e fotografia, de muita música, e de palavras, de histórias de Laurie Anderson, de recordações de infância, de experiências, de referências e citações.

O filme tem passagens muito intensas e poderosas, umas que nos perturbam ou comovem, outras que nos obrigam a pensar fora da nossa box mental, passagens que nos falam quase directamente, que apelam às nossas próprias experiências e às nossas histórias. Uma das razões por que eu gosto tanto da Laurie Anderson, é porque ela é ao mesmo tempo muito racional e muito emocional, é uma intelectual, no verdadeiro e mais puro sentido da palavra.

Quando se tem uma relação antiga com o trabalho de um artista, é inevitável comerçarmos a sentir uma espécie de intimidade, ou apropriação, desse trabalho. Já aqui pus, creio que mais do que uma vez, um clip que fiz com imagens captadas por telemóvel, em Mira, de um céu varrido por nuvens, e com o tema Flow, que encerra o disco Homeland. No filme, há várias imagens do céu e das nuvens a passar, que não são muito diferentes das que eu fiz. Já perto do final do filme, há uma cena de uma floresta gelada, e ouvem-se os acordes de Flow. Se escrevo isto aqui é apenas para registar o gozo que me deu perceber que a minha percepção do trabalho da artista é de certo modo (um modo muito pessoal, muito ‘meu’) validado pela maneira como Laurie Anderson convoca o seu próprio trabalho. Já quando assisti ao concerto na Casa da Música, em junho de 2011 se não estou em erro, a Laurie Anderson escolheu este tema para um encore único e inesperado da sua actuação.


quartos alugados
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Nove contos admiráveis, com uma escrita irrepreensível, em que cada página tem uma beleza quase arquitectónica, geométrica. Os temas habitam aquela zona difusa e subtil que surge entre o absurdo do realismo e o rigor fáctico, quase científico, da fantasia.

anomalisa
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Fui no fim de semana ver Anomalisa, um filme de animação realizado por Charles Kaufman e por Duke Johnson. Trata-se claramente de um projecto de Kaufman, que escreveu o argumento, e que se insere naquela cena um pouco paranóica que é a sua marca autoral. O recurso à animação (stop motion) permite a Kaufman criar um cenário em que todas as pessoas têm o mesmo rosto e a mesma voz, com o actor Tom Noonan a dar voz a todas as personagens, com excepção dos protagonistas, Michael (voz de David Thewlis) e Lisa (voz de Jennifer Jason Leigh).

O filme é um prodígio de técnica e narrativa, se bem que, na minha opinião, lucrasse se fosse uns quinze ou vinte minutos mais curto. Mas a envolvência que cria, a eficácia do abismo emocional de Michael, o carácter hipnótico dos diálogos, tudo isso faz com que consigamos quase esquecer que estamos a ver um filme de animação, aceitando o jogo do psico-drama, dos mind games, com a mesma dose de fascínio e perturbação que nos habituámos a experimentar no cinema de Kaufman, de quem Anomalisa é o segundo filme. Não vi o anterior, Synecdoche, NY, que não tenho ideia de ter sido exibido por cá, mas, claro, tenho muito presentes os filmes para os quais escreveu argumentos inesquecíveis, como Being John Malkovich?, Adaptation ou Eternal Sunshine of The Spotless Mind.
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presidenciais
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Ontem de manhã fui nadar. Eram oito e quarenta e cinco estava na água. Nadei non-stop até às nove e vinte e cinco. Depois atravessei a rua que fica entre o edifício da piscina e a escola secundária, e fui votar. E foi neste percurso que decidi em quem votar. Tinha pensado fazer uns bigodes ao Tino de Rans, mas achei que com dez candidatos deveria votar em algum, pelo menos num dos cinco em que à partida eu admitiria poder votar. Pensei que teria vergonha em dizer que tinha votado no Tino de Rans ou no Bloco de Esquerda. De todos, aquele em que tinha menos vergonha de votar era no candidato do PC; não no padre, note-se, que teve um resultado à (diminuta) altura da péssima escolha do partido (imperdoável no partido com o maior e melhor número de quadros), mas no próprio partido. E foi assim. À noite, constatei que ganhou quem devia ter ganho, perdeu quem devia ter perdido (incluindo o candidato em quem votei), e o melhor desta eleição presidencial é mesmo que finalmente parece que nos vamos livrar do Cavaco de vez!

Marcelo passou uma vida inteira à espera de uma oportunidade deste género (falhou a de primeiro-ministro), geriu-a sempre (ou melhor: desde sempre) com frieza e inteligência, sem nunca denunciar demasiada vontade de ir ao pote, sem alinhar em dramatismos, e sem nunca ceder à demagogia de se achar providencial. Estava convencido de que era um dos portugueses mais bem preparados para o cargo, sendo por isso que se candidatou; e provavelmente tem razão.Não sei, é claro, se vai ser um bom presidente da república, mas tem condições e personalidade para isso; se souber controlar os seus defeitos, em particular uma certa compulsão para a intriga e o jogo de bastidores.

Irrita-me um bocado aquela coisa de que o “voto é secreto”. O voto pode ser secreto, mas não tem de ser segredo, e sobretudo não precisa de ser clandestino. O carácter secreto do voto serve para defender quem vota: é secreto no momento em que eu estou na cabine de voto, e só eu sei em quem estou a votar, completamente livre de pressões ou ameaças. É secreto porque eu não tenho de revelar a ninguém em quem votei, nomeadamente se temo poder vir a ser alvo de represálias por ter votado em quem votei. É só por isto que o voto é secreto.
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ettore scola, una gionata particolare
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Faleceu, no início desta semana, o realizador Ettore Scola, um dos mais distintos cineastas italianos. Apesar de recentemente não ser muito falado, Scola nunca deixou de fazer cinema e ali entre os anos 60 e os anos 80 realizou uma mão cheia de filmes muito populares. Alguns nunca vi, como Tão Amigos Que Nós Éramos ou Terraço. Mas vi três filmes verdadeiramente extraordinários, e inesquecíveis: Feios, Porcos e Maus, O Baile, e sobretudo Um Dia Inesquecível.

Encontrei nos arquivos do livejournal dois pequenos textos que escrevi sobre Una Giornata Particolare, a propósito da sua retransmissão na TV, em outubro de 2002. Apenas acrescentar, para contexto, que o filme passa-se no dia em que Hitler chega a Roma, em maio de 1938, para fazer uma visita a Mussolini. Num prédio de habitação popular, toda a gente sai para assistir ao histórico encontro, menos uma dona de casa mãe de seis filhos, cansada mas voluptuosa, e um radialista duplamente acossado, por ser homossexual e anti-fascista.

No dia 8 de outubro:
“(...) logo à noite, na rtp2, vai passar Una Giornata Particolare, que é o melhor filme do Ettore Scola (porque é que os filmes dele deixaram de passar cá na merdaleja?), o melhor filme do Marcello Mastroianni (e não me estou a esquecer do La Dolce Vita) e, apesar de esta não ser muito difícil, o melhor filme da Sophia Loren. Um filme 'pequeno', intímo e intimista, nada pretencioso, mas verdadeiramente admirável, sobre um acontecimento verdadeiramente "particolare": duas pessoas que não podiam estar mais longe uma da outra, encontram-se (no sentido físico, mas também no sentido espiritual do termo) num dia que a história se faz para lá da janela do apartamento que partilham.
Uma obra-prima, que estará hoje à distância do botão "rec" do telecomando.”

E no dia 9:
“Uma das inúmeras razões que tornam o filme Una Giornata Particolare verdadeiramente admirável, tem a ver com as diversas dualidades que o filme vai estabelecendo. Há sempre dois planos que se estão a desenrolar simultâneamente e que se vão encontrando, cruzando e afastando. Inscrevendo a matriz fundamental do filme, o seu p(l)ano de fundo, está a dualidade entre o que se vai passando lá fora, na parada militar a que assistem Mussolinni e o seu convidado Hitler, e que vamos acompanhando pare passu através da reportagem radiofónico (outra dualidade: Gabriele acaba de ser despedido da estação de rádio), e o que se passa cá dentro, entre os dois protagonistas (outra dualidade: no filme há dois encontros, um lá fora e outro cá dentro). A visita de Hitler a Itália teve início a 6 de Maio de 1938, quando a ascenção do nazi-fascismo era ainda uma dupla promessa: um apregoado horizonte de glória para a Europa (o império nazi era um programa para durar 1000 anos), e um encontro marcado com o terror e a ignomínia absoluta. E o filme (ajudado, é certo, pela história) nunca nos deixa esquecer que estamos à beira do abismo.
[Antonietta e Gabriele, eles próprios, são personagens dúplices ao longo da narrativa, tal como são sempre dúplices as posições de um em relação ao outro (dir-se-ia que o único momento em que se encontram será aquele em que fazem amor, mas esse não nos é mostrado)].”


frangipani (balada)
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Trazes a flor do frangipani.

Era um terreiro amplo, de terra batida, limpo de tão varrido. Pequenas pedras caiadas de branco desenhavam canteiros em forma de circulo, dentro dos quais cresciam as árvores de tronco hesitante do frangipani. Todos os dias chovia, quase sempre à mesma hora. Tudo era imenso, a paisagem, a terra, as distâncias.
Estávamos no terreiro, junto aos frangipanis, e parecia-nos que o mar ficava tão longe. Mas se as distâncias eram grandes, e os caminhos lentos e difíceis, o tempo também era imenso, e escorria devagar pela superfície branca e metalizada de um velho volkswagen, de matrícula LM-10-30.
Saíamos de madrugada, ainda noite cerrada, os cestos de verga enfiados da bagageira funda e estreita que ficava entre o banco corrido e o óculo traseiro. Era a hora dos sons, dos insectos ruidosos, de um rugido fantasmagórico, ouvido na distância.
Passávamos o dia na praia, à sombra das casuarinas. Eu não tinha vergonha, nesse tempo. Só tu me aliviavas de um permanente sentimento de estranheza, de não pertença às brincadeiras que os bandos de miúdos armavam no areal extenso.
Ou entrar no mar, de óculos e barbatanas, e ficar a flutuar à superfície da água, admirando, maravilhado, a vida feérica e colorida do banco de coral, até a pele dos dedos ficar enrugada e os lábios trementes de frio. Secar-me, embrulhado na toalha, ao pé de ti.
Regressávamos tarde, saíamos já de noite, e quando chegávamos de novo ao terreiro imenso do quintal, com as suas árvores cobertas de flores, era quase outra vez madrugada, eu a dormir, estendido no assento corrido do volkswagen.

Agora, enquanto espero, pacientemente, o fim da noite, trazes, todos os dias, a flor do frangipani.
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21 de janeiro
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Hoje é o dia de aniversário da minha mãe. O ano passado ainda estávamos juntos, apesar de ela já estar bastante mal. Hoje, pela primeira vez, experimento esta sensação um pouco estranha de não haver razões para comemorar uma data tão importante para mim, porque tudo já se passa na memória. É certamente um dia para a recordar, mas nisso, este dia não é diferente de todos os outros.

Muitas vezes limitava-me a por aqui um poema neste dia, para assinalar, ainda que só para mim, a data. Nestes últimos anos, falava sobre o assunto, porque tinha a percepção clara de que cada dia de aniversário podia ser o último.

Um destes dias lembrei-me de que, com a falta da minha mãe, tenho aos poucos estado a perder uma certa capacidade para fazer palermices. Adorava dizer poemas para a minha mãe ouvir, cantar canções, fazer macacadas. Claro, era a única pessoa que estava disposta a ouvir-me dizer poemas. E ainda por cima gostava.

Desde ontem de madrugada que estou com febre, suponho que seja gripe, ou uma virose qualquer. Até nisso. Em vez de ir trabalhar, e distrair-me, fico aqui em casa a ler, a dormitar, a esperar que a temperatura aumente, e depois a esperar que baixe. A pensar na minha mãe, ou melhor a tentar perceber melhor o absurdo que é vivermos sem aqueles que mais amamos, sem aqueles que nos amavam de maneira tão incondicional e absoluta.

the lord won't mind
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Lembro-me dos livros de Gordon Merrick nas prateleiras da Gay’s The Word e de outras livrarias londrinas, sobretudo por causa das suas capas sugestivas. Por mera casualidade, ou possivelmente porque haveria outras alternativas mais chamativas, nunca tinha lido nenhum livro dele, até a oportunidade surgir finalmente.

É interessante que Merrick não faça parte do canone actual dos autores de literatura gay, nem mesmo dos que são hoje os géneros mais populares e fáceis, como os livros de aventuras românticas dedicadas aos leitores masculinos, quando, pelo menos nos anos 90, era ainda um escritor bastante popular.
De certo modo, a avaliar por este The Lord Won’t Mind, percebe-se esse desinteresse dos leitores gay por este autor. Um excesso de romantismo que terá pouco a ver com as experiências e as vivências dos gays de hoje, um erotismo que consagra um culto de beleza e de virilidade nos quais, de igual modo, a maioria dos gays de hoje não se reverá.

E no entanto há razões para prestar atenção a este livro que foi escrito em 1970, mas que se passa muito tempo antes, na década de quarenta, nos anos imediatamente anteriores à entrada dos EUA na II Guerra Mundial. É interessante, por exemplo, que este livro tenha sido um best-seller, passando várias semanas las listas dos livros mais vendidos, quando é um livro especificamente gay, que pretende valorizar a homossexualidade como um lugar de realização pessoal e amorosa, recusando as ideias de depravação ou degradação; recorde-se que o livro foi publicado em 1970, os motins de Stonewall tinham ocorrido em junho de 1969!

E se de certa forma o opróbrio social está ausente da trama do livro, a sua essencia repousa precisamente nas questões de auto-rejeição, de recusa e vergonha de assumir uma orientação que era objecto de um forte estigma, quer no âmbito individual quer no familiar. Charles, que é também o narrador da história, ainda que na terceira pessoa do singular, é a personagem com quem o leitor se identifica, com todas as suas dúvidas e recusas, que cede ao apelo da sua natureza sexual mas recusa que ela marque as suas vidas pessoal, familiar, amorosa e até profissional. Peter ao invés, é apresentado como uma espécie de ‘bom selvagem’, puro e inocente, que não tem consciência de que é homossexual até ao dia em que conhece o amor por outro homem, aceitando sem quaisquer restrições ou problemas, a sua condição.

Para além disto tudo, estamos aqui perante aquilo que é, essencialmente, literatura light, de diversão, aquilo a que se chamava pulp fiction, e é inegável que a escrita de Gordon Merrick mantém esse potencial de entretenimento.

brooklyn
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Brooklyn é, talvez, o meu romance favorito do Colm Tóibìn, ou pelo menos, de entre todos os que li, aquele em que me pareceu que o escritor atingia o pico da sua escrita depurada e fluída, bem como da sua capacidade de falar de emoções e sentimentos de forma subtil e verdadeira. Dado que o romance não tem um enredo muito rico em peripécias, não me passou pela cabeça a possibilidade da sua adpatação ao cinema, e quando vi anunciado o filme, até pensei em não o ir ver, temendo que fosse um aproveitamento romantico e melado desta história de uma rapariga que imigra para os EUA, apaixona-se, e num regresso forçado e temporário à Irlanda fica dividida entre os desejos de ficar e de voltar.

Foi um artigo de jornal que reproduzia declarações de Tóibìn favoráveis ao filme que me convenceu a ir vê-lo. Isto apesar de o autor afirmar que a sua relação com o filme apenas existia porque ele tinha sido o tipo que escreveu o livro! E, de facto, o argumento do filme ficou a cargo do Nick Hornby, em outro escritor de quem gosto, apesar de, tanto quanto me lembro, só ter lido um livro dele (Um Grande Salto).

E Brooklyn, o filme de John Crowley, é notável, tão bom como o romance. Guarda, do livro de Tóibìn, a subtileza e a intensidade; é um filme triste, mas de uma tristeza mansa, aquela que a vida nos reserva, não nos grandes momentos dramáticos, mas nas escolhas que somos obrigados a fazer no dia a dia, as que nos afastam das pessoas que amamos quando nos aproximamos de outras pessoas que amamos. A tristeza que marca a resiliência com que confrontamos os desgostos que a vida nos dá, as saudades de casa. Mas também a alegria que sentimos com as pequenas coisas, as nossas vitórias intimas, as pequenas conquistas que, aparentemente sem grande importância ou impacto, nos fazem ficar mais satisfeitos connosco próprios.

Contribui muito para a felicidade do filme o trabalho extraordinário de Saoirse Ronan, cujo rosto consegue, com um mínimo de recursos, transmitir todo o conflito interior da personagem. Ao seu lado, um outro actor espantoso, Emory Cohen, acerca de quem, parece-me, iremos ouvir falar muito no futuro.
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leiteira
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Deve ser dos objectos mais antigos, que guardei da casa dos meus pais. Uma leiteira, a única peça que resta de um serviço de chá, em faiança creio que japonesa, e que, se não estou em erro, foi uma prenda de casamento. Recordo-me de que quando viemos de Moçambique, ainda restavam talvez umas três ou quatro peças; agora sobra esta. Quando começámos a desmontar a casa, foi a minha prima que a guardou e, entregou-ma agora, por ocasião do Natal. Está na cristaleira da sala.

A foto está fraquita, mas foi tirada à noite, e nem sequer abri a porta da cristaleira, não fosse o gato ter ideias.

(Lourenço Marques, 1954?)
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songs from the north
rosas
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Songs From The North, da sul-coreana Soon-Mi Yoo, na sessão desta semana do cineclube. A realizadora fez filmagens, por vezes em condições precárias e mesmo clandestinas, em três visitas à Coreia do Norte, que montou com excertos de filmagens de espectáculos, de documentários de propaganda, de filmes de ficção de cariz patriótico, e de documentários históricos. Completa o filme uma entrevista que a realizadora fez ao seu próprio pai, questionando-o sobre a maneira como ele e os seus amigos viveram o relacionamento com os irmãos do norte.

O resultado é um olhar intenso e carinhoso para o país de Kim Il Sung, tentando ver para além quer da propaganda quer dos olhares derisórios exteriores, procurando decifrar não tanto o absurdo do regime mas sobretudo o enigma que se encerra nas pessoas comuns, no povo anónimo que cruza as ruas e as praças geladas das cidades, ou as paisagens ora bucólicas ora inóspitas.

Soon-Mi Yoo vai interpondo vinhetas de texto que, por um lado, explicam e contextualizam o próprio filme e certas imagens, e por outro, fazem comentários de cariz mais ou menos poético, à realidade da Coreia do Norte e às suas próprias experiências no país e com os seus habitantes. Numa dessas vinhetas, a realizadora indaga-se (e cito de memória) sobre os efeitos nas pessoas do facto de o país não ter história, não ter memória histórica, mas apenas mitos que vão sendo construídos, alterados ou reforçados à medida das conveniências do regime e dos seus ditadores.

Noutra vinheta, Soon-Mi Yoo, filmando uma praça coberta de gelo atravessada por transeuntes, pergunta-se se as pessoas ainda tomam sentido nas vozes e nas palavras de propaganda que são continuamente despejadas através dos altifalantes públicos, ou se apenas ouvem os seus próprios passos a pisar o chão gelado.

Songs From The North acaba por ser um filme perturbador. Não tanto, ou não apenas, pela bizarria maníaca do regime político, mas sobretudo porque nos faz abandonar o conforto da distância, obrigando-nos a olhar com perplexidade comovente aqueles nossos irmãos de espécie e a procurar dentro de nós as raízes do mistério do que significa ser humano naquelas condições.

Só uma nota para dizer que Songs From The North tem co-produção portuguesa, da Rosa Filmes. E, já agora, que esta semana vi três filmes em três dias seguidos, algo que já não acontecia há muitos anos.
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mia madre
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Consegui finalmente ver Mia Madre, o mais recente filme de Nanni Moretti. É inevitável pensar em La Stanza Del Figlio e até em Caos Calmo, um filme de que Moretti foi argumentista e actor. Todos estes filmes lidam com o tema do luto, com a devastação emocional, quer individual quer familiar, que representa a morte de alguém que faz parte do nosso círculo mais íntimo.

Moretti tem uma maneira muito particular, e muito eficaz, de se aproximar do melodrama. Tal como acontecia com O Quarto do Filho, há uma enorme subtileza no modo como aborda os sentimentos, nunca os mostrando ou nomeando, mas criando momentos ou espaços de silêncio nos quais as personagens, e nós com elas, se confrontam na sua própria solidão e desamparo.

Como Mia Madre também é um filme de comédia, um dos gags recorrentes tem a protagonista, Margherita, uma realizadora de cinema a rodar um filme de intervenção social e política, a dar aos seus actores a seguinte orientação: ela quer que eles sejam o personagem mas que ao mesmo tempo estejam, enquanto pessoas, ao lado da personagem, fora dela. Trata-se de uma instrução que os actores têm dificuldade em compreender, quanto mais executar, mas que é o que acontece no filme com espantosa eficácia: o filme é o que a câmara mostra, é o que está ali, mas é sobretudo o que está ao lado, o que está fora, a vida, o tumulto interior das personagens que apenas assoma nos pequenos gestos, nos olhares, no desânimo que de súbito tira ritmo aos passos quando caminhamos, nos breves momentos em que a tensão não pode mais ser contida e explode em breves mas devastadoras erupções.

Se O Quarto do Filho abordava o luto propriamente dito, o efeito irreparável de uma morte brutal e inesperada, Mia Madre centra-se nessa espécie de luto antecipado com que se vive uma morte anunciada: sabemos que vai acontecer, inevitavelmente, mas também em vão, tentamos preparar-nos para o pior que nos espera, tentamos lidar com a insuportável iminência da falta que nos vai fazer não apenas a pessoa de quem nos despedimos, mas também o amor que nos liga a ela. Aos poucos, a nossa vida passa a ser vivida quase inteiramente sob o plúmbeo céu da compaixão, do desânimo, da tristeza, da preocupação. As coisas do dia a dia, os pequenos incidentes e contrariedades, os caprichos dos outros, tudo isso se torna abrasivo. A dor imensa começa a esconder-se debaixo de uma espécie de conformismo bovino, animal; uma coisa sem nome e sem tacto. Uma mancha.

né ladeiras, quarentuna
rosas
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Logo ao início de janeiro, o concerto do ano! Foi na sexta-feira, dia 8, no auditório do conservatório de Coimbra, um concerto gratuíto, cortesia da junta de freguesia de Santo António dos Olivais (a minha freguesia, já agora). Na segunda parte actuou a Quarentuna que, como o nome indica, é uma tuna de quarentões, cujo repertório tenta recuperar a música popular de Coimbra de raízes históricas, ensaiando alguns cruzamentos e referências de outras músicas, em paerticular da clássica.

Mas o que tornou esta noite verdadeiramente memorável foi o regresso de Né Ladeiras aos palcos, depois de alguns anos de ausência. Acompanhada de um conjunto de músicos professores da Academia de Música de Coimbra (fixei, entre outros, o nome de João Vila) Né apresentou apenas cinco canções, já conhecidas do seu rerpertório: dois temas de Fausto (Ao Longo de Um Claro Rio de Água Doce e Lembra-me Um Sonho Lindo), um tradicional de Trás-os-Montes, a Balada da Fiandeira, de Rui Veloso, e, mesmo a meio da apresentação, Argila de Luz, da Banda do Casaco, que Né cantou acompanhando-se à viola. Só este momento teria valido por um ano inteiro de canções.

Foi fantástico. A Né é uma cantora absolutamente extraordinária, possivelmente a voz mais bonita e mais bem dominada da canção popular portuguesa, e que permanece intacta, como sempre a conhecemos. Mas a Né é mais do que uma cantora, é uma música, pluri-instrumentista, e tem uma presença em palco cativante. Foi uma emoção enorme, ouvi-la e saber que estávamos a participar num momento único, especial.
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joy
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Fui este fim de semana ver Joy, realizado por David O’Russell, que se baseia na história verdadeira de uma dona de casa que inventa a esfregona que se torce a si mesma, e que a partir daí se tornou numa empresária no mundo do comércio das tele-vendas. Como quase sempre acontece, O’Russell aproveita estas histórias de personagens menores para fazer filmes sobre a América. Aqui a tese parece um bocadinho forçada, e as cores da história têm de ser relativamente puxadas, e mesmo assim de maneira nem sempre muito conseguida, para poder ganhar esse brilho de história exemplar.

Mas o realizador tem méritos garantidos, que conhecemos já de outros filmes. Um deles é o estilo, um realismo um pouco ‘scorsesiano’, uma certa vocação para a tragédia que tem qualquer coisa do sentido operático de Coppola, e uma noção de ritmo que deve alguma coisa à concisão e à eficácia narrativa dos video-clips.

Mas aquilo que David O’Russell faz melhor, pelo menos na minha opinião, é dirigir actores, que são sempre tremendamente sedutores nos seus filmes. Aqui, a jogar com um naipe de actores muito seus, O’Russell traz-nos de novo um Robert De Niro grande, um Bradley Cooper que nos levaria a qualquer sítio, o regresso de uma Diane Ladd carismática e grandiosa (como sempre), ou de uma Isabella Rossellini num registo de comédia que consegue a proeza de ser caricatural e verosímil. Mas o filme é, claro, de Jennifer Lawrence, a quem o realizador arranca interpretações fulminantes de tão intensas.
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bowie
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Acordar com a notícia da morte de David Bowie, escassos dias depois de ter lançado um novo disco e de ter comemorado mais um aniversário. Não é coisa pequena, ficarmos sem Bowie. Não há concílio de cardeais que nos valha, para substituir talvez o tipo mais influente da música pop, um tipo tão cool que sempre nos conseguiu convencer que tudo o que fazia era a sério, mesmo quando se estava mesmo a ver que era marketing para vender (mais) discos. Nada do que fez foi irrelevante, e nunca acertou ao lado, nunca teve um momento falhado, nunca tropeçou (mesmo quando a vida tropeçou nele).

Cheguei tarde a Bowie, com Ashes to Ashes e Scary Monsters e, mais tarde, com Absolute Beginners, a canção e o filme de Julien Temple. Depois, devagarinho, fui andando para trás, mais até do que a sucessiva descoberta dos discos novos. Já na idade dos downloads ilegais consegui ouvir a discografia integral, e foi uma revelação, foram muitas revelações.

Como tenho gostos musicais muito ecléticos, há uma série de nomes que são, para mim, incontornáveis, no sentido em que criam uma matriz que alicerça outros gostos, outras explorações, novas descobertas. Sem, primeiro, Lou Reed, e sem, agora, David Bowie, há um capítulo da minha experiência de ouvinte de música que fica completo. O mapa está definitivamente traçado; a responsabilidade por continuar a viajar agora é só nossa.

memorial de aires
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Mais uma vez começo o ano a ler Machado de Assis. É, creio, a quarta vez consecutiva (e o quinto livro do autor que leio). Desta vez Memorial de Aires, o seu último romance, escrito em forma de diário, mantido por um diplomata aposentado que vai anotando as peripécias sociais e românticas que se vão desenvolvendo no seu círculo de relações pessoais.

Um enredo quase mínimo, sem grandes tensões ou conflitos, mas uma narrativa magistralmente tecida, e uma escrita perfeita, ponteada de humor e ternura. Mais uma vez, como acontece em quase todos os seus livros que li, Machado de Assis consegue ser irónico e mesmo mordaz em relação às normas e convenções sociais (ainda que não tento neste como noutros romances), e ao mesmo tempo terno para com as suas personagens.

Tratando-se do último romance do autor, é um exercício impressivo sobre o envelhecimento vivido por dentro, ou seja por quem está a envelhecer. Para além do par romântico, as personagens do Memorial são velhos e velhas, uns mais doces, outros mais sofridos, uns reconciliados, outros amargos, mas todos eles tocados pela melancolia própria de quem já viveu as suas aventuras e agora se dedica a rememorá-las.

the danish girl
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Dos filmes anteriores do realizador de The Danish Girl , Tom Hooper, só vi um, The King’s Speech que, se bem me lembro, valia sobretudo pelo desempenho de Colin Firth no papel do rei George VI. Firth ganhou o oscar com o filme, que recebeu igualmente os oscars de melhor filme e melhor realizador.

O principal interesse deste mais recente filme de Hooper, pelo menos para mim, está mesmo no facto de me dar a conhecer uma história que eu de todo desconhecia: a de Lili Ebber, uma pintora dinamarquesa que nos anos 20 do século passado, fez a primeira operação de mudança de sexo. Apesar de inspirado nesta história verídica, o filme baseia-se directamente num livro publicado recentemente, que é uma biografia romanceada e que, tanto quanto li na net, toma muitas liberdades em relação à história verdadeira que o inspirou.

Percebe-se a opção ficcionada, que injecta mais possibilidade de conflito psicológico numa história já de si bastante impressiva. Mas é precisamente a este nível que o filme soçobra: os vários conflitos encenados (o de Esnar e Lilly, ou o de Lilly com Gerda) nunca são suficientemente arrebatadores, e o filme perde-se, por vezes de maneira quase soporífera, num certo formalismo um pouco maneirista.

Um dos grandes trunfos do filme é o trabalho de Eddie Redmayne (oscar para melhor actor o ano passado, com The Theory of Everything, que eu não vi), que é de facto notável. Alicia Vikander é muito convincente no papel de Gerda, e o filme conta ainda com a presença de Matthias Schoenhaerts, que é um dos meus actores favoritos.
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memorial
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"Sete dias sem uma nota, um fato, uma reflexão; posso dizer oito dias, porque também hoje não tenho que apontar aqui. Escrevo isto só para não perder longamente o costume. Não é mau este costume de escrever o que se pensa e o que se vê, e dizer isso mesmo quando não se vê nem pensa nada."

- Machado de Assis, MEMORIAL DE AIRES (no Kindle)

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